Dez consequências (boas ou ruins) que transformaram o futebol após a Lei Bosman
Jean-Marc Bosman apenas exigia os seus direitos como trabalhador. Quando o meia entrou em litígio com o Liège, em 1990, pedia a liberdade para buscar um novo empregador ao final de seu contrato, sem que ficasse a mercê do clube. Algo que parece óbvio hoje em dia, mas que não regia o futebol duas décadas atrás. A batalha do belga nos tribunais se estendeu. Passou a abarcar a questão do livre trânsito entre as nações da União Europeia. E a vitória de Bosman também foi a vitória de cada jogador profissional, livre para mandar em seus caminhos e com poder de negociação muito maior para lucrar.
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Aquela decisão de dezembro de 1995, no entanto, significa muito mais. Ela colocou o futebol de vez no contexto da globalização e livre mercado. De certa maneira, Bosman também potencializou a capacidade comercial do esporte, com uma série de consequências ocorridas desde a garantia de seus direitos. Entretanto, nem todas as partes envolvidas se beneficiaram com o impacto. E a economia além do futebol passou a ser muito mais determinante para o que acontece dentro de campo.
Vinte anos depois do sucesso de Bosman, as entidades esportivas já criaram leis regulatórias para tentar interferir nas próprias consequências, como o Fair Play Financeiro e as cotas para jogadores formados no país. No entanto, independente disso, as transformações proporcionadas por aquela decisão não têm volta. E fizeram o futebol mudar de maneira bastante acelerada em apenas duas décadas. Abaixo, listamos 10 consequências da “Lei Bosman”. Boas ou ruins, dependendo do ponto de vista, todas são bastante perceptíveis:
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Os jogadores têm controle sobre o seu próprio destino

O caso de Vasilis Hatzipanagis talvez seja o mais emblemático para explicar a situação extrema sob a qual alguns atletas estavam submetidos. O craque grego defendia o Iraklis e teve propostas de outras grandes ligas europeias – alguns valores, altíssimos para os padrões da época. Mas, contra a sua vontade, permaneceu no clube. As rebeliões do camisa 10 foram em vão, diante da recusa da diretoria em negociar seu talento. Hatzipanagis se aposentou como um craque, considerado o maior jogador da história do futebol grego, mas frustrado por não ter explodido em outro país. Sentindo-se como um escravo, especialmente ao ver a abertura que se iniciou a partir da Lei Bosman. Atualmente, a vontade de Hatzipanagis seria respeitada. Os jogadores já não precisam ficar presos, mesmo depois do término de seu contrato. E viram sua própria capacidade de lucro aumentar exponencialmente – além dos agentes, que passaram a intermediar as transações.
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As transferências sem custos se tornaram bem mais comuns
Se o talento costuma se concentrar em poucas equipes, os clubes com menor poder aquisitivo têm melhores alternativas para trazer reforços. Sem as amarras contratuais, as “transferências Bosman” se tornaram praxe no futebol internacional, diminuindo os custos das negociações – e, muitas vezes, se revertendo aos bolsos dos próprios jogadores. Em um campeonato rico como a Premier League, por exemplo, o percentual das transferências sem custos é menor: em 2015/16, foram 21,3% das contratações em definitivo. No entanto, este percentual costuma crescer conforme em ligas com menor poder de compra. Na Serie A, este número sobe para 35%. Já em Portugal, a proporção atinge 81,2%.
Os clubes passaram a contar com maior mobilidade nas contratações

Não só as ligas nacionais limitavam os números de jogadores estrangeiros, assim como a própria Liga dos Campeões ignorava o passaporte europeu. Somente três atletas nascidos fora do país podiam ser alinhados. E um dos casos mais emblemáticos aconteceu em duelo entre Barcelona e Manchester United, em 1994. Privilegiando os jogadores de linha, Alex Ferguson deixou Peter Schmeichel de fora. Pois a ausência do goleiro pesou, e foi apontada como um dos motivos para a goleada dos espanhóis por 4 a 0. Agora, os clubes com maior capacidade financeira possuem maiores possibilidades não só para escalar, como também para contratar. As possibilidades vão muito além da população local. Não à toa, se tornou comum ver clubes escalando apenas estrangeiros, como a Internazionale campeã europeia em 2010.
O dinheiro que gira ao redor do futebol cresceu
Obviamente, a Lei Bosman não explica em si a mudança de patamar o aumento gradativo nos valores que envolvem o futebol nas últimas décadas. Mas pode ser apontada como um dos fatores para que o bolo crescesse, mesmo que concentrado em alguns clubes e países. O livre mercado passou a ser, de fato, mais livre. E a valorização no preço dos atletas elevou também as receitas, as cotas e os investimentos de uma maneira geral. Um exemplo disso está no recorde de jogador mais caro do mundo. Entre 1996 e 2001, a marca foi superada oito vezes – quantidade equivalente a um intervalo bem maior antes da Lei Bosman, de 1976 a 1992. Além disso, o valor-recorde cresceu 250%, enquanto a inflação da libra naqueles cinco anos não passou de 13%. E mesmo nos salários também há essa elevação, em todo mundo. Um clube brasileiro passou a gastar mais para segurar os seus destaques, por exemplo.
O intercâmbio esportivo atingiu seu ápice
Antes de 1995, cada campeonato nacional tinha características de jogo bastante particulares. Algo que se evidenciava nos embates continentais, como um choque cultural. Contudo, a abertura das fronteiras com a Lei Bosman também permitiu uma troca de influências entre escolas e estilos. Ainda que as diferenças permaneçam perceptíveis, elas não são tão escancaradas. De certa maneira, ajudou a melhorar o nível técnico das principais ligas, não só pela contratação dos melhores, mas também pela complementação de habilidades.
As ligas menores da Europa acabaram depenadas

