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MLS busca jovens e latino-americanos para serem suas estrelas em vez de veteranos da Europa

Levar estrelas do futebol europeu para a MLS parece não ser mais uma estratégia atraente para os times da liga. A temporada de 2017 começa neste dia 3 de março e a maioria dos 22 clubes que iniciam a disputa resolveram usar os três postos de jogadores designados para talentos mais jovens em vez de estrelas decadentes da Europa. Isso fica claro quando vemos quem os novos times da liga resolveram apostar, comparado ao que aconteceu na última expansão, em 2015. Se até dois anos atrás a aposta era nas estrelas com repercussão, desta vez a ideia foi buscar jogadores jovens de talento e garimpar o talento em um mercado próximo: a América Latina.

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A busca por estrelas europeias

O clima em 2015 era de muita expectativa com a entrada do New York City, um clube no coração de Nova York para competir com o New York Red Bulls e também buscar mais mercado em uma das principais cidades americanas. Para fazer barulho, o time, que é do mesmo grupo que comanda o Manchester City, contratou três super estrelas, todos veteranos: David Villa, campeão do mundo pela Espanha, ex-Valencia, Barcelona e Atlético de Madrid; Andrea Pirlo, que se apresentou logo depois de ser vice-campeão da Champions League e como um dos grandes jogadores italianos da história; e Frank Lampard, um jogador de muito sucesso no Chelsea na Premier League.

Mas o New York City não foi o único a apostar em estrelas. O Orlando City trouxe Kaká, brasileiro que foi vencedor da Bola de Ouro e do Melhor do Mundo da Fifa em 2007. Steven Gerrard, perdendo espaço no Liverpool, foi para o Los Angeles Galaxy. Didier Drogba, que não jogaria mais pelo Chelsea, também chegou ao Montreal Impact. Uma avalanche de veteranos chegando depois do seu auge na liga, que queria nomes que atraíssem atenção não só dos torcedores locais, mas do mundo.

Não é uma estratégia nova. No seu início, a MLS fez exatamente isso, há 22 anos. Naquela época, a liga precisava chamar a atenção depois de ficar 12 anos sem futebol profissional. Algumas estrelas sul-americanas, já veteranas, foram contratadas, como o mexicano Jorge Campos, o colombiano Carlos Valderrama e o boliviano Marco Etcheverry, todos jogadores de Copa do Mundo. Isso além de americanos que ganharam notoriedade, como Eric Wynalda, Marcelo Balboa, Tony Meola e Alexi Lalas – ambos presentes na seleção americana que disputou o Mundial em 1994.

Havia ali duas tendências: levar estrelas conhecidas pelo público – e pela proximidade da Copa do Mundo, as estrelas eram jogadores que ela disputaram – e uma forte tendência a levar sul-americanos de sucesso no continente. Naquela época, esses eram os jogadores que aceitavam jogar na liga. A ambição, porém, era levar jogadores da Europa, que vinham de grandes clubes do continente.

Esse desejo se materializou em David Beckham, em 2007. Foi uma nova era do futebol nos Estados Unidos: a criação do jogador designado, um mecanismo criado para que estes jogadores possam ganhar um salário acima do teto, possibilitando chegar ao nível de estrelas mundiais. Como foi criada para alocar Beckham, durante algum tempo essa regra ficou conhecida como “regra Beckham”.

Veio então uma onda de estrelas europeias para preencherem as vagas de jogadores designados. Marco Di Vaio, Tim Cahill, Thierry Henry, Rafa Marquez, Freddie Ljundberg, Obafemi Martins, Jermaine Defoe. A fase de estrelas como estas parece ter tido o seu último ápice em 2015, com as estrelas trazidas naquela temporada, mas os resultados com todos esses jogadores foram decepcionantes.

Tim Cahill e Thierry Henry conquistaram a torcida, mas não conseguiram render como se esperava deles. Quase todos eles tiveram rendimentos que não atenderam às expectativas das estrelas que eram quando foram contratados. Ao mesmo tempo, o que se viu crescer na liga foi uma onda de times sem estrelas desse calibre, mas com times muito mais equilibrados em termos de elenco e com capacidade coletiva maior.

