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Dez anos atrás, Chelsea foi ao Lille buscar um dos seus principais líderes da última década: Eden Hazard

Os caminhos de Chelsea e Lille, adversários desta terça-feira, se cruzaram em 2012 na badalada transferência da então jovem revelação belga

Cerca de dez anos atrás, quando tudo ainda era mato, o Twitter foi a plataforma que resolveu um dos maiores mistérios do futebol europeu: para qual grande da Europa irá a promessa do Lille, o pequeno e habilidoso Eden Hazard? O garoto de 21 anos se divertiu com a situação. Afirmou, segundo a ESPN, que seria um dos clubes de Manchester ou o Chelsea, dependendo de onde teria mais tempo de jogo e em que posição atuaria. Cerca de uma semana depois, tuitou: “Boa tarde. Tomei minha decisão. Até mais tarde. Obrigado”. Deixou o suspense crescer até finalmente informar que estava assinando com o campeão da Champions League.

Havia apenas um naquele momento: o Chelsea. Como agora, aliás, quando o caminho dos Blues se cruza novamente com o do Lille – que, curiosamente, em 2012 também havia ganhado o Campeonato Francês há pouco tempo. Era um momento diferente, porém, O elenco dos famosos senadores (Petr Cech, John Terry, Frank Lampard e Didier Drogba) estava envelhecido. Drogba deixaria o clube no mesmo mercado, apesar do heroísmo da final de Munique. Nem havia um técnico permanente. Roberto Di Matteo ainda tinha status de interino. O próprio Roman Abramovich conduziu a negociação para contratar Hazard porque entendia que ele seria um pilar para a próxima década.

Hazard chegou criança ao Lille e foi subindo pelas categorias de base. Estreou em 2017, ainda com 16 anos. Na temporada seguinte, era aquele jogador que sempre saía do banco de reservas. Fez 30 rodadas da Ligue 1 e terminou eleito o melhor jovem da competição, depondo Hatem Bem Arfa. Foi o primeiro não-francês a ganhar o prêmio – haveria apenas outros dois, o marroquino Younès Belhanda e Marco Verratti. E também o primeiro homem de qualquer nacionalidade a vencê-lo duas vezes seguidas porque foi novamente condecorado em 2009/10.

Também precoce na seleção belga, pela qual estreou aos 17 anos, não foi fácil para o Lille manter os interessados afastados. Eram comuns matérias especulando o futuro de Hazard. Criado por uma família de jogadores de futebol, ele sabia que precisava calcular seu próximo passo com cuidado. “É lisonjeiro ver grandes clubes, e grandes clubes mesmo, interessados em você. Quando clubes assim chegam, você não pode pensar duas vezes, mas eu não acho que esteja pronto para um clube gigante, com tanta pressão”, afirmou, em entrevista à Sky Sports, em maio de 2009.

Em 2010/11, disputou as 38 rodadas do Campeonato Francês em que o Lille conquistou o título pela primeira vez desde 1954, 35 desde o início. E os três jogos em que não começou jogando foram deliberados, uma estratégia do técnico Rudi Garcia para dar um chacoalhão em seu mais talentoso atleta. “Foi para permitir que ele respirasse e aprendesse que seus desempenhos eram insuficientes”, disse, segundo uma reportagem da revista Four Four Two. Deu certo: antes da geladeira, Hazard havia anotado apenas um dos sete gols e nenhuma das 11 assistências com os quais contribuiu para a conquista de um time que contava com Adil Rami, Mathieu Debuchy, Yohan Cabaye, Moussa Sow, Gervinho, Idrissa Gueye e Túlio de Melo.

O tuíte que continha uma das notícias mais aguardadas do futebol europeu foi publicado em 28 de maio. A reportagem do Guardian dizia que ele custou £ 32 milhões e ganharia £ 100 mil por semana, valores considerados exorbitantes para um jogador tão jovem (naquela época), mas que eram justificados porque o Chelsea precisava afastar a concorrência dos dois times de Manchester que haviam terminado a Premier League nas duas primeiras posições, com o City miraculosamente à frente do United. O Chelsea começara a temporada com André Villas-Boas, contratado para o lugar de Carlo Ancelotti e demitido no começo de março. Di Matteo assumiu interinamente. Ele conduziu bem a campanha do primeiro título europeu e conquistou até a Copa da Inglaterra, mas seu estilo era mais apropriado para o mata-mata mesmo. Na Premier League, ficou em sexto lugar, a 25 pontos do campeão. Não demoraria muito para ser trocado por Rafa Benítez, outro temporário.

