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O Alcoyano não está só: As outras vezes que o Real Madrid foi eliminado na Copa do Rei por times da terceirona

O Real Madrid passou vergonha nesta quarta-feira, pelos 16-avos de final da Copa do Rei. Logo em sua estreia na competição, os merengues sucumbiram ao irrisório Alcoyano, recém-promovido à terceira divisão do Campeonato Espanhol. A eliminação teve contornos de hecatombe não apenas por quem estava do outro lado, com diversas estrelas madrilenas em campo, sobretudo saindo do banco. O Alcoyano protagonizou seu milagre de virada, ao arrancar o empate no fim do tempo normal e garantir a vitória mesmo após uma expulsão na prorrogação. E se a façanha representa um resquício de grandeza que não se vivia há tempos em Alcoy, o vexame não é exatamente novo aos madridistas. Pela quinta vez, todas desde 2000/01, o Real Madrid é despachado por um adversário da terceirona na Copa do Rei.

No século passado, as eliminações do Real Madrid na Copa do Rei contra adversários mais fracos não eram exatamente inexistentes, mas foram mais raras. Uma grande surpresa aconteceu em 1970/71, quando o Real Madrid sucumbiu nos 16-avos de final para o Deportivo de La Coruña. Os galegos tinham um amplo histórico na primeira divisão, mas na época militavam na segundona e derrubaram os merengues, então dirigidos por Miguel Múñoz. Já outra eliminação para um adversário da segunda divisão aconteceu em 1997/98, temporada na qual os madridistas reatavam sua história vitoriosa na Champions. Antes disso, caíram para o Alavés, que logo depois voltaria à elite, encerrando um hiato de 42 anos, e faria boas campanhas na virada do século.

Nada se compara, porém, aos desastres diante dos adversários da terceira divisão nas últimas duas décadas. Em tempos nos quais os abismos no futebol se ampliavam e o Real Madrid montava seus times galácticos, as eliminações se tornavam ainda mais surpreendentes. Abaixo, relembramos os quatro times que, assim como o Alcoyano, conseguiram desbancar os merengues e viver seu próprio milagre na Copa do Rei. Confira:

Toledo, em 2000/01

Numa edição da Copa do Rei que teve eliminatórias em partida única, o Toledo se aproveitou da oportunidade para despachar o Real Madrid. O clube castelhano passou boa parte de sua história na quarta divisão, mas fez seu sucesso na segundona durante a década de 1990, com sete participações consecutivas no segundo nível. Quando pegou os merengues, tinha acabado de cair à terceirona. Porém, do outro lado, estava o então vencedor da Champions League de 1999/00. Não tinha nem questionamento sobre o favoritismo dos madridistas na visita ao Salto del Caballo, o modesto estádio dos Verdes.

Vicente del Bosque não escalou o Real Madrid com força máxima. Ainda assim, a equipe contava com vários jogadores de destaque entre seus titulares – incluindo Manolo Sanchís, Fernando Hierro e Fernando Morientes. A vitória do Toledo por 2 a 1 se definiu rapidamente. A defesa madrilena parou quando Israel abriu o placar aos cinco minutos. Teria mais, com o segundo aos 14, num tiro de Cidoncha da entrada da área. Sávio conseguiu descontar para os madridistas cinco minutos depois, mas os visitantes não foram além, mesmo com tanto tempo no relógio. O Toledo poderia ter feito mais nos contra-ataques, mas também contou com a inspiração do goleiro José Ramón de la Fuente e com uma bola na trave de Sávio.

Em suas páginas, o jornal El País comparava a vitória do Toledo com a final do Mundial Interclubes, na qual o Real Madrid havia sido derrotado duas semanas antes. O Boca Juniors abriu dois gols de vantagem logo cedo e os merengues não souberam reagir, assim como aconteceu em Toledo – contra um adversário infinitamente mais frágil, claro. Os Verdes durariam apenas mais uma fase naquela Copa do Rei, eliminados na etapa seguinte pelo Rayo Vallecano.

Real Unión de Irún, 2008/09

O Real Unión era um velho conhecido do Real Madrid. Velho mesmo, já que o clube de Irún possui sua importância nos primórdios do futebol espanhol. Em tempos nos quais o País Basco servia como um dos principais centros do esporte local, o time situado na fronteira com a França nasceu importante. Em 1918, o Real Unión conquistou a Copa do Rei em cima do próprio Real Madrid, que tinha o ilustre Santiago Bernabéu em campo. Os bascos repetiram o feito na decisão de 1924, quando possuíam como goleiro Antonio Emery, o avô de Unai. Além disso, os fronterizos também superaram os madridistas nas semifinais de 1922 e 1927 – apesar dos 9 a 0 sofridos ante os merengues nas oitavas de 1933.

