Europa

Balanço do Campeonato Escocês: Quatro diferentes campeões e uma Eurocopa pra ver de casa

Por Bruno Cassali (no Twitter, @brunocassali), de Edimburgo*

Enquanto metade da Europa se prepara para as emoções da Euro 2016, a Escócia viaja à França apenas para servir de sparring para aqueles que visam o torneio continental. Os amistosos internacionais diante de Itália e França são o encerramento da temporada futebolística de 2015-16 ao norte da Bretanha. Com isso, já é bastante possível analisar o que foi feito de positivo e negativo pela SPFL para que o nível do futebol escocês volte a ser condizente com sua tradição.

Levando cerca de 1,50% da população nacional aos estádios, a SPFL é um sucesso de público, apesar de não ser recheada de talentos como a liga vizinha da Inglaterra. Essa média é 0,30% maior que a da Holanda e torna o campeonato escocês o mais assistido in loco na Europa, levando-se em conta a relação público nos estádios versus população nacional. Se na atual temporada os números já se provaram um sucesso, pro ano que vem a expectativa é ainda maior: após quatro anos nas divisões inferiores, o Rangers estará de volta ao convívio dos grandes.

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Quatro diferentes campeões

Não se pode começar a análise sem pontuar as positividades do campeão nacional. Na última temporada sem o grande rival, o Celtic até deu mostrar que poderia se complicar sozinho na Liga, mas acabou vencendo com alguma tranquilidade o quinto título nacional seguido. Empurrado pelos 40 gols de Leigh Griffiths no ano, o título foi a glória solitária na temporada – que culminou na saída de Ronny Deila do comando do clube após dois anos. Quem chega é Brendan Rodgers, ex-Liverpool e Swansea, alçado a status de grande contratação do clube para mudar a vertente de queda do Celtic nas competições europeias.

Do outro lado de Glasgow, o Rangers celebrou a volta ao convívio dos grandes clubes ao vencer a Championship com cinco rodadas de antecipação. Os azuis mostraram sua força ao bater o Celtic no jogo que culminou com o anúncio da saída do técnico rival, mas isso não foi suficiente para assegurar o doblete na partida final da temporada, diante do Hibernian na final da Copa da Escócia.

Mesmo na segunda divisão, o Hibernian mostrou-se competitivo nas copas nacionais. Se na Championship o acesso ficou pra temporada que vem, o título da Scottish Cup chegou após 114 anos. Diante do Rangers, em roteiro dramático repleto de viradas, o 3-2 aos 92’ de jogo assegurou a volta do Hibs às competições europeias e trará algum investimento ao clube, fundamental para manter as finanças na disputa da terceira temporada consecutiva na segunda divisão. A festa da torcida, com 150mil pessoas nas ruas da capital Edinburgh, vai marcar essa geração de Hibees.

Na outra copa nacional, um inédito campeão. Com 22 anos de profissionalismo, o Ross County colocou a pequena Dingwall no mapa da Escócia ao chegar na primeria divisão no início da década. Diante do Hibernian em um Hampden Park tomado de verde, os Staggies fizeram um gol nos acréscimos com Alex Schalk e levaram a taça novamente pras Highlands, repetindo o feito do rival Inverness na temporada passada.

Decepções

A queda do Dundee United começou na metade da temporada passada. O jovem e promissor time foi destroçado com as vendas de Stuart Armstrong, Gary Mackay-Steven e Nadir Çiftçi para o Celtic. Nenhum deles virou unanimidade no campeão nacional e o Dundee United nunca se recuperou das perdas, num negócio que hoje aparenta ter sido ruim para todas as partes. O trabalho de reerguer o clube, que caiu após 21 anos na elite, será comandado por Ray McKinnon, ex-atleta do clube e responsável pela consistente temporada do Raith Rovers na Championship.

O não-acesso do Hibernian também entra na lista de decepções. Considerado um dos grandes clubes do país, o Hibs fez um 4º turno fraco e acabou perdendo o 2º lugar na tabela de classificação para o Falkirk – o que fez o Bairns ter a vantagem de decidir em casa a semifinal dos playoffs, além de colocar o rival em dois jogos extras diante do Raith Rovers. Ao final, nem Hibs nem Falkirk subiram: o Kilmarnock, de fraquíssimo desempenho durante o ano, ressurgiu na final do playoff e goleou o Falkirk para permanecer na primeira divisão.

Com excelentes atuações durante a temporada, outra das surpresas negativas foi a não-presença do Dundee no Top6. Greg Stewart e Kane Hemmings fizeram uma temporada em alto nível, desempenho não acompanhado pelo restante da equipe. Com o amadurecimento de algumas peças fundamentais do elenco, como o goleiro Scott Bain (já convocado para a seleção nacional da Escócia), o clube fica como promessa de bom futebol para a próxima temporada.

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Ainda se mexe no que já está bom

No intuito de diminuir o número de jogos nas fases iniciais da Copa da Liga, a SPFL mudou o formato da competição para o ano que vem. Parecido com o que ocorre na Liga Europa e na Liga dos Campeões, os clubes profissionais escoceses agora enfrentarão uma fase de grupos antes de começar o mata-mata.

Tirando os quatro representantes nacionais em competições continentais (Celtic, Aberdeen, Hearts e Hibernian), os outros 38 clubes das quatro divisões profissionais, além do campeão das Highlands (Cove Rangers) e do East Stirlingshire – rebaixado para a Lowland League ao perder para o Edinburgh City em dois jogos –, foram divididos em oito grupos com cinco times cada. Após turno único, os campeões e os quatro melhores segundos colocados se juntam ao quarteto europeu para as oitavas-de-final.

