La Liga

O Espanyol confirma o retorno à primeira divisão e indica que o rebaixamento foi mesmo um ponto fora da curva, não um padrão

Mantendo vários nomes de primeira divisão, o Espanyol conquistou o acesso sem qualquer sofrimento

O rebaixamento do Espanyol na temporada passada rompeu uma sequência de 26 anos na primeira divisão. Os Pericos não engrenaram na competição e, mesmo com investimentos na janela de inverno, não conseguiram se salvar. Mas, diferentemente de outros clubes tradicionais que viveram sua derrocada em La Liga, o descenso dos catalães indicava mais o conjunto de escolhas ruins na campanha do que um cenário preocupante para o futuro. E a passagem pela segundona não duraria mais que um ano, afinal. O Espanyol permaneceu na zona de acesso direto durante quase toda a jornada na segunda divisão e, neste sábado, se confirmou como o primeiro promovido à elite para 2021/22.

O rebaixamento do Espanyol se consumou rapidamente na última edição do Campeonato Espanhol. A queda aconteceu exatamente num clássico contra o Barcelona, decretando a incapacidade dos blanquiazules durante toda a campanha. E o descenso, de certa maneira, foi inesperado. Os Pericos, vale lembrar, vinham de uma boa campanha em 2018/19 e disputavam a Liga Europa de 2019/20 depois de 12 anos de ausência no torneio continental. Entretanto, o desgaste físico pesou, assim como saídas significativas no comando técnico, na diretoria e no elenco.

Mesmo com o dinheiro da participação continental e dos donos chineses, as contratações do Espanyol não surtiram efeito, assim como a escolha do técnico David Gallego para o lugar de Rubi não deu frutos. Pablo Machín também não deu certo e os maiores sinais de vida aconteceram sob as ordens de Abelardo na virada do ano. Além do novo treinador, os Pericos investiram pesado na janela de inverno e isso parecia suficiente para uma reação, ainda que a missão fosse árdua. Todavia, a paralisação de La Liga por conta da pandemia tiraria o embalo. Os blanquiazules não voltaram bem após meses parados e, em meio à maratona de jogos, sucumbiram. Parecia faltar um pouco mais de liderança e senso coletivo num grupo que passou por sucessivas mudanças.

Consumado o rebaixamento, restava ao Espanyol iniciar seu planejamento na segunda divisão. E a situação financeira segura dos Pericos permitiu que o elenco fosse mantido em grande parte, mesmo com jogadores de primeira divisão, com a maior folha salarial da história da segundona. Nomes como o goleiro Diego López, o zagueiro Leandro Cabrera, o lateral Didac Vilà, os meio-campistas Sergi Darder e David López, o ponta Adrián Embarba e o atacante Raúl de Tomás ficaram no clube. Estava claro como, no papel, os Pericos eram bem mais fortes que os concorrentes. As saídas foram pontuais, incluindo alguns veteranos e a venda de Marc Roca ao Bayern. E, mesmo que o gasto em reforços não tenha sido alto, algumas adições pontuais aconteceram principalmente ao meio-campo. Keidi Bare e Landry Dimata eram apostas, enquanto o rodado Fran Mérida chegava sem custos. Também foi importante a volta do ponta Javi Puado, que estava emprestado ao Zaragoza.

O Espanyol largou na segundona com quatro vitórias nos primeiros cinco jogos. Isso permitiu que a equipe se estabelecesse entre os dois primeiros colocados desde as primeiras semanas de campanha. Nem sempre o time se manteve no G-2. Uma sequência de três partidas sem vencer levou os blanquiazules à quarta colocação no fim de novembro, mas a equipe correspondeu com cinco vitórias consecutivas. Outro momento de seca aconteceu em março, com muitos empates que levaram os catalães ao terceiro posto. De novo, a recuperação foi imediata e uma série de triunfos valeu a tranquilidade. Neste momento, os Pericos acumulam 15 partidas sem derrotas, incluindo nove vitórias no período. Neste sábado, deu para comemorar a promoção com quatro rodadas de antecedência. O empate por 0 a 0 contra o Zaragoza bastou.

