O Alcoyano impôs um ridículo imensurável ao Real Madrid: com um a menos, virou na prorrogação e tirou os gigantes da Copa do Rei
O apito final mal soou e uma erupção de gente brotou à beira do campo no modesto Estádio El Collao, com capacidade para 5 mil espectadores. Jogadores e membros da comissão técnica, afinal, tinham motivos para a euforia: o pequeno Alcoyano, recém-promovido à terceira divisão do Campeonato Espanhol, havia acabado de eliminar o Real Madrid na Copa do Rei. O triunfo ainda teve seus contornos épicos, com os valencianos buscando o empate no fim do tempo normal e virando por 2 a 1 na prorrogação, mesmo com um jogador expulso. Zidane era a face de um dos maiores vexames da história madridista, que contou com participações de Benzema, Marcelo, Casemiro, Hazard, Kroos e outros astros do outro lado. Nada que diminuísse o feito do Alcoyano, representante de uma cidade de 58 mil habitantes, que avançou às oitavas de final. De quebra, seu herói ainda foi um goleiro que completará 42 anos na próxima semana.
O Alcoyano é um clube histórico da Comunidade Valenciana, mas modesto. Fundado em 1928, o time até disputou quatro temporadas na elite do Campeonato Espanhol, só que não figura na primeira divisão desde 1951. Foi nesta época que a equipe registrou sua melhor campanha na Copa do Rei, quadrifinalista em 1946, ao eliminar um poderosíssimo Athletic Bilbao e sucumbiu diante do próprio Real Madrid – futuro campeão, mas que sofreu para assegurar aquela classificação sobre os valencianos. Em 1947, os blanquiazules ainda acabariam o Espanhol à frente dos merengues, outro de seus orgulhos.
Durante a maior parte de sua trajetória, de qualquer forma, o Alcoyano se manteve entre a terceira e a quarta divisão de La Liga. Até pintou brevemente na segundona em 2011/12, em passagem de uma temporada, antes de se acostumarem novamente com as campanhas de meio de tabela na terceirona. Já em 2019, o Alcoyano retornou à quarta divisão após 15 anos. Pelo menos, o acesso seria imediato na campanha passada. Os nanicos mal esperariam o que aconteceria meses depois.
O Alcoyano briga pelo acesso na atual edição da terceirona, mas em seu grupo está atrás do Ibiza (o responsável por eliminar o Celta na Copa do Rei) e do tradicional Hércules. Assim, não era necessariamente um candidato a surpresa na copa, por mais que tenha aprontado na fase anterior. Os valencianos já haviam eliminado o Huesca, outra equipe da primeira divisão, mas muito distante das proporções do Real Madrid. Isso até que o desafio diante dos merengues viesse nesses 16-avos de final. Treinado por Vicente Parras, antigo comandante na base do Elche, os desafiantes iriam além de seus limites.
O Real Madrid preferiu escalar vários jovens. Apesar disso, era uma equipe com Marcelo, Casemiro e Isco entre os titulares. Vinícius Júnior, Éder Militão, Federico Valverde e Lucas Vázquez também estavam na formação inicial. Já o Alcoyano se via longe da mesma badalação, com um elenco que custa €700 mil anuais. Seus principais nomes eram os veteranos. Jony Ñíguez, meio-campista de 35 anos, possui uma carreira que inclui passagens pelos times C e B dos merengues – embora o capitão seja mais reconhecido como o irmão mais velho de Saúl Ñíguez. Mais à frente estava Jona, atacante de 32 anos com sete partidas pela seleção hondurenha. De qualquer maneira, a referência era José Juan. O goleiro de 41 anos jogou anteriormente por Celta e Granada, em trajetória concentrada nas divisões de acesso. Já na temporada passada, o veterano desembarcou em Alcoy para livrar sua nova equipe da quarta divisão. Ficaria para muito mais.
Quando a bola rolou, a partida não dava tanta pinta de zebra. O Real Madrid não impressionava, mas começou à frente e logo sentiu a presença de José Juan, com o goleiro realizando defesas seguras. Só que faltava muito mais para os merengues forçarem a bem postada defesa adversária, muito compacta. O ataque não se encontrava, com pouco entrosamento entre os jogadores. O trio formado por Vinícius Júnior, Mariano Díaz e Lucas Vázquez era inócuo, apesar da participação de Isco na armação. Nem as individualidades apareciam. Pouquíssimo, a um time que precisava de respostas diante da crise recente.
