La Liga

Nos 50 anos de Giovanni, relembre como o Messias brilhou no Barcelona

Sem brilho na dupla Re-Pa, Giovanni fez milagre fora de casa, nos clássicos espanhóis

* Por Caio Brandão

A proximidade de Remo e Paysandu não se resume à distância de seus estádios, a segunda menor no mundo para uma dupla de rivais, ou de suas sedes sociais: a primeira semana de fevereiro reserva o aniversário do Papão no dia 2 e do Leão no dia 5. Entre eles, há o aniversário de um santo que realmente não fez milagre no Baenão e nem na Curuzu, mas que depois de unir as duas torcidas no quesito reprovação na virada de 1993 para 1994, simplesmente teve uma ascensão digna do surrealismo do catalão Salvador Dalí: no Camp Nou, brilhou tanto que até apareceu entre os 20 melhores jogadores do mundo para a FIFA já em 1996. Giovanni Silva de Oliveira, o Messias, nasceu há 50 anos em Belém do Pará. Vale relembrar sua vitoriosa passagem pelo Barcelona conferindo a generosa hemeroteca virtual do centenário jornal catalão Mundo Deportivo. 

Afinal, já recordamos até como ele foi campeão paraense juvenil de 1992 enquanto sua Tuna Luso vencia a terceira divisão brasileira, bem como o sucesso no time adulto do terceiro clube paraense não se repetiu mesmo na honrosa campanha remista no Brasileirão de 1993 e muito menos na passagem-relâmpago como alviceleste na pré-temporada bicolor de 1994; e, claro, como ele consagrou-se na história do Santos pelo que fez em 1995, ano em que já conseguia tornar-se o penúltimo paraense na seleção brasileira (apenas Ganso o sucedeu) ainda antes daquele Brasileirão.

A ascensão meteórica ainda no futebol brasileiro não escapou do Mundo Deportivo. A primeira menção ao paraense data da edição de 20 de abril de 1995, em função justamente da renovação da seleção para o ciclo pós-Copa de 1994. Foi quando mencionou-se que uma inoportuna lesão de Amoroso (Bola de Ouro do Brasileirão 1994) em um Guarani x Ferroviária provavelmente lhe tiraria da temporada. E aí, uma primeira curiosidade: naquela partida, nas aspas do jornal, “segundo parece, um olheiro azulgrana presenciou pessoalmente”, indicando-se assim que o Barcelona observaria aquele atacante dos campineiros – por sinal, sobrinho de ídolo remista dos anos 60, o Amoroso “Pé de Coelho”. E a notinha concluía que “esperando sua recuperação, o técnico brasileiro dará oportunidades ao atacante Giovanni, a penúltima pérola do futebol brasileiro. Também soa com força o nome de Beto, que aos seus 18 anos já é o volante organizador titular do Botafogo”. Cinco dias depois, o jornal confirmava o nome de Giovanni entre os recém-chegados a solo espanhol. Foi para uma partida não-oficial do Brasil contra o Valencia, ocorrida em 27 de abril em homenagem ao goleiro Zubizarreta.

Giovanni não chegou a entrar em campo no Mestalla, mas em menos de um mês enfim estreou pelo Brasil, em 17 de maio. Outra curiosidade: substituiu Túlio Maravilha em 2-1 contra Israel. Mas seu único registro naquele mês no jornal foi outro. E ligando-o, veja-se só, a Maradona e ao Real Madrid: “a passagem de Maradona por Madrid surpreendeu a próprios e estranhos. No Brasil, nem tanto. Aí suspeitam que o argentino foi contatar com o Madrid para oferecer o traspasso de Giovanni Silva, um meia (23 anos) do Santos, clube no qual Maradona se transferiria em breve. Giovanni foi convocado pela primeira vez à seleção brasileira para o amistoso contra o Valencia, no passado 27 de abril”. Sim: naqueles meados de 1995, Maradona, com aval de Pelé, flertou fortemente com a Vila Belmiro, enquanto aguardava o fim de sua suspensão por doping na Copa 1994. Como se sabe, foi no Boca que ele voltaria a jogar, naquele ano… deixando livre a camisa 10 santista para Giovanni brilhar com ela no Brasileirão.

Inicialmente, o Barcelona parecia precisar escolher entre contratar Giovanni ou Ronaldo, mas conseguiu os dois juntos. O jornal pedia “que venha!” sobre a “operação Giovanni” e exibiu-o junto à esposa com a camisa do Barça tão logo as “doze horas de reunião” fecharam o negócio

Mas, antes mesmo de tornar-se o Messias, o meia ganhou novos testes na canarinho: substituiu o futuro parceiro Ronaldo nos 3-1 sobre a Inglaterra pela Copa Umbro, em 11 de junho; não lembrado para a Copa América, foi titular pela primeira vez em um 5-1 sobre o Japão em 9 de agosto; em seguida, esteve no 1-0 sobre a Coreia do Sul três dias depois, jogando pela primeira vez os 90 minutos; e também esteve na partida inteira contra o Uruguai em 11 de outubro (2-0). O Mundo Deportivo, contudo, só voltou a lembrar dele ao reportar as finais do Brasileirão, registrando o empate provisório que Giovanni decretara no jogo de ida e mencionado como “jovem craque” e vice-artilheiro na nota sobre o vice-campeonato. Três dias depois, defendeu pela última vez o Brasil como santista, como titular nos 3-1 sobre a Colômbia em Manaus.

Mesmo assim, ele ainda era praticamente desconhecido na Espanha, ainda que até já houvesse tentado a sorte na Europa: as conexões luso-brasileiras da Tuna haviam o levado ainda em 1992 a duas semanas de testes no Vitória de Guimarães, que teria optado por Zlatko Zahovič, futuro líder das estreias de sua Eslovênia na Eurocopa (2000) e na Copa do Mundo (2002). A menção seguinte ao paraense no Mundo Deportivo só veio já na edição de 26 de maio de 1996: “Giovanni Silva de Oliveira é um dos mediapuntas desejados por Robson. Ontem foi eleito o segundo melhor jogador do Brasil, após ter encabeçado essa classificação no ano passado. O problema para contratar Giovanni residirá no preço. O Santos o taxou em 1,24 bilhões de pesetas, quando no ano passado pagou por ele 37 milhões. É que o meia, em apenas um ano, levou o Santos ao vice-campeonato brasileiro, se proclamou segundo máximo goleador e chegou à seleção”.

Pequeno glossário aos mais jovens: peseta era a moeda espanhola antes da adoção do euro em 1º de janeiro de 2002. E Robson era Bobby Robson, o inglês que treinava o Barcelona sob auxílio tradutor de um português ainda anônimo chamado José Mourinho. Comecemos, enfim o resgate de uma história vivida em tempos longe (até demais) do politicamente correto, conforme diversas provocações e bate-bocas públicos registrados no Mundo Deportivo, como se verá em novas aspas que pegaremos emprestadas – com pontuais observações nossas em colchetes. As imagens também são do acervo do jornal, salvo quando especificado, como a que abre essa matéria: o cerco dos madridistas Redondo e Seedorf consta no Instagram do craque (@g10vanni).

Uma contratação complicada e uma pré-temporada mais ainda

Três dias depois daquela nota, o diário ventilava a contratação do atacante Pizzi, argentino da seleção espanhola e artilheiro do recém-finalizado torneio espanhol de 1995-96. A intenção visaria apenas revende-lo por 500 milhões de pesetas e ter caixa para contratar Ronaldo, “embora as complicações sejam muitas. O PSV reduziu suas pretensões a 1.600 bilhões se o Barça lhe ceder Jordi [o filho de Cruyff]. (…) Há outros camisas 9 que o Barça tem em sua agenda. (…) Nesse sentido, o ingresso de 500 milhões por Pizzi poderia fazer factíveis outras operações. Na lista estão também Sávio, Giovanni, [Matías] Almeyda e [Christian] Bassedas”.

Como se sabe, Sávio eventualmente rumaria justamente ao Real Madrid. Que, por outro lado, também se interessava pelo santista. Foi como noticiou-se em 1º de junho: “Capello viaja ao Brasil – o novo técnico do Madrid viajou ao Brasil para seguir de perto a contratação de Roberto Carlos. Além disso, seguirá as evoluções de Zé Maria, Gamarra, Arce e Giovanni”. O atacante flamenguista e o paraense seguiam incluídos numa lista de interesses publicada em 4 de junho, a abranger também Ronaldo, uma volta de Romário, aquele argentino Almeyda e o português Vítor Baía. 

A volta de Baixinho já era descartada dois dias depois, em contraste com a expectativa por Giovanni na matéria de título “Romário não virá”. Nela, se destacava que Giovanni, por outro lado, era “o jogador atual com mais projeção do futebol brasileiro, (…) um mediapunta de 23 anos, (…) muito completo e marca gols com facilidade”. Uma coluna à parte cravava: “a incorporação do brasileiro Giovanni, do Santos, poderia concretizar-se nessa semana. Certamente, dentro deste mês. Apostem forte em Giovanni, um meia que dará o que falar”. 

As ameaças ao presidente santista pela venda e os elogios do presidente do Barça (“na Eurocopa 1996 não há ninguém como ele”). A repercussão de sua despedida no Santos, justamente contra um Real Madrid derrotado por Camanducaia e Jamelli

Outro dia mais tarde, publicou-se declaração do cartola Joan Gaspart: “Giovanni? Já lhes disse que estava em uma lista de vários jogadores e que ao Sr. Robson encantaria tê-lo”. Na época, ele ainda era visto como um plano B caso não fosse possível a vinda de Ronaldo. Mas era descrito como “um jogador muito completo. Seu estilo lembra o de Pelé ou Di Stéfano. Goleador, grande driblador e um jogador sacrificado que recua e trabalha para a equipe”, “com uma facilidade incrível para meter gols e uma técnica e espetacularização fora do comum”. Também noticiava-se outros na briga pelo meia: a Parmalat desejava vê-lo no Olympique de Marselha, e o presidente do Valencia viajaria ao Brasil junto de Mazinho para observar o santista e também Beto Cachaça, Túlio Maravilha, Luizão e Pimentel. 

No dia 8, foi a vez do Deportivo La Coruña e Real Betis também aparecerem com interesse, enquanto seguia o entrave entre praianos e catalães: “o Barça ofereceu 720 milhões [de pesetas] por Giovanni, mas o Santos pede 1 bilhão”. No dia 11, os alvinegros já haviam elevado o leilão a 1,3 bilhões de pesetas, ou 10 milhões de dólares, segundo o correspondente no Rio de Janeiro: “finalizado o torneio regional mais importante do país, o Campeonato Paulista, conseguiu 24 gols em 30 jogos. Anotou seus dois últimos tentos na quarta-feira passada contra o Botafogo, o que lhe permitiu superar Luizão, o artilheiro do Palmeiras, com quem estava empatado antes da última e decisiva jornada. Na atualidade, a chuva de ofertas por Giovanni está adquirindo dimensões de dilúvio. (…) Seu destino será para o melhor lance”.

No dia 12, o Barcelona já aceitava pagar 1 bilhão de pesetas, oferta “superior à do Palmeiras” (também interessado), mas o Santos mantinha-se firme em 1,3 bilhões para vender “um jovem talento com toque, precisão, visão de jogo, arremate e um grande carisma”, após “uma espécie de assembleia plenária de um dos clubes com mais história e títulos do futebol mundial. A assembleia, que contou com a presença do próprio Pelé, (…) começou pouco depois de 1 hora da madrugada em Barcelona, rodeada de uma expectativa inusitada, via satélite. (…) O Barça esteve conectado com o Santos através de Juan Figer, um agente uruguaio que interveio na contratação de Maradona e a quem Joan Gaspart deu plenos poderes – e assim comunicou ao presidente do Santos – para fechar a operação”.

No dia 14, a manchete eram aspas do próprio jogador: “escolho o Barça”, e não apenas pela oferta financeira superior; ele ainda declarava expressamente rancor contra o Palmeiras por ter sido abandonado quando testou-se com os alviverdes em 1994, ainda como jogador do Sãocarlense; em paralelo, uma volta de Michael Laudrup ao Camp Nou era cogitada como alternativa à indefinição com o paraense. Mas no dia 15 ele já era entrevistado diretamente pelo Mundo Deportivo, relembrando seus inícios, desde quando jogava bola na Travessa Nove de Janeiro até ingressar no futsal no Remo aos 11 anos e ali ficar até os 16; peladas informais entre Belém e a cidade interiorana de Abaetetuba dos 16 aos 20; e o recomeço na base da Tuna Luso – até o próprio Pelé colaborar economicamente para sua compra em definitivo pelo Santos em 30 de dezembro de 1994, após exibições promissoras como emprestado pela Tuna ao Peixe no Brasileirão daquele ano. Houve até espaço para notas pessoais sobre sua vida amorosa com outra belenense radicada em Santos, Ana Rosa (com quem segue casado). “O craque brasileiro é o terceiro de quatro filhos do matrimônio formado por Eládio de Oliveira e Doracy Silva. Conviveu rodeado de mulheres, já que é o único varão com três irmãs. Seus pais seguem no norte, em Abaetetuba, a 50 quilômetros de Belém”. 

Uma reunião presencial de doze horas de Gaspart com o presidente santista Samir Abdul-Hak foi o destaque do dia 16. O negócio foi dado como “70% fechado”, à espera da vinda do jogador à Catalunha para avaliação médica; ele ainda se encontrava no Brasil, participando de um jogo beneficente para os herdeiros do craque Dener. “Que venha!” foi a ordem do jornal – que, destacou no dia seguinte, com a operação enfim concluída, que Abdul-Hak vinha recebendo cartas ameaçando-o de morte.

À esquerda, registro da estreia de Giovanni no Barcelona, contra o Sparta Nijkerk, em pré-temporada na Holanda que incluiu também esse duelo com Jon Dahl Tomasson, do Heenrenveen

Mas o cartola se mostrava sereno: “posso assegurar que a torcida do Barça não se arrependerá dessa contratação (…). Para mim, é um jogador diferente de todos. É um virtuoso, um artista do futebol. Domina a bola com as duas pernas, tem um toque genial e marca gols que são diferentes de todos os demais (…). É uma pessoa muito tranquila, tanto dentro como fora de campo. E se em Barcelona puder conservar essa tranquilidade, estou disposto a assinar onde seja que não terá nenhum problema extracampo. Se é assim, repito, o Barça terá feito um grande negócio. Com certeza. (…) Não será fácil encontrar um substituto para Giovanni. Mas algo teremos que fazer com o dinheiro que cobramos”. E era profético em uma ressalva que não foi lida por Zagallo ou Van Gaal: “agora não esperem que lute, porque é um meia com um humor eminentemente ofensivo”. Ele buscou ainda afasta-lo do patamar de Pelé, situando-o mais próximo dos irmãos Sócrates e Raí – por sinal, outros dois craques de origem paraense (embora o caçula viesse ao mundo já em Ribeirão Preto).

O negócio havia sido inicialmente combinado em 975 milhões de pesetas e, em contrapartida, seis amistosos, a incluir a presença do Santos nas duas edições seguintes do Troféu Joan Gamper – e um possível e curioso empréstimo do croata Robert Prosinečki aos praianos. O entrave que restava era a duração: o clube queria cinco anos de contrato e o jogador, três. No fim, após nove horas de reunião com a presença de Giovanni no hotel L’Illa (após um longo trajeto aéreo Santos-Rio-Zurique-Barcelona) junto ao longevo presidente culé Josep Lluís Núñez, às 2 horas da madrugada bateu-se o martelo: 1 bilhão, com entrada de 65%, uma parcela para o fim de 1997 e outra para o fim de 1998. Ainda que os amistosos se reduzissem a um, que só ocorreria já em 1998 (chegaremos lá). 

Em contrapartida, o Barça autorizou que seu primeiro reforço da era pós-Cruyff (outra estatística destacada pelo jornal) voltasse ao Brasil para atuar até vinte minutos de um jogo de despedida, no dia 20. Outra curiosidade: foi justamente contra o Real Madrid, que estava em excursão pela América do Sul. O presidente Núñez justificava os mimos e a cláusula de rescisão em 3 bilhões de pesetas, a mais alta já vista até então na Espanha, destacando o diagnóstico do velho ídolo blaugrana Evaristo de Macedo de que “Giovanni era o único jogador brasileiro que podíamos contratar com plenas garantias” e que ainda assim, “vi catorze vídeos dele, porque já não confio nos treinadores. E posso dizer que na Eurocopa ainda não vi nenhum jogador como ele”. O meia teria ainda um mês de férias e antes de partir teve suas medidas tomadas pela Ermenegildo Zegna para já ter um terno clubístico personalizado para sua vinda definitiva à Catalunha.

A própria despedida de craque na Baixada foi destacada no jornal: “Giovanni brilha em seu adeus ao Santos” foi o título de uma nota a descrever que no fim ele atuou por 40 minutos contra o Real Madrid, se resguardando sem deixar de efetuar “lançamentos de mais de 30 metros, passes em profundidade” e até uma falta cobrada “com maestria, de um golpe seco e parabólico que a luva de Contreras evitou”. Já sem ele em campo, o Santos bateu o Real Madrid no segundo tempo, gols de Camanducaia e Jamelli. Em nota publicada em 22 de junho, um colunista, após ver vídeos do meia, cravou: “se estes vídeos refletem o rendimento do brasileiro ao longo da regularidade de uma temporada, me atrevo a afirmar que, com efeito, o Barça contratou um autêntico craque. É algo lento, talvez. Mas todo o jogo do Santos gira – ou vinha girando – ao seu redor; joga no curto e no largo – um passe seu, com a canhota, a 35 metros, é um primor de eficácia – e lança golpes francos com inusitada habilidade. Caso se adapte à cidade, ao clube, ao entorno e ao campeonato espanhol, pode dar muitas tardes de espetáculo ao Barcelona”. 

Só não foi o suficiente para Zagallo inclui-lo entre as três vagas de veteranos às Olimpíadas de Atlanta, mas a edição de 28 de junho registrou que o ex-santista foi colocado em uma lista de espera junto de Rogério Ceni, Marcelinho Paulista e André Cruz em caso de lesão de algum convocado. A existência de uma possibilidade de que o reforço fosse aos Jogos inclusive preocupou abertamente o assistente José Mourinho, na edição de 30 de junho (“é novato na equipe e seria importante que tivesse mais tempo para adaptar-se e conhecer seus companheiros e os técnicos”). Mas Aldair, Bebeto e Rivaldo, os únicos que Giovanni (que já tinha mais de 23 anos) poderia repor, seguiram saudáveis – o único cortado seria Beto Cachaça, de idade olímpica e substituído por Marcelinho, também sub-23. 

Com a novela da contratação encerrada e sem que Giovanni pudesse juntar-se de imediato ao Barcelona enquanto não começavam as Olimpíadas de Atlanta, menções a ele no Mundo Deportivo estavam mais raras na primeira semana de julho de 1996, até ele conceder nova entrevista exatamente no dia 7. O clube tinha nele, no romeno Popescu e no bósnio Meho Kodro os jogadores para as exatas três vagas permitidas no gramado a não-cidadãos da União Europeia, pois o croata Prosinečki era visto já como carta fora do baralho – e o técnico Bobby Robson não desejava quatro extracomunitários (a Romênia só viria a entrar na União em 2007; a Croácia, em 2013; e a Bósnia ainda está à espera), o que provavelmente o obrigaria a promover um desagradável rodízio como Cruyff precisava fazer em tempos pré-Lei Bosman com Romário, Laudrup, Koeman e Stoichkov. Mas a volta do búlgaro (ainda no Parma, e cujo país só ganhou passaporte europeu em 2007 também) estava no radar. E as negociações pelo não-europeu Ronaldo seguiam firmes. Giovanni não se melindrou, ao contrário: “se Ronaldinho vier, será algo épico, grandioso. Joguei com ele na seleção e nos entendemos às mil maravilhas”. 

Mas a grande curiosidade da entrevista foi uma revelação sobre uma atividade exercida entre sua saída do futsal do Remo e a entrada nos juvenis da Tuna: “joguei vôlei no Paysandu. Este esporte te dá uma visão muito boa, porque é muito rápido e decisivo cada lance da partida. Te dá impulsão e colocação. É um esporte coletivo muito disciplinado”. Em 2020, o portal paraense O Liberal até destacou que o Papão era o clube pelo qual torce na terra natal, embora só o tenha defendido nos gramados na pré-temporada de janeiro de 1994.

Os primeiros elogios vieram no Troféu Joan Gamper de 1996: se emociona ao marcar na semifinal com o San Lorenzo e aparece de pé à esquerda comemorando o título

A edição de 10 de julho de 1996, por sua vez, destacou que aqueles recordes financeiros do negócio por Giovanni duraram só poucas semanas: sua condição de mais alta exportação do futebol brasileiro (os 8 milhões de dólares superaram os 7 que Roberto Carlos custara à Internazionale e Juninho Paulista ao Middlesbrough, ambos em 1995) foi superada pelos 9,2 milhões empregados pelo La Coruña para anunciar Rivaldo – cuja cláusula rescisória com os galegos foi estipulada em 4 milhões, agora a mais alta de La Liga. Mas o pernambucano durou ainda menos tempo como recordista: em 11 de julho, acertou-se a vinda de Ronaldo ao Camp Nou, embora a assinatura ainda tardasse uma semana. E na edição de 12 de julho o atacante tratou de exaltar o conterrâneo que o receberia: “creio que o Barça acertou plenamente contratando Giovanni. Posso assegurar que é um craque. A verdade é que é fácil jogar junto dele”. Era um respaldo a declarações recentes da lenda Koeman (entrevistado no Feyenoord, onde pendurava as chuteiras), do madridista Raúl e até do barcelonista Abelardo Fernández desconhecendo o ex-santista.

O Brasil estreou enfim nas Olimpíadas em 21 de julho. Com chances agora impossibilitadas de medalha olímpica, Giovanni pôde então juntar-se de vez ao Barça na pré-temporada holandesa. E para ser o segundo homem a ser dono da camisa 10, dado este relembrado pelo próprio Mundo Deportivo já em 2021 em uma das notas de despedida a Messi – embora a numeração já atravessasse décadas, era passada ao jogador que eventualmente atuasse na posição correspondente em campo; só na modernidade dos anos 90 é que os números passaram a ter portadores fixos no elenco, titulares ou não, e nesse sentido a reportagem de 2021 assinalou que o único antecessor do brasileiro foi Ángel Cuéllar.

