Pepe superou rótulos para ser uma rocha na defesa do Real Madrid durante 10 anos
Pepe tem um estilo agressivo. Por vezes, muito agressivo, no limite entre a entrada dura e dura demais. Sua vasta coleção de cartões amarelos (média de oito por ano) e vermelhos valeu, para muita gente, o rótulo de violento. Mas ele conseguiu deixar as definições de lado – ninguém fica tanto tempo em um clube tão grande tendo a violência como principal mérito – para ser uma rocha na defesa do Real Madrid durante uma década, até anunciar, nesta terça-feira, que não renovará o seu contrato com o atual campeão europeu. O zagueiro de 34 anos chegou ao Santiago Bernabéu em 12 de julho de 2007. Em 6 de junho de 2017, publicou, no seu Instagram, uma carta de adeus para a torcida.
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A saída de Pepe era esperada. Apesar de titular no mata-mata da Champions League de 2015/16, o luso-brasileiro perdeu espaço sob o comando de Zidane. Foi afetado por muitas lesões na última temporada e não conseguiu retornar a equipe, que defendeu apenas 16 vezes nas campanhas vitoriosas no Campeonato Espanhol e na Liga dos Campeões. A dupla de zaga firmou-se com Sergio Ramos e Raphael Varane. Na segunda-feira, afirmou à Radio Cope que tomou a decisão em janeiro porque entrou em um impasse na negociação com a diretoria.
Pepe queria dois anos de contrato, mas afirma que a política do clube é renovar por apenas uma temporada com atletas acima de 33 anos. Não gostou, porém, da maneira como a negociação foi conduzida, nem do tratamento de Zidane. “Há maneiras de negociar e esta não foi a mais correta”, disse. “O que Zidane fez pelo Real Madrid é espetacular, mas há coisas que eu não entendo, não sei explicar. Não sei por que desapareci do time. Eles (técnico e clube) sabiam que eu ia embora antes de mim”. Disse que ainda não assinou com um novo clube, mas recebeu propostas do Paris Saint-Germain, do Milan e da Inglaterra.
Pepe, portanto, encerra sua passagem pelo Real Madrid na marca dos dez anos, período em que entrou em campo 334 vezes com a camisa branca e marcou 15 gols. Com mais ou menos participação direta, conquistou dez títulos de primeira importância (três La Ligas, duas Copas do Rei, três Champions League e dois Mundiais de Clubes) e três Supercopas, sendo duas da Espanha e uma da Europa. Atuou sob o comando de sete treinadores: Schuster, Juande Ramos, Manuel Pellegrini, José Mourinho, Carlo Ancelotti, Rafa Benítez e Zidane.
Disputou aproximadamente metade das partidas do Real Madrid em sua primeira temporada, no elenco que ainda tinha Cannavaro, recém-eleito melhor do mundo, Metzelder e Heinze, além do parceiro Sergio Ramos que atuava bastante na lateral direita. Cresceu de produção no ano seguinte, com Juande Ramos, e era titular de Pellegrini até sofrer uma lesão séria no joelho, em dezembro, que o afastou pelo restante da época.
Foi incontestável nos primeiros dois anos de José Mourinho, chegando até a atuar de volante para marcar Messi, e encontrou no português um defensor implacável quando se envolvia em polêmicas, como na ocasião em que pisou a mão do craque argentino. “Ele disse que não foi de propósito e eu acredito. Se quiserem chamá-lo de mentiroso (referindo-se aos jornalistas), estão no seu direito de fazê-lo, mas aceitem as consequências”, afirmou, naquela época, o técnico português. Mas a lua de mel entre os dois não duraria muito tempo.
Pepe perdeu espaço para Varane na reta final do último ano de Mourinho em Madri e chegou a contestar, em público, a decisão do técnico de barrar Iker Casillas. O treinador rebateu pela imprensa, e o clima teria ficado meio ruim para o zagueiro, caso a diretoria não tivesse decidido executar uma troca de comando. Carlo Ancelotti chegou, e Pepe voltou a ser titular na maioria das partidas, mas teve o azar de sofrer uma pequena lesão que o deixou do banco de reservas durante a decisão da Champions League em que o clube conquistou La Décima. Foi, no entanto, um dos melhores jogadores do primeiro título europeu com Zidane, coroando ainda mais sua vitoriosa carreira com o troféu da Eurocopa, alguns meses depois, também jogando muito.
Como o próprio Pepe disse, sempre defendeu o Real Madrid com unhas e dentes e, por mais que tenha exagerado de vez em quando, foi um servidor fiel e dedicado durante dez anos. Merece homenagens e o carinho da torcida, para quem reservou a maior parte dos seus agradecimentos em sua carta de despedida.
“O dia chegou. Cheguei ao Real Madrid com o sonho de uma criança que chegava aonde havia sonhado todos os dias da sua infância. Hoje, dez anos depois, tenho que me despedir e deixar de vestir este escudo. Todos os dias em que vesti esta camisa, eu o fiz com o sentimento de sempre. Hoje, posso apenas agradecer a todos vocês que me apoiaram, que escreveram comigo esta bonita história. Obrigado a cada um de vocês que me acompanharam. Obrigado a todos os amigos e companheiros. Eu me despeço também dessa cidade em que minhas filhas nasceram e cresceram. Eu me sinto muito feliz pelo que consegui e levarei vosso carinho no coração. E volto a dizer: o melhor desses 10 anos? Treinar todos os dias, conviver com todos e cada um dos empregados deste clube. Pisar o gramado do Santiago Bernabéu e sentir o apoio de vocês sempre foi mágico. Em meu coração, guardo vosso carinho e o sentimento de dever cumprido. O Real Madrid e vosso carinho sempre farão parte da minha história, da minha vida. Obrigado e até sempre.”