Até 1995, os grandes clubes de cada país serviam de base para a seleção nacional. Não à toa, o fortalecimento da Romênia veio em consequência do grande momento do Steaua Bucareste. Ou a semifinal da Bélgica na Copa do Mundo de 1986 se combinou com os sucessos continentais de clubes como o Anderlecht e o Mechelen. Contudo, a abertura das fronteiras permitiu a debandada. E, sem a mesma força financeira, o abismo aumentou consideravelmente entre as ligas dos países mais ricos e os demais. O maior exemplo vem da Holanda, que viu seus clubes deixarem de ser rivais de peso para se tornarem meros celeiros. O mesmo que ocorreu, em intensidades variáveis, com outros países da comunidade europeia.
Os países sul-americanos passaram a sofrer mais com a debandada
Só que a atratividade dos clubes mais ricos a partir da Lei Bosman não se limitou à União Europeia. E os efeitos também pesaram bastante na América do Sul. Ainda que as ligas nacionais mantivessem os seus limites para estrangeiros, as vagas antes ocupadas por europeus passaram a se abrir. Além disso, diante da possibilidade de adquirir alguma nacionalidade europeia, as quantidades aumentaram paulatinamente – como, por exemplo, a partir de brasileiros que adquiriam o passaporte português. Diante também das diferenças de câmbio, somente a economia local forte conseguiu ajudar os clubes sul-americanos a segurar seus atletas por um pouco mais de tempo.
É raríssimo ver um craque viver seu auge fora dos clubes mais ricos
Diante de todos os efeitos, é natural que os melhores jogadores do mundo se concentrem nos times de maior potencial financeiro. Esse movimento se abriu principalmente nos anos 1980, com o enriquecimento do Campeonato Italiano. Mas as limitações de estrangeiros ainda tornavam a gastança um pouco mais comedida – mesmo que jogadores de seleção optassem por defender equipes da Serie B. Atualmente, a não ser que o próprio jogador queria seguir fiel, é praticamente impossível ver um grande nome honrando a camisa de um time médio por toda a carreira. E outra consequência aparece nos esquadrões montados pelos mais poderosos.
A competitividade pelos títulos se reduziu, sobretudo na Champions

Com o dinheiro cada vez mais determinante no futebol, o escopo de times que podem chegar às glórias diminui. E isso pesa, consequentemente, na quantidade de campeões desde 1995. Na Premier League, os números caíram drasticamente. Mas talvez o efeito não seja tão notável quanto na Liga dos Campeões. Ver um Estrela Vermelha ou mesmo um Ajax surpreendendo, como aconteceu na primeira metade dos anos 1990, se tornou um milagre. De 1996 a 2015, a taça continental passou por 11 mãos diferentes, de cinco países. Nos 20 anos anteriores, foram 14 campeões distintos, de nove nacionalidades. É claro que a mudança no formato influencia, mas a migração de craques também é preponderante.
Sem planejamento, a base dos países mais ricos diminuiu as revelações
Só que a contratação desenfreada também cobra o seu preço. Alemanha e Espanha conseguem ser exemplares pela maneira como trabalham para revelar jogadores. Enquanto isso, Inglaterra e Itália preferiram ir pelo caminho mais rápido. Os clubes de ambos os países não mediram esforços nas contratações por anos, e viram isso se voltar contra a própria revelação de talentos, com menos espaço. Algo que também prejudica as seleções nacionais, com pé de obra escasso para as convocações. Enquanto isso, quem trabalha para formar jogadores colhe os frutos a nível internacional.