O Messias teve no então capitão José Mari Bakero seu primeiro colega de quarto (“Bakero é um grande companheiro e me está deixando tudo muito fácil” e “não nos entendemos muito pelo idioma e rimos muito” foram os elogios mútuos), segundo edição do dia 27 de julho. E desde o dia 21 o Mundo Deportivo começou a anunciar uma fita VHS com os lances dos reforços do barcelonismo. Giovanni e, claro, Ronaldo, estavam lá, junto a Stoichkov, cuja volta do Parma fez Kodro ser vendido, diante do excesso de extracomunitários; Luis Enrique (pode parecer estranho hoje, mas vinha do Real Madrid); Laurent Blanc, ex-Auxerre e único a superar Giovanni em altura no elenco; Vítor Baía, a vir do Porto para desbancar de imediato do gol um tal de Julen Lopetegui e um tal de Carles Busquets, pai de Sergio; e Pizzi. 

O paraense inicialmente tinha em Iván de la Peña como principal concorrente de posição, mas o carequinha inicialmente estaria longe dali, com sua seleção em Atlanta. Porém, o novato sofreu ainda assim: “muito apagado pelo centro, lento e com um jogo de cabeça totalmente ineficiente. Faltou ritmo e estranhou o sistema” foi a avaliação do jornal em 30 de julho ao que viu no 4-0 sobre o Sparta Nijkerk, jogo-treino (todos os jogadores do primeiro tempo foram trocados no intervalo) que serviu de primeira partida pós-Cruyff. O brasileiro teria tido “lampejos de indubitável qualidade”, mas “ofereceu uma imagem excessivamente lenta, defeito que deverá sanar antes do início de La Liga”. 

Já no dia seguinte, novo ensaio, contra o De Graafschap. Melhorou: “Giovanni protagonizou as melhores ocasiões do início”, destacou o jornal, referindo-se a “três claríssimas ocasiões que poderiam ter disparado o marcador” nos cinco minutos iniciais – um cabeceio fraco em cruzamento de Luis Enrique, um chute de fora da área sem sorte e então “uma espetacular bicicleta em centro de Sergi que se perdeu por centímetros”. Mas ele foi “se diluindo e acabou com um jogo torpe e lento”, dando lugar a Bakero aos 15 minutos do segundo tempo, logo após Stoichkov ter assegurado a virada final por 2-1. Ele retrucou na mesma edição: “creio que quem me conhece um pouco sabe que minha mudança de ritmo é bem mais rápida e que na corrida posso chegar em uma bola antes que um defensor. O que ocorre é que, por ser alto, meus movimentos podem parecer lentos, mas se trata de uma ilusão de ótica que não corresponde à realidade”. 

Bakero teria melhorado a marcação e “a falta de recursos defensivos de Giovanni” não deixou de ser ressalvada já na edição de 1º de agosto, data de partida contra o Den Haag. O brasileiro dessa vez começou no banco. Quando entrou, teve momentos “de autêntico craque, mas no meio de uma grande lentidão e patentes altos e baixos no jogo. Tecnicamente é um jogador fantástico, mas como o resto da equipe lhe falta essa ponta de velocidade e adaptação ao sistema que faça dele um jogador valioso e à altura do seu prestígio”. O Barça perdeu de 1-0 e despediu-se da Holanda enfrentando o Heerenveen no dia 3. 

Contra o clube da Frísia, Giovanni voltou à titularidade, saindo aos 18 minutos do segundo tempo por Albert Celades: “jogou todas as partidas e em todas elas mostrou graves problemas de aclimatação. Tem toques de grande classe, mas fala pouco com seus companheiros e sua timidez o perde. Acaba por desaparecer do campo”. Por outro lado, deixou o campo sob vitória parcial de 3-1. E viu do banco os adversários causarem preocupação, com uma notável virada para 5-3. Mas não usou o fato para tirar o corpo fora: “estamos em pleno período de preparação e estou convencido de que começaremos muito bem La Liga. Perdemos duas partidas, mas coisas assim fazem parte de uma pré-temporada. Quanto a mim, é preciso levar em conta que estive um mês e meio sem jogar e é possível que se tenha notado. Ainda não viram o verdadeiro Giovanni. Melhorarei a forma física e a adaptação ao resto dos companheiros. É questão de tempo”. 

Bobby Robson manteve fé nele e o incluiu entre os 18 convocados para uma série de amistosos contra outros clubes espanhóis, a começar por um triangular com Atlético de Madrid e Real Betis no estádio bético. Em 9 de agosto, De la Peña, de volta das Olimpíadas, foi mesmo o titular na vitória por 2-1 sobre o Atleti, inclusive orquestrando os dois gols enquanto o brasileiro só entrou para os seis minutos finais, no lugar de Pizzi. “A adaptação do carioca está sendo complicada”, resumiu-se na edição do dia 11. O “carioca” não era Ronaldo, ainda de férias no Brasil, e sim um sinônimo metonímico, por certo inapropriado, para referir-se ao Messias. José Mourinho o defendeu na mesma edição: “é o único jogador que sofreu uma mudança radical em sua vida”. 

Naquele mesmo dia, foi retribuído com uma atuação enfim elogiada, conforme avaliação na edição do dia 12 sobre o 1-1 contra o Betis: “mostrou seu toque mágico com um magnífico gol de empate”, no minuto 93, após substituir aos 20 do segundo tempo um De la Peña apagado. Mas, nos pênaltis, Pizzi e Pep Guardiola desperdiçaram e a taça do triangular ficou com o adversário. No jornal do dia 13, o paraense estava otimista: “marquei meu primeiro gol com o Barça, mas não será o último, certeza”. O redator concluía: “ninguém duvida de sua qualidade, mas até agora só a mostrou em conta-gotas”.

Cenas da Supercopa da Espanha de 1996, quando iniciou sua estrela em clássicos: sua alta impulsão (fruto do voleibol no Paysandu?), e ao lado de Simeone observando Ronaldo

Outro problema apontado seria conciliar o novo clube com a seleção. A Supercopa da Espanha, contra o Atlético de Madrid, se daria em jogos nos dias 25 e 28, data esta na qual Zagallo queria Ronaldo e Giovanni consigo em Moscou para amistoso contra a Rússia. Haveria ainda um amistoso contra a Holanda em Amsterdã em 31 de agosto, por sua vez véspera da rodada inicial de La Liga. À edição do dia 16, ele se mostrou disposto a encarar: “não seria a primeira vez que faço algo assim. No Santos já joguei dois encontros em dois dias”. No mesmo dia 16, o Barcelona travou amistoso com o Real Mallorca, em outro triangular de verão a envolver o Atlético de Madrid. E Giovanni saiu com moral, marcando novo gol, pelo segundo jogo seguido, mesmo novamente vindo do banco. Entrou no lugar de Figo aos 23 minutos do segundo tempo e a três minutos do fim anotou o 3-1 sobre os baleares. Inclusive, mostrou-se compatível para atuar lado a lado com De la Peña. Ronaldo enfim chegou no dia 17, reiterando na edição da manhã seguinte que “Giovanni é um craque e facilitará meu jogo e minha adaptação à equipe”.

Em 18 de agosto, foi a vez de reencontrar o Atlético. Dessa vez, os madrilenhos venceram, por 1-0, gol anotado pelo argentino Juan Esnáider antes que Robson colocasse Giovanni em campo; substituiu De la Peña no minuto seguinte, aos 12 do segundo tempo, para ser junto a Celades “os homens de refresco mais ativos na segunda parte”. O rival ficou com o troféu Palma de Mallorca e a edição de 20 de agosto publicou reclamações do meia: “me estão dando poucos minutos e assim será mais difícil minha adaptação”. Foi atendido 48 horas depois, como titular na semifinal do Troféu Joan Gamper, contra os argentinos do San Lorenzo, partida que marcaria a estreia de Ronaldo como culé – embora se ressalvasse que o novo astro, sem ritmo, só deveria entrar em campo nos 20 minutos finais. No duelo dos azulgranas (que jogaram de branco) contra os blaugranas, Giovanni retribuiu, abrindo aos 31 minutos o placar dos 2-0: “melhorou muito suas atuações passadas. Marcou um bonito gol e demonstrou sua técnica” foi a avaliação constante na edição do dia 21. Ajoelhou-se no gramado do Olímpico de Montjuïc e levou as mãos ao rosto, emocionado.

O segundo jogo de Ronaldo pelo Barcelona, curiosamente, foi contra a Internazionale, pela final do Joan Gamper em 21 de agosto, um 2-1 que os italianos só descontaram no finzinho. Novamente, o Fenômeno começou no banco, poupado. E, novamente, o brasileiro a se sobressair foi Giovanni, que forneceu a assistência para Pizzi abrir 2-0 no marcador aos 27 minutos, além de quase marcar o terceiro aos 4 do segundo tempo: “segue melhorando e acoplando-se à equipe. Deleitou com excelentes detalhes técnicos”, sendo visto como “cada vez mais participativo”, teve enfim sua primeira partida como “aclamado” pela torcida que compareceu a Montjuïc e recebeu elogios públicos de Bobby Robson na coletiva pós-jogo. Um colunista na edição do dia 23 já apontava que o presidente Núñez “acertou plenamente” com a contratação, “pois é jogador de grande classe, com inteligência e faculdades”; e outra coluna asseverou que “sua classe está fora de dúvidas e deve ser o complemento ideal de Ronaldo”.

Era hora, enfim, da temporada começar oficialmente.

Tornando-se o 16º melhor jogador do mundo de 1996

Montjuïc também recebeu o jogo de ida da Supercopa da Espanha, no dia 25. Foi o primeiro jogo de Ronaldo como titular e rendeu também seu primeiro gol blaugrana, logo aos 5 minutos. Giovanni não fez por menos: foi descrito como “muito ativo”, fazendo “sua melhor partida” até então. Ele primeiramente anotou o segundo aos 31, usando a cabeça para aproveitar boa jogada de Figo. O Atlético conseguiu arrancar o empate e quase virou aos 27 do segundo tempo, em lance salvo por Vítor Baía. O 3-2 saiu no minuto seguinte, mas para o Barcelona, após “um preciso passe de Giovanni” para Pizzi. Mais dois minutos, Ronaldo pedalou e serviu para De la Peña ampliar. “Não obstante, Giovanni, no minuto 89, não quis deixar as coisas como estavam e realizou uma portentosa ação em que deixou sentados até três rivais para dar o passe da morte ao próprio Ronaldo. 5-2”. Robson se maravilhou: “o tento de Giovanni, incrível: dribbling, dribbling, dribbling… está muito melhor que há quatro semanas. Quando chegou, desconhecia nosso sistema, mas agora colheu confiança”.

Segundo a edição do dia 27, o Fenômeno até permitiu-se uma brincadeira no jantar comemorativo no Porto Olímpico: “Giovanni e eu formamos um matrimônio perfeito”, noticiando-se ainda alta repercussão da partida no Brasil, onde dois canais a transmitiram, fazendo muitos brasileiros começarem a se dizer adeptos do Barça. E uma coluna da edição seguinte até zombou de uma declaração do presidente do La Coruña, na qual exaltara Rivaldo como “infinitamente superior a Giovanni”, retrucando então que “o próprio Rivaldo deve pensar que seu presidente lhe teria feito um favor ficando caladinho”.

Sem a dupla brasileira no dia 28 e com outros também ocupados com suas respectivas seleções na mesma data (contra os russos, Giovanni forneceu assistência para Donizete Pantera igualar em 1-1 um jogo que terminou 2-2), os catalães sofreram no jogo de volta da Supercopa. Havia critério do gol fora de casa e, no criticado gramado do estádio madrilenho de La Peineta, o Atlético venceu por 3-1, ficando assim a um gol do título – tornando ainda mais importante aquele quinto gol mágico que o paraense criara na ida. Os visitantes mal sorriram com o troféu, o primeiro oficial da carreira adulta do Messias: ele estreara no time adulto da Tuna já um mês após a conquista cruzmaltina na terceira divisão brasileira de 1992, chegara ao Remo em 1993 já após o título estadual azulino naquele ano e, como se sabe em todo o Brasil, enfrentou Márcio Rezende de Freitas em 1995 e o Palmeiras dos 100 gols no Paulistão de 1996.

Outrora criticado por contrata-lo a partir de catorze fitas VHS, o presidente barcelonista Josep Lluís Núñez logo passou a ser parabenizado como dono de “olho clínico”

A quase remontada do Atlético não comoveu Zagallo a poupar os dois blaugranas contra a Holanda, como pressionou o Barcelona. O Velho Lobo vociferou que “se a seleção do Brasil é tetracampeã do mundo, é porque levou sempre [a ênfase em itálico foi do próprio jornal] a sério suas partidas amistosas. Preciso deles. Preciso dos dois jogadores que fizeram uma partidaça no domingo com o Barcelona, como pude ver pela televisão”. Em contrapartida, eles se dispuseram a conciliar o amistoso canarinho do dia 31 com a estreia em La Liga no dia seguinte, deixando a titularidade ou não contra o Real Oviedo a critério do técnico Robson: “não nos importa chegar cansados”, declararam à edição do dia 30. 

Em estado de graça, o paraense abriu aos 14 minutos o placar no 2-2 com a Holanda no dia 31 – foi, inclusive, seu primeiro gol pela seleção, que vencia até um pênalti duvidoso ser assinalado no último minuto e ser convertido por Bergkamp. La Liga começou naquele mesmo dia, em um 1-1 decepcionante entre dois favoritos ao título, Real Madrid e La Coruña. Ronaldo e Giovanni viajaram em um jatinho particular de Amsterdã diretamente a Oviedo, cobertos por um seguro de 5 bilhões de pesetas. Robson preferiu poupar o meia, mesmo que Figo, lesionado em amistoso de Portugal contra a Armênia no dia 28, desfalcasse o setor. Ronaldo jogou os primeiros 65 minutos, deixando o gramado com 2-0 no placar, dois de Stoichkov. O Oviedo do guru Juanma Lillo então complicou, descontando duas vezes até Luis Enrique marcar duas vezes também, assegurando no penúltimo minuto a vitória.

A segunda rodada já reservava o dérbi catalão e marcava, enfim, a estreia dos brasileiros no Camp Nou. Giovanni declarou-se especialmente ansioso em estrear em pleno clássico e até posou para o jornal com um periquito (apelido do Espanyol) de cor azul, brincando que o velho rival Palmeiras tem o mesmo mascote. Pois o paraense não foi nada fanfarrão: recebeu nota 9,5, a mais alta do clássico contra um elenco especialmente forte do time vizinho, 4º colocado na temporada anterior de La Liga. O recém-demitido Cruyff não se fez de rogado em acompanhar das tribunas uma virada emocionante, pois os alviazuis, com Lardín, abriram o placar já aos 24 do segundo tempo. A seis minutos do fim, Giovanni empatou com oportunismo para cima da defesa coordenada por Pochettino, aproveitando cruzamento de Stoichkov pela esquerda para logo correr em disparada beijando seu novo escudo. Preocupado demais com Ronaldo, o Espanyol não se atentou com Pizzi e o hispano-argentino arrancou o 2-1 no segundo minuto de acréscimo. O Mundo Deportivo derreteu-se na edição pós-jogo, em 7 de setembro: “Ronaldo e Giovanni nasceram para procriar futebol. São binômio. Só precisam que lhes deem camisa da mesma cor. E jogar. Fácil assim. Assim de bonito. Mais cedo do que tarde, sairão nas revistas do coração (por não pararem de seduzir) ou em alguma crônica policial (por violentar defesas)”.

Em 9 de setembro, era notícia que Giovanni enfim escolheu uma casa em Barcelona, optando pela praticidade de morar na zona residencial de Paseo Bonavona (em contraste ao novo lar de Ronaldo, Castelldefels, colada na praia), a cinco minutos do Camp Nou. Afinal, “o Barça é minha casa”, dizia ele, reconhecendo que chegara a ter dúvidas de ambientação dois meses antes – quando estava solitário em um hotel, sem amigos, sem entender o castelhano ou o catalão dos outros e sem fazer-se entender com seu português falado de forma gaguejante e sussurrada, introvertido que sempre foi.

As atenções se voltaram à estreia na velha Recopa Europeia, então o segundo torneio europeu em importância, reunindo os vencedores das copas nacionais; com a dobradinha do Atlético de Madrid na temporada 1995-96, a vaga foi herdada pelo Barça, vice na Copa do Rei (foi nessa qualidade que havia enfrentado o Atleti na Supercopa da Espanha). Os catalães encararam em 13 de setembro os cipriotas do AEK Lárnaca, em Montjuïc. Giovanni era até dúvida, com um corte no dedão do pé desde o jogo anterior. Contra um oponente débil que tinha um goleiro que completava a renda como carpinteiro, Bobby Robson testou: deslocou o paraense da posição central entre os meias ofensivos para o flanco direito, normalmente a região de Figo – colocado por sua vez para a esquerda, já se pensando em como encaixa-los adiante com De la Peña ao centro. Não se saíram bem, como o resto do time (exceto Ronaldo, autor dos dois gols da noite). E Giovanni chegou mesmo a ser recriminado por Robson ao fazer malabarismos antes da vitória parecer assegurada. 

Mas a edição de 14 de setembro contou com a carta de um leitor empolgado: “não sei se contrataram Giovanni por um vídeo ou se um bruxo brasileiro trouxe Ronaldo, mas o certo é que são dois jogadores maravilhosos, capazes de encantar o Camp Nou de 100 mil espectadores”. Em 15 de setembro, La Liga viu o duelo direto entre os dois clubes que a lideravam naquele comecinho, com a visita do Barcelona ao Racing Santander. Os dois brasileiros foram apáticos: Giovanni, que terminaria substituído por De la Peña, “alternou momentos de bom futebol com lacunas, desaparecendo do campo”, “longe do seu nível”, segundo o jornal, enquanto Bobby Robson cornetou que “Ronaldo não pode marcar um gol de outro mundo e estar 89 minutos dormindo”. O Fenômeno abriu o placar, mas a equipe treinada por Marcos Alonso, pai do jogador de mesmo nome do Chelsea, obteve um merecido 1-1. 

Os brasileiros se recuperaram com louvor no dia 22, contra a Real Sociedad. Com um minuto de jogo, já estava Barcelona 1-0: “Figo recebeu a bola de Giovanni, em uma ação na qual o brasileiro fez gala de sua melhor técnica ao pisar na bola e cedê-la de calcanhar. O português serviu Ronaldo, que aproveitou sua rapidez para romper a defesa em linha e fuzilar Alberto com um disparo com a direita”. Os canarinhos foram eleitos os melhores (Ronaldo com quatro estrelas e Giovanni, com três, por assumir “o papel de arquiteto do jogo barcelonista”) de um jogo que se mostraria encardido, em que os bascos chegaram ao empate e o mantinham até os quinze minutos finais, quando Pizzi e novamente Ronaldo ampliaram – para então Kovačević ainda descontar de pênalti nos acréscimos.

Ronaldo e Giovanni juntos pela seleção contra a Rússia, amistoso que impediu que jogassem a segunda partida da Supercopa da Espanha de 1996: leem o jornal da taça conseguida pelos colegas

 Um colunista cravou na edição do dia 26: “todo mundo coincide em valorizar a grande categoria futebolística de Giovanni, que é para mim, desde Sándor Kocsis, o jogador com mais técnica que teve o Barça, incluindo Laudrup e Maradona” (novo glossário ao jovem: Kocsis foi o artilheiro da Copa do Mundo de 1954, como um dos astros da mágica Hungria). Naquela mesma data, o Barça realizou o jogo de volta dos 16-avos de final da Recopa Europeia contra o AEK Lárnaca. Na visita ao Chipre, Giovanni foi novamente testado em outro posto por Robson, agora como atacante fixo, em dupla experimental com Figo na linha de frente – Ronaldo foi poupado. E o paraense “estranhou” o posto, assim como lhe ocorrera no Remo em 1993, que igualmente lhe escalara mal ali: “foi de maior a menor”, na avaliação publicada no dia 27 sobre seu desempenho no 0-0.

No dia 29, o Barcelona visitou o Real Zaragoza. O primeiro gol foi sul-americano, mas do oponente: cruzamento do argentino Gustavo López para cabeceio do uruguaio Gus Poyet, logo aos 10 minutos. Figo empatou aos 21 em um belo chute rente à trave. Antes do intervalo, Gustavo López explodiu La Romareda encobrindo Vítor Baía. E López, em grande fase desde que conduzira o Independiente ao bicampeonato na Supercopa (1994 e 1995), anotou Zaragoza 3-1 no primeiro minuto do segundo tempo, ganhando em velocidade da marcação antes de soltar a canhota. Então os brasileiros reagiram ao argentino: Ronaldo, aproveitando jogada em profundidade de Figo, descontou logo aos 8, em bela jogada individual. O nervosismo passou a quem estava vencendo e aos 26, pênalti (duvidoso) de Solana em Fernando Couto e expulsão, por reclamação, do zagueiro zaragocista Aguado. Popescu empatou. 

Giovanni, por sua vez, “voltou a exibir detalhes técnicos de sua grande qualidade, com a assistência a Luis Enrique aos 34”. No último minuto, Ronaldo concluiu a épica virada para 5-3 do agora líder isolado. Caçados, os brasileiros saíram no finzinho (Giovanni tivera uma particular discussão verbal com Poyet) e uma coluna do dia 30 protestou: “o futebol espanhol não pode permitir-se ao luxo de voltar a lesionar o melhor jogador do mundo, como já fez com Maradona ou até com Schuster. Robson teve que trocar Giovanni e Ronaldo e não foi por estratégia. Sejamos sérios. Não só os árbitros acabam com o espetáculo”. Quem aliviava em partes os catalães era Zagallo, que concordou em levar apenas um dos culés para um amistoso contra a Lituânia em Teresina para 16 de outubro: “não é bom debilitar as equipes que têm que cumprir compromissos europeus importantes” foi uma frase atribuída ao Velho Lobo na edição de 1º de outubro. É que no dia 17 haveria Barcelona x Estrela Vermelha pela Recopa e só Ronaldo foi convocado. Antes, haveria o duelo com o Tenerife no dia 2. E a dupla não se saiu bem: Ronaldo, “perfeitamente vigiado pela zaga tinerfeña, criou perigo a conta-gotas” e Giovanni “não encontrou sua posição”.