Das estrelas contratadas naquele ano de 2015, David Villa foi muito bem desde o começo – a ponta de, em 2016, um ano depois, ter sido eleito o MVP da liga – e Kaká carregou o seu time nas costas, um time, por sinal, fraco tecnicamente, mas que vencia muitos jogos pela dedicação e talento do brasileiro em diversos momentos. Pirlo teve seus momentos, mas passou longe de ser brilhante. Lampard teve um péssimo início, se machucou muito, foi xingado por torcedores, mas se recuperou na temporada 2016 com boas atuações na sua metade final. Foi aí que conseguiu ter um brilho que salvou a sua passagem da MLS de ser um fracasso.

Gerrard foi um retumbante fracasso. Não se encaixou bem no time e não rendeu nem perto do que se esperava que ele pudesse. Drogba teve um grande início na segunda metade de 2015, mas a temporada 2016 não passou perto de ter o mesmo sucesso. Acabou no banco e brigado com o técnico. As superestrelas trouxeram a atenção que a liga e os times queriam, mas o retorno em campo fiquem muito aquém do que se esperava. E esses exemplos foram vistos por todos os times. As superestrelas custam caro e muitas vezes não entregam bom desempenho.

O caso de Giovinco foi o que chamou a atenção positivamente. Contratado aos 28 anos, ainda no seu ápice físico, deu retorno em campo, muito mais que o marketing da sua contratação – já que ele não foi uma grande estrela do futebol europeu, embora fosse jogador da seleção italiana. Giovinco era um jogador pouco aproveitado na Juventus, mas com muito potencial para brilhar e com a sede de ser uma estrela. Esse é o exemplo que passou a ser seguido pelos times: todo mundo quer ter um Giovinco, mais do que ter um Drogba ou um Gerrard.

De olho na América Latina

Além dos jogadores estelares, o que também começou a surgir foi a tendência de levar jogadores que brilharam na América do Sul. Custavam mais barato, aceitam ir para a MLS e, principalmente, podem render mais para os seus clubes esportivamente, e não só como uma estratégia de marketing. As apostas em jogadores designados da América do Sul que não estivessem em fim de carreira e com mais anos pela frente que os veteranos europeus – e muito mais fome de vencer – deu resultados e, por isso, cresceu para 2017.

Diego Valeri, por exemplo, foi trazido da Argentina aos 26 anos, em 2013. Se tornou uma peça fundamental no Portland Timbers que conquistou o seu primeiro título em 2015. Ignacio Piatti era destaque do San Lorenzo quando foi contratado pelo Montreal Impact, quando o time conquistou o título. Tinha 29 anos e se tornou o principal jogador do time, mais importante até que Didier Drogba, que chegaria um ano depois, causou um impacto inicial e não teve mais o mesmo rendimento.

Em 2016, um dos principais jogadores do time campeão, o Seattle Sounders, foi Nicolás Lodeiro, 27 anos, uruguaio que defendia o Boca Juniors (e tinha passado pelo Corinthians) antes de jogar nos Estados Unidos. Apesar de ser um jogador de Copa do Mundo, nunca foi uma estrela europeia, mas brilhava por um dos maiores clubes da América do Sul. Foi para os Estados Unidos e entrou para a história dando o primeiro título de MLS aos Sounders.

É justamente pensando no sucesso de Valeri que o Timbers leva outro argentino para o seu elenco em 2017 que era destaque do seu time: Sebastián Blanco. Aos 28 anos, o jogador chega do San Lorenzo para tentar repetir o sucesso do compatriota e ser mais útil do que as super estrelas.

Até o New York City resolveu adotar essa estratégia. Depois do trio estelar de jogadores europeus, para 2017, com a saída de Lampard, aposentado, levou Maximiliano Moralez. O argentino, que surgiu como destaque no Racing, estava no León, onde não vivia um grande momento. Antes, tinha passado pela Atalanta. Foi também um dos destaques do Vélez Sarsfield entre 2009 e 2011, quando foi levado à Itália. Chega a Nova York para tentar ser um jogador mais eficiente e mais produtivo. O NYC não chegou aos playoffs em 2015 e caiu, goleado, diante do Toronto em 2016.

Outro que aposta no talento sul-americano é o Vancouver Whitecaps. Leva de volta à MLS Fredy Montero, colombiano que fez muito sucesso atuando pelo Seattle Sounders, entre 2009 e 2014. Passou por Millonarios e Sporting antes de ser vendido ao Tianjin Teda, da China. Com a nova regra de estrangeiros, acabou emprestado ao time canadense. Tentará repetir o sucesso anterior aos 29 anos.