Graças à proeminência garantida pelos quatro títulos na Copa do Rei, o Real Unión participou da fundação de La Liga e disputou as quatro primeiras temporadas na primeira divisão. Entraria em declínio nos anos posteriores, passando grande parte das últimas décadas entre a terceira e a quarta divisão do Campeonato Espanhol. Ainda assim, o sorteio da Copa do Rei de 2008/09 promovia um reencontro histórico. Depois de 75 anos, os fronterizos pegavam o Real Madrid pela competição nacional. Do outro lado, estava um clube bem mais poderoso que nos anos 1930. Mesmo assim, os bascos não se intimidaram.

A partida de ida aconteceu no Estádio Gal, casa do Real Unión desde 1926. O Real Madrid treinado por Bernd Schuster não era tão forte quanto nos anos posteriores, mas escalou uma equipe cheia de jovens badalados e alguns veteranos. Foram titulares Gonzalo Higuaín, Javier Saviola e Marcelo, além de Guti, Gabriel Heinze e Jerzy Dudek. Contudo, os bascos fizeram valer seu mando de campo com a vitória por 3 a 2.

Juan Domínguez colocou os anfitriões em vantagem e Higuaín empatou pouco depois. O Real Unión, ao menos, fechou o primeiro tempo na frente graças ao tento de Iosu Villar. No início da segunda etapa, os merengues voltaram a empatar com Saviola. Mas o triunfo seria mesmo dos fronterizos, com Iñaki Goikoetxea aproveitando a pane da zaga para fazer o terceiro dos azarões. Aquele jogo ainda seria marcado, logo nos primeiros minutos, por um desmaio de Rubén de la Red. O meio-campista logo depois descobriria um sério problema cardíaco, que encerrou sua carreira aos 25 anos.

A volta, dentro do Estádio Santiago Bernabéu, viu Schuster escalar uma equipe mais forte – ainda que não estivesse completa. Raúl, Fabio Cannavaro, Wesley Sneijder e Rafael van der Vaart foram acréscimos ao 11 inicial. Nem eles evitaram o desastre, com a vitória do Real Madrid por 4 a 3 se tornando insuficiente, graças a um gol do Real Irún aos 44 do segundo tempo. Os bascos até abriram a contagem, com Paul Abasolo. Raúl buscou o empate no primeiro tempo. Asier Salcedo recolocou os visitantes em vantagem no início da segunda etapa. Só então os merengues acordaram e construíram um placar mais amplo, com mais dois de Raúl e outro de Alberto Bueno.

O quarto gol do Real Madrid, que ia evitando a prorrogação e garantindo a classificação direta, saiu aos 40 do segundo tempo. Porém, os merengues mal tiveram tempo de sentir o alívio. O tento que definiu a classificação do Real Unión e fez explodir as vaias no Bernabéu aconteceu quatro minutos depois. A partir de um cruzamento, o substituto Eneko Romo definiu de cabeça e selou a classificação dos azarões. Os fronterizos também caíram na fase seguinte da Copa do Rei, nas oitavas. Pegaram o Betis e sofreram duas derrotas por 1 a 0. Já aquela temporada de 2008/09 foi a última em que os madridistas acabaram sem nenhum título. Schuster foi demitido menos de um mês depois da eliminação.

Alcorcón, em 2009/10

Se parecia impossível que o Real Madrid fizesse pior na Copa do Rei, ele conseguiu se superar uma temporada depois. O Alcorcón proporcionou a maior vergonha dos merengues na história da competição nacional, no famoso “Alcorconazo”. O clube dos subúrbios de Madri havia sido fundado em 1971 e permaneceu até a virada do século entre a quarta e a quinta divisão. Subiu à terceirona em 2000 e engatilhava a promoção inédita ao segundo nível de La Liga naquela mesma temporada de 2009/10, mas antes disso os Alfareros se apresentariam para o resto do país com a humilhação dos merengues.

Os péssimos resultados de 2008/09, alinhados ao sucesso do Barcelona com Pep Guardiola, fizeram o Real Madrid se mexer. Trouxeram Manuel Pellegrini para o comando, ao passo que também contrataram Cristiano Ronaldo e Kaká. Mas, ainda que o desempenho tenha melhorado em La Liga, na Copa do Rei as novidades não seriam suficientes para evitar a eliminação. Para se ter uma ideia, na época o Real Madrid tinha uma folha de pagamentos anual na casa dos €110 milhões, contra apenas €1 milhão do Alcorcón. Os jogadores dos Alfareros recebiam por ano, em média, €36 mil – menos do que Cristiano Ronaldo lucrava no clube por dia. No dia anterior ao primeiro jogo, um dos patrocinadores merengues ofereceram carros novos a todos os jogadores do elenco, avaliados em €2 milhões.

O Estádio Santo Domingo, na periferia de Madri, recebeu 3 mil testemunhas à vitória retumbante do Alcorcón por 4 a 0. Pellegrini escalou um time misto que não contava com seus maiores craques, mas tinha estrelas do calibre de Guti, Raúl, Karim Benzema e Rafael van der Vaart, enquanto Ruud van Nistelrooy e Marcelo saíram do banco. O Alcorcón era dirigido na época por Juan Antonio Anquela – que rodaria por outros clubes e atualmente dirige de novo os Alfareros. Já em campo, entre os destaques estavam o goleiro Juanma (com passagem pelo Atlético de Madrid), o zagueiro Iñigo López (que logo depois jogaria na primeira divisão pelo Granada), o meia Ernesto (que havia passado pelo Real Madrid Castilla) e o ídolo Rubén Sanz (que somou 13 anos no meio-campo do Alcorcón).