Popescu abriu o placar a doze minutos do fim, mas quatro minutos depois o clube das Canárias conseguiu o 1-1 no Camp Nou, sob os olhares espiões do técnico do Estrela Vermelha. Que não se iludiu, elogiando os dois brasileiros: “é muito difícil marca-lo” foram as palavras de Vladimir Petrović sobre o atacante e, sobre o meia, elogiou “suas ideias e passes à área”. Com a proximidade do duelo continental, Mourinho choramingou o desfalque de Ronaldo e Zagallo não se conteve: “eu não posso prejudicar a seleção. Não tenho porque responder as frases de Mourinho para lhe dar uma satisfação. Tenho o direito de chamar os jogadores que eu queira sete vezes. A FIFA me dá esse direito. Deveriam agradecer que eu não tenha chamado Giovanni também” foi a resposta assertiva que apareceu na edição do dia 8. 

O paraense até foi ao Brasil por quatro dias, mas para resolver entraves burocráticos de escritura e um contrato telefônico, recebendo autorização porque o Barcelona só voltou a campo já no dia 12. E o estresse catalão com a seleção brasileira, por uma noite, deu lugar ao encantamento. Foi a famosa noite de Ronaldo como uma força da natureza na visita ao Compostela. Ou de um “apóstolo do futebol”, “monstro” ou “extraterrestre”, nos adjetivos do Mundo Deportivo do dia 13, a publicar ainda a comparação de Bobby Robson de treinar um “Pelé jovem”. Ronaldo primeiramente forçou um gol contra logo no primeiro minuto. Seu célebre golaço foi o terceiro da noite e ofuscou outro belo lance do atacante, no segundo gol da equipe, aos 18. Robson não esqueceu: “o segundo tem um mérito maior, porque após uma jogada impecável, não foi egoísta e presenteou a bola a Giovanni para que marcasse”. O 2-0 anotado pelo paraense “deixou mudo o estádio, mas a jogada do 3-0 foi tão bela e impressionante que a torcida local a premiou com uma coletiva ovação até Ronaldo”, descreveu o jornal. Foi aos 35 minutos e Ronaldo também fez o quarto, no primeiro minuto do segundo tempo. 

A atuação magistral do Fenômeno escondeu uma bela exibição do companheiro: o quinto gol, de Figo, veio “aproveitando um esplêndido serviço de Giovanni” aos 19. O nigeriano Ohen guardou o de honra aos 28 contra o líder invicto: Barcelona 17 pontos, Real Betis 14 e Real Madrid 14 era o pódio provisório em La Liga. Zagallo avisou: “não terei piedade do Barça”, em nota do dia 14 que ventilava a insatisfação do técnico com o que julgava uma ingratidão à sua boa fé em levar apenas Ronaldo para o amistoso contra os lituanos. Anunciou de antemão que Giovanni estaria para o compromisso seguinte, contra Camarões, já em 13 de novembro. No dia 16, o Fenômeno, para variar, deu show, marcando os três gols brasileiros no 3-1 em Teresina. Na edição do dia 17, já havia temores de que o sprint final em La Liga e uma eventual final de Copa do Rei se prejudicasse com o provável desfalque da dupla para o Torneio da França e a Copa América. 

Provocando com um periquito o rival Espanyol (e o Palmeiras!) antes da segunda rodada de La Liga de 1996-97, e comemorando gol naquele dérbi catalão: primeiro gol dele no campeonato espanhol

No mesmo dia 17, o Barcelona enfim recebeu o Estrela Vermelha. E a manchete do dia 18 foi “há Barcelona sem Ronaldo”. E houve porque Giovanni “marcou dois gols e foi o craque da noite” no 3-1 de virada sobre os iugoslavos, atuando “como craque, desses jogadores que decidem quando as coisas vão mal”. Bratislav Živković inaugurou o escore no Camp Nou aos 21 e o Messias, que “preencheu a lacuna de Ronaldo”, desenhou uma virada-relâmpago com gols aos 33 e 35. “O grande vencedor da noite, no fundo, foi o presidente Núñez, padrinho da contratação de Giovanni. O brasileiro deu a cara quando o pior estava se passando (…). Primeiro, com um gol de oportunismo, empurrando à rede uma bola que Stoichkov havia arrematado previamente de forma acrobática”. Se o primeiro foi anotado com o peito, o segundo veio “em esplêndido cabeceio em cruzamento de Figo”. O português, aliás, fechou o placar, aos 34 do segundo tempo. Contraintuitivamente, os gols do paraense saíram quando ele atuou onde rendia bem, como meia ofensivo centralizado – Pizzi foi inicialmente o único centroavante. No segundo tempo, Giovanni foi deslocado para o posto do hispano-argentino e não marcou. Mas não teve falsa modéstia em analisar ter sido aquela sua melhor partida no clube até ali, à edição do dia 19.

Quem também não teve falsa modéstia, na edição do dia 21, foi Zagallo, fera que o Barcelona buscou mimar o convidando para assistir no Camp Nou o duelo contra o Logroñés na véspera: “se eu não houvesse convocado Ronaldo para o Mundial 1994, agora não estaria no Barcelona”. O Fenômeno concluiu uma semana mágica de sete gols distribuídos por três cidades em dois lados do Atlântico, pois anotou dois, diluídos em um inapelável 8-0 onde Giovanni também vazou duas vezes – primeiramente, cabeceando cruzamento de Stoichkov (autor do primeiro gol, uma cobertura aos 22 minutos) para firmar o 2-0 aos 29. Ronaldo fez o 3-0 aos 40 minutos e aos 42 serviu o amigo, que só precisou empurrar em cima da linha a bola para os 4-0. Stoichkov ampliou de pênalti aos 10 do segundo tempo, Clotet marcou contra aos 22, Pizzi registrou o sétimo aos 37 e Ronaldo converteu pênalti aos 42. Uma das manchetes foi no sentido de que se Ronaldo era o rei, “Giovanni é o príncipe”. A edição do dia 22 noticiou que Zagallo teve ainda uma visita guiada pelo museu culé; e, curiosamente, uma oferta do outro clube da cidade por quem conseguira levar a melhor sobre Giovanni: por Túlio Maravilha, o Espanyol teria oferecido 2,8 bilhões de pesetas ao Botafogo.

A série de cinco gols de Giovanni em três partidas descansou no dia 23: com uma contratura na perna direita, ele foi poupado para a visita ao Sevilla. Sem ele, Ronaldo, bem marcado, também viu sua série de gols ser pausada. Luis Enrique arrancou um 1-0 chorado a treze minutos do fim e Bobby Robson, mal humorado com questionamentos, profetizou: “dá no mesmo 8-0 e 1-0. São três pontos”. O Barça seguia líder, com 23, mas com o Real Madrid no encalce, dois abaixo; o pódio se fechava com o La Coruña e seus 19. O Messias era agora bastante respeitado pelos espanhóis que outrora o desconheciam: o Valencia era o oponente seguinte –  e seu zagueiro Patxi Ferreira declarou que “para mim é mais importante a ausência de Giovanni do que marcar Ronaldo”.

Já o Barcelona pôde lidar com as ausências dos rebeldes Romário e Marcelinho Carioca, não digeridos pelo treinador Luis Aragonés. Mas houve sustos naquele dia 26: com 15 minutos, Ronaldo abriu 2-0. Mas o Barça sofreu outros dois gols, aos 7 e aos 14, com o tal Patxi Ferreira e o russo Karpin buscando o empate-relâmpago. O Fenômeno então reapareceu aos 29, vazando Zubizarreta para garantir seu primeiro hat trick na Espanha. Giovanni, por sua vez, “jogou na ponta” e foi “o complemento ideal de Ronaldo, com quem se entendeu às maravilhas”, recebendo três estrelas na edição do dia 27 como segundo melhor em campo. A do dia 28 teve uma entrevista com Jairzinho, que “não destaca só Ronaldo. Tem Giovanni presente: ‘quando o vi no início de sua carreira, soube também que duraria pouco no Brasil. (…) Quando um jogador pensa em como fazer uma jogada, os craques já têm cinco alternativas na cabeça. Giovanni é um desses’”. Zagallo, de fato, chamou mesmo os dois para o amistoso contra Camarões. Antes, a dupla teve outros compromissos com o Barça, a começar pelo reencontro com o Estrela Vermelha no dia 31 de outubro.

O Barcelona se intimidou com a atmosfera do Marakana de Belgrado e teve no goleiro Vítor Baía seu melhor jogador. Ronaldo, lesionado, “mostrou seu lado humano”, pois não atuou mesmo bem, mas foi escalado pelo receio que despertava em qualquer rival. O outro brasileiro também sofreu “férrea marcação” e “não brilhou muito”, mas deu conta nos Bálcãs: é que Zoran Jovičić abriu o placar no primeiro minuto do segundo tempo. Os iugoslavos ainda comemoravam quando então Giovanni “aproveitou a astúcia de Luis Enrique e em um abrir e fechar de olhos empatou”, esfriando uma reação sérvia menos de 60 segundos depois. “Mas não houve facilidades. Os locais seguiram empurrando e o Barça passou mal”, diagnosticou a edição de 1º de novembro, a resumir o sentimento pela classificação: “sobreviveram ao inferno”. Destacava-se também que na Recopa era o paraense e não o Fenômeno o goleador do elenco (em La Liga, também lideravam a artilharia interna no elenco, mas inversamente). Se até outro dia o camisa 10 era apenas “o príncipe”, na edição do dia 2 deu entrevista já sendo rotulado de “o outro rei”.

Ronaldo foi poupado para a partida de 4 de novembro, visita ao Sporting Gijón. Dessa vez, Giovanni é quem não jogou bem na ausência do Fenômeno. Especialmente após Nadal (tio do tenista) ser expulso ao receber dois amarelos em um espaço de cinco minutos (aos 35 e aos 40 do primeiro tempo), fazendo Robson ordenar que o paraense recuasse e assumisse papéis defensivos “ao centro do campo, o que não é o seu forte”; ele terminou substituído por Bakero a cinco minutos do fim. Ficou-se no 0-0 e Bobby Robson procurou amenizar: “jogando com dez, o empate é bom”. O Barcelona foi a 27 pontos, podendo ser ultrapassado pelo Real Madrid (com 25) se o rival vencesse seu jogo a menos.

Torcida catalã exaltando o “Samba Team” de Ronaldo e Giovanni. À direita, eles juntos após a mitológica exibição do Fenômeno contra o Compostela, a ofuscar partida brilhante também do Messias

O último jogo de Giovanni antes da viagem a Curitiba para servir a seleção foi contra o Atlético de Madrid, em 9 de novembro. Ronaldo novamente foi poupado, mas não faltaram gols no jogo, com duas viradas no placar: Caminero abriu o placar aos rojiblancos aos 6 minutos e Pizzi (15) e Luis Enrique (30) então colocaram os mandantes na frente. Vizcaíno (15 do segundo tempo) e Esnáider (27, convertendo pênalti polêmico) anotaram a contravirada madrilenha. Giovanni, novamente, “custou a entrar no jogo”, recebendo duas estrelas. Mas mostrou-se decisivo, empatando com oportunismo cinco minutos depois. “Quando Giovanni marcou o 3-3, Ronaldo não se conteve”, notou o jornal na edição do dia 10, relatando a agonia do atacante nas arquibancadas por não participar do clássico. O Barcelona seguia líder, com 28 pontos. Real Madrid e La Coruña tinham 25, mas um jogo a menos cada um. No dia seguinte ao jogão, Ronaldo e Giovanni, ambos patrocinados pela Nike, foram requisitados para uma sessão de fotos com a nova camisa da seleção brasileira – que se despediria da Umbro a partir de 1º de janeiro. 

O atacante sequer viajou ao Brasil, podendo assistir Caetano Veloso em 15 de novembro no Palau de la Música Catalana: sua lesão o fez ser poupado também por Zagallo, que testou então os atleticanos Oséas (do Paranaense) no primeiro tempo e Renaldo (do Mineiro) no segundo para acompanhar Giovanni. Que marcou pelo seu segundo jogo seguido pela canarinho (que naquela noite no Pinheirão trajou-se de azul), “ao executar com maestria uma cobrança direta de falta” aos 13 minutos. E não só: o Mundo Deportivo do dia 14 assinalou que o craque ainda teve duas tentativas salvas em cima da linha pelos africanos, aos 30 minutos do primeiro e aos 30 do segundo, depois de “driblar dois camaroneses, goleiro incluído”. Djalminha anotou o 2-0 após boa jogada individual do estreante Denilson. A grande fase do Messias fez o Barcelona prescindir justamente de seu primeiro colega de quarto: o histórico Bakero teve um jantar de despedida no dia 15 antes de emendar no futebol mexicano um ano final de carreira – Giovanni só aterrissou um dia depois e expressou que “é triste sua saída”. Prosinečki, que ganhara nova oportunidade ao destacar-se na pré-temporada na Holanda, também pedia para sair.

Bakero despediu-se no dia 18, contra o Real Valladolid, inclusive marcando gol. Pensava-se em poupar um Giovanni cansado da viagem transatlântica, mas ele foi titular, ainda que com desempenho irregular: “junto a grandes jogadas individuais, teve lapsos impróprios de sua categoria” foi a corneta da edição de 19 de novembro. Nadal o substituiu aos 21 do segundo tempo, quando o Barça já vencia por 4-1 (Popescu, Ronaldo, Luis Enrique e Bakero abriram a goleada antes de Alen Peternac descontar). Seria 6-1, com gols ainda de Figo e Roger García. Barcelona líder com 31 pontos, Real Madrid (já sem o jogo a menos) com 29 e La Coruña com 27 mantinham a ordem do pódio.

Então veio a primeira derrota em La Liga, em 23 de novembro. Os brasileiros conheceram o alçapão de San Mamés e pareceram intimidados: “Ronaldo só entrou em campo” e “Giovanni interveio muito pouco. Deu a sensação de não adaptar-se ao escorregadio terreno de jogo”. A dupla foi vista como os dois piores do líder, derrotado de virada pelo Athletic de Bilbao por 2-1. Por outro lado, Bobby Robson calhou de tirar o paraense com o jogo ainda em 1-1, acionando De la Peña aos 29 do segundo tempo, e ver Julen Guerrero dar a vitória aos bascos apenas dois minutos depois; Mourinho atacou a arbitragem diante da não-expulsão de um bilbaíno que entrou forte em Giovanni. Robson preferiu dar descanso aos brasileiros e outros cinco titulares para um amistoso em Glasgow contra o Celtic no dia 26 (vitória espanhola por 1-0), visando a partida de 2 de dezembro contra o Extremadura. Afinal, o Real Madrid enfim havia ultrapassado os catalães na tabela.

“Existe Barça sem Ronaldo”: com o amigo na seleção, Giovanni (abraçado na imagem do meio) deu conta de arrancar vantagem contra o Estrela Vermelha na campanha campeã da Recopa Europeia

Dessa vez, Giovanni “brilhou com seu virtuosismo nas ações individuais. Marcou um gol e foi co-autor de outro”, abrindo o placar “quando a inquietude se havia instalado no Camp Nou” mesmo com 13 minutos apenas decorridos. Depois, forçou um gol contra no primeiro minuto do segundo tempo, fechando um 3-0 pouco tranquilo – o oponente perdeu um pênalti com o jogo ainda em 1-0 e teria desperdiçado outras três chances claras. O Messias foi declarado o melhor em campo ao passo que Ronaldo esteve pouco inspirado: “houve um Giovanni que serve para solucionar estas partidas que se jogam com a mente a 600 quilômetros de distância”. Era uma referência a El Clásico, no Bernabéu, batendo na porta e já sendo rotulado de “partida do século” na edição do dia 3: a tabela mostrava Real Madrid 35 pontos contra 34 do Barça (e 33 do La Coruña).

No dia 5, uma notícia desagradável: a CBF, que ventilou a hipótese de viajar com uma seleção B para a Copa América (uma ideia já confirmada pela Argentina) na altitude boliviana, divulgou um acordo de cavalheiros com a federação anfitriã para que os canarinhos jogassem na amena Santa Cruz de la Sierra e só encarassem La Paz em uma eventual final – para, em troca, levar seus principais jogadores. Quanto ao clássico, saiu uma entrevista com o merengue Roberto Carlos, a asseverar sobre os brasileiros rivais que “Giovanni tem muito mais perigo. Muito cuidado com ele. Não falam muito do Giovanni, mas creio que está fazendo coisas sensacionais”. Houve espaço para uma provocação do meia ao lateral: “Roberto Carlos já pode ir pagando a aposta, porque no sábado ganharemos”. E uma declaração coruja de Bobby Robson contra a dupla ofensiva rival: “Šuker e Mijatović são dois atacantes muito perigosos, mas fico com Ronaldo e Giovanni”. Antes, novo compromisso comercial com a Nike, a usar a dupla brasileira do Barça para uma transmissão via satélite ao Brasil do lançamento da nova camisa da seleção.

O jogo ocorreu no dia 7, data em que o Mundo Deportivo publicou uma aposta do presidente madridista Lorenzo Sanz: “dois gols de Šuker e outro de Mijatović. O tento azulgrana marcará Giovanni” – que, por sua vez, jurou publicamente raspar a cabeça em caso de vitória, lembrando ocasião em que pintara no Santos o cabelo de vermelho “para motivar o grupo”. El Clásico teve mesmo ares de jogo de Copa do Mundo: “o Madrid-Barça deixa toda a Espanha deserta”, registrou a edição pós-jogo, destacando as ruas vazias país afora diante da atenção que a partida recebeu. Os madrilenhos sorriram por último, com gols dos velhos parceiros da Iugoslávia campeã mundial sub-20 nove anos antes e que mantinham amizade apesar da guerra que dilacerava seus povos até pouquíssimo tempo antes. O croata abriu o placar aos 24 (igualando-se na artilharia aos 13 gols de Ronaldo) e os dois se abraçaram quando o montenegrino, cujo filho receberia camisa de Šuker, fechou o 2-0 aos 3 do segundo tempo. Na retaguarda, os blancos cumpriram à risca a tática de seu treinador Fabio Capello em asfixiar coletivamente as individualidades catalães. Ronaldo, isolado dos meias, teve duas estrelas e Giovanni, uma (“começou muito motivado, mas o gás foi embora como um refrigerante”), dando lugar a Pizzi aos 20 do segundo tempo.

Os brasileiros do Barça puderam esfriar a cabeça na terra natal, liberados diante do compromisso de enfrentarem outros balcânicos no dia 18: os da Bósnia, em Manaus. A edição do dia 10 trouxe uma curiosa revelação: a de que desde o início de outubro um clube italiano vinha se reunindo com emissários do Barcelona para contratarem Ronaldo. A curiosidade reside nesse clube ser o Milan mesmo, com a Internazionale aparecendo nas negociações a partir de dezembro – junto a Arsenal e Manchester United. A do dia 12, além de publicar sondagens do Barça a Zé Roberto (sob recomendação de Giovanni), Emerson e Denilson, ainda repercutia a derrota no clássico, publicando a categórica negativa dos espanhóis do Barcelona ao boato de que, enciumados, estariam boicotando passes aos brasileiros (“não vale a pena comentar o tema, embora o conteúdo e o argumento sejam perigosos”, retrucou Guardiola).

Giovanni, de “o príncipe” após dois gols nos 8-0 sobre o Logroñés, a “o outro rei” ao confirmar-se a classificação sobre o Estrela Vermelha

Na despedida da Umbro, um Brasil pouco inspirado venceu os bósnios no Vivaldão por um magro 1-0, gol de falta de Ronaldo. No embarque de regresso à Catalunha, a dupla brasileira prometia ganhar La Liga. Ainda haveria naquele ano compromisso com o Celta de Vigo no dia 22. E a viagem pareceu cansar os canarinhos, que novamente jogaram mal: Giovanni teve um “futebol intermitente. Não soube sair da férrea marcação ao qual foi objeto”, recebendo inclusive alguma vaia (como Figo e Guardiola, apontou o jornal) ao ser substituído a dez minutos do fim por Guillermo Amor, e Ronaldo saiu-se “menos ativo que em passados encontros”. Nadal marcou o único gol, aos 42, a permitir que o clube encostasse no arquirrival: Real Madrid 39, Barça 37. Ao meia e ao atacante, foi um bate-volta: voaram naquela mesma noite ao Brasil, autorizados a passarem o natal com suas famílias sob o compromisso de estarem na Catalunha em 28 de dezembro.

De intocável em 1996 a moeda de troca em 1997 

Para não cansar-se ainda mais com tantos voos, Giovanni fez sua ceia natalina em Santos e não no Pará, na casa do empresário. Mas ele e Ronaldo deixaram para voltar no último voo (o paraense, sob desculpa de uma cirurgia odontológica) e um atraso da companhia aérea fez com que chegassem ao treino uma hora após o combinado; ainda assim, a postura de terem planejado chegar muito em cima do tempo de tolerância foi vista como pouco profissional pelo resto do elenco. E a edição de 29 explorou essa polêmica – para piorar, o paraense sofreu uma ruptura fibrilar no treino e viraria desfalque para encarar no Riazor o terceiro colocado La Coruña. Robson os multou em 300 mil pesetas a cada um, destinadas à caixinha de fim de ano do plantel, e lhes agendou um treino extra em pleno 31 de dezembro, ainda antes da conclusão do diagnóstico de Giovanni. Os brasileiros preferiram reagir com panos quentes. E a edição do próprio dia 31 revelou uma curiosidade: a de que quatro anos atrás Ronaldo fora indicado ao PSG por Paulo Cézar Caju, mas os franceses ficaram inertes. Giovanni e sua família abrigaram o amigo no réveillon.

A temporada recomeçou em 4 de janeiro, com Pizzi marcando no último lance o único gol da vitória fora de casa sobre o La Coruña, sem Giovanni no Riazor, mas com as estreias de Renaldo e Flávio Conceição com os galegos reforçando a audiência que aquele duelo direto teve no Brasil. A edição do dia 6 valeu pela curiosidade de boatos ligando Rodrigo Fabri ao Barça, sabendo-se que ele eventualmente passaria pela dupla de Madrid. Giovanni voltou aos treinos regulares no dia 7. Mas Robson não o incluiu entre os convocados para o duelo com o Hércules para o dia 13 e não apenas por uma precaução médica, desgostoso com declarações do camisa 10 que deram a entender sua preferência pelo método de trabalho de Zagallo – segundo a edição já do dia 12. Farto, o assessor de imprensa do Barcelona assinou um manifesto para a mesma edição: “propagaram situações que dão uma falsa sensação de instabilidade. O atraso de Ronaldo e Giovanni fez escorrer rios de tinta. O de Roberto Carlos nem transcendeu”.