O desempenho em Cornellà-El Prat é importante a essa caminhada segura do Espanyol. Se o baixo rendimento como mandante foi um problema durante o rebaixamento, o acesso foi acelerado pela força dos blanquiazules em seus domínios. De 19 partidas disputadas em seu estádio até o momento, a equipe ganhou 15 e só perdeu duas. Mais impressionante é a segurança defensiva, com apenas nove gols sofridos, média inferior a um tento a cada duas partidas. Fora de casa, são oito triunfos, um rendimento razoável – mas que não necessariamente garantiria tamanho domínio na tabela. Neste momento, são 12 pontos de distância em relação ao terceiro colocado e seis sobre o vice-líder. Atual segundo colocado, aliás, o Mallorca é outro que tem tudo para voltar apenas um ano depois de sua queda.

Raúl de Tomás é a grande figura na segundona. O centroavante chegou em janeiro de 2020, reiterou seu compromisso mesmo com o rebaixamento e empilha gols na segundona. São 22 tentos do artilheiro. O ataque, aliás, conta com opções muito constantes e decisivas. Adrián Embarba (outro trazido no inverno passado) e Javi Puado são importantes pelas pontas. Juntos, somam 20 gols e 22 assistências. Por sua vez, Wu Lei perdeu espaço nessa campanha, geralmente usado como substituto. No meio, David López e Sergi Darder permanecem como referências, num setor em que também aparece Nico Melamed, meia de 20 anos que desponta como a revelação pinçada da base. Já na zaga, além da experiência de Diego López na meta, Leandro Cabrera foi outra contratação do meio da temporada passada que gera seu impacto agora.

No comando técnico, o Espanyol investiu num treinador experiente nas divisões de acesso e ao mesmo tempo promissor para conduzir um trabalho mais longo rumo à primeira divisão. Vicente Moreno trabalhou em Xerez e Gimnàstic, mas sua passagem mais reconhecida aconteceu no Mallorca, que tirou da terceira divisão e levou à elite. O técnico permaneceu com os bermellones até o final em 2019/20, quando a equipe também foi rebaixada, mas aceitou a proposta dos Pericos. Assumiu um clube mais tradicional e com melhores condições para subir, no qual pode estabelecer seu nome na primeira prateleira do Campeonato Espanhol.

“Havia uma conta pendente a pagar, temos uma sensação enorme de alívio. Precisamos pensar que foi um pesadelo. Foi um trauma a situação que encontramos ao chegar, mas fico com a força deste grupo para reverter os problemas. David López fez um discurso em que se emocionou e se notou o sentimento que tem no clube. O Espanyol tinha que estar na primeira divisão”, afirmou Moreno. “Fomos muito questionados durante a temporada por causa da nossa folha salarial, mas conseguimos o acesso porque trabalhamos muito”.

No geral, a situação do Espanyol é segura. Ainda que seja administrado pelo empresário chinês Chen Yansheng, os donos estrangeiros não abandonaram o clube após o descenso. As dívidas se reduziram em 80% desde que os novos investidores chegaram em 2016 e boas contratações foram feitas. Yansheng recebe críticas por escolhas na alta cúpula e a maneira como centralizou as decisões. Mesmo assim, não foi a queda que o fez desistir. Há a noção de um projeto de longo prazo que, de qualquer maneira, precisaria se recompor na segundona. Foi o que aconteceu.

Quando os investidores vieram há cinco anos, a promessa era se classificar à Champions. A Liga Europa parecia um sinal positivo em 2019/20, mas o Espanyol voltou algumas casas depois disso. É bem possível que o rebaixamento seja apenas um ponto fora da curva e os Pericos se restabeleçam no meio da tabela em breve. O salto às competições continentais, de qualquer forma, depende de mais. E vai do próprio comprometimento dos donos estrangeiros, sabendo que o futebol bem feito vai mais de escolhas acertadas do que abundância de dinheiro. Os Pericos puderam aprender essa lição. A crise gerada pela pandemia indica freios, assim como a queda nos investimentos chineses no futebol. Mas dá para acreditar que, em suas condições atuais, os blanquiazules não voltam à elite para ser um mero ioiô.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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