Espanha

Xavi tem motivo para ficar até mais do que “um pouco decepcionado” com Dembélé

Foi o treinador quem bancou a reintegração e a permanência do ponta francês, agora prestes a se transferir para o PSG

O contrato de Ousmane Dembélé estava chegando ao fim em janeiro de 2022. Era um problema sério para o Barcelona que havia praticamente dividido as receitas da venda de Neymar entre ele e Philippe Coutinho. Com as variáveis que viraram moda no futebol europeu, é difícil cravar o valor de uma transferência, mas ele custou aproximadamente € 135 milhões. Quando as negociações travaram, o Barça se sentiu obrigado a lhe dar um ultimato. Se não fosse renovar, que saísse imediatamente. A última chance de resgatar um pouco do que foi pago. Dembélé ficou.

Durante algumas semanas, parecia que a ideia do Barça era afastá-lo da equipe principal até o fim do seu vínculo. O presidente Joan Laporta chegou a dizer que não fazia sentido ele permanecer, que não era bom para ninguém, que Xavi também tinha o futuro em mente e ameaçou com reticências: “se Dembélé não vai ficar…”. O complemento desse pensamento provavelmente era: não tem por que continuar jogando.

Foi Xavi quem bancou a sua reintegração, quem apostou em seu futebol e depois incentivou o Barcelona a voltar à mesa de negociações para a renovação de contrato que foi concretizada alguns meses depois – também porque Dembélé, com um salário altíssimo, não encontrou muito carinho no mercado aberto. Sempre o incluiu em seus planos, manteve um relacionamento próximo e deu confiança a um jogador que teve sua passagem pelo Camp Nou afetada por diversas lesões.

Então, por mais que Dembélé tenha todo o direito de de repente exercer uma cláusula de rescisão em seu contrato para defender o Paris Saint-Germain, também é compreensível que Xavi se sinta, como disse, um pouco decepcionado com a decisão de um jogador que tanto apoiou.

– Estou um pouco decepcionado. Ele nos disse que quer ir para o PSG. Tentamos mantê-lo, mas não há nada que podemos fazer. Ele nos disse que já falou com Luis Enrique (técnico do PSG) e (Nasser) Al-Khelaifi (presidente do PSG). Não tinha como convencê-lo, é sua decisão final e é uma decisão pessoal. O PSG fez uma proposta que é completamente fora do mercado. Não podemos competir com ela – disse o treinador catalão.

– É uma pena. Nós cuidamos muito bem dele para garantir que estivesse feliz aqui. Eu sabia sobre a cláusula, que tinha um chance que ele saísse. Mas ele parecia feliz para mim. Eu não esperava, mas aconteceu. No fim do dia, é um cenário para o qual nos preparamos e agora temos que nos reforçar porque (a saída de Dembélé) nos enfraquece. O mercado de transferências é assim. Jogadores que não querem ficar aqui vão sair e nós vamos seguir em frente – acrescentou.

Por que a saída de Dembélé pegou o Barcelona de surpresa?

Embora Xavi tenha dito que o clube está preparado para a saída de Dembélé, ela não era tão esperada. Primeiro, porque ele negociava uma extensão de contrato até julho de 2027 e havia otimismo de que as conversas teriam um final feliz. Ele continuava próximo do técnico, estava treinando bem e até foi titular – com direito a gol – no amistoso contra o Real Madrid disputado em Dallas no último fim de semana.

E porque, segundo o The Athletic, a cláusula de rescisão que o permite sair por apenas € 50 milhões não era considerada exatamente uma cláusula de rescisão.

A cláusula foi inserida no último contrato assinado por Dembélé, aquele de 2022, com a bênção de Xavi e outras lideranças do vestiário. Em crise financeira e restrito pelas regras do Fair Play Financeiro de La Liga, o Barcelona precisava que o jogador aceitasse um salário menor – bem menor, de 40%, segundo o AS. O mecanismo para facilitar sua saída foi a contrapartida.

O que torna a história boa mesmo é que essa parte foi redigida como uma “cláusula de obrigação de transferência” e não como uma cláusula de rescisão. Segundo a reportagem, “nem todo mundo no clube catalão percebeu” que isso significava que o Barcelona era obrigado a aceitar uma proposta de € 50 milhões. Uma fonte interna disse ao The Athletic que haveria o risco de o Barça ser obrigado a pagar uma “grande compensação” se se recusasse a honrá-la.

O Mundo Deportivo, um jornal catalão que geralmente publica o lado barcelonista, trata esse cláusula como um “acordo privado” entre clube e Dembélé e afirma que a diferença é que uma cláusula de rescisão é acionada automaticamente por um depósito do próprio jogador, enquanto esse mecanismo “coloca em ação uma operação de transferência”. Ainda é bem difícil entender a distinção.

Outro agravante é que essa cláusula tinha prazo de validade em 31 de julho, antes de ser dobrada para € 100 milhões. Também houve confusão se essa era a data em que o PSG teria que completar a transferência ou apenas apresentar a proposta. No fim, era a segunda opção.

Pior: o acordo também prevê que os € 50 milhões têm que ser divididos entre clube e o jogador. O Barcelona ainda tentará desafiar e/ou negociar essa partilha porque considera que nem todas as condições foram cumpridas para que a divisão seja 50% para cada lado.

Segundo a matéria do The Athletic, os representantes de Dembélé apresentaram uma contra-proposta para o Barcelona, exigindo um aumento salarial de € 6 milhões por ano mais premiações. Valores além das capacidades do clube catalão que precisa tomar o outro caminho – o de corte de despesas – para se livrar das amarras do Fair Play Financeiro. Dembélé tem até sexta-feira para comunicar formalmente que aceitou a proposta do PSG, e o Barça teria três semanas para fechar o negócio.

O problema pode se tornar jurídico. Mas caindo € 50 milhões ou € 25 milhões nas contas catalãs, será difícil encontrar uma reposição à altura no mercado. Porque embora tenha tido uma passagem de altos e baixos pelo Camp Nou, prejudicada por lesões e às vezes com acusações de que não se esforçava tanto, a sua qualidade técnica é inegável. Xavi sempre soube disso. Não foi por outro motivo que apostou tanto em seu futebol.

Foto de Bruno Bonsanti

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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