Espanha

Não foi só teimosia: explicamos como Xavi foi de vencedor a fracassado no Barcelona

Atual campeão de LaLiga, Xavi comunicou que está de saída do Barcelona no final da temporada após se tornar uma tremenda decepção

Xavi Hernández balançou, balançou, balançou, até cair. A data de saída já está marcada, pois o treinador confirmou no último domingo (29) que ficará à frente do Barcelona somente até o final da temporada. Mesmo com contrato até junho de 2025, o espanhol tomou a decisão de que não vai cumprir o vínculo por completo após a derrota do Barça por 5 x 3 para o Villarreal, no domingo (28), no Estádio Olímpico, pela 22ª rodada de La Liga:

“No dia 30 de junho, não seguirei como treinador do Barça. Creio que a situação merece uma mudança de rumo, de dinâmica(…). Hoje (28) vivi uma das partidas mais duras da minha carreira”.

De forma bem resumida, o Barcelona sofreu uma derrota doída após apresentar inúmeros erros – coletivos e individuais. Atual campeão espanhol, Xavi foi de vencedor a fracassado na Catalunha em poucos meses, já que os Blaugranas caíram (e muito) de rendimento da última temporada para 2023/24. E a decepção pode ser traduzida nas últimas partidas do técnico dos Culés.

Primeiro, a goleada humilhante para o Real Madrid por 4 x 1 na final da Supercopa da Espanha. Depois, a eliminação nas quartas de final da Copa do Rei para o Athletic Bilbao, que venceu por 4 x 2, na prorrogação. Soma-se tudo isso a uma classificação às oitavas de final da Champions League nada convincente, mais o modesto quarto lugar de La Liga – 11 pontos a menos que o líder Girona -, e pronto, aí está a receita da saída do treinador do Barcelona.

Mas a pergunta que fica é: como Xavi Hernández saiu de queridinho da torcida blaugrana para o responsável por todos os problemas do Barça dentro de campo? Isso é o que a Trivela espera responder, citando o que levou o técnico espanhol a reconhecer seus erros antes de ir embora. E não foi só a teimosia.

Retrospectiva de Xavi no Barcelona

Contratado em novembro de 2021 para substituir Ronald Koeman, Xavi Hernández retornou ao Barcelona para assumir um novo papel, já que foi ídolo como jogador antes de encarar a difícil missão na área técnica, que teve vários outros nomes nos últimos anos. Após um período de transição, o treinador espanhol conseguiu colher os resultados logo em sua primeira temporada completa no Barça.

Em 2022/23, o Barcelona foi campeão de La Liga – o que não acontecia desde 2018/19 – e da Supercopa da Espanha. Com uma campanha sólida, o time de Xavi terminou o campeonato nacional com 88 pontos (10 a mais que o vice-líder Real Madrid), com a melhor defesa (apenas 20 gols sofridos) e um dos melhores ataques (com 70 bolas na rede. A empolgação era tanta que a torcida estava encantada com a ‘Xavineta'.

Só que tudo mudou na atual temporada. O futebol dos Blaugranas mudou drasticamente (para pior) em 2023/24, o que começou a causar um mal-estar nos bastidores. A sequência de resultados ruins também não ajudaram, já que a imprensa e os torcedores vinham especulando a demissão de Xavi Hernández há algumas semanas. E a situação não chegou a esse ponto graças à postura do treinador em fazer um mea-culpa:

“Pensando nos jogadores, eles vão se libertar, jogamos com muita tensão. Pensamos como culé e homem, o melhor para o clube é sair. De certa forma, me libertei. Não quero ser um entrave. Estarei com o clube sempre. Quero ser uma solução, e acho que agora o melhor a fazer é sair no dia 30 de junho. A sensação de ser treinador do Barça é desagradável, cruel, eles te desrespeitam e isso prejudica muito a tua saúde mental”.

O que deu errado para Xavi no Barcelona?

Saídas importantes

Um dos pontos principais que ajudam a explicar o que deu errado para Xavi no Barcelona são as saídas importantes. O principal nome que deixou a Catalunha na virada da temporada foi Sergio Busquets, que tinha proposta de renovação nos Culés, mas recusou para assinar com o Inter Miami – de Messi e companhia. E a despedida do volante e capitão foi muito sentido pelo treinador.

Busquets era uma das referências do Barça e de Xavi Hernández, que passou a utilizá-lo mais como um camisa 5 defensor, responsável pela transição da defesa para o ataque. Além disso, o espanhol era um dos líderes do vestiário do Barcelona, onde ficou por 15 anos. E o volante não foi o único que fez falta para o técnico.

