Copa do MundoEstados Unidos

A Copa das americanas coroa uma cultura de futebol feminino, uma ótima geração e uma craque

Para quem sempre se manteve no topo, o jejum nem parecia tão grande. Mas os Estados Unidos precisaram esperar 16 anos para reconquistar a Copa do Mundo Feminina. E com uma atuação praticamente impecável na decisão, contra o Japão. Favoritas desde o início no Mundial do Canadá, as americanas viveram um início de jogo fantástico em Vancouver: anotaram quatro gols em apenas 16 minutos, abrindo o caminho para a vitória por 5 a 2. Uma goleada consagradora especialmente para Carli Lloyd. Heroína em duas finais olímpicas, a camisa 10 e capitã também se eternizou na história das Copas do Mundo.

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Apesar do hiato nos Mundiais, os Estados Unidos são as atuais bicampeãs olímpicas, torneio cuja importância também é enorme. Porém, não foram páreas à Alemanha de Birgit Prinz nos Mundiais de 2003 e 2007, assim como perderam a final de 2011 para o fantástico Japão de Homare Sawa. No Canadá, a chance do tira-teima contra as japonesas, após as americanas já terem vencido a revanche na final dos Jogos Olímpicos de 2012. E a superioridade não deixou dúvidas sobre o talento da equipe na reconquista, chegando a três taças – recorde do torneio, superando as alemãs.

O fato de jogar no Canadá já foi um impulso aos Estados Unidos. Muitos torcedores foram ao país vizinho para apoiar a equipe, que parecia jogar em casa em Vancouver. Um apoio que motivou o massacre logo de cara. Aproveitando o bom trabalho nas bolas paradas e os erros da defesa japonesa, as americanas fizeram dois gols com Carli Lloyd e outro com Lauren Holiday. Até que a camisa 10 criasse a sua grande obra de arte. A partir de um passe errado das adversárias, dominou no seu campo de defesa e aplicou um drible sobre a marcadora. Para ver a goleira adiantada e arriscar o chute do círculo central. Por mais que a camisa 1 japonesa tenha falhado, nada diminui o gol antológico de Lloyd. O tal “gol que Pelé não fez”, em plena final de Copa do Mundo.

A pintura coroa uma das melhores jogadoras de sua geração, das mais decisivas na história do futebol feminino. Carli Lloyd nunca ganhou a Bola de Ouro, mas deu as Estados Unidos suas duas últimas medalhas olímpicas. Ela fez o gol na prorrogação para a vitória por 1 a 0 sobre o Brasil em Pequim, além de balançar as redes duas vezes nos 2 a 1 sobre o Japão em Londres. Já nesta Copa do Mundo, a sua terceira, assumiu o papel de liderança dentro de campo. Com Christie Rampone e Abby Wambach no banco, dando passagem a uma nova geração, coube a Lloyd assumir a braçadeira, sem deixar de ser também uma referência técnica. Dos dez gols dos EUA nos mata-matas da Copa do Mundo, a camisa 10 anotou seis e deu passes para dois. Participou de todos os tentos nas oitavas, nas quarta e nas semifinais, antes de arrebentar na decisão. Termina como artilheira e, óbvio, melhor jogadora da competição.

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Com os 4 a 0 no placar, o Japão até tentou buscar sua honra. Melhor do mundo da Copa de 2011, mas sem a mesma forma, a veterana Homare Sawa saiu do banco. As japonesas fizeram dois gols, enquanto Tobin Heath fez o quinto das americanas. Protagonizando boas jogadas, Alex Morgan poderia até ter feito o sexto. No entanto, os 5 a 2 no placar já eram suficientes. Tanto para sublinhar a tarde infeliz do Japão, que só tinha tomado três gols nas seis partidas anteriores da campanha, quanto para enfatizar a força das americanas, acertando quase tudo e não perdoando os erros.

O título dos Estados Unidos consagra uma geração que talvez esteja em sua última Copa do Mundo e que, após conquistar tudo, tinha a taça como obsessão. Wambach e Rampone (aos 40 anos, a única remanescente de 1999), mesmo fora do time titular, foram fundamentais durante a campanha pela voz de liderança. Puxavam o coro nas coletivas de imprensa e nas preleções, e merecidamente ganharam a chance de entrar nos minutos finais da decisão. Tanto que, juntas, ergueram a taça. Deram tarimba a várias jovens, que tem qualidade para buscar o tetra em 2019.

Além disso, o tricampeonato mundial também serve como prêmio ao suporte que os Estados Unidos dá ao futebol feminino. A modalidade possui uma cultura no país. Por mais que a liga nacional tenha passado por altos e baixos, o investimento no futebol feminino é notável, especialmente na formação das jogadoras. O título da Copa do Mundo vai ao trabalho bem feito. Assim como aconteceu com a Alemanha na Copa de 2014, serve de lição aos outros países – especialmente diante do preconceito e da marginalização que as mulheres sofrem, um aspecto no qual os americanos também são exemplares ao minimizar. E a empolgação com a taça feminina, combinada com a mobilização pelos homens em 2014 e o próprio impulso com os novos craques da MLS, ajudam o “soccer” a se fortalecer ainda mais nos EUA. Se dizem que o futebol “ainda vai ser grande” entre os americanos, entre as americanas ele já é enorme.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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