No dia 12, o Extremadura surpreendeu ao derrotar o líder Real Madrid, bastando assim ao Barça fazer o dever de casa para igualar-se na liderança aos 43 pontos do rival. Mas a chamada de capa pós-jogo do Mundo Deportivo quanto à partida culé em 13 de janeiro foi um ácido “ridículo”, pois “meia hora de sonho” deu lugar a “60 minutos de pesadelo”. Luis Enrique ocupou o setor do paraense e abriu o placar aos 8, ampliado aos 15 por Ronaldo. Mas o Hércules fez jus ao nome: ainda no primeiro tempo, empatou, com Dubravko Pavličić e Josip Višnjić; e, aos 10 do segundo tempo, Eduardo Rodríguez anotou a épica virada à equipe de Alicante. Aquela partida sem Giovanni é que seria vista com o tempo como o grande ponto de inflexão na trajetória catalã em La Liga de 1996-97.

Robson, ainda assim, tornou a não incluir Giovanni para a partida de 19 de janeiro, fora de casa, contra o Real Betis, medida que já era vista como exagerada na edição de véspera do Mundo Deportivo: “Giovanni não pede explicações, embora as mereça”. Dessa vez, ele ao menos jogou, substituindo Amunike (em dia “muito discreto”) na meia hora final e “aportou serenidade” em uma reviravolta mais feliz. Robert Jarni desenhou um 2-0 relâmpago aos 29 e aos 31 do primeiro tempo. No minuto final do primeiro tempo, Luis Enrique (que, ainda visto sob desconfiança inicial como vindo do Real Madrid, vinha ganhando espaço a partir das ausências do Messias) descontou, iniciando seu show. Embora não tenha participado diretamente, o paraense ao menos foi pé-quente: um minuto após pisar no gramado do Benito Villamarín, viu Luis Enrique empatar. Ronaldo virou aos 28 e Luis Enrique concluiu seu hat trick aos 34. Na tabela, Real Madrid 46 contra 43 do Barça. O La Coruña ainda era visto no retrovisor, com 39, pontuação que os béticos teriam alcançado se vencessem.

Aceitando a punição por atraso na volta natalina, Giovanni lesionou-se em amistoso. Ronaldo, bancando o repórter, lhe tirou um sorriso: “jogarás comigo no domingo?”

Um dia depois, Ronaldo viajou a Lisboa para receber o prêmio oficial de melhor do mundo da FIFA, cerimônia para a qual convidara Giovanni, que recebeu autorização para acompanha-lo – afinal, ele também figuraria naquela edição do The Best, como ressaltado pelo jornal, como 16º melhor votado, um ponto acima da rabeira formada por Del Piero, Djorkaeff, Poborský e Savićević. Mas o paraense, escaldado pelo problema de três semanas antes, optou por não fazer bate-volta até Portugal: era um dos designados por Bobby Robson para amistoso em Almería contra o Standard Liège outro dia depois, 21 de janeiro. Contudo, se deu mal de outro jeito no 2-2: saiu de campo ainda antes do intervalo após entrada dura de um belga lhe causar um estiramento muscular. Houve espaço para humor na crise: interrompendo entrevista coletiva, Ronaldo pegou emprestado um microfone e arrancou sorrisos ao perguntar-lhe se “jogarás comigo no domingo?”, em referência ao encontro do dia 26 contra o Rayo Vallecano.

Giovanni jogou, mas começando no banco, no inapelável 6-0 dentro de Vallecas – rendendo um recorde de gols de uma equipe ao fim do primeiro turno de La Liga (60, superando os 56 da Quinta del Buitre do Real Madrid de 1989-90). Foi “frio” e “errou dois cara-a-cara com Contreras”, o goleiro madridista em sua despedida do Santos e agora rayista. Já estava 5-0 (Luis Enrique, Sergi Barjuan e hat trick de Ronaldo) quando Robson aproveitou para novamente testar o paraense e De la Peña juntos, colocando-os na meia hora final nos lugares de Figo e Popescu, respectivamente. Pizzi deu mais sorte: substituiu Ronaldo aos 22 e fechou a goleada aos 30. Mas o time de 60 gols seguia três pontos atrás do time de 43 gols – o Real Madrid somava 49 pontos, respaldado pela defesa vazada apenas 14 vezes contra 26 dos catalães. Haveria a chance de ir à forra logo contra o rival: em 30 de janeiro, El Clásico marcava a estreia dos gigantes na Copa do Rei, em precoce encontro sorteado para as oitavas-de-final.

O camisa 10 novamente começou o jogo no banco e viu Ronaldo abrir aos 13 um placar igualado já aos 16 por Šuker. Aos 15 do segundo, Robson novamente trocou Amunike pelo paraense. Mas, em pleno Camp Nou, Hierro virou aos 22. Nadal tratou de reigualar logo, aos 25, reanimando os donos da casa, que jogaram “uma fase final de encontro esplêndida, pletóricos de moral e de sede de vitória. Giovanni a deu, com um magnífico cabeceio na saída de um escanteio”, aos 33. De outros relatos pós-jogo do Mundo Deportivo, o mais curioso foi o que sugeriu um trabalho tático idealizado na reta final conjuntamente por um volante com o assistente técnico: “Guardiola cochichou algo com Mourinho na lateral, reordenou a equipe e Giovanni sentenciou”. Fato é que “o Camp Nou estalou de delírio quando Giovanni penteou com seu poderoso salto a bola para metê-la junto à trave” e que a entrada “providencial” do Messias “diversificou o jogo”. Sobre o Real Madrid, o trabalho de Capello foi visto como “prático, compacto e dono da situação até que Giovanni marcou”. Foi a primeira vez que os brasileiros anotaram diante dos merengues e “o certo é que a presença de Giovanni no gramado consagrou o domínio do Barcelona”. Além de decretar a vitória, o meia também sofreu um pênalti do goleiro Illgner, que praticamente o abraçou sob vista grossa da arbitragem.

Destacado como “o homem dos gols decisivos” na edição de 1º de fevereiro (a conter fala de Ronaldo pela qual “embora goste de todos meus companheiros, jogar ao lado do Giovanni é especial para mim” e do próximo técnico adversário, Juanma Lillo, na qual o “deixa louco desde há muito tempo”), Giovanni enfim teve sua volta ao onze inicial divulgada: uma lesão de Albert Ferrer foi a deixa para Robson naquela mesma data recuar o destacado Luis Enrique de improviso àquele setor e recolocar o camisa 10 como mediapunta titular. Mas a empolgação se mostrou efêmera: o Messias só recebeu uma estrela e só foi visto “nas fases de melhor jogo local” em novo tropeço barcelonista em casa. Dos graves: Pizzi, aos 15 do segundo tempo, e Ronaldo, aos 22, pareciam garantir vitória sobre o Real Oviedo quando então Oli colocou granola no açaí talvez programado ao aniversário de 25 anos que o meia comemoraria naquela semana – tal desvio de culinária, tão difundido no Sudeste, é visto como heresia mortal ao purista paladar paraense. É que o tal Oli igualou a conta com gols aos 30 e aos 45; entre um e outro, Giovanni foi substituído aos 37 por Òscar García (com acento grave mesmo, na gramática catalã), em tentativa de Robson de reforçar a defesa. Na tabela, Real Madrid 52 a 47.

De acordo com a edição de 4 de fevereiro, Robson teria de fato recriminado diretamente os brasileiros no vestiário, por não notar esforço de ambos na marcação. Giovanni, enquanto soprava as velas do aniversário, desabafou: “se me contrataram pela minha maneira de jogar, não posso mudar” foi o recado ao técnico. E houve à arquibancada: “só pediria à nossa torcida paciência. (…) As pessoas nunca estão contentes, mas sem seu apoio não alcançaremos nada. Na partida contra o Rayo Vallecano levávamos cinco gols e depois seis de vantagem e se escutaram vaias e isso não pode ser”. De outro lado, já ressaltava ter olhos para os dois clássicos na porta: a volta contra o Real Madrid pela Copa do Rei, dali a dois dias, e o reencontro com o Espanyol, na rodada seguinte do returno de La Liga. Inclusive, era apontado como o segundo batedor em uma eventual decisão por pênaltis contra os madrilenhos. Mas o treinador optou por só coloca-lo nos três minutos finais de El Clásico, no lugar de Ferrer: um gol contra de Roberto Carlos aos 24 e um pênalti convertido por Šuker aos 34 sumulou o 1-1 e a classificação culé.

Giovanni, “o homem dos gols decisivos”, comemora seu primeiro sobre o Real Madrid, dando a vitória na Copa do Rei de 1996-97: um dos últimos brilhos com o técnico Bobby Robson

O diário de 8 estampou que a diretoria já cogitava trazer Louis van Gaal para a temporada seguinte, sem descartar que o holandês inicialmente trabalhasse em dupla com Bobby Robson. E já falava em outro clássico. Não ainda com o Espanyol, oponente do dia seguinte, e sim o Atlético de Madrid, sorteado para o compromisso das quartas-de-final da Copa do Rei e que vinha tendo o hábito de crescer contra os catalães: 15 vitórias para cada lado permeavam os 37 duelos oficiais anteriores. Tamanha atenção ao Atleti custou novo revés em La Liga: o Espanyol fez valer o fator casa e, com dois pênaltis convertidos pelo romeno Florin Răducioiu (nos minutos 14 e 49) e diante da expulsão de Figo ainda aos 21, levou a melhor no dérbi catalão; Giovanni atuou apenas no segundo tempo no Sarrià, substituindo Ferrer no intervalo. Mostrou “vontade” e só, na crítica do Mundo Deportivo. E, como se não bastasse, lesionou-se de novo, agora no tornozelo esquerdo. Na tabela, Real Madrid disparado com seus 49 gols bastando aos 55 pontos por conta da defesa vazada 18 vezes em 23 jogos – enquanto os 62 gols do Barça eram descompensados com os 30 sofridos, estagnando-o nos 47. Inclusive, poderia ser ultrapassado pelo Real Betis se os sevilhanos, com 45 pontos (e 48 gols pró, mas 21 gols contra), vencessem seu jogo a menos.

Ronaldo, com moral, foi liberado para passar no Brasil o carnaval de 1997 (o feriadão durou de 8 a 12 de fevereiro), mas a escolha de Giovanni por sequer tentar pedir permissão para isso foi destacada na edição do dia 13. O jogo seguinte se deu no dia 16, com o Racing Santander, onde jogava um madridista emprestado sedento para mostrar serviço à capital – Dejan Petković, ele mesmo. Giovanni foi titular e esforçou-se na vitória de 1-0 (gol de Luis Enrique, aos 43), mas não bastou para a corneta: “tentou coisas e nenhuma saiu bem. Não brilhou na faixa direita e errou em uma clara ocasião”. Pizzi o substituiu aos 27 do segundo tempo e o paraense “levou todas as reprimendas” de Robson. Inclusive, houve quem opinasse que uma folga carnavalesca ao camisa 10 poderia até ter sido produtiva: “talvez ao brasileiro lhe teria sido bom passar uns dias distanciado da tensão que se vive ultimamente no entorno”. Essa oportunidade viria graças a Zagallo, que no dia seguinte chamou ele e Ronaldo para amistoso contra a Polônia para 26 de fevereiro no Serra Dourada, ainda que isso significasse desfalcar o Barcelona, que na mesma data travaria o jogo de ida contra o Atlético de Madrid pela Copa do Rei. Ah: Pet também não reluziu, só sendo usado na meia hora final. 

À edição do dia 19, véspera do duelo contra a Real Sociedad, Giovanni buscou justificar a atuação ruim diante do Santander: “não me sinto cômodo pelos lados, não tenho o costume de jogar aí”. Robson replicou à edição seguinte: “o pus nessa demarcação porque não tinha Figo”. Na visita a San Sebastián, o paraense desperdiçou nos primeiros seis minutos duas chances de inaugurar o placar no Anoeta, incluindo uma sem goleiro. “Segue sem estar em seu melhor nível” foi a crítica do jornal pós-jogo diante do triunfo basco por 2-0 – embora se creditasse novo revés também a uma arbitragem caseira que conferiu à Real um pênalti duvidoso e negou ao Barça outra penalidade na qual o donostiarra Miguel Fuentes colocara as mãos na bola. Ronaldo também não brilhou e a tabela indicava Real Madrid 56 contra 50 dos catalães, com o Betis somando 47 e um jogo a menos. 

Robson já começava a dar treinos com portas fechadas em La Masía e ao menos no jogo de 23 de fevereiro a medida pareceu surtir efeito: Barcelona 4-1 Zaragoza (que só descontou já totalmente goleado), com o Messias se sobressaindo no lance do segundo gol, pois “um magistral serviço de Giovanni a Ronaldo acabou em pênalti de Konrad”, o goleiro adversário. O atacante converteu, aos 40 do primeiro tempo, e concluiria novo hat trick após gols nos minutos 45 e 73. No geral, Giovanni “combinou jogadas de grande qualidade com momentos de escassa lucidez”. Tabela: Real Madrid 59 a 53. Na mesma noite, a dupla voou rumo a Goiânia – com o paraense se esticando na escala em São Paulo para dar andamento àquele tratamento odontológico. E a edição do dia 25 viu Sócrates se derreter até demais pelo conterrâneo: “para mim, Ronaldo não é o melhor jogador do mundo e sim Giovanni. O vi em várias partidas e está jogando em uma situação muito diferente da que estava acostumado no Brasil. Repito que, tecnicamente, para mim é melhor Giovanni”.

A visão do Doutor não pareceu absurda pelo que se viu no Brasil x Polônia. Zagallo já havia comunicado de antemão que só usaria Giovanni no primeiro tempo, para testar Juninho Paulista no segundo. No jogo que marcou a primeira vez em que a seleção viu Ronaldo e Romário juntos como dupla de ataque (o Baixinho não atuava como canarinho desde a Copa de 1994, voltava a fazer no Flamengo os gols que não lhe sobraram no Valencia e Zagallo, diante de uma má fase de Viola e Túlio, não teve escolha), foi o paraense quem marcou os primeiros gols da parceria da CBF com a estreante Nike. Foi “extraordinário nos 45 minutos que jogou. Marcou os dois primeiros gols e atuou como organizador”, na avaliação do próprio Mundo Deportivo. O primeiro gol do Messias saiu aos 7, com Ronaldo lhe colocando na cara do goleiro para o meia tocar sutilmente na saída deste; e o segundo veio aos 27, com Leonardo (habilitado com categoria por Romário) lhe rolando a bola após driblar o goleiro pela esquerda e perder ângulo. O Brasil abriu 4-0 e só nos cinco minutos finais os polacos diminuíram o vexame, anotando duas vezes.

Sócrates declarando Giovanni como melhor do mundo de 1996 e a comemoração com Leonardo após marcar duas vezes sobre a Polônia, em fevereiro de 1997: um ano e meio depois, Zagallo achava que não podiam jogar juntos…

No Brasil, a dupla do Barça comemorou ainda o bom 2-2 que os colegas no mesmo dia 26 arrancaram contra o Atlético no Vicente Calderón pelo jogo de ida das quartas-de-final da Copa do Rei. Fez-se escala em Madrid para encontra-los diretamente em Tenerife para o duelo do dia 1º de março contra os ilhéus por La Liga. Com Luis Enrique firmado na posição favorita do paraense, Bobby Robson manteve o Messias no time deslocando-o à ponta-direita. Mas a viagem longa pareceu pesar mais em um desastre. A decepção por vitórias que escorriam deu lugar a uma surra de 4-0 nas Canárias. Com o jogo ainda em 1-0, Nadal e Abelardo foram expulsos – este, ao cometer o pênalti que rendeu o 2-0 e abriu a torneira para os comandados por Jupp Heynckes. Giovanni “esteve impreciso e muito lento” e foi substituído já no intervalo por Pizzi, com o jogo ainda em 1-0. Mesmo a Ronaldo “faltou punch”. Não houve dúvidas em apontar-se o adversário Slaviša Jokanović como melhor em campo, não só pelos três gols (convertendo aquele pênalti e depois outro também, cometido por Luis Enrique), mas também porque “apagou Giovanni”, “sombra de si mesmo” segundo o jornal. Com um jogo a menos, o Real Madrid poderia abrir nove pontos acima dos 53 do Barcelona.

A Recopa, onde Giovanni era o artilheiro do elenco, voltou como chance de afastar a ressaca, pois a CBF divulgou um calendário pelo qual os dois brasileiros se ausentariam não apenas até de uma eventual final de Copa do Rei (caso o Brasil chegasse à final da Copa América), mas também das três rodadas finais de uma La Liga já quase no brejo. A partida em casa contra os suecos do AIK começou com tudo. Mesmo: os visitantes abriram o placar no primeiro minuto e Popescu empatou no segundo. Giovanni começou no banco, entrou no intervalo no lugar de Ferrer e foi mesmo no segundo tempo que o Barça virou para 3-1 sobre o time do então presidente da UEFA (Lennart Johansson, visto também como favorito para suceder a João Havelange na FIFA dali a um ano e meio). Mas ele “pecou de individualismo em suas ações”, seguindo uma seca de gols pelo clube desde aquela catarse de cinco semanas antes contra o Real Madrid pela Copa do Rei.

Em 9 de março, foi a vez de reencontrar o Compostela. Os galegos não devolveram o vexame sofrido em casa, embora levassem dessa vez “apenas” um 3-0. Com 25 minutos, Laurent Blanc e Stoichkov até davam pinta de uma surra maior. Giovanni entrou ainda com 2-0, aos 11 do segundo tempo, no lugar de um Figo pouco inspirado. E exibiu “qualidade”, aportando “técnica na parte final”. Na tabela, Real Madrid 62 e um jogo a menos, enquanto Barcelona e Betis dividiam 56 e o Deportivo, 53. Três dias depois, o foco passou à Copa do Rei, para o jogo de volta contra o Atlético. O paraense viu como espectador uma das grandes epopeias da história do torneio, pois nem relacionado ao banco foi: os madrilenhos abriram 3-0 no Camp Nou em 31 minutos de jogo. Ronaldo descontou rapidamente aos 2 e aos 6 do segundo tempo. E nem o 4-2 do Atleti outro minuto depois esfriou os culés. Eles precisavam de três gols e Figo, Ronaldo e Pizzi trataram de anotar um sensacional 5-4. O hat trick do Fenômeno rendeu a seus empresários uma curiosa reunião divulgada pelo jornal do dia 15: com Luciano Moggi e a Juventus.

No dia 16, o Barcelona pegou o Logroñés e novamente Robson optou por não levar Giovanni nem ao banco. Contra o adversário goleado por 8-0 no primeiro turno, a revanche fora de casa foi sofrida, mas os catalães conseguiram um golzinho solitário a sete minutos do fim com o reserva Amunike, que marcava pela primeira vez pelo Barça. Bastou para manter as chances em La Liga, com os mesmos 59 pontos do Betis, mas seis abaixo de um Real Madrid ainda com um jogo a menos. O Messias não escondeu a bronca: “pergunte ao treinador” foi sua resposta ao ser indagado à edição pós-jogo sobre o que estava acontecendo. Novamente procurado para a do dia 18, evitou: “penso muito, mas não quero falar. (…) Não quero dar explicações porque não as tenho. O tempo dirá. (…) Devo ter paciência e respeitar o treinador. Tenho confiança em mim mesmo e sei que posso jogar em qualquer equipe da Europa e do mundo”. E descartou que ainda houvesse problema de adaptação: “a fase difícil já passou”. Não parecia estar sozinho entre astros descontentes, ao menos: Stoichkov precisou desmentir que liderasse um motim contra Bobby Robson.

Ronaldo e Giovanni consolam o “belga” Luís Oliveira após classificarem-se à final da Recopa Europeia. Mas o paraense foi lançado aos ares por Roberto Carlos em clássico prévio à decisão e, lesionado, não a jogou – e mal comemorou (imagem da UEFA TV) a taça com Figo e Ronaldo

Naqueles dias, Zagallo anunciou convocados para amistoso contra o Chile para o dia 2 e tirou do Camp Nou apenas Ronaldo, justificando que devia-se a tentar retomar a política de boa vizinhança com o clube. Em 19 de março, um boato de que o São Paulo estava disposto a trocar Denilson por Giovanni foi repercutido no Mundo Deportivo. Defendido por um leitor na seção de cartas (“é tremendo assistir às últimas partidas do Barça e ver como um jogador, com tanta classe e qualidade como Giovanni, passa tantos minutos no banco. Se o próprio Pelé ou Valdano – entre outros muitos – o qualificam como um dos melhores meias do mundo… será por algo, digo eu? Robson tem tão pouca memória que não lembra a soberba dupla que fazia com Ronaldo nem o requinte de jogo e gols que nos brindou antes de cair lesionado (…). Depois de sua lesão, o treinador só contou com Giovanni para jogar meias partes, sem uma continuidade que tenha favorecido sua reincorporação e, ainda por cima, tirou de sua posição natural no campo”), o paraense, que por conta da Recopa conhecia na Suécia pela primeira vez a neve, negou conhecer proposta concreta e o cartola Joan Gaspart também a cortou: “estamos fechados até junho”. 

No jogo de volta com o AIK, o camisa 10 “apenas foi visto” em Estocolmo no cômodo 1-1 de 20 de março, entrando no lugar de Figo no minuto 63. Ronaldo, desde os 12, facilitara a missão. E para enfrentar o Sevilla no dia 23, Robson novamente não o relacionou. O empresário do paraense alertou à edição do dia 22: “ele é disciplinado e não quer criar problemas, mas um dia abrirá a boca”. Abriu, e já no outro dia: “prefiro sair se minha situação seguir como até agora. Não o entendo. Tenho a obrigação de lutar e trabalhar para que o treinador possa confiar em mim, mas há muitas coisas que dependem de que eu jogue ou não. Se não faço, dificilmente poderei mostrar nada (…). Tenho um contrato de cinco anos e quero cumprir. Mas se não jogo, um empréstimo iria bem já que há uma futura Copa América e é importante. (…) Vivi algum problema em outros clubes, não como aqui. (…) Nunca fui [polêmico], mas também mereço algo mais”. 

