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Joey Barton escolhe a glória do Rangers ao glamour da Premier League

Joey Barton se tornou um personagem controverso desde o início da sua carreira. Ele surgiu no Manchester City, em uma época que o time não tinha o dinheiro e a força atual. Foi em 2002 que começou a jogar profissionalmente e ficou no clube até 2007. Foi o ano também do seu único jogo pela seleção inglesa, em um amistoso contra a Espanha.

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Passou pelo Newcastle, onde foi muito bem, pelo Queens Park Rangers, foi emprestado ao Olympique de Marseille e chegou ao Burnley em 2015 após o rebaixamento do time. E ajudou a subir a equipe de volta à Premier League.

Agora seria o momento de viver de novo a principal divisão inglesa. Mas ele não quis. Escolheu uma proposta que não era a melhor financeiramente para jogar pelo Rangers, uma das camisas mais tradicionais do mundo. Segundo ele mesmo, tinha propostas melhores financeiramente. Poderia, por exemplo, ter ficado no próprio Burnley.

Aos 33 anos, ele escolheu jogar na Escócia. Não é uma das ligas mais badaladas do mundo. Mas o Rangers, que volta à primeira divisão na temporada 2016/17, é uma camisa pesada. E os britânicos, especialmente, sabem bem disso.

“Eu os assisti um grande número de vezes. Eu sou um homem do futebol e alguém que é completamente obcecado com futebol ao redor do mundo. Eu assisto constantemente”, explicou o meio-campista. Nós bem sabemos disso, porque Barton comenta muito de futebol em seu Twitter e escreve em seu blog sobre futebol com impressionante capacidade crítica (ainda que o blog ele não atualize há algum tempo).

Em uma das suas incursões sobre futebol, ele falou sobre Neymar. Primeiro, em fevereiro de 2013, quando Neymar ainda jogava no Brasil, o meio-campista escreveu uma imensa bobagem ao dizer que o brasileiro jogava na “Amazon Jungle League”. Barton ainda duvidava da capacidade de Neymar em ser mais que um jogador habilidoso. A repercussão (negativa, na maior parte) foi tamanha que ele começou a fazer uma vigilância do brasileiro, assistindo mais jogos do então jogador do Santos. Ele mesmo chamou de #Neymarwatch e nós falamos sobre isso aqui.

A análise de Barton foi infeliz, para dizer o mínimo, mas não dava para julgá-lo apenas por sua. Sua visões sobre futebol são interessantes, ele criticou várias vezes o elitismo do futebol inglês e, poucos meses depois de criticar Neymar, ele se rendeu ao camisa 11 do Barcelona (e nós nos rendemos a ele). Mostrou a virtude de admitir o próprio equívoco na análise e entender que o jogador que ele via na seleção brasileira era melhor do que aparentava.

Em agosto de 2015, Barton falou sobre religião, filosofia e violência em uma entrevista incrível. Com todo o seu histórico controverso, Barton sempre foi uma figura complexa, que vai muito além dos estereótipos e rótulos com os quais ele convive, como ser um bad boy, um jogador desequilibrado e tudo isso. Ele tem um pouco disso tudo, mas também de um ótimo jogador, um líder e alguém que pensa na profissão e no futebol além dos limites que vive.

Nem todo jogador gosta de futebol. Sim, é isso mesmo: alguns jogadores de futebol tratam a profissão burocraticamente e apenas isso. Barton não é um deles. Ele gosta, assiste e analisa os jogos. Gosta de falar sobre futebol.

Por tudo isso, quando Barton diz que fez a escolha mais difícil da sua carreira e que preferiu uma proposta menor em termos de dinheiro porque queria jogar no Rangers e ter essa experiência, é mais fácil acreditar que ele está sendo sincero.

É verdade quando ele diz que já teve a experiência de jogar na Premier League. Ele lutaria contra o rebaixamento no Burnley, algo que ele já viveu antes, seja por Newcastle, seja por Queens Park Rangers. Não seria exatamente uma novidade. Pesa também que o Rangers ofereceu a ele um contrato de dois anos, não apenas um, como o Burnley.

“Eu tive ofertas melhores financeiramente, mas eu jurei a mim mesmo muito tempo atrás que eu nunca tomaria uma decisão na minha carreira baseada no financeiro. Você tem que ser honesto com você mesmo como ser humano. Você pode ficar confortável olhando para o homem no espelho toda manhã com o olho. Vir para o Rangers me permite fazer isso e eu sei que escolho o desafio correto”, disse Barton.

Falamos muito do personagem, mas Barton é mais do que isso. Ele é um jogador com boa capacidade técnica a ponto de se destacar tanto por Manchester City quanto por Newcastle, além do Olympique de Marseille, em uma outra liga de alto nível e em um clube grande. Todo o seu passado controverso é pouco importante quando falamos da contratação dele pelo Rangers. Mais importante é o que ele fez recentemente, mostrando maturidade e futebol capazes de torna-lo destaque. Ele foi eleito para o time da temporada na Championship, a segundona inglesa vencida pelo seu time, o Burnley.

Isso não significa que ele tenha chegado sem uma controvérsia para chamar de sua. O Rangers é muito tradicional, todo mundo sabe disso, tanto quanto que é um time que representa o lado protestante da Escócia. Os católicos – e irlandeses – são representados, em grande parte, pelo Celtic. E Barton, bem, Barton é católico. Claro, não é o primeiro católico a jogar pelo Rangers. Em 1989, Mo Johnson foi o primeiro católico contratado pelo Rangers e foi um marco, que nós falamos aqui e aqui também. A resposta de Barton sobre o assunto, porém, foi com muita categoria e mostra um pouco do que é este jogador.

“Você só torce para um clube”, disse ele. “Vamos lá, vamos ser diretos, eu sou um torcedor do Everton. Mas vindo de uma família de futebol, se o dérbi de Milão estava acontecendo, você tinha que escolher um lado, Milan ou Inter. Se for Barcelona contra Real Madrid, eu tinha que escolher um lado. É o que nós fazemos”, explicou o jogador.

“Então, obviamente, ser Joseph Anthony e tendo frequentado escolas católicas, eu realmente não tinha escolha quando se tratava disso. Então, eu procurei por um dos times quando o Old Firm estava sendo jogado. Eu disse no Twitter, entre outras coisas, que sou um torcedor do Celtic. Você tem que levar isso em tom de brincadeira. Eu não acho que ninguém terá qualquer dúvida sobre o meu comprometimento quando jogarmos contra o Celtic”.

Barton no Rangers é uma notícia interessante para todo mundo que gosta de futebol. E teremos uma situação bastante interessante para acompanhar, ao menos para quem gosta de Premier League. Brendan Rodgers será o técnico do Celtic, depois de treinar Swansea e Liverpool na Premier League. No Rangers, em sua volta à primeira divisão, Barton vestirá a camisa 8 e será um dos operários que tenta fazer o time brigar novamente pelo título escocês. Tem tudo para ser interessante. Especialmente quando os dois se encontrarem.

Veja alguns momentos da entrevista de Barton como jogador do Rangers, tanto para a TV do clube quanto na coletiva de imprensa:




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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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