La Liga

O marcante trabalho de Lopetegui no Sevilla estava fadado a um ponto final – apesar do desfecho estranho

Lopetegui já tinha sua demissão encaminhada, foi goleado pelo Dortmund e saiu com seu nome gritado pela torcida

O Sevilla atravessava um clima de fim de ciclo nos últimos dias. A equipe beira a zona de rebaixamento em La Liga, com apenas uma vitória em sete rodadas. Enquanto isso, as provas de impotência na Champions League são ainda mais gritantes. O desgaste sobre o trabalho de Julen Lopetegui crescia desde a temporada passada e sua saída tornava-se iminente, ainda mais com o interesse do Wolverhampton em contratá-lo. Nesta quarta-feira, o ponto final dessa história foi bastante duro. Dentro do Estádio Ramón Sánchez-Pizjuán, os rojiblancos foram goleados por 4 a 1 pelo Borussia Dortmund, num resultado que complica bastante a situação no torneio continental. Emocionado, Lopetegui se despediu da torcida logo após o apito final, com seu nome gritado pelas arquibancadas. Minutos depois veio o anúncio oficial de sua saída, no que foi considerado uma falta de respeito na imprensa espanhola. Jorge Sampaoli já estaria alinhado com a diretoria.

“O primeiro sentimento que me vem à cabeça e ao coração é de agradecimento ao meu clube, à torcida, à cidade… A Monchi, ao conselho, a todos. Vivemos coisas muito bonitas e o outro sentimento é de pena por sair de um clube que amo e que estou convencido de que irá para frente. Você leva o carinho e o reconhecimento por aquilo que fez. Fico feliz, dentro da tristeza que tenho. É uma torcida muito exigente e é um dos ativos do clube. Todos demos o melhor de nós mesmos para viver momentos históricos”, afirmou o treinador, na coletiva de imprensa.

“Não penso que gostaria de me despedir de outra maneira. As coisas acontecem na vida da maneira como acontecem. Não quero borrar a situação porque a decisão já está tomada. Quero olhar para trás e ver tudo, não apenas os últimos meses. As pessoas nos reconheceram. Esta noite foi complexa, porque nós também temos família e eles sofrem com a gente. Foram momentos complicados e temos que olhar para frente. Não falarei se houve desrespeito. Há uma parte positiva e emotiva, com o reconhecimento da torcida, que ninguém pode tirar”, complementou.

A passagem pelo Nervión de fato será lembrada com carinho por Lopetegui. O clube ajudou a transformar as perspectivas sobre a carreira do treinador. Ele havia se queimado depois da conturbada demissão da seleção espanhola, numa decisão contestável da federação por causa do acerto com o Real Madrid às vésperas da Copa do Mundo de 2018. Pressionado, também não rendeu bem numa pesada mudança de ciclo dos merengues e terminou demitido com poucos meses. O Sevilla abriu as portas em 2019/20 e permitiu que o comandante transformasse seu nome, com um desempenho médio excelente.

Lopetegui reafirmou a identidade do Sevilla na Liga Europa, com a conquista do torneio em sua primeira temporada à frente do clube. Tão importante quanto foi a estabilidade no G-4 de La Liga. Em 114 rodadas nas três últimas edições do Campeonato Espanhol, Lopetegui manteve os rojiblancos na zona de classificação à Champions em 93. É um nível bastante alto para a média histórica do clube, que chegou inclusive a esboçar um potencial de título no primeiro turno da temporada passada. No geral, os andaluzes contaram com uma defesa bastante firme e um jogo direto que valeu o sucesso.

O problema é que na Champions o Sevilla ficou devendo nos últimos anos. Não passou das oitavas. Também não deixou sua marca na Copa do Rei e teria uma campanha amarga em 2021/22, eliminado pelo rival Betis, que terminou com o troféu. E os sinais de desgaste se viam em campo, especialmente no segundo turno da última edição de La Liga. Os andaluzes contavam com uma equipe previsível e pouco efetiva no ataque. Os empates se repetiam de maneira incômoda. O time só perdeu dois jogos nas últimas 19 rodadas, mas também só venceu seis. Foram nada menos que 11 empates, quase sempre por 0 a 0 ou por 1 a 1.