Robson foi firme em barrar qualquer saída antes do fim da temporada. E Gaspart, também, à edição pós-jogo: “falei hoje com o Brasil e se eles pedem respeito, eu também peço respeito conosco. Estamos imersos em três competições, Giovanni pode ser muito importante e esse mesmo respeito peço ao Barça. Que nos deixem tranquilos, que nos deixem acabar a temporada. Eu desejo o melhor para Giovanni, como pessoa é excepcional e como jogador, fabuloso. (…) É peça fundamental. Talvez hoje não, mas pode ser que seja para amanhã. Os diretores do São Paulo, com todo o respeito, devem se dar conta de que para mim é mais importante o Barcelona que seu clube. O treinador já disse que quer Giovanni para essa temporada e provavelmente muitas mais”. Sem o paraense, o Barcelona sorriu com um 4-0. Mas as arestas pareceram aparadas em conversa direta dele com o treinador relatada na edição do dia 26: “me convenceu. Acabou a história. Já não penso no São Paulo. Só no Barça”. O inglês voltou a relaciona-lo ao banco. E uma lesão de Sergi Barjuan fez o camisa 10 entrar em campo já com 10 minutos do jogo contra o Las Palmas pelas semifinais da Copa do Rei, no mesmo dia 26.

Mesmo fora de casa, o Barcelona resolveu ainda naquele jogo de ida, com um convincente 4-0 (Ronaldo, Pizzi, De la Peña e Ronaldo) em que o Messias “lutou muito” e “merece elogio por seu sacrifício”. Foi premiado com a volta à titularidade no dia 30, na visita ao Valencia, ainda que na meia-direita. Mas no Mestalla ele “não brilhou”, tentando “algumas ações individuais, mas poucas deram certo”, sendo substituído por Òscar García a sete minutos do fim. O Tenerife roubara um ponto do Real Madrid, mas o Barcelona não aproveitou e precisou, com Ronaldo, buscar a vinte minutos do fim a igualdade no placar aberto por Leandro Machado; na tabela, 63 pontos, como o Betis, nove abaixo dos merengues. Ainda valorizado no Brasil, Giovanni chegou a receber oferta de 800 mil dólares do Flamengo apenas para tê-lo emprestado por um ano, segundo a edição pós-jogo. Negou: “pertenço ao Barça”, resumiu para a edição de 2 de abril. Robson, por sua vez, admitiu em coletiva decupada na edição do dia 3 que “sabemos que não está jogando em seu lugar. Aí, nessa posição, estou vendo Òscar”.

Ele permaneceu titular para o reencontro protocolar com o Las Palmas pela Copa do Rei, naquele dia 3, sob o desfalque de um Ronaldo que na véspera servira a seleção contra o Chile em Brasília (dois dele e dois de Romário nos 4-0). No Camp Nou, o próprio Òscar García abriu o placar e Luis Enrique ampliou-o ainda aos 28 minutos de jogo. Giovanni, pela primeira vez em um bom tempo, jogou os 90 minutos. Terminou o primeiro tempo vaiado, mas no segundo “conseguiu que os assobios se mesclassem com aplausos graças a um par de ações positivas e, sobretudo, após um bom arremate por baixo que capturou o goleiro canário”. Fernando Couto completou os 3-0 já no segundo tempo. Na edição do dia 5, um leitor criticou a própria torcida: “quando pode entrar em campo, faz com a pressão de uma plateia pendente de cada erro e então lhe começam a vaiar. Uma pressão assim não é boa nem para ele nem ao resto da equipe”.

Em 6 de abril, data em que o jornal divulgou um interesse em Giovanni por um clube alemão não identificado, encarou-se o Sporting Gijón. Ronaldo estava de volta. Enquanto o atacante atuou “a meio gás”, embora anotasse o terceiro gol, o meia correspondeu: “dos mais ativos. Jogou em sua posição, melhorou seu rendimento e se entendeu bem com Ronaldo”. O paraense, tabelando com Ronaldo, abriu aos 13 minutos um tranquilo 4-0 e depois “polarizou a maior parte do jogo ofensivo”, tentando “de cabeça, de fora da área e em outras ocasiões” até conferir uma assistência no minuto 45 para De la Peña ampliar. Já com 3-0 no marcador, o meia deixou Òscar substitui-lo nos quinze minutos finais. No último, Pizzi fechou a goleada. Uma lesão de Luis Enrique inclusive reforçava a necessidade do camisa 10 ser mantido na posição em que mais gostava. O problema era que o Real Madrid parecia não viver má fase e mantinha seis pontos de vantagem (72 a 66) e um jogo a menos. No dia seguinte, a dupla se dirigiu ao estádio de Montjuïc para filmagens de comercial da Nike.

A Recopa voltou ao calendário em 10 de abril, data de ida das semifinais contra a Fiorentina, cujo meia Rui Costa manifestou ciência ao jornal do dia sobre o perigo que “Giovanni, Figo e Stoichkov” somavam ao de Ronaldo. O Camp Nou saiu desanimado: “o Barça terá que lograr uma proeza para alcançar a final” foi o subtítulo pessimista da edição pós-jogo do Mundo Deportivo. Nadal abrira o placar no fim do primeiro tempo, mas um golaço de Batistuta “torceu as esperanças” ao finalizar o marcador. Giovanni foi visto “fora da partida durante boa parte da mesma. Só no final recuperou o ritmo e mostrou perigo” e acabou de fora de reencontro com o Atlético de Madrid, agora pelo returno de La Liga; no dia 13, Kiko abriu o marcador do Vicente Calderón, De La Peña e duas vezes Ronaldo viraram para Kiko descontar em vão: Ronaldo consumou novo hat trick e Figo fechou um 5-2 fora de casa. Mas a tabela era insensível: Real Madrid 76, Barcelona 69. Isso se manteve na rodada seguinte, quando os dois líderes perderam. No caso do Barça, por 3-1 para o Real Valladolid, no Nuevo Zorrilla. Giovanni entrou nos 15 minutos finais, no lugar de De la Peña, e no minuto seguinte Víctor Fernández fechou o placar. “Não entrou no jogo” foi a análise publicada um dia depois sobre o Messias.

Mas no dia 20 ele foi titular e “recuperou seu melhor futebol, dando uma grande assistência de gol a Ronaldo. Jogou em seu lugar” e foi eleito o melhor em campo no 2-0 sobre o Athletic de Bilbao: “ganhou a partida com claridade” contra seu marcador e “se moveu constantemente no campo, recuperando bastante bolas e o público lhe premiou com aplausos quando foi substituído no minuto 77”, troca que ele mesmo pedira por um desconforto estomacal – embora a edição do dia 22 revelasse ainda um golpe na parte posterior do joelho direito. Abelardo abrira o placar no minuto 49 e a assistência a Ronaldo saiu no 65, resultado que poderia ser insuficiente diante de uma tabela que exibia Real Madrid 79 (e um jogo a menos) a 72, mas serviu ao menos para render “a tranquilidade para viajar a Florença”. Ele inclusive jurou a respeito que “vamos jogar a final da Recopa”, otimista após ter ajudado a equipe ainda ao acalmar um De la Peña sob risco de expulsão por protestos. O time como um todo viu suas figuras “se deixarem ver em jogadas de altíssimo nível, em especial, Giovanni”: “a jogada para o gol de Ronaldo foi pura fantasia”.

A revanche contra a Fiorentina se deu no dia 24 já sob outro bom prognóstico, o de que Batistuta seria desfalque dos violetas. Aos 2 minutos, Giovanni já havia dado “o primeiro susto” e com 35 o Barça já havia liquidado os italianos, gols de Fernando Couto e Guardiola. Aos 2 do segundo tempo, o belga-maranhense Luís Oliveira, descrito como o melhor da Viola no primeiro tempo, ainda foi expulso e revoltou de vez a plateia do Artemio Franchi, que chegou a arremessar objetos. O paraense não teria sido tão brilhante (“pecou de lento e isso lhe impediu de participar nas ações de ataque”), mas desfrutava: “já ganhamos a Supercopa, mas esta Recopa será meu primeiro título, meu primeiro título importante”. E ganhou até permissão da diretoria para um bate-volta de dois dias a São Paulo para concluir aquele tratamento odontológico. No aeroporto, ele e Ronaldo buscaram consolar Oliveira, de embarque a Bruxelas para servir sua seleção de adoção.

A novela da saída de Ronaldo (que na imagem esquerda ainda dizia “não te deixarei só” para Giovanni, achando que seguiria no Barça) se misturou ao primeiro motim do paraense contra um treinador do clube: “se Bobby Robson permanecer, vou embora”

No dia 27, o paraense que estava nos gramados catalães era Sócrates, em jogo de veteranos em Montjuïc. O Doutor “pegou o bisturi para analisar a atualidade blaugrana” ao Mundo Deportivo e não escondeu, sobre a final da Recopa, que “meu coração estará com o Paris Saint-Germain, porque meu irmão está ali”. Mas se permitiu a respaldar o conterrâneo: “vi o Barça jogar cinco ou seis vezes e Giovanni sempre está em um posto muito diferente ao que está habituado e no que pode render muito mais. Não pode jogar pela direita. Estaria melhor na costa de Ronaldo, mas nunca pela direita”. Do próprio PSG vinham elogios, de Leonardo, na edição do dia 29: “se foi eleito o melhor jogador brasileiro, não foi por casualidade. Agora é titular com a seleção e posso assegurar que isso não é nada fácil. Muitas vezes falo com Raí e lhe digo que parece um irmão gêmeo seu”. Zagallo, novamente, optou por convocar apenas Ronaldo para amistoso em Miami contra o México no dia 30 (4-0, gols de Leonardo e três de Romário), sobre contrapartida de contar com Giovanni para o Torneio da França. 

Em 3 de maio, um empate do PSG contra o Bordeaux garantiu o título francês ao Monaco, fazendo os parisienses se centrarem por antecipação na final da Recopa. Já o Barcelona, sem jogar a toalha por La Liga, encarou no dia 5 o Extremadura. Giovanni foi usado nos 20 minutos finais no lugar de Stoichkov, já em um placar de 2-1 fora de casa que terminou em 3-1, e sua avaliação foi um curto “desconectado”. Na tabela, Real Madrid 83 a 75. El Clásico, enfim, se daria pelo returno no dia 10, data em que uma carta ao Mundo Deportivo mostrava um leitor a declarar que “me alucino com Giovanni, é um pouco lento de movimentos, mas o único na Espanha que pode te aplicar um chapéu”. Foi uma guerra levada a sério demais por Roberto Carlos, que não teve piedade de Giovanni, de desempenho na partida descrito apenas como “vítima”: uma entrada dura do merengue no tornozelo do paraense fez o Messias sair de maca com apenas 15 minutos de jogo, dando lugar a Popescu. O lateral-esquerdo não se inibiu e mandou à enfermaria também Nadal (Stoichkov então entrou) pouco após jogo brusco logo aos 20 e que só lhe rendera um cartão amarelo. No último lance do primeiro tempo, Roberto Carlos ainda cometeu um pênalti em Figo (e não foi expulso) que Ronaldo converteu para anotar o único gol. 

Mas a tabela ainda indicava Real Madrid 83 a 78. E aquela lesão, sobretudo, tiraria Giovanni do filé mignon da final da Recopa. Ele viajou ao palco de Roterdã com o elenco e inclusive viveu o susto geral do pouso de emergência que a aeronave precisou fazer, diante de bombeiros de prontidão. Dividiu quarto com Ronaldo no hotel, mas no fim das contas Robson preferiu não arriscar no dia 14 contra um PSG “brasileiro” (além de Raí e Leonardo, também o técnico Ricardo Gomes) que surrara por 3-0 o Liverpool na outra semifinal. Na edição da véspera, o paraense reclamou da não-expulsão de Roberto Carlos, mas dizia não guardar rancor: “joga duro sempre, mas penso que não teve intenção de me lesionar. (…) Não vai deixar de ser meu amigo. Isso forma parte do futebol”. A edição também registrou uma conversa telefônica de desculpas. Ronaldo fez o único gol do título e deu a volta olímpica abraçado ao amigo, de riso contido na entrega do troféu. 

Por outro lado, na mesma data daquele título, Zagallo garantiu o paraense para a Copa América. E Ronaldo também, claro. E também para o Torneio da França. E ainda para um amistoso com a Noruega em 30 de maio… tudo isso significou, em tempos pré-data FIFA, que a dupla só jogaria mais duas vezes pelo Barça na temporada: contra o Celta em Vigo (dia 19: Barcelona 3-1, dois de Òscar e outro de Ronaldo) e contra o La Coruña no Camp Nou (dia 24: 1-0, Ronaldo), ambas por La Liga, reacesa após derrota madridista para o Athletic de Bilbao naquela rodada. Mas para Giovanni essas duas partidas se reduziram a zero: o tornozelo mal recuperado foi novamente lastimado em um encontrão casual com Pizzi em treino no dia 18. Ele já olhava para o futuro: “essa temporada não foi positiva, mas a próxima será a minha”, publicou-se no jornal do dia 23. Antes de juntarem-se à seleção, os brasileiros acompanharam o Grande Prêmio de Fórmula 1 em Barcelona no dia 25. 

O Barcelona ainda implorava que Zagallo os deixasse fazer um bate-volta de Oslo após o amistoso do dia 30 para encararem o Hércules em 1º de junho e seguirem a Lyon para a estreia no Torneio da França, 48 horas depois. Não houve trato e ainda no dia 27 estourou uma bomba. Não era ainda a surpreendente transferência de Ronaldo à Internazionale (naquele mesmo dia 27, segundo o jornal do dia seguinte, o Fenômeno teria mesmo abraçado o amigo dizendo-lhe “não te deixarei só”, em referência a uma renovação apalavrada até 2006), fechada ali na Escandinávia. E sim declarações fortes do paraense: pressionado pela mídia brasileira em coletiva e enfrentando concorrência com Djalminha e Juninho Paulista, aguentou até uma quarta pergunta e então soltou que “Robson não gosta de mim e não gosto dele. Mal jogo com ele e quando me põe na equipe é para ocupar tarefas raras, de lateral, de ponta colado na lateral, em todas as posições, menos onde eu jogo bem. Se Robson seguir, vou embora”. 

A declaração foi transcrita no jornal de 28 de maio. E o paraense não recrudesceu. Ao contrário: na edição seguinte, a frase atribuída a ele sobre o técnico inglês foi que Robson é “um velho e não tem nem ideia. A Recopa ganhamos nós, os jogadores, não ele” e, sobretudo, que seria um “sem caráter”. A mesma edição já era voltada à reviravolta consumada da saída de Ronaldo do Camp Nou, mas houve espaço também para sondagem do próprio Espanyol pelo paraense e a imediata resposta do treinador: “Giovanni é um fanfarrão”, “isso na Inglaterra renderia suspensão de duas semanas de emprego e salário” e “minha decisão foi a correta porque dois dias depois da final, em um treino, seguia com a mesma lesão”. Mesmo na edição do dia 30, a declaração “foi um golpe pelas costas” de Popescu censurava a atitude do meia e não a novela Ronaldo: “me abala muito que, quando mais precisamos de tranquilidade, aconteça o contrário (…). Não se trata de defender Robson. Nunca o defendi, mas sempre o respeitei”. O camisa 10 não arredava: “não quero passar outro ano assim. Minha mulher o passou muito mal. Quando estava fora da lista ou jogava em uma posição que não é a minha, ela chorava. Não posso suportar ver minha mulher chorar (…). Ele fala que sou um falso, mas o falso é ele: me criticava pelas costas, falava mal de mim, nunca de frente”.

Nesse clima, o clube perdeu em 1º de junho em Alicante para o Hércules por 2-1 e praticamente deu adeus ao título espanhol, diante do 5-0 do líder sobre o Extremadura. Giovanni, ausente da derrota brasileira de 4-2 para a Noruega dois dias antes, por sua vez só atuou nas estreias do Torneio da França (1-1 com os Bleus, sendo substituído no minuto 72 por Djalminha após dia “lento e pouco inspirado”, “sem demonstrar sua classe” e viu Denilson ocupar a vaga para os jogos seguintes), no dia 3; e da Copa América, substituindo Romário nos últimos 18 minutos, já após o 5-0 no placar contra a Costa Rica no dia 13. Nesse ínterim, a negociação com o São Paulo já envolvia também Dodô, segundo o jornal do dia 6. No dia 15, o Barcelona venceu o Real Betis por 3-0, mas já no meio da festa do arquirrival, que na véspera assegurou o campeonato com o 3-1 no clássico com o Atlético. Na última rodada, o campeão, ressacado, levou de 4-0 do Celta e a vitória culé por 2-1 sobre o Rayo Vallecano fez a tabela de La Liga se encerrar em um enganoso 92 a 90, embora o campeão marcasse 85 gols contra 102 do vice. Que nem a simbólica Copa Catalunha levou: seus reservas dos reservas, reforçados com Stoichkov, bateram o Gimnàstic por 3-1 e o Mataro por 5-0 no fim de maio, mas o Europa levantou essa taça em 10 de junho com um 3-1.

O Mundo Deportivo repercutindo à esquerda a partida ruim do fotografado Giovanni contra os franceses, no Torneio da França, creditada à falta de ritmo sob Bobby Robson. A ida do Messias ao São Paulo em troca por Denilson esteve forte como nunca naquele momento

Também sem os brasileiros veio o título na Copa do Rei, em 28 de junho, em reencontro movimentado com o Betis no “neutro” Bernabéu: Alfonso abriu o placar ao adversário aos 11, Figo empatou aos 45, Finidi colocou os sevilhanos à frente já aos 37 do segundo e Pizzi achou o empate aos 40. A seis minutos do fim da prorrogação, Figo virou. Giovanni terminou a temporada com os quatro primeiros títulos da carreira adulta: após a Supercopa da Espanha e Recopa Europeia, os outros dois vieram em dias seguidos – a final da Copa América, sem ele, se deu um dia depois da conquista blaugrana na Copa do Rei. Mas tanta turbulência minou mesmo na seleção um espaço que parecia intocável em fevereiro.

A grandiosa reabilitação com Van Gaal e um Zico de padrinho

A temporada europeia de 1997-98 para Giovanni não começou em agosto e sim no início de junho. O Mundo Deportivo do dia 2 revelou que o presidente barcelonista Josep Lluís Núñez – já após a perda de Ronaldo à Internazionale, é verdade – preferiu parcimônia: “enviei uma carta a Giovanni. Mas sem sanção. Isto não é um colégio, para pôr a pessoa de cara contra a parede. A carta diz que há coisas que não se deve fazer e que o respeito deve estar acima de tudo. Se tinha que dizer algo, devia ter dito diretamente ao treinador”. E a do dia 8 continha uma “nova negativa ao São Paulo”, detalhando que “o Barça nem sequer contempla um empréstimo”.

Também ao dia 8 de junho, Bobby Robson preferiu ser cauteloso: “farei uma declaração sobre Giovanni quando seja o momento correto e mais oportuno. Por ora, me evitem este tema, já que o vejo pouco construtivo”. Nada que desanimasse uma oferta do Flamengo na concentração brasileira em Santa Cruz de la Sierra, segundo o jornal do dia 15 – a ter ainda a declaração política de Robson que seguia considerando o paraense “um bom jogador” para o clube, mas que “falta ver se ele é feliz ou não em estar aqui”. Provavelmente sem ter como ler o jornal em tempos de internet engatinhando (e normalmente discada, distante da existência de Wi-Fi, 4G, smartphones, WhatsApp…), o meia, embora descartasse o Flamengo, continuou ácido ao do dia 16, ao buscar justificar sua má fase também na seleção: “me prejudicou estar tanto tempo no Barça sem jogar, agora estou fora de forma. Zagallo conhece minha qualidade”.

O jornal do dia 21 de junho já publicou conversações com o Palmeiras. E o do dia 26 prognosticou que, embora Djalminha não correspondesse quando substituiu o Messias na seleção, o espaço de Giovanni se via ameaçado diante da ascensão de Rivaldo – então no ostracismo para Zagallo pela decepção olímpica em Atlanta (o pernambucano não foi mesmo à Copa América), mas sob grande desempenho no La Coruña. Em 28, ao menos, uma vitória pessoal ao camisa 10 para além do título da Copa do Rei que os colegas levantavam naquela data: Barcelona e Bobby Robson, de comum acordo, comunicaram que o inglês não seguiria, aproveitando-se do terceiro troféu na temporada como um final digno ao ciclo do treinador. Para substitui-lo, Van Gaal, de sucessos europeus no Ajax (campeão da Liga dos Campeões em 1995 e vice em 1996) ainda frescos.

Um time da Letônia quase eliminou o Barcelona na fase preliminar da Liga dos Campeões de 1997-98, “mas Giovanni conseguiu neutraliza-los” e foi eleito a figura, salvando Van Gaal

Pelo jornal de 12 de julho, o Corinthians, por meio do patrocinador Banco Excel, teria se somado ao eventual leilão por Giovanni. Mas, à edição do dia 14, ele manifestou total interesse em seguir na Catalunha, mesmo que sem exatamente um mea culpa: “desejo esquecer o passado. Quero ficar, começar de novo e que a próxima seja minha primeira temporada. (…) Não fui muito bem e creio que todos sabem a razão: comecei bem, mas Robson me apartou, não me deixou estar em algumas partidas e isso me prejudicou; o ritmo de jogo se quebra e isso me complicou muito as coisas, preciso jogar, como qualquer companheiro”. Até usou sua crise com a seleção como exemplo: “foi a consequência final. Levava muito tempo sem jogar no Barcelona, enquanto para outros era o contrário. Zagallo optou por outro que tivesse mais ritmo, não podíamos treinar. Eram quase dois meses sem jogar, já que tive também alguma lesão”. E jurou ter sido mal interpretado pelo episódio que iniciou a turbulência, quando colocara Zagallo como superior a Robson (“sinto muito por isso, porque queria ajudar”), prometendo estender-lhe a mão em um eventual reencontro: “não quero mal entendidos com ninguém; pedi perdão e falarei com ele”.

A edição do dia 19 tornava a descartar a saída do Messias, diante do desejo de Van Gaal em avaliar todo o plantel. “Giovanni não se move do Barça” foi a sentença do cartola Joan Gaspart. Giovanni voltou pontualmente das férias, no dia 21, com sua novela por Denilson novamente acesa no jornal, que já noticiava também uma surpreendente oferta superior do Real Betis pelo são-paulino. À edição de 24 de julho, em tempos em que destacar-se continuamente no alto nível do futebol brasileiro (inclusive, no dia seguinte o Mundo Deportivo repercutiu o interesse do Flamengo em juntar Giovanni a Cantona) era mais importante do que no europeu para manter-se na seleção – e em tempos em que a Copa do Mundo era o suprassumo inquestionável contra uma Liga dos Campeões ainda enxuta –, o paraense já admitia ir ao Morumbi: “se existe uma proposta benéfica para o clube e para mim, irei”. Mas ressaltava: “estou muito tranquilo, pensando só no Barcelona e treinando com os companheiros. Depois, se algo sai, falaremos com a direção e decidiremos”. 

