La Liga

O Real Madrid recorre ao passado e contrata Ancelotti, mas as condições serão bem diferentes de oito anos atrás

Demitido injustamente um ano depois de conquistar a Champions, Ancelotti é o escolhido para substituir Zidane

O Real Madrid terminou a temporada sob a análise de que uma renovação considerável seria necessária para recuperar a força do clube, em especial na Champions League. A saída de Zinédine Zidane, sem agradar no campo e sem sustentar a melhor relação com Florentino Pérez, abria as portas para um novo comandante. Porém, os merengues recorrem mais uma vez ao passado. Sem o técnico tricampeão europeu, buscam de volta aquele que faturou a Orelhuda em 2014 e encerrou o jejum de 12 anos no Santiago Bernabéu. Carlo Ancelotti é o escolhido dos madridistas, deixando mais dúvidas do que certezas sobre aquilo que poderá conduzir neste segundo ciclo no gigante espanhol.

Carlo Ancelotti está entre os maiores treinadores do século, e o seu currículo basta para colocá-lo entre os primeiros nomes citados desta seleta lista. Está na história do Milan, foi campeão no Chelsea, ergueria taça também no Paris Saint-Germain. E seu saldo na primeira passagem pelo Real Madrid foi bastante positivo. Depois de anos turbulentos sob as ordens de José Mourinho, Carletto levou outro tipo de comando para os vestiários merengues. Apaziguou os conflitos, soube formar uma unidade, tirou o melhor de seus craques. A conquista da Champions em 2013/14 seria consequência desse processo, em que os madridistas desfrutavam de um clima bem mais propício para alcançar o sucesso. E sua saída na temporada seguinte foi mais por culpa do clube do que sua, diante da necessidade de dar uma resposta à Tríplice Coroa do Barcelona em 2014/15. Saiu com o aproveitamento excepcional de 75% dos pontos conquistados.

As bases deixadas por Ancelotti no Real Madrid permitiriam as glórias posteriores. Zidane, afinal, era seu antigo assistente e assumiu após a saída de Rafa Benítez. A estrutura do time se preservava e muitos jogadores tinham se firmado graças ao italiano. O tricampeonato da Champions possui seu dedo, mesmo que os méritos de Zidane e principalmente dos atletas seja bem mais expressos. Mas se o clube continuou aproveitando os reflexos do trabalho, Ancelotti não repetiu um patamar tão alto nos últimos seis anos. O veterano caiu um degrau na lista de principais técnicos da Europa.

A grande oportunidade aconteceu no Bayern de Munique. Ancelotti conseguiu conquistar uma edição da Bundesliga, mas seu trabalho se desgastou rapidamente e ele ficaria pouco mais de uma temporada na Baviera. Saiu depois de um racha com as estrelas por conta de seus métodos nos treinamentos. Da mesma maneira, não se daria bem no Napoli e ficou um semestre com os celestes, saindo depois de uma série de atritos. A ida para o Everton revigorou um pouco seu moral. Conseguiu botar os Toffees na briga pelas copas europeias e teve bons momentos. Ainda assim, era um nível de exigência mais baixo. E as oscilações constantes fizeram com que sua passagem pelo Goodison Park guardasse o pior aproveitamento desde os tempos em que dirigia a modesta Reggiana no início da carreira. Não é que tenha superado as expectativas.

O Everton, mesmo assim, fica de mãos abanando com Ancelotti. O treinador parecia fazer parte de um projeto de recuperação dos Toffees e vinha prestigiado, apesar dos pesares. Entretanto, a equipe perdeu fôlego e terminou fora das copas europeias para a próxima temporada. Carletto preferiu não recusar o contato do Real Madrid neste momento da carreira. Os ingleses precisarão encontrar outro treinador para conseguir sua reconstrução, sabendo que dificilmente acharão alguém com o renome do italiano.

O retorno de Ancelotti ao Real Madrid parece se tornar uma admissão do erro de Florentino Pérez em 2015. De fato, o treinador teve uma trajetória interrompida mais por vaidade do que por deméritos – algo que não é novo entre os merengues, afinal. Mas parece um pouco tarde para aproveitar a melhor fase do italiano. Aos 61 anos, não dá para descartar um bom trabalho de Carletto, por sua capacidade tática e pelo ótimo trato com os jogadores. Entretanto, também é natural pôr em dúvida seu real efeito sobre os madridistas quando os últimos anos da carreira não apresentaram seu melhor.

Carlo Ancelotti se reencontrará com velhos conhecidos nos vestiários do Real Madrid. Nada menos que 12 atletas do elenco atual atuaram sob suas ordens no Bernabéu e ainda haverá o acréscimo de David Alaba, seu jogador nos tempos de Bayern de Munique. Mesmo assim, Carletto terá que ser o responsável pelo desapego ao abrir mão de alguns veteranos e dar espaço a atletas mais jovens. Também terá a árdua missão de recuperar astros em baixa, como Eden Hazard. Não parece ser o comandante que vem com uma dose extra de energia para trazer ideias novas, até por seu passado recente no clube.

Talvez a escolha de Ancelotti seja mesmo prevendo um técnico temporário – embora o contrato de três anos diga o contrário. Florentino Pérez traz um nome de peso para servir de escudo, ao mesmo tempo em que ganha tempo aos próximos passos. O mercado atual não apresenta alternativas tão boas entre aqueles livres, com o bonde passando para Mauricio Pochettino e Massimiliano Allegri. Além do mais, depois do que aconteceu com Andrea Pirlo, não seria muito prudente queimar Raúl e promovê-lo do Real Madrid Castilla. Mas Carletto pode ser o mestre ao eterno camisa 7, assim como já tinha acontecido com Zidane. A questão é mesmo o elenco que precisará conduzir, quando o cenário era bem mais favorável naquele 2013/14.

Se o Real Madrid já parecia uma incógnita ao final da temporada, continua sem mudar tanto o status, mesmo ao confiar num treinador de história. Caberá a Carlo Ancelotti mudar essa impressão, num clube que necessitar de um trabalho razoável de reformulação. Talvez seja a última chance da carreira num time desse porte, a não ser que um dia volte para o Milan. É a oportunidade para mostrar a grandeza tanto de sua trajetória como treinador quanto do próprio Real Madrid. Sete anos atrás, ele conseguiu.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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