Por que o fim do teto salarial proposto por Pirlo para a MLS competir com a China não será adotado
Se por um lado os chineses amarram a ideia de crescimento do futebol nacional a de pagar fortunas por grandes estrelas, a Major League Soccer pensa que a prosperidade da liga anda junto com uma gestão de responsabilidade financeira. A prova disso se faz ainda mais presente nesta temporada, com as franquias apostando cada vez mais em jovens promissores da América Latina em vez de abrirem o bolso para ter mais nomes do peso de Kaká e Andrea Pirlo, por exemplo. Mas o jogador italiano não concorda com essa política imposta aos clubes da MLS. Para ele, o teto salarial da liga deveria ser extinto, para, assim, gerar concorrência com a China e seus valores absurdos.
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“Ando vendo melhorias, e do que eu vi nos amistosos de pré-temporada e nas duas primeiras rodadas da temporada regular, a qualidade do futebol aumentou muito. Mas eu certamente me livraria das restrições relacionadas ao mercado de transferências. Há exceções para ganhar mais que o limite salarial, mas isso é muito pouco para convencer outras estrelas a virem jogar aqui. A MLS precisa desenvolver um sistema liberal no qual você pode comprar e vender jogadores sem qualquer restrição. Isso se ela quiser competir com a China e outras ligas domésticas e internacionais”, disse Pirlo em entrevista à Gazzetta dello Sport, ao ser perguntado sobre o crescimento da liga norte-americana.
Ele se referia à regra do jogador designado, que permite que as franquias contratem até três atletas para receberem salários acima do teto estipulado pela liga. Era o caso de David Villa, Frank Lampard e Andrea Pirlo no New York City da temporada passada. A crítica do meia italiano, no entanto, vai na contramão da proposta central da MLS. A liga simplesmente não quer competir com os chineses no mercado agora, mas sim fazer seu plano de negócios, que pode não parecer tão atrativo no momento, funcionar e render resultados a longo prazo. E o objetivo é confiar e trabalhar com jogadores jovens, fortalecendo as categorias de base, recebendo e desenvolvendo promessas de outros países e, futuramente, fazendo dinheiro com os atletas formados na liga.
O fim do teto salarial reforçaria ainda mais o estereótipo da MLS de “liga para jogadores em fim de carreira”, além de gerar um desequilíbrio muito grande dentro dos elencos. De fato, a liga americana olha muito para o passado do esporte no país para não repetir os erros que retardaram o crescimento do futebol por lá. Como o que aconteceu com o fracasso da North American Soccer League (NASL) no início dos anos 80, que voltou a existir e atualmente é a terceira liga de futebol dos Estados Unidos.
Na época, a NASL começou a definhar porque foi perdendo muitas franquias em função de gastos excessivos. Em 1985, a liga sequer tinha três times interessados em participar da temporada, e teve que suspender suas atividades naquele ano. Com isso, o futebol profissional nos Estados Unidos ficou estagnado até a criação da MLS, que passou a ser disputada somente em 1996. Um hiato que prejudicou muito o futebol nos Estados Unidos. Por isso, a MLS olha muito mais para as ligas dos grandes esportes do país, que estão entre as maiores do mundo, para crescer de maneira sustentável.
A própria China, mesmo não tendo delimitado um salário máximo, mostra que tem uma certa preocupação em não tornar a liga insustentável com os clubes contratando e gastando desenfreadamente. Os chineses criaram uma política de restrição ao número de estrangeiros permitidos por equipe este ano e outra para impulsionar o futebol de base. As mudanças nas regras do campeonato consistem em os times não poderem escalar mais do que três jogadores de fora do país nas partidas (o limite antes era de quatro estrangeiros de qualquer país e mais um asiático) e serem obrigados a relacionar ao menos dois atletas com idade inferior a 23 anos para os jogos.
O exemplo que a MLS mira é outro. Don Garber, comissionário e principal executivo da MLS, já disse muitas vezes que a estrutura do esporte nos Estados Unidos é única e, por isso, é preciso ter cuidado. Ele sempre refutou a possibilidade de acesso e descenso, por exemplo. Em termos de salários, ele certamente se lembra mais da NASL dos anos 1980 do que da China atual – que, olhando de fora, dá a impressão de ser completamente insustentável a médio prazo. Por isso, a MLS olha para a NHL, NBA, MLB e NFL em vez de olhar outros lugares. O teto salarial, para a MLS, segue fazendo muito sentido.