O primeiro jogo da Era Van Gaal se deu no dia 25 de julho, em pré-temporada, na Suécia: Barcelona 3-0 Elfsborg, com Giovanni marcando o segundo. E ele, agora com companhia brasileira de Sonny Anderson e confiante em ganhar lugar com o holandês, passou a resistir ser moeda de troca com o São Paulo, à edição do dia 31. E a do dia seguinte registrou sua presença entre os 24 jogadores culés inscritos para a Liga dos Campeões – e, por outro lado, a impressão de que sua ida ao Tricolor era dada como certa no Brasil. Percepção evaporada no dia 2: nos contatos via fax entre os cartolas blaugranas Josep Lluís Núñez e Joan Gaspart, o empresário Juan Figer e o presidente são-paulino Fernando Casal del Rey, as seguidas e crescentes ofertas catalães por Denilson eram continuamente recusadas até Núñez dar um basta; o limite teria sido 17 bilhões de pesetas. 

Assim, em 3 de junho Giovanni “brilhou com a bola nos pés” no amistoso com o AZ Alkmaar, sendo visivelmente “o mais feliz” em campo e resolvendo “com maestria” no lance que deu a vitória por 2-1 aos visitantes a vinte minutos do fim, “um autêntico golaço”. Foram avaliações do jornal do dia 4, a publicar ainda uma crítica de Telê Santana de que o São Paulo teria encarecido demais o preço de Denilson. Casal del Rey não desistia do paraense: outro dia depois, manifestando-se às propostas de Betis e também da Lazio pela promessa, impôs que um ou o outro primeiramente comprasse Giovanni do Barcelona para integra-lo na operação. E o camisa 10 continuou se destacando na pré-temporada, mesmo quando “não pareceu cômodo”: sujeitou-se a jogar de centroavante (devido a uma lesão de Sonny Anderson) com tarefas defensivas no dia 6, contra o Twente, em vitória por 1-0 com gol aos 4 minutos de jogo. Que nasceu a partir de uma “roubada de bola de Giovanni, que cedeu a bola a Reiziger para que lançasse um cruzamento que Amunike fuzilou na marca do pênalti” e “nota destacada foi a presença de Giovanni como centroavante”, nos registros pós-jogo do Mundo Deportivo. “Van Gaal, satisfeito” foi a manchete, a destacar que o próprio treinador só havia vencido uma vez o Twente no campo adversário em seis anos de comando do Ajax.

O jornal do dia 8 admitiu que Giovanni superou as incertezas “por suas excelentes condições técnicas” e que “se permanecer, Van Gaal saberá tirar proveito de suas qualidades”. Mas o último amistoso, contra o Real Mallorca, preocupou: ele, que “desviou astutamente na boca do gol” um cruzamento de Amunike em bola salva pelo goleiro apenas por reflexo, punha “só muita vontade” na posição de centroavante na qual foi novamente escalado. Aos 13 minutos do segundo tempo, sob derrota parcial de 1-0, foi substituído pelo reforço Dugarry, que anotou o gol de empate. O compromisso seguinte já era válido pela Liga dos Campeões, em tempos em que apenas o vencedor europeu da edição anterior e os campeões dos sete principais torneios nacionais (alemão, espanhol, francês, holandês, inglês, italiano e português) tinham vaga assegurada na fase de grupos. 

Os sete vice-campeões desses mesmos torneios (terceiros colocados? Só tinham vez se algum campeão ou vice das sete grandes ligas houvesse vencido a Champions, daí a ausência catalã na edição 1996-97) adentravam na última fase preliminar. E nela o Barça encarou o campeão letão, o Skonto Riga – cuja “grande estrela da equipe é Vladimirs Babičevs, que (…) se declarou ontem admirador de Giovanni”, divulgou o jornal do dia 12. O paraense, mesmo improvisado, demonstrava animação à mesma edição que descrevera que “Van Gaal se fixou na qualidade técnica do brasileiro”: “o Mister optou por mim e eu devo corresponder essa confiança”. O técnico do Skonto era Aleksandrs Starkovs, que depois conseguiu a façanha de classificar sua Letônia à Eurocopa 2004 com alguns jogadores daquele elenco. 

E os azarões deram trabalho mesmo no Camp Nou, simplesmente estando duas vezes à frente do placar, aberto aos 25 pelo tal Babičevs. Pois nas duas o empate culé veio com Giovanni, resolvendo “de forma magnífica dois complicados arremates”. O primeiro, inclusive, apenas dois minutos depois do primeiro gol adversário. Abelardo marcou contra no primeiro minuto do segundo tempo e o camisa 10 reigualou aos 24. O estádio então explodiu no segundo minuto de acréscimo, quando Stoichkov garantiu de pênalti (anotado em mão de Igors Stepanovs) uma virada complicada. O diário pós-jogo inclusive sentia apuros à permanência de Van Gaal em caso da desclassificação: “sorte que o bom do Giovanni lhe agradeceu com dois gols de ouro”.

Com a janela europeia ainda não encerrada, os brasileiros, cujas televisões repetiam “à exaustão” os gols sobre o Skonto e já “voltam a exigir a presença” do camisa 10 na seleção, não desistiam: noticiou-se ao dia 16 não só uma visita de Ronaldo à piscina do amigo (em um bate-volta do Fenômeno a Barcelona para recolher os pertences que permaneciam na Catalunha), mas também a intenção de Kléber Leite em ceder Sávio ao La Coruña desde que os galegos comprassem Giovanni e o repassassem à Gávea. O empresário do paraense agradeceu e negou: “agora com Van Gaal é muito diferente da temporada anterior”. O negócio que realmente ocorreu com o La Coruña foi outro, na mesma data: a transferência de Rivaldo ao Camp Nou. Ainda no dia 16, o pernambucano já estreou pelo novo clube, que entrou em campo contra a Sampdoria pelo Troféu Joan Gamper. Contra o clube treinado pelo histórico argentino César Menotti, Giovanni seguiu “inspirado e em veia realizadora”: atuou de “pivote por trás de Anderson e Luis Enrique, pela esquerda” e anotou o 2-0 aos 22 do segundo tempo ao converter um pênalti que ele mesmo sofrera; um minuto depois, Menotti pareceu querer evitar uma goleada trocando Klinsmann por Nicola Zanini. Já Giovanni deu lugar a Òscar García aos 26. 

Apressando em vão, após seu gol no clássico, o reinício contra o Real Madrid no segundo jogo da Supercopa da Espanha de 1997. E lesionado seriamente na estreia de La Liga de 1997-98

Montella e Verón conseguiram empate-relâmpago aos 29 e aos 30, mas o Joan Gamper permaneceu em Barcelona após decisão por pênaltis – por questão de calendário apertado, aquela edição inaugurou a era do jogo único no tradicional torneio amistoso. Uma outra análise pós-jogo foi que “Giovanni ganhou em segurança pessoal. Van Gaal simplesmente lhe disse ‘confio em ti’. Suficiente. Em Giovanni só tens que olhar nos olhos para comprovar que precisa de uma dose extra de afeto. É um jogador de sonho. Tem uma técnica impressionante e a força para se converter em imparável”. A do dia 18 brincou que Giovanni seria inclusive “a melhor contratação de Van Gaal”, dado o estado de graça da parceria. O brasileiro “inimigo número 1” na Catalunha, em chamada do dia 19, já era Zagallo, que prometia desfalcar o Barça com convocações do trio local para amistoso contra o País de Gales planejado para 10 de setembro (no fim das contas, ficou só para novembro e o paraense, por motivos que logo se abordará, não iria), no que foi visto como uma “provocação”. No dia 20, El Clásico voltou, agora pela Supercopa da Espanha, com ares de Supercopazo. Que teve mesmo um início à altura no Camp Nou: com onze minutos, Raúl e Nadal já anotavam um 1-1.

Giovanni, que já havia sido carrasco madridista na Copa do Rei, “teve que tomar as rédeas da equipe na primeira parte” e garantiu a virada aos 40 do segundo tempo, com uma frieza elogiada para converter contra Cañizares um pênalti apitado devido à mão de Aitor Karanka. E ainda foi diplomático com Roberto Carlos, muito vaiado pelos catalães por tê-lo lesionado no returno de La Liga e o tirado da final da Recopa: “a torcida se comportou mal (…). Senti por Roberto Carlos, que é meu amigo”. Três dias depois, o rival deu com juros o troco no Bernabéu: abriu 4-0, aproveitando-se de dia débil da defesa catalã, a sofrer os três últimos gols em um apagão de dez minutos no início do segundo tempo. Giovanni, embora perdesse duas chances claras, ao menos engordou sua conta nos mais diversos clássicos (tônica que marcaria sua passagem pela Espanha) ao anotar o de honra aos 35 do segundo tempo, matando no peito antes de concluir um escanteio cobrado por Guardiola. Jupp Heynckes, agora o técnico madridista, foi polido, frisando que não acreditava que os blaugranas teriam problemas em passar dali a outros três dias contra o Skonto.

Na beira do Báltico, o camisa 10 interrompeu sua série de partidas com bola na rede em uma noite discreta, mas saiu satisfeito, admitindo que o Barça jogou com o regulamento no braço. Sonny Anderson possivelmente salvou o emprego de Van Gaal ao marcar o único gol aos 6 minutos do primeiro tempo, colocando a Catalunha no grupo C, junto a um Newcastle em tempos poderosos mesmo sem sauditas, PSV e Dynamo Kiev. Apenas os seis líderes e os dois melhores segundos colocados avançavam aos mata-matas. La Liga, por sua vez, começou em 31 de agosto, com Giovanni já recebendo um troféu simbólico de melhor jogador do Joan Gamper. Foi uma estreia agridoce contra a Real Sociead: ele não brilhou exatamente, mas deixou novamente um gol (o segundo nos 2-0, placar aberto e fechado por Rivaldo) e… terminou lesionado dez minutos depois, dando lugar a Guillermo Amor. 

O prognóstico era de duas semanas afastado na edição pós-jogo, depois elevado para quatro na do dia 3, ao detectar-se ruptura parcial do ligamento lateral do tornozelo esquerdo. Uma pena: breve jogador do clube, Roberto Dinamite foi entrevistado à mesma edição do dia 3 e classificou o Messias como o melhor dos três brasileiros de La Masía. Apenas no dia 15 é que o Messias pôde tirar o gesso. E foi cicerone de dois brasileiros da seleção sub-17 testados em treinos: o corintiano Peixinho e o cruzeirense Joãozinho (filho do ídolo azul de mesmo nome), que até passaria pelo Paysandu em 2004 após ser quase carrasco do próprio Papão na Copa dos Campeões de 2002. O francês Dugarry ganhou sequência, ciente de que estava lá “pela lesão de Giovanni”, que voltou a correr no dia 23. E Rivaldo conseguia uma média de gols superior à de Ronaldo até o fim de setembro. Apenas no dia 6 de outubro o Messias pôde voltar a treinar com os colegas, mas nem a elogiada manutenção de sua massa de 86 Kg impediu que fosse tarde demais para que pudesse participar de um raríssimo jogo que a CBF se prestou a fazer na sua Belém – um amistoso contra o Marrocos apenas três dias depois, com a curiosidade dos dois gols no Mangueirão serem justamente de Denilson;  no próprio dia 8, Giovanni ainda precisava ter seu treino encerrado com antecipação.

Em meados de outubro, o camisa 10 já teria condições de jogo, mas não por 90 minutos. Sem ele, o Barça conseguia ser imparável em La Liga (era líder invicto), mas patinava no continente, somando só um ponto em dois jogos: o jornal de 21 de outubro destacou que o paraense ainda conseguia ser o vice-artilheiro do elenco na Liga dos Campeões, e apenas um gol abaixo dos três conferidos por Luis Enrique. O compromisso em Kiev no dia 22 marcou seu retorno às convocações de Van Gaal, mas o holandês preferiu deixa-lo no banco ao longo de toda a surra de 3-0 que Shevchenko e colegas aplicaram na Ucrânia. Guardiola, Stoichkov, Sonny Anderson, Vítor Baía e De la Peña também desfalcavam o time naquele momento e o presidente Núñez preferiu dar voto de confiança ao treinador. Giovanni enfim reapareceu contra o Racing Santander, no dia 26, substituindo Dugarry aos 18 minutos do segundo tempo. O jogo já estava em 1-0 e terminou em 2-0, ainda com o paraense intervindo “muito pouco”. Van Gaal era elogios à edição pós-jogo, ressalvando a compreensível falta de ritmo do meia e a heresia que seria colocar um craque daqueles no time B apenas para recuperar a forma.

Qualificado por Roberto Dinamite como o melhor dos três brasileiros do Barcelona de 1997-98, sofre vendo, na recuperação da lesão, a derrota pelo Newcastle pela televisão

Ele reapareceu de verdade no compromisso seguinte, em 1º de novembro, e não poderia escolher cenário melhor: Santiago Bernabéu. Poupado no primeiro tempo, substituiu Stoichkov aos 7 minutos do segundo de El Clásico do primeiro turno de La Liga. Os catalães já arrancavam um 2-1 fora de casa e Šuker até igualou aos 16. Mas aos 34 o Messias, habilitado por Figo, renovou sua estrela contra o arquirrival, soltando o pé para dar a vitória e comemora-la com três gestos de banana (ou butifarra, no jargão dos espanhóis) à torcida merengue – em um dos momentos mais recordados da história dérbi, segundo lista elaborada já em 2009 pelo diário madrilenho Marca e em relatório do Mundo Deportivo já em 2017. Com a adrenalina mais baixa, ele desculpou-se, atribuindo a celebração ao calor do momento e ao grande tempo sem marcar gols em função da lesão, sem intenções reais de ofender a plateia e recordando que Ronaldo já teria feito algo similar contra o Atlético sem maiores repercussões. O próprio Fenômeno corroborou isso à edição do dia 4, vendo injustiça em alguma eventual sanção ao amigo, que vociferou nela também: “quem punirá Hierro por suas duríssimas entradas ou o soco sem bola? (…) Não posso crer que queiram me punir por um gesto e ainda mais quando rapidamente pedi desculpas se alguma pessoa possa ter se ofendido. (…) Hierro chama Songo’o de negro filho da … e não o puniram. É pior uma butifarra do que demonstrar racismo? (…) Ou é por ganhar no Bernabéu? (…) Pedi perdão publicamente. (…) Hierro pediu perdão a Songo’o?”. 

Não adiantou: o paraense pegou um gancho de duas rodadas e multa de 100 mil pesetas (e o clube, 15 mil), anunciou-se na edição do dia 5, a conter ainda uma primeira reprimenda pública de Van Gaal: “me decepcionou, mas não deveriam puni-lo”. No mesmo dia, o Barcelona recebeu no Camp Nou o Dynamo Kiev pela Liga dos Campeões e àquela altura só a vitória interessava: os ucranianos tinham 7 pontos, os catalães tinham 1 e os outros clubes da chave, 4 cada. O desgaste extracampo e a inatividade do recém-operado goleiro Vítor Baía (Ruud Hesp, o titular, estava suspenso) parecem ter pesado contra o estado de graça do adversário: Shevchenko atraiu olhares do Milan ao marcar três vezes apenas no primeiro tempo em um histórico 4-0 dos visitantes (que ainda viram um outro gol ser anulado), onde um apagado Giovanni deu lugar a Guillermo Amor aos 8 minutos do segundo tempo. Mas houve espaço na edição pós-jogo a mostrar apoio da torcida ao meia, pedindo que todos fizessem butifarras no jogo seguinte em La Liga – embora até Sepp Blatter se metesse na polêmica, aprovando a punição ao Messias. Ao menos um recurso do Barcelona conseguiu reduzir a punição para uma rodada (as econômicas foram mantidas), noticiou-se ao dia 7 junto a uma foto do craque distribuindo autógrafos a uma multidão. Mas nela ele admitia que não pôde olhar “nem minha mulher” após aqueles 4-0.

O jogo subsequente pareceu ainda sentir a ressaca do Bernabéu, com o Real Valladolid encerrando a invencibilidade do líder de La Liga, um 2-1 em 9 de novembro que representou uma segunda derrota seguida no Camp Nou. Liderança à parte (25 pontos contra 21 de Celta e Real Madrid), o futebol do Barça de Van Gaal não convencia. Além das dedicatórias póstumas ao histórico treinador culé Helenio Herrera, os jornais pós-jogos revelavam que o holandês precisava se virar sem um Guardiola com contratura muscular na perna direita; sem um Sonny Anderson com ruptura no adutor da perna esquerda; sem um Vítor Baía com tendinite no joelho esquerdo; sem um Stoichkov com lesões no menisco do mesmo joelho; sem um De la Peña (na perna esquerda) e sem um Dugarry (na direita) ambos com rupturas fibrilares; e sem um Amunike com artrose no joelho esquerdo – e sem um Giovanni suspenso. O paraense, de presença anunciada na lista de 30 pré-convocados para a Copa das Confederações dali a um mês, saía em defesa do técnico: “se estamos em crise, o [Real] Madrid está na quebra”, declarou à edição do dia 12.

Essa banana (“butifarra”, aos espanhóis) de Giovanni à torcida do Real Madrid (imagem do Marca TV) lhe rendeu suspensão de “uma partida”, mas muitos autógrafos. Ronaldo o defendeu, lembrando ter feito algo igual contra a do Atlético de Madrid e não polemizar tanto

Novamente com ritmo prejudicado de jogo, o Messias começou no banco contra o Athletic de Bilbao no dia 13, entrando no lugar de Albert Celades nos últimos 23 minutos: “perdeu muitas bolas” e “nada saiu” foram as críticas à sua atuação; o Barça já perdia de 2-0 em San Mamés e ainda levou o terceiro. E via o arquirrival e o Celta encostarem, ambos com um ponto a menos que o líder. No “jogo de seis pontos” contra o Celta no dia 16, o técnico preferiu não tirar o meia do banco e triunfou por 3-2. A edição do dia 18 exibia a surpresa do paraense e, por outro lado, a constatação de que “Van Gaal segue pensando em Giovanni como o homem ideal. E se agora não joga é (…) porque ainda não alcançou seu ritmo no ponto depois de superar sua lesão”. Nada que impedisse que a edição do dia 21 documentasse que o São Paulo já se apressava em propor novamente uma troca do Messias por Denilson. No mesmo dia 21, Van Gaal voltou a colocá-lo de titular, contra o Real Oviedo. O meia deixou o campo tão logo a equipe do treinador Óscar Tabárez marcou o único gol do jogo, em um pênalti discutível (a render ainda a expulsão do infrator Fernando Couto e um amarelo ao próprio Giovanni, por reclamação) conferido aos 22 minutos do segundo tempo pelo argentino Roberto Pompei. O resultado custou a liderança.

A noite ruim do paraense (“falta de ritmo” foi o diagnóstico curto e grosso sobre ele no jornal pós-jogo), substituído pelo iugoslavo Dragan Ćirić, foi ofuscada pela de Guardiola – que voltava a campo para ser usado nos quinze minutos finais, tempo suficiente para receber dois amarelos e ser outro expulso. Como se não bastasse, a jornada em Oviedo fez Giovanni sentir nova lesão: agora, uma torção no tornozelo direito. Mas o São Paulo seguia à espreita, agora sugerindo trocá-lo por Valdir Bigode, pela edição do dia 25, pois Denilson já estava acertado com o Betis, embora só rumasse à Andaluzia para a temporada 1998-99. Dado o estado leve dessa lesão, Van Gaal (que voltava do enterro da mãe) colocou o paraense e outros lesionados em estado final de recuperação junto com alguns reservas para o jogo do dia 26, pela Liga dos Campeões, usando a desvantagem da eliminação precoce com duas rodadas de antecedência como vantagem para que esses jogadores ganhassem ritmo. Gente do time B também foi convocada, como um tal de Xavi, que não chegou a entrar em campo. 

Giovanni não entrou particularmente animado contra o Newcastle, ao saber de seu corte na lista final à Copa das Confederações. Mas se deu bem, anotando o único gol do duelo: “um gol de fantasia, desses que não se vê na liga inglesa, recebendo e controlando um passe magistral de Guardiola e surpreendendo o goleiro com um arremate por cobertura até a rede. O goleiro Hislop nem soube. Não estava preparado para uma jogada assim”. Foi a primeira partida a contar com o trio brasileiro desde a rodada inaugural de La Liga. E chamou a atenção a comemoração do evangélico Giovanni louvando Deus, em tempos menos comuns dessa celebração com braços e rosto ao alto. Centrando seu fogo no torneio doméstico, o Barça duelou com o Mérida em 1º de dezembro. Ali Giovanni foi “o homem mais valioso, ao participar nas ações de maior perigo” e “sem dúvidas o jogador mais motivado dos que estiveram no terreno de jogo”, ainda que não registrasse gols (acertou a trave uma vez) ou assistências diretas (embora o primeiro gol nascesse de uma interceptação sua em passe errado do adversário) nos 3-1 que fez o Barça dividir a liderança com o Real Madrid – ambos com 31 pontos. O oponente só conseguiu seu gol já após levar de 3-0; foi do brasileiro Sinval.

No dia 6 foi a vez de encontrar o Real Zaragoza, fora de casa. Contando com o empate do Real Madrid, o Barcelona se isolou novamente na liderança (34 a 32, com o Atlético e seus 29 fechando o pódio) a partir de uma assistência de Giovanni para Sergi Barjuan abrir os 2-1. Mesmo “lento, em algumas ações criou muito perigo”, reconheceu o jornal pós-jogo. Quatro dias depois, foi a vez de se despedir de vez da Liga dos Campeões, contra o PSV – um jogo animado em Eindhoven, onde o Messias, bem habilitado por Roger García, empurrou a bola para a rede para garantir um 2-2 aos 20 minutos do segundo tempo. Pela frente, o clássico catalão, que teve um esquenta com Pochettino suspirando na edição do dia 13 por ter ficado “impressionando com Giovanni quando o viu jogar no Santos em 1994”, ocasião em que recomendara sua contratação pelo Espanyol dois anos antes da chegada do paraense ao Mediterrâneo. 

