La Liga

Zidane deixa o Real Madrid atirando: “Saio porque sinto que o clube já não me dava a confiança que eu preciso”

Técnico divulgou carta que deixa claro que sua saída agora é diferente da última vez, em 2018, e que faltou respeito e apoio da diretoria do Real Madrid

A saída de Zinedine Zidane do Real Madrid não foi exatamente uma surpresa. O anúncio feito na última quinta-feira só confirmou o que já se esperava. Dois anos depois de chegar, o ídolo francês deixaria o cargo mais uma vez. Desta vez, porém, é diferente. Foi o que o próprio francês deixou claro em uma carta aberta divulgada pelo jornal espanhol AS. Suas palavras foram duras especialmente com a diretoria do Real Madrid, e Florentino Pérez em particular. Para ele, faltou apoio, respeito e memória.

O lendário jogador merengue assumiu o posto de técnico do Real Madrid pela primeira vez em janeiro de 2016. Conduziu a equipe a três títulos consecutivos da Champions League, algo que nenhum clube tinha conseguido desde que o torneio foi reformulado e ganhou esse nome. Ficou até maio de 2018, quando achou que o grupo precisava de um novo discurso. Voltou em março de 2019, substituindo Santiago Solari, que por sua vez tinha substituído Julen Lopetegui. Pouco mais de dois anos depois, deixa novamente o clube. Agora, porém, atacando a diretoria.

Reproduzimos abaixo a carta da Zidane. E sobra até para a imprensa no recado do técnico. Confira:

Queridos madridistas,

Há 20 anos, desde o primeiro dia que pisei na cidade de Madri e vesti a camisa branca, vocês me deram o seu carinho. Sempre senti que havia algo muito especial entre nós. Tivemos uma grande honra de ser jogador e treinador do clube mais importante da história, mas antes de tudo sou um madridista a mais. Por tudo isso que queria escrever esta carta para me despedir de vocês e explicar minha decisão de deixar o cargo.

Quando em março de 2019 aceitei voltar a treinar depois de um descanso de oito meses foi porque o presidente Florentino Pérez me pediu, é claro, mas também vocês me diziam isso a cada dia. Quando encontrava um de vocês na rua, sentia o apoio e o desejo de me ver outra vez com a equipe. Porque compartilho os valores do madridismo, este clube que pertence aos seus sócios, seus torcedores, ao mundo inteiro. Tentei transmitir eu também esses valores em tudo que fiz, tentei ser um exemplo. Passar 20 anos em Madri foi a coisa mais bonita que aconteceu na minha vida e sei que devo exclusivamente a Florentino Pérez, que apostou em mim em 2001, que brigou por mim, para me fazer vir quando havia gente que estava contra. Eu digo de coração, sempre estarei agradecido ao presidente por isso. Sempre.

Agora eu decidi sair e quero explicar as minhas razões. Eu vou, mas não deixo o barco e não estou cansado de treinar. Em maio de 2018, eu saí porque depois de dois anos e meio com tantas vitórias e tantos troféus, sentia que a equipe precisava de um novo discurso para manter-se no nível mais alto. Hoje as coisas são diferentes. Eu saio porque sinto que o clube já não me dava a confiança que eu preciso, não me oferecem apoio para construir algo a médio ou longo prazo. Conheço o futebol e conheço a exigência de um clube como o Real Madrid, sei que quando você não ganha, tem que sair. Mas aqui se esqueceram de uma coisa muito importante, esqueceram o que foi construído no dia a dia, o que trouxe na relação com os jogadores, com as 150 pessoas que trabalham com e ao redor da equipe. Sou um ganhador nato e estava aqui para conquistar troféus, mas além disso, estes são seres humanos, as emoções, a vida e tenho a sensação que essas coisas não foram valorizadas, que não se entendeu que assim também se mantém a dinâmica de um grande clube. Inclusive, de certa forma, me censuraram.

Quero que se respeite o que fizemos entre todos. Gostaria que nos últimos meses a minha relação com o clube e com o presidente fosse um pouco diferente a de outros treinadores. Não pedia privilégios, claro que não, mas sim um pouco mais de memória. Hoje a vida de um técnico no banco de um grande clube é de duas temporadas, não muito mais. Para que dure mais tempo, as relações humanas são essenciais, são mais importantes que o dinheiro, mais importantes que a fama, mais importantes que tudo. Temos que cuidar delas. Por isso me doía muito quando lia na imprensa, depois de uma derrota, que iam me demitir se eu não ganhasse o próximo jogo. Doía a mim e na equipe, porque essas mensagens filtradas intencionalmente aos meios de comunicação criavam interferências negativas no elenco, criavam dúvidas e mal-entendidos. Menos mal que tinha rapazes maravilhosos que estavam até a morte comigo. Quando a coisa ficava feia, me salvavam com grandiosas vitórias. Porque acreditavam em mim e sabiam que acreditavam. Claro que não sou o melhor treinador do mundo, mas sou capaz de dar a força e confiança que cada um precisa no seu trabalho, seja jogador, membro da comissão técnica ou qualquer empregado. Sei perfeitamente o que uma equipe precisa. Ao longo destes 20 anos no Real Madrid, aprendi que vocês, os torcedores, querem ganhar, claro que sim, mas antes de tudo, querem que nós demos tudo, o treinador, a comissão técnica, trabalhadores e, claro, os jogadores. E posso assegurar que demos 100% de nós mesmos pelo clube.

Também aproveito esta carta para lançar uma mensagem aos jornalistas. Fizemos centenas de coletivas de imprensa e por desgraça falamos muito pouco de futebol e sei que vocês também amam o futebol, este esporte que nos une. Porém, sem pretender criticar ou dar lições, gostaria que as perguntas nem sempre fossem dirigidas à polêmica, que tivéssemos falado mais de futebol e sobretudo dos jogadores, que são e sempre serão os mais importantes deste jogo. Não esqueçamos do futebol, cuidemos do futebol.

Queridos madrididstas, sempre serei um de vocês.

Hala Madrid!

Zinedine Zidane

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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