Champions League

A torcida do Brondby representou seu orgulho contra o Salzburg, após rumores de que o clube seria vendido à Red Bull

Menos de dois anos após a notícia de que a Red Bull poderia comprar o Brondby, sua torcida fez protestos contra a empresa antes do duelo pela Champions League

Em janeiro de 2020, uma notícia publicada pela imprensa dinamarquesa preocupou a torcida do Brondby. Segundo as informações, a Red Bull estava interessada em comprar o clube e ampliar sua área de atuação no futebol europeu. Por mais que os auriazuis atravessassem uma longa seca na liga nacional, contudo, os torcedores foram categóricos: não queriam que a história de seu time fosse ignorada para virar uma “franquia”. Alguns cartazes exibidos na época dentro do estádio eram enfáticos: “Melhor falir que a Red Bull”. A rejeição afastou o negócio e quis o destino que, menos de dois anos depois, o Brondby enfrentasse exatamente o Red Bull Salzburg por uma vaga na fase de grupos da Champions League. Bem, os dinamarqueses perderam os dois jogos, mas não foi isso que diminuiu a demonstração de orgulho da torcida em seu estádio.

As especulações sobre a vinda da Red Bull tinham seus motivos. O Brondby chegou a enfrentar sérias crises financeiras na virada da década passada, beirando a falência, até a chegada de um novo investidor em 2014. As contas se estabilizaram e o desempenho da equipe deu um salto nos últimos anos. Porém, mesmo reiterando seu compromisso, o dono do clube não descartava vender parte de suas ações para criar um fundo de reservas. Segundo a imprensa local, representantes da Red Bull chegaram a visitar as instalações dos auriazuis, para analisar as possibilidades.

Naquele momento, diferentes grupos de torcedores se manifestaram contra a chegada da Red Bull. Caso o clube se encaixasse no projeto da empresa, teria que abrir mão de seus símbolos. Em carta publicada no Copenhagen Post, um desses grupos enfatizou: “A Red Bull representa tudo o que desprezamos e tudo aquilo que lutamos para não ser. Se a Red Bull se envolver com o Brondby, não poderemos mais nos identificar como torcedores ativos do clube. Em Salzburg e Leipzig, podemos ver como o dinheiro dos austríacos transformou o futebol real em negócio puro. Eles mudaram os escudos, as cores, o nome dos estádios… Tudo! Nós nunca deixaremos que isso aconteça com nosso clube”.

Na época, o dono do Brondby colocou panos quentes no assunto e afirmou que não havia contato da Red Bull. Caso realmente existisse, era natural compreender o fim das negociações diante da rejeição. Nestes últimos 19 meses, muita coisa aconteceu: veio a pandemia, os investimentos no futebol minguaram, o clube certamente repensou suas estratégias. Entretanto, o Brondby também aproveitou a ascensão de sua equipe e encerrou o jejum de 16 anos no Campeonato Dinamarquês. Assim, o destino providenciou rapidamente o encontro com a Red Bull, em confronto com o Salzburg pela última fase preliminar da Champions.

Na primeira partida, o Red Bull Salzburg sofreu mais que o imaginado para arrancar a virada por 2 a 1 na Áustria, com o gol decisivo saindo apenas nos minutos finais. Já na Dinamarca, os Touros Vermelhos abriram dois gols de vantagem rapidamente e o Brondby só descontou no segundo tempo, com nova derrota por 2 a 1. Isso frustraria os torcedores auriazuis? Não totalmente. Ainda que não tenha sido competitivo contra os possíveis donos, o time tinha sua história e seus símbolos intactos.

Nas arquibancadas, a festa durou além dos 90 minutos. Durante a entrada em campo, sinalizadores iluminaram o estádio em meio a bandeiras amarelas e azuis. E dez minutos depois do jogo, com a eliminação consumada, a torcida do Brondby protagonizou uma belíssima cena: cantou alto e homenageou os esforços dos jogadores apesar do revés. Diante do contexto, aquele momento tinha um significado além. Uma faixa erguida pelos ultras era simbólica: diziam que a verdadeira cor do Salzburg era o violeta, em referência ao antigo Austria Salzburg, exatamente a equipe que foi comprada pela Red Bull e perdeu seus símbolos. Torcedores mais antigos do Austria Salzburg acabaram refundando o clube com suas cores originais nas divisões de acesso da Áustria.

Além disso, antes do jogo a torcida do Brondby também distribuiu panfletos criticando a maneira como a Red Bull transformou o antigo Austria Salzburg: “Hoje, o produto mais horrível da comercialização do futebol entrará no Estádio Brondby, uma empresa que comprou seu caminho para a liga e destruiu completamente um clube com apenas um objetivo – vender mais energéticos. É por isso que faremos protestos contra a Red Bull. Porque eles são tudo o que nós, como torcedores do Brondby, desprezamos”.

E vale dizer que a queda na Champions não é totalmente ruim para o Brondby, ainda que o clube acabe perdendo a gorda premiação oferecida pelo torneio. Como estava na última fase preliminar, o time foi repescado diretamente para a fase de grupos da Liga Europa. Esta será a terceira vez que os auriazuis disputarão a fase de grupos de uma competição europeia, encerrando um hiato que durava desde a Copa da Uefa de 2005/06. Será uma ocasião a mais para evidenciar a identidade ao redor da equipe e a paixão em suas arquibancadas. Quem sabe, para um crescimento ainda maior nas próximas temporadas, dispensando qualquer ideia de vender a própria história.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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