No dia seguinte, contra “um Espanyol bravo e combativo” (o clube vizinho, em grande momento, era o 4º colocado), Giovanni anotou o 2-0 aos 6 minutos do segundo tempo em Montjuïc ao aproveitar oportunista um rebote da trave e conferiu nova assistência para Sergi nos 3-1, aos 27. Na tabela, Barcelona 37 a 32 sobre o Real Madrid (ainda com um jogo a menos). Ao todo, o Mundo Deportivo detectou ainda sete passes em profundidade, quatro chutes a gol, três passes perigosos para gol e três faltas recebidas dentre os minutos “estelares” de Giovanni, embora preferisse associa-lo mais ao samba do que ao carimbó. Zagallo, contudo, era cauteloso à edição do dia 16, explicando que já não queria Giovanni como um meia-atacante na seleção e sim como atacante nato, posição para a qual não via mais alternativas ao quarteto Romário, Ronaldo e os reservas imediatos Bebeto e Edmundo (poupado da Copa das Confederações apenas para jogar as finais do “seu” Brasileirão). Haveria no dia 17 um jogo contra o Real Betis, mas o dilúvio que choveu sobre Sevilha forçou o adiamento. Assim, o que saiu sobre Giovanni na edição do dia seguinte foi uma oferta flamenguista em ceder ao Barcelona o zagueiro Júnior Baiano como parte do pagamento para ter o paraense.

Promovendo com o rival Pochettino o clássico com o Espanyol pelo returno de La Liga de 1997-98. Na chamada da página direita, o argentino lembra que recomendara o paraense ao próprio Espanyol ainda em 1994

O Barcelona voltou a campo no dia 20, contra o Atlético de Madrid. E Giovanni, apagado no primeiro tempo no Camp Nou, mostrou-se no segundo novamente decisivo em clássicos, ainda que deixasse o gramado com queixas a seu tornozelo esquerdo: logo aos 3 minutos, ajeitou de cabeça um cruzamento de Celades para um Luis Enrique a galope empatar em 1-1. Aos 20, converteu um pênalti para virar o jogo. Seis minutos depois, começou a jogada do terceiro ao usar a cabeça para deixar Pizzi na cara do gol, em lance onde a bola terminou sobrando para Luis Enrique fechar a virada: 3-1 ao líder para despedir-se de 1997, cujo natal Giovanni permitiu-se passar em Belém. Quando regressou, seguia exaltado como alguém a quem “Van Gaal considera uma das peças-chave da equipe”, na edição de 2 de janeiro, “contribuindo com seu jogo e seus gols à recuperação da liderança”, gerando dúvidas da praticidade em troca-lo por Júnior Baiano. No dia 3, a derrota do arquirrival para o Real Betis garantiu o simbólico título de campeão de inverno aos catalães, que somavam 40 pontos contra 39 do madridismo mesmo tendo ainda dois jogos a menos. Terceira colocada, a Real Sociedad e seus 32 já engoliam poeira da dupla – em tempos de desequilíbrio muito menos descomunal de La Liga

O líder reestreou no dia 5, contra o Salamanca. Quando Giovanni fuzilou já aos 23 do segundo tempo para anotar o 3-1, a vitória fora de casa parecia cômoda. Mas a sempre questionada defesa daquele Barça (Van Gaal tirou Fernando Couto por De la Peña, é verdade) protagonizou uma das maiores reviravoltas já sofridas pelo gigante, que simplesmente tomou uma virada para 4-3 nos onze minutos finais. Ou sete, espaço de tempo entre o desconto para 3-2 de César Brito aos 35, o empate com o mesmo jogador aos 38 e a virada aos 42 com o argentino Walter Silvani, atacante que entrara em campo para o tudo-ou-nada assim que o 3-2 saiu. O próximo compromisso seria um epílogo europeu na temporada, com a tardia definição da Supercopa da UEFA, na época tira-teima entre os vencedores em 1996-97 da Liga dos Campeões com o da extinta Recopa. “Uma derrota sempre afeta um pouco a partida seguinte, mas temos personalidade suficiente para esquecê-la”, prometeu o paraense ao jornal do dia 7, a revelar ainda um reconhecimento do Real Madrid à importância do meia: o arquirrival buscava suspende-lo de novo a partir de um revide a um golpe por trás que o Messias sofrera do salamantino Sergio Corino já após a virada (usando o antebraço contra o pescoço deste), embora o craque merengue Redondo houvesse protagonizado sob vista grossa algo similar diante do Betis dias antes. 

Ainda em ida e volta, a Supercopa começou no dia 8, data em que o jornal revelou interesse aberto do Vasco da Gama, já carente de Edmundo, pelo camisa 10. Mesmo no Camp Nou, Van Gaal optou por reforçar a defesa com uma peça a mais (Ferrer) e usar Giovanni somente nos três minutos finais (no lugar de Figo), já após Luis Enrique e Rivaldo construírem o 2-0 sobre os alemães recém-campeões do mundo; desencontros de calendário fariam a volta demorar cerca de dois meses para ocorrer diante da Muralha Amarela. Curiosamente, Rivaldo não escapou de algumas vaias naquela ocasião, e foi defendido pelo paraense no jornal do dia 10. Van Gaal manteve essa ideia para enfrentar no Anoeta a Real Sociedad no dia 12 – os bascos vinham há 16 jogos invictos e suas últimas derrotas haviam sido para Barça e Real Madrid, justamente, com o histórico goleiro donostiarra Alberto López não se iludindo à edição do dia 10: “com jogadores como Luis Enrique, Rivaldo ou Giovanni, pode acontecer qualquer coisa”. 

Mesmo novamente substituindo Rivaldo (agora aos 28 do segundo tempo), o Messias conseguiu “uma ação destacada nos poucos minutos que jogou”. O problema é que outra vez a defesa catalã conseguiu entregar: a Real perdia por 2-0 e conseguiu empatar também naqueles mesmos minutos, iniciando seu primeiro gol exatamente ao roubar uma bola do camisa 10. Os bascos chegaram assim à terceira colocação, com 35 pontos, abaixo dos 40 da dupla de gigantes, embora o Barça tivesse dois jogos a menos. Como se não bastasse, após o revés o comitê disciplinar enfim anunciou a punição pelos eventos em Salamanca: Giovanni e o tal Corino foram punidos com dois jogos de suspensão e multa de 100 mil pesetas cada um; o Mundo Deportivo do dia 14 observou que três membros do comitê eram ex-sócios do Real Madrid. E defendeu o craque: “outro escândalo”. 

Van Gaal foi político: recriminou o pupilo (apoiado por Figo e De la Peña), mas exigiu isonomia de tratamento para jogadores do arquirrival com condutas similares, não sancionados. Giovanni sentia que “ainda estou pagando pelas bananas que fiz no Santiago Bernabéu”, gesto que foi assumidamente usado como antecedente agravante na decisão disciplinar. “Não agi bem, mas é preciso tratar todo mundo igual”. O Barça recorreu, mas dessa vez não conseguiu reduzir o gancho; reagiu com Joan Gaspart à edição do dia 16 prometendo gravar partidas alheias, algo mais trabalhoso em tempos de acesso ainda rudimentar a elas pela internet – pois imagens em vídeo haviam sido usadas pela primeira vez como prova justamente ali (“uma injustiça e um precedente muito perigoso”, chiou Gaspart). O paraense perderia duas partidas contra o Valencia no Camp Nou, pois a sanção incluiria também a estreia na Copa do Rei:  no dia 15, triunfo por 2-1 pela Copa; mas o dia 19 viu outra reviravolta “daquelas” na Catalunha.

Perseguido pelo Real Madrid: o rival pressionou por suspensão do paraense após revide dele em jogo alheio. Três ex-sócios madridistas aplicaram a sanção, embora Redondo fizesse algo parecido (vide quadro superior da imagem direita) rodadas antes e nada acontecesse

Luis Enrique, Rivaldo e um gol contra do argentino Fernando Cáceres abriram 3-0 por La Liga aos culés. Pois nos vinte minutos finais, os outros argentinos do Valencia redimiram o conterrâneo: Guillermo Morigi, Claudio López duas vezes e Ortega (menos de 60 segundos após o empate) assinalaram um memorável 4-3 aos morcegos. A capa pós-jogo tinha um “já basta” como manchete, “o Barça não tem perdão” como título do relatório da partida e até um “síndrome de Salamanca” como nome para tantas entregadas. E a do dia 21 sugeria um Van Gaal na corda bamba. Na tabela, Real Madrid 43 e 41… o troco, ao menos, foi imediato. Em um terceiro jogo seguido contra o Valencia, agora pela volta da Copa do Rei, no dia 22, os visitantes arrancaram em pleno Mestalla um convincente 3-1. Giovanni, sem ritmo, foi usado no lugar de Sonny Anderson para a meia hora final de um show de Rivaldo: o pernambucano abriu o placar e anotou o 2-1 já aos 34 minutos do segundo tempo para então fornecer uma assistência de ouro para o paraense bater Zubizarreta aos 46 e finalizar o marcador.

Mesmo com tantas lesões e suspensões, a edição pós-jogo registrou que Giovanni conseguia ser o terceiro na artilharia do elenco na temporada na soma das competições: eram 12 gols dele, 15 de Rivaldo e 19 de Luis Enrique. E no dia 26 ele voltou a jogar 90 minutos, no Riazor, ainda que improvisado no ataque, onde executou “um par de ações de um virtuoso, a única diferença com [Sonny] Anderson”. Mas um La Coruña de temporada excepcionalmente instável naqueles seus anos de ouro, em 14º, fez valer o fator casa: Fran, Loco Abreu e Djalminha já haviam aberto 3-0 quando o ex-vascaíno Donato marcou contra e fechou em 3-1. Ligeira pausa para amistoso em Granada contra o Partizan no dia 28, um 1-0 com gol de pênalti (Rivaldo), tido como “frouxo” de todos e de um Giovanni que “passou despercebido”. Mas o Mundo Deportivo ressalvou em 1º de fevereiro que a ausência do paraense na Copa Ouro com a seleção deveu-se à intenção da CBF em oferecer últimos testes a nomes mais experimentais, pois também não levaria também Ronaldo, Rivaldo ou Roberto Carlos. Além de revelar a superstição de Zagallo em recusar hospedagem em Miami na mesma suíte de Al Capone.

A liderança em La Liga foi recuperada naquele mesmo 1º de fevereiro, em um 2-1 sobre o Sporting Gijón, placar iniciado a partir de um cabeceio de Rivaldo “após um preciso cruzamento de Giovanni, que fabricou o gol com grande habilidade quase desde a linha de fundo”. Cheryshev, pai do russo que reluziu no Mundial 2018, empatou aos 35, dois minutos após o Messias ter um pênalti sobre si não marcado, mas Rivaldo definiu o placar logo aos 37. Em 5 de fevereiro, o jogo foi pela Copa do Rei, pelas idas das quartas-de-final contra o Mérida. Giovanni teve uma noite marcada por gols perdidos contra Navarro Montoya (“se estivesse algo mais calibrado, o Mérida teria levado outros três”, cornetou uma coluna do dia 8), embora sofresse um pênalti não assinalado na vitória protocolar por 2-0. No mesmo dia 8, foi preciso suar nas Canárias para arrancar um 1-1 com o Tenerife; Rivaldo até abriu o placar aos 44 “após uma boa jogada de Giovanni”, mas saiu machucado no joelho esquerdo. “Alguma lentidão” do paraense foi apontada e a manutenção da liderança (Barça 45, Real Madrid 44, Real Sociedad 43, Athletic 40) foi creditada a Sávio: “nenhum dos quatro primeiros ganhou. Sávio, o grande reforço do Madrid de dezembro, enviou a Vigo um pênalti no minuto 92 e impediu o triunfo blanco”. 

Mas o lance da rodada, sem dúvida, foi a famosa fratura que Juninho Paulista sofreu contra Míchel Salgado, em um Atlético de Madrid x Celta. Essa tragédia alheia pesaria para Giovanni assegurar sua vaga na França dali a uns meses e já era 11 de fevereiro na Espanha quando deu-se outro fator preponderante: mesmo que Zagallo levasse um time experimental à Copa Ouro, a queda nas semifinais para os EUA (ainda no dia 10, no fuso de Los Angeles) teve ares de vexame a renovar questionamentos ao Velho Lobo; dali a algumas semanas, a CBF contrataria Zico para ser assistente técnico, movimento visto como ameaça à autoridade plena do treinador. Giovanni, por sua vez, foi naquele dia 11 poupado de ir a Mérida pela Copa do Rei por problemas estomacais; os colegas garantiram a vaga com um tranquilo 3-0.

Por La Liga, o Real Madrid retomou brevemente a liderança (47 pontos a 46) na rodada seguinte, após o Barça não sair do 0-0 em casa em 15 de fevereiro contra um Real Mallorca áureo sob o técnico Héctor Cúper, que levaria oportunamente um troco naquela temporada – mas que, ali, encerrou 53 jogos seguidos em que os culés deixavam o Camp Nou com ao menos um gol marcado; e isso que o goleiro Hesp evitou gol certo no minuto final, em um dia “fatídico” atribuído ao Messias: “pecou de lento e perdeu muitas bolas”. Mas no dia 18 ele já foi reconhecido como “elétrico” e “perigoso” na ida das semifinais da Copa do Rei, contra o Real Zaragoza do ex-parceiro Jamelli: após um mês sem marcar, desde aquela revanche contra o Valencia, anotou o 3-1 de virada com apenas onze minutos de jogo, após ganhar na corrida de dois marcadores e tocar na saída do goleiro; seria 5-2 em casa. “Volta o espetáculo”, aplaudiu o jornal pós-jogo. Antes da volta, Compostela, no dia 22: 2-0 em 90 minutos “bastante cinzentos” de Giovanni no duelo que rendeu o tardio primeiro gol de Figo naquela edição do campeonato espanhol; e liderança recuperada, em 49 contra os 47 do arquirrival, 44 da Real Sociedad e 42 do Mallorca. 

A volta contra o Zaragoza pela Copa do Rei se deu no dia 26 e o Messias foi “anulado por Van Gaal. Como meia-direita, esteve perdido e superado por Kily [González]”. Mas o que importou foi o 0-0 em La Romareda: Barça, líder espanhol, se garantia também na final da copa caseira. A Era Messi faria dobletes (e além) virarem corriqueiros na Catalunha, mas naquele contexto o time aguardava desde 1959 para garantir em uma mesma temporada os dois títulos do calendário doméstico. A Copa do Rei então pausaria até sua final em jogo único no dia 29 de abril, data em que um Brasil x Argentina amistoso poderia representar o desfalque de Giovanni. Em 2 de março, os líderes visitaram o Racing Santander e saíram ali com 52 pontos contra 50 do Real Madrid e 45 do Atlético. O paraense, bem anulado pelo argentino Gabriel Schürrer, “não agregou anda à equipe”, sendo substituído por Reiziger logo aos 6 minutos do segundo tempo, quando o Barça perdia de 1-0. Virou para 4-2 graças aos outros brasileiros, com Rivaldo e Sonny Anderson (que encerrava longo jejum pessoal) anotando dois cada.

Mas o Messias se recuperaria – e muito – no compromisso seguinte, no dia 8, renovando sua crescente estrela em El Clásico: foi “uma peça mestra na zona larga” ao finalizar aos 41 minutos do segundo tempo um 3-0 sonoro em casa, com direito a Hierro expulso após conseguir emendar dois cartões amarelos entre os minutos 47 e 51 e gols lusófonos de Sonny Anderson e Figo, com Rivaldo conferindo as assistências aos brasileiros. Giovanni voltou a ser perigosamente espontâneo, mas de modo mais light: comemorou tirando a camisa, recebendo imediato cartão amarelo: 55 a 50 na tabela (e o Atlético com um 45 distante). À edição pós-jogo, Giovanni apontava aquele como seu melhor momento no clube. Algo que se corroborou na partida seguinte, quando enfim a Supercopa da UEFA (disputa para qual o Barça ousou com um uniforme especial usado nas competições europeias, com a divisão em azul e grená em metades da camisa se estendendo aos calções, cujo desenho lembra o da atual temporada) teve seu jogo de volta realizado na Alemanha.

Cenas do título da Supercopa de UEFA de 1997, sobre o Borussia Dortmund: à esquerda, em edição de 2012 do Mundo Deportivo (com Luis Enrique e Sergi Barjuan). À direita, na do pós-jogo: Giovanni “põe a magia e decide a Supercopa”

Ausente da decisão de 1997 da Recopa, Giovanni na Supercopa “fez um de suas melhores partidas da temporada, com um grande gol que sentenciou a eliminatória”. Foi logo aos 6 minutos, em “esplêndida ação pessoal” na qual “controla um balão na frontal da grande área, penetra, supera um defensor e bate o goleiro [Stefan] Klos com um disparo cruzado e colocado”, além de ter conferido três passes claros para gol aos colegas, como um “maestro de uma orquestra afinada”. No velho Westfalenstadion, os campeões do mundo de 1997 só conseguiriam empatar, aos 19 do segundo tempo (Jörg Heinrich). O correspondente do jornal no Brasil garantiu, à edição do dia 13, que “o gol de Giovanni recebeu ontem os melhores parabéns nas tertúlias e comentários futebolísticos, apontando-se a possibilidade de que se o meia continua jogando assim, ainda pode ter uma oportunidade de jogar o Mundial da França”. Até o próprio João Havelange, nos atos finais de sua presidência da FIFA, palpitava à mesma edição: “Van Gaal deve ver que Giovanni rende mais jogando mais recuado e com campo pela frente”. A Supercopa também fez o Barça na época tornar-se o clube europeu com mais taças na soma dos diferentes troféus continentais, igualado ao Milan.

Após dias sob polêmica pela tumultuada saída do decadente Stoichkov da Catalunha, o Real Valladolid foi o adversário seguinte, no dia 15. Giovanni “começou sendo um espectador a mais, mas logo acordou”. Aos 10 minutos do segundo tempo, o Barça chegou ao empate a partir de um pênalti no paraense que a arbitragem apitou como falta fora da área: mesmo assim, Rivaldo guardou, em cobrança direta. A virada quase veio com o camisa 10, quando acertou a trave aos 41. Mas não escapou aos 47: Sergi Barjuan cruzou e o Messias ajeitou de cabeça para a jogada prosseguir, com Dragan Ćirić. O iugoslavo efetuou outro cruzamento e Figo, sem marcação, concluiu, sob reclamação caseira de que Giovanni, impedido na hora do segundo cruzamento, teria atuado ofensivamente contra a defesa do Valladolid. Prevaleceu uma tabela a indicar Barcelona 58, Real Madrid 51 e Celta de Vigo 48.

Nada disso era o suficiente para amolecer Zagallo, a chamar do Barcelona apenas Rivaldo para amistoso contra a Alemanha em 25 de março. A edição do dia 18 deu prognóstico de que o paraense e Sonny Anderson estariam “praticamente descartados” para a Copa, repercutindo enquete brasileira da revista Veja em que até Dunga, Dodô e Müller eram lembrados acima do trio blaugrana (“no caso concreto de Rivaldo, uma grande parte da torcida ainda lembra o erro que teve nos Jogos Olímpicos e não entende porque em seu clube oferece um grande rendimento e quando joga na seleção, desaparece”) naqueles tempos de maior equilíbrio entre o futebol brasileiro e o europeu – e menos audiência a este. Mas a boa fase rendeu até o mimo de Van Gaal, a conceder a partir do dia 18 miniférias a alguns jogadores, que Giovanni desfrutou em Roma antes de reaparecer em campo no dia 22 para receber o Athletic de Bilbao.

Sob os gritos de “campeões!” e algum apoio a Stoichkov no primeiro jogo no Camp Nou após a Supercopa, Giovanni declarou ter jogado “minha melhor partida (…). Quando tens confiança e o técnico confia em ti, fica mais fácil jogar”. Van Gaal retribuía: “podíamos ter feito sete ou oito gols (…). Giovanni está jogando em um grande nível faz tempo”. Com 3 minutos de jogo, ele abriu um sonoro 4-0 sobre os bascos, em duas tentativas seguidas de cabeça. “Super Giovanni” ainda teria raspado a trave aos 11 e aos 37 de “um primeiro tempo para não esquecer” de “um artista da bola”. Sonny Anderson completou o serviço, anotando os dois gols seguintes e fornecendo assistência ao último, de Òscar García. Fase que, segundo a edição pós-jogo, fazia Van Gaal cogitar deslocar-se à Stuttgart para conversar pessoalmente com Zagallo para que a CBF (a jogar ali contra a Alemanha no dia 25) não desfalcasse o “Barsamba” no dia 29 de abril, data tanto de Brasil x Argentina como da final da Copa do Rei.

No dia 25 de março, o Barcelona estreou na Copa da Catalunha, que Van Gaal preferiu valorizar ao contrário de Bobby Robson, assumindo as rédeas que pareciam reservadas ao assistente José Mourinho. Reforçou o time B dos jovens Xavi e Carles Puyol com Fernando Couto, Giovanni e Pizzi entre os titulares e Vítor Baía, Sonny Anderson e De la Peña entre os reservas utilizados no 2-1 sobre o Lleida. O juvenil Jofre marcou os dois gols culés no placar descontado por Tito Vilanova (posteriormente técnico do próprio Barça na temporada pós-Guardiola). Mas o holandês realmente reservou tempo para um bate-volta com Zagallo e Ricardo Teixeira na Alemanha. A edição do dia 27 relatou: “Rivaldo estará certamente na convocação contra a Argentina. Menos possibilidades tem Giovanni, que já não entrou nos planos de Zagallo contra a Alemanha pese que seu rendimento no Barcelona seja magnífico. Zagallo esclareceu que ‘não posso assegurar se Giovanni estará na lista, não quero abrir vias de polêmica. Se disser agora que convoco dois jogadores do Barcelona e que não podem jogar a final da Copa do Rei, em Barcelona me cortam o pescoço’”. Essa lista seria anunciada em 17 de abril.

Se Zagallo estava reticente, o treinador do clube era exaltado pelo paraense no dia 29: “todo mundo diz que Van Gaal é muito duro e muito sério, mas para mim tem um coração muito grande. Quem convive cada dia não se surpreende se digo tudo isto”. Na mesma entrevista, admitia ainda ficar sem jeito para dar autógrafos e até se permitiu relativizar os vários dias de festejo em Barcelona nas vitórias culés, destacando que em Belém “acontece o mesmo, inclusive não se dorme”. A nota ainda destacava que, só por completar uma segunda temporada inteira na Catalunha, já quebrava uma série histórica de passagens efêmeras de outros brasileiros em Les Corts, brilhantes por lá (Romário durou uma e meia e Ronaldo, só uma) ou não (Roberto Dinamite, Cléo, Aloísio); só os cinco anos de Evaristo de Macedo apareciam como exceção à regra. Naquele dia, visitou-se o Celta, cujo craque Karpin, atual técnico da Rússia, estava atento na edição da véspera: “devemos pensar que não basta secar Rivaldo, porque também estão Figo, Giovanni e [Sonny] Anderson”.