Jordi Alba também deu adeus aos Blaugranas para ir para a MLS. O lateral-esquerdo desempenhava um papel importante no elenco de Xavi, que tinha um jogador com características diferentes à disposição. A dupla ter deixado o Barcelona foi um duro golpe para o treinador espanhol, principalmente na defesa, que foi tão elogiada em 2022/23, mas virou um ponto fraco nesta temporada.

Defesa esfacelada

Sem Sergio Busquets e Alba, os Culés apostaram nas contratações de João Cancelo e Gundogan, que não supriram as saídas à altura esperada por Xavi Hernández. A defesa esfacelada do Barcelona se tornou presa fácil para equipes que jogam em contra-ataques. Além disso, a inconstância entre os zagueiros também foi um fator fundamental que afundou o trabalho do treinador na Catalunha.

Na última temporada, Koundé brilhou jogando na lateral-direita. Entretanto, o francês deixou claro a Xavi que era zagueiro de origem. O comandante do Barça acatou o pedido, realocando-o no centro da defesa. Só que a mudança piorou o aproveitamento lá atrás. Ronald Araujo chegou a atuar na função pela ala, mas sem o mesmo rendimento do companheiro de posição no Barcelona.

Cancelo não é conhecido por ser um lateral de marcação, assim como Gundogan não realiza o mesmo papel do camisa 5 de Xavi em 2022/23. Tudo isso contribuiu para a defesa dos Blaugranas se transformar em uma fraqueza nesta temporada, sofrendo muito mais gols. E, para piorar, o ataque não tem sido capaz de conter a diferença lá na frente. Lewandowski é um dos culpados por isso.

Lewandowski em baixa

Robert Lewandowski foi o artilheiro do Barcelona na conquista de La Liga em 2022/23, quando marcou 23 gols e distribuiu sete assistências. Era isso que Xavi Hernández esperava quando o centroavante foi contratado, já que ele tinha sido o melhor jogador do mundo no Bayern de Munique. Entretanto, o polonês piorou (demais) na virada de temporada, apresentando um futebol bem inferior.

Fato é que o Barcelona também já não cria jogadas com a mesma qualidade da última temporada, o que prejudica a missão de Lewandowski em balançar as redes. Aos 35 anos, o atacante se vê obrigado a deixar a área para buscar as bolas mais perto do meio-campo. Nesse ponto, Xavi também é responsável, já que o sistema ofensivo dos Culés como um tudo já não funciona como outrora.

Lesões atrapalham – principalmente a de Gavi

Como tem sido comum no futebol europeu em 2023/24, Xavi Hernández foi atrapalhado pelas frequentes lesões. Ter Stegen, Pedri, Lewandowski, Balde, Kounde, Araujo, Raphinha, De Jong e Inigo Martinez são apenas alguns exemplos de jogadores que precisaram ficar afastados no departamento médico nos últimos meses. E a principal perda do técnico do Barcelona é Gavi.

O meia rompeu o ligamento cruzado anterior a serviço da Espanha no final de 2023, abrindo um buraco no setor montado por Xavi. Gavi era um dos corações do time titular dos Culés, já que era crucial tanto para a defesa, quanto para o ataque. Sem ele, o treinador espanhol teve que se virar com o que tinha à disposição no Barcelona, que mal pode se reforçar devido aos profundos problemas financeiros.

Falta repertório a Xavi

Por fim, ainda falta repertório a Xavi Hernández, que está no início de sua carreira. O técnico do Barça insiste em manter o 4-4-2, que vira um 3-2-5 quando tem a posse da bola. Usando a mesma estratégia de 2022/23, o Barcelona se tornou previsível nesta temporada, já que os rivais já conhecem a forma de jogar e conhecem melhor as formas de impedir o avanço dos Culés.

Xavi não apresentou outros esquemas táticos para se adaptar às várias mudanças que vieram com 2023/24. Raphinha tende a cortar para o meio. João Félix tenta puxar a marcação da zaga adversária. Sem variação e improvisação, os Blaugranas bateram no teto, e o treinador não mudou sua forma de pensar. Teimoso, o espanhol também viveu poucas e boas à frente do time onde é ídolo. Por isso, o fim do casamento talvez tenha sido a melhor decisão.

Foto de Matheus Cristianini

Matheus Cristianini

Formado em Comunicação Social - Jornalismo pela Unesp, é apaixonado por esportes, acima de tudo o futebol. Por mais redundante que seja, ama escrever sobre o que é apaixonado, ficando de olho em tudo o que acontece dentro e fora de campo. Após passar por Antenados no Futebol, Bolavip Brasil, Minha Torcida e Esportelândia, se juntou à equipe da Trivela com muita vontade de continuar crescendo.
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