Aposta em jovens

A temporada 2017 tem outros elementos que indicam uma nova onda de apostas em jogadores mais jovens como os designados. O Orlando City, mesmo levando Kaká, também apostou em jogadores designados jovens. O brasileiro trazia a atenção da imprensa, enquanto os outros dois são apostas de longo prazo para estarem com o clube: Carlos Rivas e Bryan Róchez, ambos contratados como jogadores designados aos 20 anos em 2015.

Carlos Rivas, colombiano de 22 anos, começou a carreira no Once Caldas e teve sucesso jogando no Deportivo Cali. Bryan Róchez não é sul-americano, é hondurenho, mas segue a linha de talentos jovens como jogadores designados. Assim como Rivas, foi contratado em 2015 vindo do Real España, do seu país. Kaká traz a experiência, qualidade e visibilidade, enquanto Rivas e Róchez são a juventude e o futuro do clube.

Quem entrou na MLS nesta temporada, vendo o que aconteceu com as estrelas contratadas, também resolveu apostar em jovens. Ao contrário do que o New York City, o Atlanta United não quis saber de veteranos que vendam camisas: foi atrás de sul-americanos talentosos que possam render no longo prazo. Levou Miguel Almirón, 23 anos; Hector Villalba, 22; e Josef Martínez, 23.

Miguel Almiron é paraguaio, jogador da seleção do seu país, e era especulado em clubes europeus. Foi contratado pelo Atlanta United para ser o comandante da armação das jogadas. Com tão pouca idade, é uma esperança para que o time se construa com ele amadurecendo enquanto veste a camisa 10 nas costas.

Hector Villalba era destaque do San Lorenzo há algumas temporadas, inclusive quando o time foi campeão da Libertadores, em 2014. Teve uma queda de rendimento, foi emprestado ao Tijuana e não rendeu o esperado. Marcou o primeiro gol da história do Atlanta na pré-temporada. Josef Martínez veio do futebol europeu, mas não era uma estrela. Venezuelano, jogava pelo Torino e chega emprestado com opção de compra ao final do contrato. Aos 23 anos, terá a chance de fazer a sua carreira despontar no Atlanta.

O Dallas foi outro a buscar talento na América do Sul para reforçar o seu elenco. Cristian Colmán era desejado pelo São Paulo, mas o time norte-americano venceu a disputa e levou o centroavante paraguaio, que atuava pelo Nacional, do seu país. Aos 22 anos, é promissor e chega para tentar dar ao Dallas o poder de fogo que por vezes faltou ao time. É mais um jogador jovem que ocupa a vaga de designado.

O outro time do Texas, o Houston Dynamo, também buscou um talento jovem para ocupar o posto de designado: Alberth Elis, hondurenho de 21 anos. Brilhou pelo Olimpia, de Honduras, e foi destaque jovem da Liga dos Campeões da Concacaf. Foi contratado pelo Monterrey e não teve espaço. Acaba emprestado ao time norte-americano para tentar mostrar o brilho dos tempos de Olimpia. É jogador da seleção hondurenha.

Ainda na linha de jovens talentos, o Real Salt Lake foi buscar na Europa um jogador para tentar fazer brilhar: Albert Rusnak, de 22 anos. O eslovaco, que nasceu na Tchéquia, passou por alguns clubes ingleses de divisões menores antes de chegar à Holanda. Se destacou pelo Groningen e acabou seduzido pela ideia de tentar ser uma estrela da MLS. Sai da linha de sul-americanos, mas é uma aposta do mesmo estilo: vem de um mercado acessível aos times da MLS e pode render no longo prazo.

Com esses nomes como os principais contratados para a temporada de 2017, o apelido de “liga de aposentadoria”, muito usado na Europa, fica cada vez mais distante da MLS. O sotaque é cada vez mais latino-americano. A cada ano, os times da MLS parecem mais dispostos a buscar os talentos da América Latina em vez dos europeus. Com isso, a MLS é cada vez mais uma liga que pode concorrer por jogadores daqui. Em vez de liga de aposentadoria, a MLS é cada vez mais a liga latino-americana.

Foto de Felipe Lobo

Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!). Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009, onde ficou até 2023.

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