La Liga

Suárez se casou perfeitamente com o espírito do Atlético de Madrid e também foi transformador ao título colchonero

Com 21 gols e momentos decisivos na ótima largada e no fim contundente do Atlético, Luisito deu sua volta por cima

O Atlético de Madrid campeão espanhol em 2020/21 possui muitas faces marcantes. Diego Simeone, mais uma vez, levou os colchoneros ao topo. Jan Oblak de novo fechou o arco rojiblanco em inúmeras partidas, assim como Koke foi um capitão de muita representatividade junto aos companheiros. De qualquer forma, a grande diferença em relação a outros momentos imponentes do Atleti surgiu no comando do ataque. Luis Suárez chegou para transformar a equipe no Wanda Metropolitano e, também, para dar uma resposta àqueles que viam sua forma como insuficiente para o mais alto nível – sobretudo o próprio Barcelona. O Pistolero, no fim das contas, permitiu um Atlético mais agressivo que em outros tempos e repetidas vezes decidiu partidas. Ninguém merecia mais a honra de marcar o gol do título, e o uruguaio não esconderia a emoção pela redenção na capital.

Suárez chegou ao Atlético de Madrid em meio a momentos muito conturbados, vale lembrar. Apesar da história vitoriosa no Barcelona, o centroavante saiu pela porta dos fundos, sem que a diretoria achasse válido pagar seu suntuoso salário pelo futebol apresentado. De fato, o Pistolero vinha de fases irregulares e lesões sérias, mas ainda assim tinha boas sequências esporádicas no Camp Nou. Até por isso, outros clubes de peso quiseram levá-lo. A Juventus bem que tentou, mas a tentativa de tirar cidadania italiana virou caso de polícia. O Atlético de Madrid, então, virou uma oportunidade mais que bem-vinda ao uruguaio – por mais que o Barça tenha relutado em liberar seu ídolo para um dos grandes concorrentes ao título de La Liga.

Diego Simeone teve influência direta para contratar Suárez. O treinador ligou para o atacante e garantiu que seu futebol seria valorizado no Metropolitano. Por lá, o uruguaio não encontraria apenas outros sul-americanos para se adaptar, como também veria um estilo de jogo que poderia potencializar suas virtudes. Num ataque explosivo e vertical, nada melhor do que contar com um homem agressivo como Luisito, mesmo que seu declínio físico fosse perceptível. Além disso, havia algo de mentalidade que parecia providenciar o casamento promissor entre o artilheiro e seu novo clube. Ele também se apaixonou com a ideia.

O Barcelona quis cobrar uma pequena fortuna do Atlético pelo negócio, em reflexo direto da tumultuada transferência de Antoine Griezmann. Os blaugranas aceitavam liberar Suárez para alguns clubes europeus, mas o Atlético não parecia uma opção no começo. Todavia, a vontade do jogador pesou bastante. O uruguaio disse que, se não fosse ao Metropolitano, ia cumprir o último ano de seu contrato e, com isso, oneraria a folha de pagamentos dos catalães. Foi só assim que o Barça aceitou fazer negócio com os concorrentes. O Pistolero abriu mão de €8 milhões dos €18 milhões em salários que os blaugranas lhe deviam, enquanto receberia €7,5 milhões dos colchoneros. Com variáveis, a transferência custaria, no máximo, €6 milhões ao Atleti.

Diante de todas as circunstâncias, já parecia uma barganha ao Atlético de Madrid. E isso ficaria ainda mais claro quando Suárez estreou: o atacante saiu do banco e, em apenas 20 minutos, marcou dois gols e ainda deu uma assistência nos 6 a 1 sobre o Granada. Não era apenas o jogador vitorioso que serviria de referência a um elenco em renovação ou o artilheiro que tanto necessitava o Atleti. Era também o Pistolero recuperando a precisão em seus arremates e a fome de brigar pelos títulos. Até pelo estilo de jogo aplicado pelos colchoneros, sua presença se tornou letal. E havia um gosto de vingança em toda essa história, com o uruguaio empenhado a dar sua resposta em campo ao Barcelona depois da dispensa.

Enquanto o Atlético de Madrid nadou de braçada na primeira metade do Campeonato Espanhol, Suárez deu enorme contribuição ao desempenho da equipe. Foram 16 gols nas primeiras 22 rodadas de La Liga. Nem mesmo ter sido infectado pelo coronavírus, o que o tirou de duas rodadas, atrapalhou completamente sua forma. Das 13 vitórias da equipe com o uruguaio em campo no período, 10 tiveram seus gols. O Atleti até patinou na fase de grupos da Champions e foi eliminado pelo inexpressivo Cornellà na Copa do Rei, mas galopava na liderança do Espanhol – com números dignos de sua campanha vitoriosa em 2013/14.

Mesmo quando o Atlético não estava tão bem, Luis Suárez aparecia e resolvia os jogos. Isso foi importantíssimo para que o time mantivesse um aproveitamento absurdo ao longo do primeiro turno. Podia nem ser a versão mais impressionante dos colchoneros neste ciclo de Simeone, até por alguns resultados mais apertados que o esperado contra adversários modestos. Mas, se o time correspondia e até venceu o Barcelona sem o artilheiro, o Pistolero garantia algo a mais para que os pontos fossem acumulados e permitissem uma diferença razoável ao Atleti no topo.

