
Jogadores formados em casa, técnico formado em casa, discurso afinado com os anseios da torcida e com a cultura da região. O Barcelona tinha um pacote ideal para ser visto como um processo orgânico, contínuo e sustentável. Mas não é*. Em algum momento, o clube dará passos para trás, e a saída de Pep Guardiola dá toda a pinta de que será o marco para a inevitável transição.
A questão não é a derrota para Chelsea e Real Madrid, que tirou do Barcelona as possibilidades nos dois principais torneios da temporada. Nem a perda de confiança ou de “aura de perfeição” em torno da equipe. Afinal, quase todos continuam considerando esse o melhor time do mundo e seu estilo, revolucionário. O que nem o melhor time do mundo pode evitar é que o futebol vive de ciclos.
É ilusão achar que esse Barcelona de toque de bola envolvente e jogadores jovens e identificados com o clube sempre existirá. O Barcelona tem um trabalho de base há décadas, mas só nos últimos anos surgiram dessa base nomes com nível para brigar pelo posto de melhor do mundo. Não é todo dia que se arruma Messi, Xavi e Iniesta na mesma leva. Do mesmo jeito, o estilo de jogo tem semelhanças com o do início dos anos 90, mas não tem nada a ver com o da virada do século.
As coisas vão e vêm. O futebol do Barcelona também. Em algum momento, o encanto acabará. Por quê? Porque atritos internos levaram a base a se desfazer. Ou porque algum clube ofereceria um dinheiro surreal pelos jogadores. Ou porque a pressão por vencer mais e mais – como se fosse possível – sufocaria o elenco. Ou porque os adversários criariam o antídoto. Ou porque… sim. Porque acontece.
Guardiola saiu sem deixar claro o motivo. Até falou sobre descanso, motivação, mas não convenceu completamente. É evidente que sua relação com Sandro Rosell nunca foi das melhores, pela ligação do técnico com Joan Laporta, adversário político do atual mandatário blaugrana. Até por isso ele enrolou tanto para renovar o contrato para a próxima temporada.
Quando for a outra equipe, o treinador terá em cima de si a cobrança de recriar o Barcelona. Dificilmente conseguirá. Não terá todo o contexto favorável para que isso ocorra. Terá de se reinventar, aprender a mesclar sua filosofia com os recursos que lhe estiverem disponíveis.
Do mesmo jeito que o Barcelona terá de se reinventar. A promoção do auxiliar Tito Villanueva para o cargo de técnico é uma indicação de que o clube quer manter o trabalho de Pep. Pode dar certo por um tempo, mas a tendência é que, com o tempo, o cenário comece a se modificar. Achar que esse time fantástico se deve apenas ao “sistema” é supervalorizar a lógica e o racionalismo e ignorar o papel dos indivíduos.
Essa era dos blaugranas ainda não acabou, e é importante entender que esse time é um dos grandes da história. De qualquer modo, a saída de Guardiola é o primeiro passo para essa equipes se tornar passado. Não é o fim do Barcelona, nem o fim de Guardiola, nem o fim do futebol. Mas eles serão reinventados. Igual ao que ainda é, não será por mais muito tempo.