O Alcoyano exigiria a primeira defesa de Andriy Lunin aos 33 minutos, numa cabeçada de Mourad El Ghezouani que o goleiro mandou para escanteio. Só então o Real Madrid pareceu um pouco mais disposto a armar os ataques e conseguiu o seu gol antes do intervalo. Depois de uma cobrança de escanteio, Marcelo pegou na esquerda e cruzou para a área. Militão ganhou pelo alto e acertou a cabeçada no canto, sem chances a José Juan. Era um alívio, mas significava pouco aos merengues.
O Real Madrid começou o segundo tempo mais acomodado, limitado a chutes de longe. Quando Lucas Vázquez tentou, José Juan salvou os valencianos. Zinedine Zidane acionou Karim Benzema no banco, mas foi o Alcoyano que se atreveu a atacar mais na segunda etapa, com três trocas de uma só vez para ganhar verticalidade. José Juan segurava as pontas atrás e seus companheiros tentavam achar um gol na frente. O goleiro chegou a fazer um desarme vital quando Vinícius Júnior arrancava para o segundo, parando o brasileiro fora da área.
O gol de empate saiu pouco depois, aos 34. A partir de uma cobrança de escanteio fechada, Ramón López desviou no primeiro pau e José Solbes completou sozinho do outro lado, diante do vacilo de Vinícius Júnior na marcação. Dois substitutos fizeram a diferença. Quase deu tempo de sair a virada na jogada aérea. Já no fim, apesar da tentativa dos madridistas em evitar a prorrogação, o time mal criaria oportunidades, reclamando de uma penalidade negada pela arbitragem – sem a possibilidade de confirmar a marcação no VAR, ausente nesta fase da Copa do Rei. O Alcoyano também conteve os visitantes com competência e ganhou 30 minutos a mais para o seu sonho.
Zidane mandava a campo suas estrelas para o tempo extra. Eden Hazard, Toni Kroos e Marco Asensio entraram na prorrogação. O Alcoyano não se entregava, mantendo sob controle as ameaças e dependendo de José Juan para brecar Benzema no principal lance. Além disso, os anfitriões transformavam cada bola parada no ataque como a jogada de suas vidas. Contudo, no início do segundo tempo adicional, as esperanças dos valencianos pareciam ruir: Ramón López recebeu o segundo amarelo e foi expulso. Com um a menos, os nanicos precisariam lutar dobrado.
Restavam cerca de dez minutos no relógio para o Real Madrid evitar os pênaltis, mas José Juan seguia inspirado. Marcelo bateu cruzado e, de novo, o veterano se agigantou para evitar o tento. Na sobra, Valverde mandou para fora. E quando o jogo parecia pronto a se tornar um monólogo dos merengues, o Alcoyano conseguiu seu milagre num contra-ataque. Alberto Rubio puxou o ataque pela esquerda e acionou Ali Diakité. O substituto cruzou para a pequena área e Juanan Casanova se antecipou a Lunin, mandando às redes. Parecia impossível, mas os dez homens do Alcoyano viravam para cima do Real Madrid.
Durante os minutos finais, o Real Madrid seria puro desespero. Ficaria em cima, sem qualquer capacidade para furar a retranca adversária. A defesa do Alcoyano travou a pressão e saiu vitoriosa sem depender da loteria nos pênaltis. O apito final, então, guardou a efusiva comemoração dos valencianos. O tamanho da façanha merecia tal alegria, ainda mais pela situação da partida. Uma pena que o Estádio El Collao não estivesse cheio com sua torcida. Quem viu de casa, ainda assim, nunca se esquecerá. O Real sucumbir a um time da terceirona na Copa do Rei nem é tão raro assim, com a quinta eliminação, todas desde 2001. Mas o orgulho da cidade de Alcoy é único.
Ao lado do Navalcarnero, algoz do Eibar, o Alcoyano é um dos únicos times da terceirona nas oitavas da Copa do Rei. Ibiza e Cornellà ainda têm chances, mas para tanto precisarão passar por Athletic Bilbao e Barcelona nesta quinta. Seguir além das oitavas de final é o objetivo dos valencianos, mas não dá para negar que sua grande história já está contada. A noite heroica desta quarta-feira é daquelas que será desfrutada por muitos anos e recontada por gerações. Merece a exaltação. Já ao Real Madrid, há uma crise que se aprofunda e à qual Zidane não apresenta soluções, cada vez mais incerto no cargo.