Suárez comemora com a família (Foto: Imago / One Football)

“Uma das minhas motivações foi poder mostrar que ainda podiam contar comigo. É uma questão de amor próprio. Depois de todos esses anos no Barça, eu queria demonstrar que ainda posso ser útil no mais alto nível, no elite do futebol espanhol”, diria Suárez, à France Football. “O lado mental é primordial. É muito importante ser forte mentalmente e sentir que temos o necessário para sair de situações difíceis. Esta sempre foi uma das minhas características: eu nunca abaixei os braços, mesmo quando atravessava momentos difíceis. Foi esse caráter que me incentivou a vir a esta equipe que luta por coisas importantes”.

Suárez teve momentos mais instáveis a partir de fevereiro, quando o Atlético de Madrid também perdeu fôlego e os tropeços se tornaram mais frequentes. Mesmo assim, março seria um mês de redenção. O goleador anotou gols decisivos nas vitórias apertadas sobre o Athletic Bilbao (em duelo atrasado pelo primeiro turno) e o Alavés, além de marcar no empate diante do Real Madrid. Entretanto, logo depois ele sofreria uma lesão muscular que o tirou de ação por três semanas. A volta aconteceu no segundo tempo da derrota para o Athletic Bilbao, que parecia abrir de vez o campeonato à ameaça de quem vinha de trás. “É o seu momento, você tem experiência, sabe o que acontece, precisa contagiar o resto”, diria Simeone ao veterano, conforme o jornal El País.

Suárez, então, seria fundamental à boa sequência do Atlético de Madrid na reta final. Passou em branco na visita ao Barcelona, mas apareceu bastante para o jogo e incomodou muito no primeiro tempo. O empate por 0 a 0, de qualquer forma, parecia um bom negócio. Depois, lutou demais contra a Real Sociedad e arranjou uma assistência no triunfo por 2 a 1. Na sequência, sua imagem de herói ficou ainda mais explícita na dramática vitória contra o Osasuna pela penúltima rodada, com o gol que concluiu a virada aos 43 do segundo tempo. Por fim, a consagração total diante do Valladolid, com o tento que permitiu o 2 a 1 no placar e colocou a faixa no peito dos rojiblancos. Com 21 gols e três assistências em 32 partidas, sua influência na campanha é inegável.

O mais impressionante na versão colchonera de Luis Suárez é seu desprendimento e seu empenho, até maiores que o já conhecido. Não importa o currículo extenso de um atacante que foi ídolo no Ajax e no Liverpool, que é lenda em Barcelona e no Uruguai: o Pistolero ia com tudo para pressionar os zagueiros adversários e até para ganhar lateral. Seu espírito competitivo é uma virtude tão grande quanto seu poder de decisão. E tal característica foi essencial num Atlético de Madrid que, sob as ordens de Simeone, ficou marcado exatamente por lutar a cada lance. Luisito reforçou esse elo e ainda ofereceu mais qualidade na linha de frente.

Com Suárez, afinal, o Atlético de Madrid se tornou uma equipe que passou a atuar mais no campo de ataque. Num momento em que a consistência defensiva não parecia tão grande quanto no passado, ter essa sede ofensiva serviu para impulsionar os colchoneros. Simeone até redesenhou sua forma de jogar, abrindo mão do seu favorito 4-4-2 para apostar no 3-5-2. Com isso, queria mais jogadores se aproximando de Luisito. E os sócios foram vários ao longo de La Liga: desde o bom início de João Félix à afirmação de Ángel Correa, passando ainda pelas amplas contribuições de Marcos Llorente e Yannick Ferreira Carrasco. “Não descobri nada dizendo que entramos na ‘Zona Suárez’. Ele é diferente, um ganhador, um animal. O clube recebeu e ele se adaptou ao que é, porque tem muito do que nós somos”, avaliaria Simeone.

A imagem em campo após a vitória em Valladolid diz muito sobre como o título tira um nó da garganta de Suárez. O centroavante não conteve as lágrimas ao fazer uma ligação para a família, ainda no gramado. E era certamente um dos mais empolgados com toda a festa. “O trabalho de um é ajudar a equipe e, sendo atacante, tenho que cumprir também com gols. A contundência é necessária e foi uma demonstração a mais que o Atlético fez um grande ano, apesar do que tivemos de dificuldades. Demonstramos ser a melhor equipe, a mais regular”, diria, na saída de campo. “É especial. Por tudo que sofri. Aqui estão minhas estatísticas”.

Suárez é um monstro competitivo. Foi assim em cada passagem de sua carreira e em momentos de grande pressão. Não seria diferente no Atlético de Madrid. Se o Barcelona pensava nos gastos excessivos, os colchoneros ganharam um jogador para permitir que o time desse um passo além neste momento em que os rivais não se encontram. E o Pistolero merecia mais essa história, naquele que não é o título mais importante de sua carreira, mas é o que guarda seu maior protagonismo e sua maior reviravolta. Aos 34 anos, as pernas podem pesar e os gols podem se reduzir. Mas nada tira a vontade do uruguaio em ambicionar o máximo. Ele sempre irá para cima e esta temporada com os colchoneros eterniza um pouco mais sua trajetória como um gigante – por bola, mas também por gana.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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