A mudança na Copa da Liga abre espaço no calendário para um desejo antigo dos clubes médios: o aumento no número de times na SPFL. Com 12 times na elite, a queda pra segunda divisão é um perigo constante. Falkirk, Hibernian e Livingston, tradicionais times escoceses enfurnados nas divisões inferiores há pelo menos 3 anos, já manifestaram-se publicamente a favor do aumento da SPFL para 16 clubes, com a possibilidade do campeonato ter apenas turno e returno – totalizando 30 partidas no ano. 

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Time da temporada

Com quatro jogadores da 2ª divisão, o 11 inicial da temporada escocesa tem como destaque o artilheiro máximo da temporada. Leigh Griffiths é o maior responsável pelo quinto título consecutivo do Celtic na SPFL e cada dia mais se mostra preparado para brilhar no cenário europeu.

Vale ressaltar alguns jogadores que não entraram nessa lista, mas também foram fundamentais na temporada, como Kane Hemmings, artilheiro do Dundee e 2º lugar na tabela do Nacional; Craig Gordon, goleiro da seleção nacional e paredão do Celtic; Kieran Tierney, jovem de 18 anos que assumiu a lateral esquerda do líder Celtic no meio do campeonato e virou convocável pro selecionado nacional; além da talentosa e promissora dupla do Hearts Jamie Walker e Callum Paterson.

Dito isso, o 11 inicial vai no 4-3-3 clássico, usado a exaustão na SPFL:

Neil Alexander (Hearts) – Aos 37 anos, o experiente goleiro foi a segurança defensiva do Hearts, além de fundamental para o desenvolvimento do jovem Jack Hamilton, goleiro da seleção sub-21. Não aceitou a renovação do vínculo por apenas uma temporada e está sem clube pro ano que vem.

James Tavernier (Rangers) – O Rangers de Mark Warburton foi superior e diferente de todos seus adversários muito em função da força de seus laterais. Tavernier tem o estilo daqueles meias improvisados na lateral (vide Elder Granja e Bruno quando jogavam no futebol do Rio Grande do Sul): joga mais com a bola no campo ofensivo do que marca. Fez 10 gols na temporada.

Erik Sviatchenko (Celtic) – Eleito pra seleção do campeonato dinamarquês tendo jogado apenas o primeiro turno por lá, Sviatchenko mostrou na metade final da temporada pelo Celtic que é infinitamente melhor que os outros zagueiros do elenco. Experiente e seguro, tem ótimo aproveitamento no jogo aéreo e deverá ser um dos pilares do time de Brendan Rodgers.

Igor Rossi (Hearts) – Recém chegado do futebol português, o brasileiro é um híbrido de lateral com quarto zagueiro canhoto, fato raro no atual futebol. Contando com as inúmeras suspensões e lesões dos companheiros, Igor foi o que mais jogou e passou confiabilidade para Robbie Neilsen.

Lee Wallace (Rangers) – Ele caiu com o Rangers após a falência, abrindo mão de chances na seleção nacional para seguir com o “novo-velho” clube. Eleito melhor jogador da 4ª, da 3ª e nessa temporada da 2ª divisão, Lee Wallace é único na posição pela sua capacidade de atacar e defender com a mesma intensidade.

Andy Halliday (Rangers) – Motor do Rangers na temporada, Halliday tornou-se o dono da bola em Ibrox. Arma o time com a bola nos pés e a recupera com a mesma facilidade que marca gols de longa distância. Na elite, tem tudo pra brilhar e chegar à seleção nacional.

John McGinn (Hibernian) – Pilar do Hibernian na sua primeira temporada no clube. John McGinn domina os aspectos defensivos do jogo como poucos volantes no mundo. Sua intensidade na marcação pressão na saída de bola o levou a jogar mais adiantado durante a segunda metade da temporada – e o colocou entre os convocados de Gordon Strachan também.

Jonny Hayes (Aberdeen) – Polivalente, Hayes atua em todas na meia cancha. Veloz, conta com excelente visão de jogo e cruzamentos precisos quando joga pelos lados do campo. Mais centralizado, é capaz de decidir as partidas pro Aberdeen.

Niall McGinn (Aberdeen) – Camisa #10 do Dons, o norte-irlandês é um dos poucos pensadores do jogo em terras escocesas. Apesar de mostrar muito talento, como quando esmirilhou o Hearts em Tynecastle, ainda peca um pouco no quesito regularidade.

Greg Stewart (Dundee) – Um dos talentos locais ainda fora dos gigantes. Stewart esteve linkado ao Rangers por boa parte do ano e ainda não é certo que fique em Dundee. De fato, seus golaços foram destaque na temporada, apesar do clube não ter finalizado o ano entre os seis primeiros.

Leigh Griffiths (Celtic) – 40 gols no ano é fato muito, muito raro. O último a fazer isso fora Henrik Larsson – antes de rumar para o Barcelona. Griffiths tem um talento matador raro, finaliza as jogadas com precisão sniper e se mostra decisivo em jogos complicados. Craque do ano – e possivelmente melhor jogador a atuar na Escócia na última década.

Técnico: Robbie Neilsen (Hearts) – Vindo da Segunda Divisão, Nielsen mostrou um faro de observação muito apurado. Trouxe peças decisivas a custo zero para o clube, sem impedir o desenvolvimento das joias da base do Hearts – base das seleções sub-21 e sub-19. Com a grana vinda pela classificação às competições continentais, pode fazer ainda mais barulho na temporada que vem.

* Bruno Cassali (@brunocassali) é Jornalista desde 2008, trabalhou na imprensa esportiva do Brasil até 2014 e vive em Edimburgo, capital da Escócia, desde Janeiro de 2015.

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