A zebra deu as caras logo no primeiro tempo do encontro no subúrbio de Madri. O Alcorcón abriu três gols de vantagem de cara. Francisco de Borja anotou o primeiro aos 16, num chute que acertou o canto da meta de Jerzy Dudek. Aos 22, Álvaro Arbeloa contribuiu aos adversários e marcou contra. Já o terceiro, aos 39, nasceu em um contra-ataque concluído por Ernesto. Cabe dizer que o goleiro Juanma realizou boas defesas na primeira etapa para negar a reação do Real Madrid, mas o Alcorcón também propôs o jogo e acuou os poderosos.

Na volta ao segundo tempo, a defesa do Real Madrid cochilou e o Alcorcón fechou a conta, novamente com gol de Borja. Depois disso, os anfitriões ainda perderiam o quinto na pequena área. O Real Madrid tentaria descontar, mas Juanma acumulou boas defesas e manteve sua meta invicta. Nas arquibancadas, Florentino Pérez parecia não acreditar naquilo que se concretizava diante de seus olhos. E a torcida presente no Santo Domingo invadiu o campo efusivamente para comemorar a façanha depois do apito final.

Apesar dos pedidos de demissão, Pellegrini se manteve no cargo. O Real Madrid foi a campo no Bernabéu com uma equipe mais forte, que incluía a presença de Kaká entre os titulares, além de Raúl, Van Nistelrooy, Pepe e Higuaín. O Alcorcón não conseguiu vencer de novo, mas a derrota por 1 a 0 acabava se tornando um grande lucro. Os Alfareros seguraram a pressão com uma grande atuação de Juanma. Quando Van Nistelrooy teve a chance de abrir o placar, acertou o travessão. O gol do triunfo só saiu aos 36 do segundo tempo, com Van der Vaart. E os visitantes quase buscaram o empate, em dois bons contra-ataques que Dudek salvou. Se a torcida merengue vociferava contra seu time, também reconheceria o feito dos pequeninos, aplaudindo a classificação logo depois do apito final.

O Alcorcón parou na fase seguinte da Copa do Rei, as oitavas de final, ao perder em casa diante do Racing de Santander e só empatar fora. Os Alfareros, no entanto, cresceram um pouco mais depois daquela surpresa. A equipe conquistou o título da terceira divisão do Campeonato Espanhol em 2009/10 e, desde então, emendou 11 temporadas consecutivas na segundona. Quase sempre fica pelo meio da tabela, mas já disputou os playoffs de acesso no início da década passada. Na atual campanha, porém, os amarelos são ameaçados pelo rebaixamento.

Cádiz, em 2015/16

A classificação menos heroica dos times da terceira divisão contra o Real Madrid foi experimentada pelo Cádiz. Na época, os clube andaluz ainda militava na terceira divisão e levaria um tempo para retornar à elite, com o acesso conquistado na temporada passada rememorando os melhores momentos da tradicional agremiação. Pelos 16-avos de final, os merengues até venceram por 3 a 1 o jogo de ida dentro do Estádio Ramón de Carranza. Isco marcou dois gols e Denis Cheryshev também deixou o seu, enquanto os anfitriões só descontaram no final, com Kike Márquez. Porém, haveria um grande problema.

O próprio Cheryshev não poderia ter sido escalado. Emprestado ao Villarreal na temporada anterior, o russo estava suspenso na Copa do Rei por acumulo de cartões amarelos e acabou escalado de maneira indevida contra o Cádiz. O Real Madrid não percebeu o erro e, por conta disso, os andaluzes tiveram a vitória por 3 a 0 decretada na justiça desportiva, garantindo também a classificação automática sem precisar jogar a volta. Um detalhe curioso é que a irregularidade foi noticiada pela imprensa espanhola ainda durante o jogo e, nas arquibancadas do Ramón de Carranza, a torcida local começou a provocar cantando um “Cheryshev, te quiero”, por já saberem que o resultado seria anulado.

O Cádiz foi eliminado na fase seguinte da Copa do Rei, amassado pelo Celta com o placar de 5 a 0 no agregado. O Real Madrid não manteria Rafa Benítez por tanto tempo no cargo e promoveria Zinedine Zidane um mês depois da vexatória eliminação nos tribunais. O novo técnico conquistou o tricampeonato da Champions, mas nunca se deu bem na Copa do Rei. Antes de cair para o Alcoyano, também amargou eliminações dolorosas na competição, com a lembrança principal ao “Pepinazo” do Leganés (então na primeira divisão, mas ameaçado pelo rebaixamento), que se classificou dentro do Bernabéu em 2017/18.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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