Champions LeagueEspanhaInglaterra

Altos e baixos, contestações e milagres: De Gea passou por tudo pelo Manchester United antes de reencontrar o Atlético

O goleiro espanhol fará seu primeiro jogo contra o clube que o revelou nesta quarta-feira pelas oitavas de final da Champions League

“É apenas mais um jogo”. David de Gea tentou minimizar, em entrevista ao site da Uefa, o reencontro com o clube em que foi formado e que “me deu a oportunidade de ser quem eu sou”, mas obviamente o jogo desta quarta-feira no Wanda Metropolitano não será apenas um jogo. Será a primeira vez que enfrentará o Atlético de Madrid, pelo qual fez duas temporadas antes de se transferir para o Manchester United. Na Inglaterra, teve que superar desconfianças, mas retornará para casa como um dos melhores goleiros do mundo.

De Gea contou em uma entrevista ao El País, cerca de duas semanas atrás, como foi a sua experiência durante o sorteio das oitavas de final. O Manchester United foi inicialmente sorteado contra o Villarreal, o que não poderia acontecer porque ambos estavam no mesmo grupo. Em seguida, apareceu o Atlético de Madrid, mas o vice-secretário-geral da Uefa anunciou equivocadamente que ele também estaria bloqueado pelas regras. O United acabou pareado com o Paris Saint-Germain antes de o sorteio ter que ser refeito. E aí, voltou o Atlético de Madrid.

Pelas circunstâncias, parece até ter sido o destino. “É difícil explicar o que sentirei, mas naquele momento disse: ‘Não pode ser, que coincidência que fiquemos com o Atlético’. É uma sensação difícil de explicar, depois de tantos anos, voltar e jogar contra o Atlético. Uma sensação muito rara”, afirmou. De Gea jogou apenas por Atleti e Manchester United, cujo único confronto anterior foi em 1991, pela Recopa Europeia. Se esta será a primeira oportunidade de encarar seu ex-clube, ele estaria muito mais familiarizado com a situação se a transferência de 2015 para o Real Madrid tivesse sido concretizada.

De Gea estreou pelo Atlético de Madrid em 2009, antes de completar 19 anos. Fez alguns jogos na primeira metade da temporada, mas era efetivamente o terceiro goleiro, atrás de Roberto e Sergio Asenjo. Isso mudou rapidinho, e ele terminou o Campeonato Espanhol como titular. Roberto se machucou, e ele aproveitou a mudança de filosofia que acompanhou a troca do técnico Abel Resino por Quique Sánchez Flores. “Quando ele chegou, o time mudou. Ganhamos jogo após jogo, e houve um momento em que Asenjo e eu estávamos disponíveis e ele me escolheu. Eu joguei quase todos os jogos. Chegamos à final da Liga Europa e fomos campeões. Também chegamos à final da Copa do Rei. Perdemos, mas pelo menos chegamos à final. E depois vencemos a Supercopa da Uefa, contra aquele grande time da Inter”, contou, ao site da Uefa.

De Gea foi titular e disputou os 90 minutos de todas as 38 rodadas da temporada seguinte, 2010/11. Levou 53 gols e manteve a sua meta intacta em 11 partidas, com o Atlético de Madrid terminando em sétimo lugar. A qualidade do jovem goleiro não passou despercebida pelo mercado, nem por Sir Alex Ferguson, que procurava um sucessor para Edwin Van der Sar, prestes a se aposentar. “O grande jogador que precisávamos substituir era Edwin van der Sar. Apesar de muita gente presumir que Manuel Neuer seria nosso alvo (ele estava na nossa lista), nós havíamos observado David de Gea há muito tempo, desde que ele era criança. Sempre achamos que ele se tornaria um goleiro de primeira linha”, escreveu Ferguson em sua autobiografia.

Foram desembolsados € 24 milhões de euros, um investimento baixo se a avaliação de Ferguson estivesse certa e De Gea se firmasse como o goleiro do Manchester United pela próxima década e meia. Acontece que nos primeiros meses parecia bastante que a avaliação de Ferguson estava errada. De Gea sofreu para se adaptar ao novo clube e ao novo país. Cometeu erros e falhas que levaram a ansiosa imprensa inglesa a decretar o fracasso da contratação antes da metade da primeira temporada, até cobrando que o Manchester United contratasse outro goleiro em janeiro.

Em setembro, um mês depois dele chegar, Ferguson já teve que falar com a imprensa com o seguinte tom: “Há uma campanha da mídia contra De Gea. Por alguma razão, eles parecem desesperados para o garoto falhar. Essa é a impressão que eu tenho e eu não consigo entender. Ele não fala inglês, ele está procurando uma casa, ele está aprendendo a dirigir aqui. Ele veio para outro país, ele não conhece a cultura e ele tem 20 anos. Ele precisa lidar com muita coisa, mas está mostrando uma ótima compostura em relação a tudo isso”.

