‘Humilhante’: Pedri conta como Real Madrid o ‘mandou para casa’ antes de brilhar no Barça
Meia espanhol foi rejeitado após uma semana de testes e precisou reconstruir o caminho até chegar ao clube catalão
Aos 23 anos, Pedri já ocupa um lugar de destaque no Barcelona e na seleção espanhola. O meio-campista foi peça importante na conquista da Copa do Mundo 2026 e se tornou um dos nomes de confiança de Luis de la Fuente. Antes de chegar a esse nível, porém, precisou atravessar uma experiência que ainda guarda na memória: uma semana de testes no Real Madrid que terminou com seu retorno para casa.
Em artigo publicado no “The Players Tribune”, o jogador das Ilhas Canárias revisitou os primeiros passos da carreira e contou como a família esteve presente em cada etapa. Entre lembranças da infância, o período de avaliação no clube merengue e a chegada ao Barça, Pedri mostrou que sua trajetória até o futebol de elite teve momentos de entusiasmo, mas também de frustração.
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O teste no Real Madrid que terminou antes do esperado
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A infância de Pedri foi marcada pela convivência com o futebol dentro de casa. Seu avô administrava a “Tasca Fernando”, um bar de tapas — pratos em miniatura com petiscos frios ou quentes, como azeitonas, queijos e croquetes — que também funcionava como ponto de encontro de torcedores do Barcelona nas Ilhas Canárias. Foi ali, entre mesas e paredes cobertas por fotos da família e de jogadores do clube, que o menino passou boa parte dos primeiros anos chutando bola.
O ambiente familiar ilustra a relação que Pedri construiu com o pai. Fernando González havia sido goleiro e precisou abandonar o sonho de seguir no futebol para assumir o restaurante depois da morte do avô. Ainda assim, segundo o meio-campista, a família fez questão de preservar sua infância e permitir que ele jogasse depois da escola.
— Meu pai tem uma visão fantástica da vida. Quando jovem, ele era um ótimo goleiro, mas teve que abandonar seu sonho quando meu avô faleceu para poder administrar o restaurante. Meu pai e meu tio eram os únicos garçons, até meu irmão crescer e eles o colocarem para trabalhar. Para ser sincero, eles nunca me fizeram trabalhar. Eles viram algo especial em mim. E eu sempre tive permissão para sair e jogar futebol depois da escola — disse.
A ligação entre os dois ganhou um significado especial depois da conquista do Mundial. Pedri lembrou que o pai sempre brincava sobre acompanhá-lo pelo mundo para garantir que não esquecesse suas coisas antes dos treinos. A promessa, que começou como uma piada de infância, acabou se transformando em uma lembrança ainda mais marcante quando o jogador chegou ao Barcelona.
Antes disso, no entanto, houve a tentativa de entrar no Real Madrid. Pedri contou que viajou a Madri com o pai para participar de um período de testes, mas encontrou uma estrutura que o deixou isolado. Enquanto os outros garotos já estavam instalados na residência e frequentavam as aulas, ele permanecia sozinho no hotel durante o dia, esperando pelo horário do treinamento.
— Eu ficava sozinho no hotel o dia todo, sem nada para fazer a não ser ficar olhando o celular até a hora do treino. Isso não era o ideal para o meu estado de espírito. Depois de uma semana, me mandaram de volta para casa.
— Simplesmente não era para ser. Para ser honesto, foi uma experiência humilhante. Não é legal voltar para casa e ver seus amigos quando todos sabem que você não se saiu bem.
A família, porém, ajudou a transformar a decepção em uma história que ele hoje recorda com carinho. A brincadeira de que seu avô jamais permitiria que ele jogasse no Real Madrid virou uma forma de aliviar o momento.
A oportunidade que mudou sua carreira veio pouco depois, com o convite do Barcelona após sua evolução na UD Las Palmas. O clube catalão abriu uma nova porta, mas a adaptação também exigiu que o jovem deixasse para trás a rotina conhecida nas Ilhas Canárias.
Da chegada ao Barça ao primeiro encontro com Messi
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Pedri chegou ao Barcelona durante a pandemia, acompanhado do irmão e sem carteira de motorista. Os dois precisavam pegar um táxi para os treinos, já vestidos com o uniforme, e foi em uma dessas viagens que o jogador viveu uma cena que jamais imaginaria quando ainda chutava bola no restaurante do avô.
Ao entrar na área dos jogadores da Ciutat Esportiva Joan Gamper, ele deu de cara com Lionel Messi. O argentino era a principal referência do time, e Pedri ainda estava tentando entender como seria dividir o vestiário com nomes que conhecia apenas pela televisão.
— É o Leo (Messi). Ele está bem na minha frente. Sério. Fiquei sem palavras.
O encontro foi menos formal do que o jovem imaginava. Messi sorriu, pediu que ele relaxasse e o acompanhou até o vestiário. Ainda assim, a presença das grandes figuras do elenco fazia com que Pedri e Trincão, que chegou ao clube na mesma época, demorassem a entrar no ambiente onde estavam Busquets, Piqué, Jordi Alba e o craque argentino.
Os dois passavam longos períodos na academia, fingindo que ainda precisavam alongar ou terminar algum exercício. A estratégia era simples: adiar o momento de entrar no vestiário e se sentar ao lado das lendas do Barcelona. Até que Messi percebeu a situação e decidiu agir.
— Ficávamos impressionados só de estar ali. No fim, foi o próprio Leo quem os abordou um dia. Ele deve ter percebido o que estava acontecendo e disse: ‘Ei, o que vocês estão fazendo aqui? Entrem com a gente.'
O gesto ajudou a quebrar a tensão dos primeiros dias. Pedri, que havia chegado ao clube vindo de uma realidade muito diferente, encontrou naquele momento uma forma de se sentir parte do elenco. A lembrança também mostra como a adaptação ao futebol de elite não se resume à qualidade técnica: há o peso de vestir uma camisa histórica, conviver com referências mundiais e encontrar espaço em um ambiente completamente novo.
Anos depois, o cenário é outro. Pedri deixou de ser o garoto que observava os companheiros de longe e passou a ocupar uma posição central no meio-campo do Barcelona. Na seleção espanhola, também ganhou protagonismo e participou da campanha que terminou com o título mundial. A trajetória, marcada pela recusa do Real Madrid e pela acolhida no Barça, ajuda a explicar por que o jogador trata a família e os primeiros passos da carreira com tanto valor.