La Liga

O Villarreal se despediu de José Manuel Llaneza, arquiteto da incrível ascensão do clube nos últimos 25 anos

José Manuel Llaneza trabalhava no clube desde 1994, consagrado como exímio negociador e entusiasta das categorias de base

Durante os últimos 25 anos, o Villarreal construiu uma das histórias mais fantásticas do futebol europeu. O clube de uma cidade pequena, que sequer tinha chegado à elite de La Liga, se transformou em força nacional e num adversário temido além das fronteiras. Tal sucesso passa pelo presidente Fernando Roig, o homem que assumiu o comando do Submarino Amarelo e investiu num crescimento sustentável. Porém, não dá para falar sobre tal ascensão sem citar José Manuel Llaneza. O antigo executivo de multinacionais estava no Madrigal desde a gestão anterior e virou o braço direito de Roig. Como vice-presidente ou gerente de futebol, foi um dos principais responsáveis pela façanha. Personagem muito querido nos corredores do clube, sua partida dói. Lutando contra uma leucemia durante os últimos meses, o dirigente de 74 anos faleceu nesta quinta-feira.

Filho de um antigo diretor do Valencia e com uma experiência prévia no pequeno clube de sua cidade, Puçol, Llaneza chegou ao Villarreal três anos antes de Roig, em 1994, quando começou a integrar o Conselho Administrativo. O executivo se tornou o responsável por conduzir a venda da agremiação em 1997, quando o proprietário da época, Pascual Font de Mora, passava por problemas de saúde. Não seria um processo simples, diante das dificuldades econômicas da equipe, na segundona espanhola. Não à toa, ele considerava Roig, empresário da região com negócios principalmente no ramo da cerâmica, como sua “melhor contratação”. E Llaneza permaneceu para formar uma parceria inseparável, que logo deu frutos.

Llaneza era considerado a verdadeira “alma” do Villarreal – um termo usado pelos jornais Marca e As para descrevê-lo nesta semana. Era bastante influente no projeto esportivo louvável, inclusive na importante política de contratações, em busca de talentos sobretudo na América do Sul durante os primeiros anos. O Submarino Amarelo não só emergiu de maneira inédita a La Liga, como também começou a disputar as primeiras colocações e logo passou a aprontar na Europa. Llaneza era nome obrigatório para explicar o sucesso.

A fama de Llaneza se concentrava sobre a sua habilidade como negociador. Não à toa, conseguiu convencer estrelas como Martín Palermo, Juan Román Riquelme e Diego Forlán a se juntarem nos primeiros anos de ascensão. O próprio Llaneza dizia que “mentiras engraçadinhas e pagamentos em dia, que não eram comuns na época” auxiliavam em sua persuasão. Mais do que isso, sua experiência em empresas também permitia uma condução profissional do futebol sem que isso o afastasse das percepções mais subjetivas. Era um personagem muito próximo dos jogadores, que se fazia querido.

Apesar do olhar nas contratações, Llaneza tinha outro xodó: as categorias de base. O dirigente foi um grande entusiasta do investimento no setor formativo do Villarreal e mantinha contato com os pratas da casa desde cedo. Era comum vê-lo nas arquibancadas assistindo também aos jogos dos times menores, próximo dos familiares. Tal dedicação deu resultados, com o Submarino Amarelo se consolidando como um dos principais clubes formadores da Espanha, inclusive pela estrutura que passou a oferecer. O dirigente tinha uma relação especial principalmente com Pau Torres, tratado como um neto. O zagueiro recentemente acompanhou Llaneza, já enfermo, durante uma condecoração da prefeitura de Vila-Real ao idoso.

Durante a conquista da Liga Europa, Llaneza foi bastante festejado pelos jogadores e pôde erguer o troféu no centro do gramado, rodeado por todos. Era o grande prêmio por seu árduo serviço à frente do Villarreal. Já na temporada passada, o Submarino Amarelo tinha um motivo a mais para lutar quando o vice-presidente descobriu sua leucemia. Seria ovacionado na histórica caminhada do time rumo às semifinais da Champions League e motivou até mosaico nas arquibancadas. O tratamento da doença, contudo, não surtiu o efeito esperado. Internado durante os últimos meses, Llaneza ainda sofreu outro golpe duro com a morte repentina de sua esposa em setembro. Semanas depois, ele também faleceria.

A primeira homenagem do Villarreal foi mudar de imediato o nome de seu centro de treinamentos, que, com toda justiça, passa a se chamar Ciudad Deportiva José Manuel Llaneza. Os jogadores também usaram uma faixa negra no braço durante a derrota para o Barcelona nesta quinta-feira. E o Estádio de la Cerámica certamente providenciará um tributo ainda maior no próximo compromisso do Submarino Amarelo. É inimaginável essa trajetória sem a paixão e a competência de Llaneza. Seu legado deve render outros sucessos, embora o vice-presidente também deixe a sensação de ser uma figura insubstituível dentro do clube. Será eterno.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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