O Chelsea teve um embaixador importante para atrair Hazard. Após quase uma década de Chelsea, Joe Cole foi contratado pelo Liverpool. Não deu certo lá, e depois de apenas uma temporada foi emprestado ao Lille, justamente para a última campanha do garoto belga na França. Aproveitou para vender os méritos de uma transferência para Stamford Bridge. “Eu provavelmente coloquei £ 5 milhões na sua transferência com a quantidade de coisas que disse sobre ele. Ele tem tudo. Ele talvez se torne um dos melhores jogadores do mundo”, afirmou, segundo o Guardian.

O investimento e o envolvimento direto de Abramovich foram interpretados como um sinal de intenções do dono russo, que havia completado o primeiro ciclo de sucesso como dono do Chelsea e não parecia disposto a parar por ali. A matéria dizia que o alvo seguinte seria Hulk, com uma cláusula de € 100 milhões para rescindir seu contrato com o Porto, mas que era “mais razoável esperar que estivesse disponível por £ 30 milhões”. A ideia era montar o ataque com Hulk pela direita, Fernando Torres como centroavante, e Hazard pela esquerda ou como camisa 10. O brasileiro saiu do Porto naquele mercado, por pouco mais do que o estimado pelo Guardian, mas para o Zenit, e o ataque projetado por Abramovich nunca se concretizou.

Aquele foi um mercado importante para o Chelsea. Kevin de Bruyne também chegou. Havia sido contratado em janeiro, com permissão para terminar a temporada pelo Genk. Mas foi emprestado ao Wolfsburg, depois contratado em definitivo, e fez apenas nove jogos pelos Blues. Romelu Lukaku saiu para seu primeiro empréstimo, ao West Brom. Também seria uma oportunidade desperdiçada. Bandeiras como Michael Essien, José Bosingwa, Salomon Kalou e principalmente Didier Drogba foram dispensadas. Além de Hazard, chegaram César Azpilicueta, Victor Moses e Oscar. Thorgan Hazard acompanhou o irmão. Seria emprestado múltiplas vezes sem nunca fazer um jogo pelo time principal do Chelsea.

Fã confesso de Zinedine Zidane, Hazard havia dito à imprensa que sempre sonhou em se transferir para Arsenal e Real Madrid, “que jogam em um nível técnico muito alto”, mas que não seria nada mal também jogar por Internazionale ou Barcelona. No fim, escolheu o Chelsea porque entendeu que teria mais espaço para se desenvolver. À altura da sua apresentação, em junho de 2012, o seu salário reportado pelo Guardian havia subido para £ 150 mil por semana. “Houve uma disputa entre Chelsea e United, mas, para mim, o Chelsea tem o melhor projeto. O time é jovem e eu tenho uma chance melhor jogar aqui. Aos 21 anos, Real e Barça teriam sido mais difíceis para mim. Se eu jogar bem no Chelsea, eu posso ganhar meu lugar no time titular. Quando eles venceram a Champions League, eu pensei: ‘Por que não o Chelsea?’”, disse.

Abramovich estava certo em sua avaliação. Hazard seria a referência técnica do Chelsea por sete anos, campeão inglês com José Mourinho e Antonio Conte. Ao olhar para o fantasma que se tornou no Real Madrid, é fácil esquecer a força da natureza que ele foi na Premier League. Rápido, habilidoso, inteligente, letal. Carregou o ataque dos Blues em muitas temporadas, marcou gols importantes e bonitos, e se despediu marcando duas vezes e dando uma assistência na goleada por 4 a 1 sobre o Arsenal na final da Liga Europa, o clube que estava no topo da sua lista de prioridades quando considerava deixar o Lille. A sua carreira tomou um caminho diferente e foi brilhante. O momento atual é de baixa, tanto física, quanto técnica, quanto moral. Não à toa surgiram especulações de que poderia retornar ao Chelsea. Porque ali ele foi muito feliz.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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