Valdés: “Nós, jogadores, vivemos uma vida irreal. Se pudesse voltar no tempo, não seria goleiro”
Victor Valdés esteve por anos próximo dos holofotes. A longa carreira no Barcelona, por mais que não fosse tão aclamado assim, tornou o goleiro um vencedor. Conquistou os principais títulos com a camisa blaugrana e resolveu um problema crônico do clube por anos, a falta de um arqueiro que mantivesse a regularidade. Só que, por trás do camisa 1 discreto, formou-se uma personalidade fortíssima. Algo demonstrado pelo catalão ao analisar sua vida e seus momentos no futebol durante esta semana.
Por mais que esteja de lado no Manchester United, a mágoa de Valdés vem de antes. A grave lesão no joelho obrigou o goleiro a pensar muito. E ele desenvolveu várias filosofias interessantes sobre a carreira de um jogador de futebol. Um meio do qual parece não se orgulhar de fazer parte, diante das pesadas críticas. Durante os longos meses em que permaneceu no estaleiro, o veterano diz ter voltado a “uma vida real”.
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“Vou deixar de lado as pessoas que te abandonam. Vou deixar de lado o mundo do futebol que te faz sentir um aleijado. Mas eu vou explicar um ensinamento que, graças a Deus, eu vivi: a lesão me fez voltar a sentir o que é a vida sem ser um jogador. Fui à Alemanha me recuperar, era difícil, mas eu ia conseguir de qualquer forma. Nós, futebolistas, vivemos uma vida irreal. Felizmente, eu voltei para a vida real, pagar um café, contar moedas. E essa cura de humildade me serviu agora que volto à atividade. Eu nunca mais serei uma estrela, porque eu estive lá. O futebol te afasta do mundo real. Diziam que eu já não valia mais nada, que estava acabado. Mas pode valer se quiser. E é sua força de vontade que precisa fazer chegar. Esse é o maior ensinamento”, afirmou Valdés, à rede colombiana RCN.
Falando sobre sua carreira, Valdés demonstra certa mágoa ao relembrar tudo o que construiu. As conquistas como goleiro do Barcelona, segundo ele, não valeram o caminho que atravessou até lá: “Não voltaria a ser goleiro. É uma coisa que seguramente mudaria. Sempre me fizeram acreditar que eu servia e assim fui indo até o profissional. Tive sorte que confiaram em mim. Mas não é um caminho fácil e não me compensou os anos em que sofri. Fui convencido que servia para jogar no gol desde pequeno, e me restou aceitar, seguir por esse caminho com máxima disciplina. Minha vida foi trabalhar, trabalhar e trabalhar até que chegasse ao time de cima. Mas, se tivesse que falar de futebol, falaria de mil momentos de sofrimento”
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Valdés ainda afirmou que sua saída do Barcelona não aconteceu como desejava, mas por suas próprias atitudes: “Eu mudaria muitas coisas. A vida é feita de caminhos cruzados e você tem que decidir quais os caminhos. Nisso transcorre sua vida e seu destino, que ao final está escrito. E a única maneira de mudar é voltando a nascer. As pessoas sempre esperam que você dê mais. Realmente minha despedida do Barcelona não foi a desejada, por culpa do tratamento e do meu caráter: peguei minhas coisas e fui. As pessoas seguramente esperavam muito mais de alguém como eu. Recrimino certas atitudes de minha pessoa”.
Por fim, o goleiro já começou a traçar seus planos para o fim da carreira. E ele quer seguir próximo do futebol, mas não exatamente como os ex-jogadores costumam fazer: “Não gosto da fama. Quando as luzes se apagarem, eu estarei com as crianças, ensinando o que acontece quando ela se acendem e desejando que se acendam para eles. Estarei aí para os pequenos, porque eles sim são honestos e não vão mentir, são o mais real que pode existir. Mas, para mim, já não será mais, e espero que não me encontrem mais quando isso tudo se acabar”.
O Manchester United, ao que parece, é uma das últimas tentativas de Valdés no futebol. Aos 33 anos, ainda tem lenha para queimar, por mais que o longo período afastado não deixe saber qual o seu real nível atualmente. Para quem está enfadado do futebol, resta aproveitar os últimos dias de carreira para ganhar mais algum dinheiro. Depois disso, o espanhol poderá decidir o que realmente fará da vida que redescobriu. Algo que ele diz não ter podido fazer desde a juventude.