Em seu livro, Ferguson apresentou explicações técnicas. A juventude também significava que fisicamente De Gea não estava no nível de Van der Sar ou Schmeichel, e precisou de uma programação específica de treinamentos para ganhar massa muscular. E teve um baita azar: Nemanja Vidic e Rio Ferdinand se machucaram no começo da temporada. Além de tudo, o espanhol teria que começar sua carreira no Manchester United defendido por zagueiros jovens – e piores que Vidic e Ferdinand -, como Chris Smalling e Phil Jones. Ferguson lembra de um jogo contra o Liverpool, em outubro, em que Jonny Evans e Smalling bloquearam De Gea dentro da pequena área, e ele levou um gol em cobrança de escanteio.

O cronograma da posição é diferente. É até comum que a vida útil do goleiro seja entre o começo ou até a metade dos 20 anos até perto dos 40. Gigantes da posição, como Gianluigi Buffon e Manuel Neuer, fizeram as grandes transferências de suas carreiras mais velhos que De Gea, entre os 23 e os 25 anos. Aos 20, o garoto teve que lidar ao mesmo tempo com a mudança de cenário e com a pressão diferente de seu novo clube. O Atlético de Madrid é muito grande, mas naquela época tinha ambições menores, e o Manchester United era o principal papa-títulos da Inglaterra e havia acabado de chegar na final da Champions League em três das últimas quatro temporadas.

Era absolutamente natural que precisasse de um pouco de tempo. “À medida em que a temporada andou, no entanto, ele estava cada vez mais eficiente e auto-confiante. Algumas das suas defesas eram milagrosas. Nossos instintos sempre estiveram corretos. Ele era um dos melhores jovens goleiros do mundo e estávamos orgulhosos de tê-lo conosco, onde ele poderia se desenvolver como tantos outros”, escreveu Ferguson. “Contra o Real Madrid, no jogo de ida das oitavas de final da Champions League em fevereiro de 2013, ele fez defesas brilhantes contra Cristiano Ronaldo, Fabio Coentrão e Sami Khedira”.

A ironia é que, após duas temporadas com Ferguson, o Manchester United se transformou em um bicho completamente diferente, e de repente De Gea foi de contestado a uma das principais constantes de um time que sofria para tentar ser competitivo novamente. Não era raro, principalmente mais tarde com José Mourinho, que ele terminasse uma partida com mais de uma dezena de defesas, muitas delas maravilhosas, com o absurdo de ter feito 14 contra o Arsenal em 2017. Foi muitas vezes a diferença entre uma derrota e um empate ou um empate e uma vitória. Não por acaso, quando seu contrato estava prestes de chegar ao fim, passou a considerar suas opções.

O momento crítico foi a janela de agosto de 2015. Apesar de ter um goleiro de primeira linha em Keylor Novas, o Real Madrid estava desesperado por ter um nome mais midiático debaixo das suas traves. Um goleiro espanhol, jovem, formado pelo rival, seria uma boa escolha. Fez uma proposta de € 30 milhões mais o costarriquenho para contratar De Gea, com apenas mais um ano de contrato. Ele não começou jogando a Premier League de 2015/16 e manifestou o interesse de sair. O negócio foi fechado a pouco tempo do fim da janela e um atraso no envio das documentações impediu que ele se concretizasse. Foi uma lambança daquelas, mas no fim deu tudo certo para os envolvidos: o Real Madrid foi tricampeão europeu com Navas e encontrou seu nome midiático em Thibaut Courtois, curiosamente o substituto de De Gea no Atlético de Madrid anos atrás. E o espanhol renovou o seu contrato com os Red Devils e continua em Old Trafford até hoje, com mais um novo vínculo assinado em 2019 que vale até 2023.

Não foram apenas flores desde então. De Gea teve outros momentos complicados, especialmente na Copa do Mundo de 2018, quando foi bastante criticado pela imprensa espanhola. A insegurança transbordou para o Manchester United. Quando Dean Henderson retornou de dois bons anos emprestado ao Sheffield United, havia uma possibilidade real que brigasse com o espanhol pela titularidade. A temporada anterior do inglês havia sido melhor. De Gea foi mantido na Premier League, com Henderson disputando as Copas e o começo do mata-mata da Liga Europa. No fim da temporada, a situação se inverteu. Henderson terminou a liga, De Gea foi titular das quartas de final até a decisão contra o Villarreal.

Mas tudo se estabilizou agora. De Gea está sendo intocável na campanha do Manchester United na Premier League e na Champions League. Embora sujeito a altos e baixos, continua com suas defesas milagrosas que garantem pontos para os Red Devils, cumprindo a profecia de Alex Ferguson. E se o confronto contra o Atlético de Madrid for equilibrado como se espera, ele pode ser mais uma vez decisivo. A diferença entre a eliminação, encerrando a última chance de título do United na temporada, e a sobrevivência do sonho

Mostrar mais

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo