O velho dilema de Mbappé e Vinícius Junior para Mourinho resolver no Real Madrid
Equipe merengue vem de derrota no clássico com o Atlético de Madrid, no domingo
Mais do que a derrota, o Real Madrid deixou uma péssima impressão diante do Atlético de Madrid. Para além da queda de intensidade no 2º tempo — que tem se repetido desde o início da temporada, cabe ressaltar –, os Merengues voltaram a apresentar um problema que antecede a chegada de José Mourinho: a sobrecarga no lado esquerdo causada por Kylian Mbappé e Vinícius Junior.
Ponta-esquerda de origem, o brasileiro é o dono do setor desde os tempos de Carlo Ancelotti, que inclusive o potencializou para a briga da Bola de Ouro em 2023/24. Entretanto, desde que desembarcou no Santiago Bernabéu na temporada seguinte, o francês tem promovido uma forte concorrência no setor, já que tem o costume de deixar a grande área para buscar o jogo por ali.
E o fenômeno tático voltou a ficar visível nos últimos dois jogos do Real Madrid antes da pausa para a Data Fifa, com Mbappé e Vinícius Junior praticamente se sobrepondo na comparação do posicionamento médio dos dois na vitória sobre o Elche (3 a 2 ), e o já citado tropeço no clássico (2 a 1 para os Colchoneros).
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As consequências do congestionamento causado por Vinícius Junior e Mbappé no Real Madrid
A preferência dos Merengues para criar suas principais jogadas ofensivas pelo lado esquerdo não é algo recente, e tampouco é um problema por si só. Quase todas as equipes tem uma faixa do gramado que costuma apresentar mais perigo do que as outras, tanto que os times que são fortes nas três zonas são raros. O problema é o desequilíbrio causado pelo congestionamento dos craques do Real Madrid.
Quando Kylian Mbappé resolve encostar na faixa originalmente ocupada por Vinícius Junior, o centro de ataque fica sem uma referência. Logo, a estrutura dos Merengues precisa se deslocar mais à esquerda para oferecer apoio ao francês e ao brasileiro. Como consequência, os adversários conseguem se compactar com maior eficácia, restando vencer os duelos individuais — o que fica mais fácil em espaços reduzidos — para frear o Real Madrid.
Por que? Sem Mbappé próximo à região central da área, se movimentando para se desprender dos zagueiros, compactar as linhas é suficiente para impedir os avanços com bola dos Merengues.
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Esse “bate-cabeça” com o camisa 10 explica, em parte, as fracas atuações do camisa 7 até aqui, assim como seu compromisso pela recomposição defensiva mais aguçado sob o comando do técnico português. Não se pode suavizar a oscilação individual do próprio Vinícius Junior, que está longe de seu máximo potencial, porém, a disputa por protagonismo com Kylian Mbappé na esquerda mais atrapalha do que ajuda o Real Madrid.
Lado direito enfraquecido
Por mais óbvio que seja, é importante deixar claro que a dependência pelo lado esquerdo enfraquece as construções do Real Madrid pela direita. Brahim Díaz e Arda Güler, que já jogaram por ali com Mourinho, têm como característica cortar para dentro para combinar suas jogadas. Jude Bellingham, por sua vez, já está por ali por ter o perfil de aparecer como elemento surpresa vindo de trás,
Para compensar a balança que pende para a esquerda, quem está do lado contrário naturalmente vai se deslocar para o centro na tentativa de participar mais do jogo. Mais uma vez, isso cria um descompasso coletivo, facilitando o trabalho do adversário para se defender em bloco baixo. Nesse cenário, contra adversários de nível inferior, o Special One tem potencializado Carlos Espí como solução emergencial vindo do banco de reservas.
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O centroavante de imposição física e força no jogo aéreo está correspondendo com gols decisivos justamente por cumprir o papel do francês nos momentos em que ele aproveita de sua liberdade de movimentação. Entretanto, quando o rival se aproxima em termos de competitividade, a falta de força na direita cobra seu preço: a previsibilidade para atacar pela esquerda.
Por que trocar os atacantes de posição não resolve a questão?
Talvez essa ideia tenha passado por sua cabeça em algum momento: “ora, se o Mbappé quer tanto assim jogar na esquerda, por que não trocâ-lo de posição com Vinícius Junior, que passaria a atuar pelo centro?”. De fato, essa seria uma opção plausível, principalmente levando em consideração que o camisa 7 já jogou centralizado na seleção brasileira e no próprio Real Madrid.
Só que a mera troca de posição entre os atacantes cria um novo dilema para José Mourinho: a fase defensiva. Justiça seja feita, o camisa 10 tem evoluído desde à Copa do Mundo nas pressões em linhas altas, tentando desarmar o portador da bola ou interceptar uma passe durante a saída adversária em seu próprio campo. Esse foi um compromisso assumido pelo próprio Kylian Mbappé para continuar evoluindo como jogador.
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Contudo, na ponta-esquerda, o francês teria que correr para trás, assim como o brasileiro tem feito, nos momentos que o rival disparar pelo setor. Uma coisa é pedir para que Mbappé exerça a marcação dos zagueiros, com períodos de descanso quando a bola está perto da área dos Merengues. Outra coisa é exigir que ele seja um auxiliar de lateral, cuja exigência física causa um desgaste infinitamente maior. E liberá-lo da recomposição na esquerda é um convite para o adversário explorar esse buraco.
E qual a solução para esse problema em jogos grandes?
Existem pelo menos três respostas para esse problema. A primeira delas envolve uma maior participação de Yan Diomandé, que ainda está se adaptando aos Merengues. O ponta tem como característica avançar em velocidade até à linha de fundo para tentar o drible em situações de 1 x 1, assim como o brasileiro faz no flanco oposto. E devido sua ambidestria, o marfinense pode ser a salvação para um lado direito ineficiente.
Voltemos ao jogo contra os Franjiverdes. No segundo gol dos Merengues, Federico Valverde lançou um bolão nas costas da defesa para Diomandé, que fez um cruzamento rasteiro para Kylian Mbappé finalizar perto da marca do pênalti. Esse é um bom exemplo de como o Real Madrid pode alargar as marcações rivais ao apostar no camisa 25, que tem intensidade e qualidade técnica para oferecer algo parecido ao que Vinícius Junior faz na esquerda.
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Outra solução seria limitar os deslocamentos do camisa 10. É claro que não é uma questão de proibir Mbappé de cair pela ponta, mas evidenciar sua influência no jogo sem bola e a importância de ocupar o setor central prioritariamente, onde deve ter as melhores oportunidades para concluir, ou, pelo menos, gerar os espaços para os pontas causarem maior impacto.
Caso o atacante francês não esteja disposto a seguir essa instrução, a outra alternativa é colocar ele ou o camisa 7 como reserva. Não adianta ter Vinícius Junior e Kylian Mbappé como titulares se ambos vão querer desempenhar as mesmas funções no lado esquerdo. Contudo, colocar uma dessas figuras no banco de reservas é a saída mais improvável por questões que ultrapassam as quatro linhas — peso midiático, possível reação de desagrado, influência no ambiente do vestiário, etc…
Uma coisa é certa: cabe a José Mourinho resolver essa questão, e não se esconder atrás das críticas à arbitragem, até porque essa estratégia não vai acabar com o jejum de títulos dos Merengues.