Muita gente já questionava a capacidade de Lopetegui para mudar o time. E então veio o mercado de transferências penoso na última janela, em que o Sevilla fechou as torneiras sob a justificativa de conter as perdas financeiras anteriores. Diego Carlos e Jules Koundé saíram, o que desmontou o setor mais forte da equipe. Lucas Ocampos ainda foi um protagonista do ciclo recente a se despedir. As reposições na zaga não foram à altura, até pelos problemas de lesão, enquanto apostas em jogadores como Adnan Januzaj e Kasper Dolberg ainda não se pagaram. As carências se tornaram mais expostas, também pela queda de desempenho de outros jogadores mais experientes.

A derrota para o Osasuna abriu uma temporada difícil em La Liga. No máximo, o Sevilla venceu o Espanyol desde então, além de ter empatado contra Valladolid e Villarreal. Perdeu em casa diante de Barcelona e Atlético de Madrid, além de sucumbir fora até para o recém-promovido Almería. A posição um ponto acima do Z-3 diz muito. Enquanto isso, a Champions aumentou a desolação. Os 4 a 0 do Manchester City viram uma equipe impotente, enquanto o 0 a 0 na visita ao Copenhague não melhorou as perspectivas. Já nesta quarta, os sevillistas tiveram alguns momentos bons, mas sofreram demais na defesa contra o Borussia Dortmund. Terminaram engolidos por 4 a 1 e indicavam a falta de motivação ao redor do time.

Sondado pelo Wolverhampton com a demissão de Bruno Lage, Lopetegui pelo menos não deve ficar de mãos abanando. A situação no Sevilla era insustentável, mas se quebra com um contexto que vai além do campo, também pelo interesse em Sampaoli. E a torcida, acima de tudo, sabe o que o comandante representa além do desempenho ruim. Prova disso foi o que aconteceu na Andaluzia nesta quarta. Durante o intervalo, vaias. Já depois do jogo, Monchi segurou Lopetegui quando o comandante seguia para os vestiários. Era a sua despedida definitiva, no que já parecia um movimento acertado independentemente da goleada. A torcida sabia. Aplaudiu e cantou o nome do treinador, que tinha os olhos lacrimejando. A nota da saída estava pronta e o Sevilla publicou em seu site menos de uma hora depois do apito final.

O Sevilla também já tem seu próximo passo encaminhado: Jorge Sampaoli, que retorna ao clube onde teve uma passagem razoável em 2016/17. De qualquer maneira, é curioso ver como a situação se desenha para o argentino. Ele fez uma ótima temporada à frente do Olympique de Marseille, mas entrou em rota de colisão com a diretoria, ao avaliar que os reforços não eram suficientes para suas ambições, sobretudo na Champions. Por conta disso, pediu demissão na última pré-temporada. Os marselheses trouxeram ótimos nomes depois disso e, com Igor Tudor, o momento é ainda melhor. Os celestes brigam ponto a ponto pela liderança na Ligue 1 e seguem vivos na Champions. No Sevilla, Sampaoli encontrará uma equipe que tenta fugir do risco de rebaixamento e que precisará de uma grande reviravolta para avançar no torneio continental. Pior, assumindo um clube que trabalhou mal no mercado de transferências.

Até por isso, não dá para colocar os maus resultados de Lopetegui apenas na conta do basco. De fato ele apresentou um repertório limitado e não conseguiu repaginar o seu trabalho. Contudo, não tinha as peças necessárias para uma revolução tão grande. O trio de zaga com Kike Salas, José Ángel Carmona e Nemanja Gudelj, que entrou contra o Dortmund por causa dos desfalques, não serve nem para times recém-promovidos de La Liga. Também há uma dose de medalhões que não rendem e jogadores que caíram de produção nos últimos tempos – com preocupação especial no comando do ataque. Os desfalques pesam e os sevillistas até têm condições de se distanciar do Z-3 com um pouco mais de organização. Mas não que indiquem tanta capacidade assim para buscar o G-7 no Campeonato Espanhol. Uma guinada talvez fuja da mera escolha de um novo treinador.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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