Comemorando com Rivaldo nos 4-0 sobre o Athletic de Bilbao e reverenciado pelos juvenis do Barça ao lhes dar uma mão na Copa da Catalunha

Os galegos realmente se atentaram e Mazinho fechou nos Balaídos o 3-1 sobre o futuro clube dos filhos Rafinha e Thiago Alcântara, duelo em que Giovanni “não foi o mesmo das últimas semanas”. Ainda recebeu suspensão automática ao acumular um quinto cartão amarelo, ao chutar propositalmente longe uma bola sob irritação de uma falta apitada em desfavor ainda com 0-0 no placar. O jornal pós-jogo reconheceu que o revés poderia ter sido mais amplo, mas havia gordura: Barcelona 61 pontos contra 55 do Real Madrid e 51 do próprio Celta e da Real Sociedad. E em 2 de abril o outrora promissor prata-da-casa De la Peña, sem jogar há mais de dois meses por recuperar-se de uma ruptura fibrilar contra o Gijón, já era visto como descartável: “Van Gaal (…) já confessou que Giovanni é um jogador fixo em seu esquema e que De la Peña não pode competir com ele, porque tem menos chegada de gol”. O carequinha, mais de uma vez elogiado ao Mundo Deportivo pelo paraense como detentor de habilidade que o faria selecionável como canarinho se fosse brasileiro, de fato rumaria à Lazio antes de virar ícone do vizinho Espanyol nos anos 2000.

Mas, no dia 4, diante da suspensão do Messias contra o Real Oviedo, De la Peña ocupou a vaga dele entre os titulares. E, sentindo nova lesão muscular, deixou o campo com 13 minutos de jogo, antes do placar ser definido de modo curioso: Luis Enrique abriu, o zagueiro Bogarde ampliou e o mesmo Bogarde, marcando contra, descontou. Em paralelo, o empate madridista contra o Athletic significou oito pontos de vantagem culé: 56 a 64. Os 2-1 também significaram cem gols na temporada, somando-se todas as competições. Após o jogo de 7 de abril, contra o Real Betis (quando enfim realizou-se aquela partida suspensa pelas chuvas em dezembro), Giovanni já declarava o Barcelona como “98% campeão” espanhol, com moral de um cabeceio seu ter aberto em escanteio aos 8 minutos do segundo tempo um 2-0 em plena Sevilha contra a equipe do treinador Luis Aragonés; “demonstrou detalhes de sua classe” foi a avaliação e a vantagem já era de onze pontos (67 a 56) para o segundo colocado, um arquirrival já assumidamente voltado de vez às semifinais da Liga dos Campeões: Raúl, Roberto Carlos e Karembeu admitiram jogar a toalha por La Liga à edição do dia 9.

Em 11 de abril, contra o Mérida, o paraense até se prestou a marcar o adversário Gonzalo de los Santos, anulando o uruguaio na análise pós-jogo. Fora de casa, Figo e Luis Enrique liquidaram com gols seguidos, aos 20 e aos 25 do segundo tempo antes do desconto adversário fechar o marcador. Àquela altura, o líder já poderia assegurar o torneio na rodada seguinte mesmo se fosse derrotado, desde que o Real Madrid não superasse seu jogo com o Real Oviedo. Ou até antes de entrar em campo, dado o caráter prévio da partida do concorrente. A vantagem estava em 14 pontos e destacou-se ser esta a maior já vista para um vice-líder na história de La Liga. O que rendeu tietagens mútuas com um Gustavo Kuerten a trabalho em Barcelona no dia 14.

No dia 15, balde de água fria: Zagallo anunciou um pacto de cavalheiros, pelo qual concordava que Rivaldo se ausentasse do amistoso contra a Argentina no dia 29 para atuar na decisão da Copa do Rei, desde que o pernambucano fosse liberado à seleção a partir de 12 de maio. E frisou que o acordo valia a todos os brasileiros do Barcelona, o que foi sinalizado como fim da linha para a pretensão do paraense de ir à França. Já o técnico do Celta, Javier Irureta, pensava diferente e chiou à edição do dia 16 que o resultado final de La Liga estaria “adulterado” se os catalães, na eventualidade de perder não apenas Rivaldo para a CBF, se tornassem mais fáceis de serem batidos para quem calhasse de enfrentá-los na reta final. Se o Velho Lobo dissimulava ou não, Van Gaal abertamente teria “uma debilidade especial por Giovanni”, “convertido em um dos jogadores mais queridos pela torcida”, segundo análise da mesma edição sobre “um jogador mais completo, que se sacrifica defendendo e que faz faltas se é necessário”. Em 17 de abril, Zagallo realmente não incluiu Giovanni para o amistoso contra a Argentina, preferindo desenterrar Raí, ausente desde a Copa de 1994. A resposta não demorou mais do que 24 horas. Foi quando Giovanni marcou o gol que assegurou o título espanhol

“Além de marcar o gol da vitória, foi o jogador que aportou mais qualidade ao centro do campo” foram os resumidos elogios ao paraense, que diante do Real Zaragoza usou a cabeça a doze minutos do fim para aproveitar cruzamento de Celades e “fazer o estádio estalar” no único gol da noite. E quase veio o outro do Messias, no último minuto, em cobrança de falta que parou no travessão. Ele já havia entrado em campo com uma tatuagem de “Campeão da Liga 1997-98”, a primeira em três anos, tempo demais de espera a uma torcida campeã espanhola apenas duas vezes entre 1960 e 1991 – mas então mal acostumada após o tetracampeonato seguido sob o técnico Cruyff. Na tabela, Barcelona 73 a 56 do Real Madrid e 55 do Real Mallorca, o outro finalista da Copa do Rei. Giovanni, àquela altura, participara de 1906 minutos da campanha (estatística divulgada na edição do dia 22), equivalente a cerca de 21 jogos inteiros, dando ares de meio gol por jogo aos nove que anotara apenas na trajetória campeã espanhola. Ainda assim, a edição do dia 24 noticiava que a pressão por Giovanni e Rivaldo no Brasil era exercida sobretudo pela mídia paulista, mas nem tanto pelo público em geral, que teria uma impressão de desempenho de ambos aquém da capacidade quando a serviço da seleção.

O título diante do Zaragoza, com ainda quatro rodadas a serem jogadas, impediu que a taça fosse assegurada em pleno clássico catalão, no dia 26. Em Montjuïc, ficou-se no 1-1, aberto por Figo e fechado por Sergio González, em partida “irreconhecível” de Giovanni e outros contra o Espanyol (cujo bom trabalho do treinador José Antonio Camacho o credenciaria a assumir a seleção espanhola após a Copa do Mundo), mas ressalvada diante do foco na final copeira dali a três dias. No neutro Mestalla, o Real Mallorca fez talvez a grande partida de sua história; abriu o marcador aos 6 minutos e foi preciso aguardar até os 21 do segundo tempo para que Giovanni recebesse um cruzamento “envenenado” de Reiziger e então repassasse ao interior da pequena área para Rivaldo fuzilar. “Crucial no empate”, o paraense ainda acertou a trave do time insular já no penúltimo minuto da prorrogação, mas o 1-1 não se alterou.

Nos pênaltis, Carlos Roa credenciou-se de vez a assumir a titularidade da seleção argentina na Copa, primeiramente ao quase transformar Rivaldo em vilão, defendendo-lhe a primeira cobrança. Só que Iván Rocha isolou, cabendo a Giovanni abrir os gols da série na cobrança seguinte. Roa encaixou ainda os de Celades (terceira cobrança culé) e converteu ele próprio o quinto chute dos azarões, forçando as alternadas pois Iván Campo também perdera a terceira do time das Baleares. O argentino então salvou o chute de Figo e deixou a taça a um acerto de rumar ao arquipélago. Jovan Stanković, contudo, mandou para fora. Na terceira série alternada, consagração holandesa: Reiziger converteu ao Barça, Hesp salvou com os pés o tiro de Eskurza no meio do gol e Van Gaal lograva o histórico doblete.

13 milhões acompanharam aquele drama, inclusive na concentração brasileira, com Romário e Ronaldo torcendo pelo ex-clube (na informação do jornal de 1º de maio) horas antes de Claudio López fazer Zagallo ter que engolir o único triunfo argentino em clássicos no Maracanã entre 1959 e 2021 – e a primeira derrota brasileira em casa desde 1992. A criticada atuação de Raí já gerava a impressão de que o paraense teria lugar na França, segundo a mesma edição de 1º de maio. Outro dia depois, em tarde de mais festa do que jogo, o campeão dobrado da Espanha poupou-se ao receber o Real Betis pelo returno. Giovanni entrou a partir do intervalo, em reação ao 1-1 colhido pelos visitantes no último minuto do primeiro tempo. Calhou de a virada vir em contra-ataque a um chute em que o Messias acertou o travessão. No penúltimo minuto, o Betis matou o jogo, fechando em 3-1. No dia 5, divulgou-se um interesse do Milan em adquirir o camisa 10, em uma troca por Kluivert. 

Cenas que colocaram Giovanni na Copa 1998: a da direita retrata sua comemoração ao marcar o gol que valeu a reconquista espanhola após três anos

Na mesma data, Van Gaal usou o time principal na final da Copa da Catalunha, contra o Europa, com o acréscimo de Xavi (usado a partir dos 21 minutos do segundo tempo), a aparecer no segundo tempo de uma senhora zebra: novamente, o oponente, visto como terceiro time da capital catalã, conseguiu arrancar um 1-1 e levar nos pênaltis, com direito a erro do próprio Xavi decretar o vice-campeonato. Giovanni, que inclusive fora expulso naquela partida, não ligou, pois Zagallo resignou-se: o Pará estaria representado na Copa do Mundo. Zico, de lembranças ruins de jogar sem ritmo em 1986, as teria em mente ao desconsiderar a recuperação pós-fratura do concorrente Juninho Paulista – que, mesmo amargurado, manifestou seus parabéns ao camisa 10, que na Copa vestiria a 7. Pressionado também por Ricardo Teixeira e pela Nike, Zagallo, inclusive, anunciou de antemão que o lugar de última hora do Messias seria na janela: confirmou sua titularidade, a fim de aproveitar o entrosamento com Rivaldo. Diretamente de seu título com a Inter na Copa da UEFA, em 8 de maio, Ronaldo também fez questão de parabenizar o velho colega.

Parêntese: a queimação na Copa de 1998

Rivaldo e Giovanni então se despediram da temporada espanhola no dia 10, contra o Atlético, pela penúltima rodada; viajariam a Teresópolis no dia seguinte. No Vicente Calderón, a plateia da casa por sua vez despediu-se do histórico treinador Radomir Antić com um 5-2 nos campeões em show de Christian Vieri (autor de dois, o italiano foi o artilheiro daquele campeonato), duelo em que Giovanni entrou apenas nos 20 minutos finais para o lugar de Rivaldo, com a partida já em 4-1, dispondo de tempo para apenas “um par de boas jogadas e um chute a gol”. 

Ao Barça, restou o golaço com que Rivaldo abriu o placar e um último gol oficial de De la Peña pelo clube. E, à Giovanni, agradecer a Van Gaal à edição do dia 14 (“devo tudo a Van Gaal. Robson não me escalava e o holandês depositou sua confiança em mim”) e negar impressões de que pecasse por vezes de apático ou frio demais: “nada disso, acontece que nesses momentos já penso na jogada seguinte”. Somando todas as competições, foram 3014 minutos (equivalentes a 33 jogos inteiros e meio, embora atuasse ao todo em 41 jogos) e 18 gols, registrou-se ao dia 17, com a edição seguinte qualificando sua segunda temporada como “notável” em contraste com os nulos Guardiola (bichado, Pep não iria à Copa), Stoichkov (de apenas quatro partidas na temporada, o búlgaro, revoltado com falta de protagonismo, se mandou à Arábia) ou o futuro campeão mundial Dugarry, que partira na janela de inverno ao Olympique de Marselha após somente 13 apagados jogos em todas as competições. Ou em contraste, ainda, ao 4-1 em pleno Camp Nou que um Barcelona relaxado tomou do Salamanca na rodada final, no dia 15, três dias após ter aplicado um 4-0 no Southampton em amistoso em Cartagena. De la Peña anotou ali seus dois últimos gols antes de dar lugar a Xavi, usado pela primeira vez fora da Copa da Catalunha. 

No dia 22 de maio, o Brasil desembarcou em Paris já com um bate-volta a San Mamés agendado, para as comemorações do centenário do Athletic de Bilbao. Rivaldo e Giovanni precisaram tranquilizar a imprensa de que os bascos eram “duros, mas não violentos”, diante do receio de alguma lesão inoportuna. A edição do dia 30, por sua vez, detectou “sérios apuros” do paraense no meio-campo de um jogo-treino em Lésigny contra o sumido Racing de Paris (1-0). O amistoso contra o Athletic ocorreu 48 horas depois. Ainda assim, foi ele “o brasileiro mais solicitado” para autógrafos no País Basco, segundo a edição do dia 31, quando anunciou-se que a CBF também enviaria a seleção para o centenário do Barcelona, em amistoso agendado para 28 de abril de 1999. Já na festa do Athletic, usada para testes táticos por Zagallo, Giovanni teve dois tempos: no primeiro, “lhe custou entrar na partida”, com o técnico lhe atribuindo tarefas de contenção – ainda assim, nela chegou a marcar um gol, anulado por impedimento. Na segunda, perdendo já de 1-0, o treinador o liberou para atuar mais solto no ataque. E o paraense assim gestou o gol canarinho já aos 4 minutos, ao buscar Ronaldo; o Fenômeno rapidamente deixou a bola para Rivaldo disparar o tiro, causando suspiros na Catalunha (“Ronaldo, Giovanni e Rivaldo falam o mesmo idioma, não apenas o português, o idioma do futebol-arte”). Quanto ao Messias, foi o culé “mais aplaudido pela entendida torcida bilbaína. Existe uma espécie de devoção em terras bilbaínas pelo fino meia do Barcelona. Um sonoro aplauso despediu a substituição de Giovanni”. Mas ele terminou substituído em decisão “estranha” de Zagallo, justamente quando estava em seu melhor momento no jogo.

No dia 2, Zagallo desistiu de aguardar a recuperação de Romário e o cortou, o que poderia reforçar as possibilidades de uso de Giovanni caso o treinador voltasse à ideia de empregá-lo como atacante improvisado em alguma necessidade. Atuando atrás da dupla de frente (agora, Ronaldo e Bebeto), ele abriu o 3-0 sobre Andorra aos 25 minutos, no dia 3 – último amistoso pré-Copa, no estádio parisiense do clube Red Star, mas o Mundo Deportivo pós-jogo cravou que “ele não rende colado na lateral” e sugeriu que “Zagallo deve testar Edmundo ou pôr Giovanni com Ronaldo, porque, com Bebeto, o Brasil terá problemas para marcar”. Ao dia 5, o jornal chegou mesmo a sugerir que Zagallo o escalava em outras posições como forma de boicota-lo sutilmente, pois dava mais liberdade ao concorrente Leonardo quando lhe conferia minutos. O prognóstico é de que o paraense voltaria mesmo ao banco para a estreia. “Giovanni é a prova que o binômio Zico-Zagallo não funciona” foi a análise do dia 6, pois o Galinho insistia pelo Messias. No fim, até a estatura de 1,90m de Giovanni, diante da grande altura dos escoceses, preponderou para que ele começasse titular no jogo de abertura do mundial. Foi o que se sugeriu no jornal do dia 7, onde o meia antecipava a missão que lhe repassaram: “terei que recuar muito para defender, sobretudo em jogadas de bola parada ou escanteios”. 

Naquela data, uma falta dura de Edmundo no joelho do paraense em um rachão, revidada com uma bolada intencional desferida pelo Messias no Animal, repercutiu um ambiente em tensão. Apesar da falta, “Giovanni não parou de correr. Tinha ordens de reforçar a defesa quando atacassem os reservas, ainda que estes não criassem uma só ocasião”. Na edição do dia do jogo, Zagallo estava taxativo: no meio-campo, só Rivaldo teria liberdade total de jogo. Contra a Escócia, o paraense só foi tolerado no primeiro tempo, tornando-se a primeira substituição da Copa ao sair no intervalo para Leonardo atuar no segundo. O Mundo Deportivo detalhou: “se perdeu ante tantas imposições defensivas. Não sabia o que fazer com a bola. Giovanni se sente a vítima de Zagallo. É a vítima de Zagallo. Leonardo defendeu o treinador em San Mamés quando Edmundo criticou ‘esse que não entende que Bebeto não pode jogar, que tenho que jogar eu’. Leonardo sempre foi o garoto mimado do selecionador. Chorou no ombro de seu treinador quando os garotos maus da seleção cortaram o cabelo a zero [um trote na Copa das Confederações], faz de relações públicas no treino, traduz a Zagallo o inglês, o francês, inclusive o japonês (…). E Giovanni, não. Seu único mérito é ter demonstrado no Barcelona que é um craque”. 

O jornal ainda farejou um veneno do Lobo na atitude deste em explicar na coletiva de imprensa a substituição mesmo que ninguém houvesse o questionado (“já que ninguém perguntou, eu explico”) para poder enfatizar abertamente a má atuação do paraense… ao mesmo tempo em que era “mais paternal” a respeito de um Bebeto também mal visto – o botafoguense foi o outro jogador de ataque avaliado com uma só estrela pelo jornal, junto ao Messias. Que caiu atirando: “Zagallo precisava fazer uma mudança e ferrou o mais débil. Porque certamente ninguém diria nada. Eu não era titular antes desta Copa do Mundo. Ele precisava que Leonardo entrasse. Claro que joguei perdido, esse não é meu trabalho, não jogava em minha posição. Corri mais do que nunca”. Não teve apoio: “Giovanni fez uma partida burocrática” (Zico), “Giovanni tem que aprender a se sacrificar, como fazemos todos” (Ronaldo) e “Giovanni tem 1% de chance de voltar à equipe titular. Tinha que pressionar no centro do campo para recuperar bolas e não o fez. Esteve lento. Com Leonardo foi diferente” (Dunga) foram frases que apareceram na edição do dia 12 em uma “crônica de uma substituição anunciada”.

Giovanni e Rivaldo prometendo dedicar eventual título da Copa de 1998 à torcida do Barcelona

No dia 13, o jornal divulgou uma enquete que promovera na própria imprensa brasileira e a conclusão entre Tino Marcos, Sérgio Xavier Filho e profissionais do Lance!, Estadão e O Globo teria sido unânime de que o paraense e Leonardo (que pedia que não criassem uma “guerra” entre os dois: “sabia que isto aconteceria e depois da partida falei com ele, para que tudo ficasse bem”) poderiam atuar no mesmo time, caso o Messias fizesse dupla ofensiva com Ronaldo. À edição do dia 14, Roberto Carlos pedia uma segunda chance ao meia: “não se pode julga-lo só por 45 minutos”. No rachão de titulares contra reservas, o paraense, desentrosado com Edmundo, até marcou o gol de honra em derrota de 5-1 onde os três gols de Bebeto pelos titulares confirmaram o veterano para o pega com o Marrocos. O irônico prognóstico é de que a ida de Giovanni ao banco seria fator que renderia ainda mais liberdade a Rivaldo, diante da melhor capacidade defensiva de Leonardo.

Contra os africanos, o acúmulo de cartões de César Sampaio lhe renderia suspensão contra a Noruega e nem assim Zagallo cogitou dar nova chance ao paraense no meio: “não, com certeza não” foi a declaração publicada no dia 18. Ao contrário: segundo o Mundo Deportivo, o Lobo passou a exigir publicamente que Rivaldo desempenhasse também tarefas defensivas contra os nórdicos; e, antes de encarar-se o Chile, cobrou que Ronaldo também ajudasse os que lhe deviam passar a bola (informação da edição do dia 27). À edição do dia 22, Giovanni ainda explicava aos que lhe cobravam que houvesse sido mais egoísta que jogou mal exatamente por levar bastante a sério as ordens táticas defensivas de Zagallo, entendendo que “pensei que o que tinha que fazer era me sacrificar pelo bem da equipe. (…) Estava tudo armado e caí na armadilha”. Até a ida de sua esposa a Paris para animá-lo foi divulgada na mesma edição.

 Mas pelo resto do torneio suas alegrias se resumiam aos passeios nas folgas, a vencer Rivaldo nos pingue-pongues da concentração e em ter aproveitamento perfeito nos treinos de pênaltis, revelaria o pernambucano (seu colega de quarto) à edição de 2 de julho. E nem esses treinos pesaram para Zagallo coloca-lo no fim da prorrogação contra a Holanda, cujos jogadores declaravam à edição do dia 6 sua incredulidade pelo banco esquentado pelo paraense – que prometia cumprimentar também Cocu e Zenden, já anunciados como novidades barcelonistas para a temporada 1998-99. Classificação brasileira à final assegurada, Reiziger e Hesp desejaram sorte aos colegas canarinhos de clube, pontuou-se na edição do dia 9. Ainda viriam mais holandeses. O enxame laranja tomaria a Catalunha na temporada pós-Copa, a representar a queda paraense também no Camp Nou.

O declínio lento no Barcelona

Na edição seguinte ao vice-campeonato do Brasil, o presidente culé Josep Lluís Núñez se prontificava a acolher o meia: “vamos lutar todos para recuperá-lo animicamente. Ele sabe que no Barça o apreciamos, que é um dos nossos homens importantes”, embora não livrasse nem ele nem Rivaldo de se reapresentarem em 3 de agosto, três dias antes dos demais. A avaliação do Mundo Deportivo naquela edição de 13 de julho foi que “o Brasil perdeu porque teve a oportunidade de fazer uma equipe ofensiva ao máximo (Denilson, Giovanni) e se contentou em buscar um equilíbrio que não existia”, com parênteses do próprio jornal. O Vasco da Gama, na reta final de sua futura conquista na Libertadores, parecia ter a mesma impressão e lhe sondou, mas a alta multa rescisória afastou as chances do ex-tunante vestir uma segunda camisa cruzmaltina na carreira. Continuaria a vestir uma segunda da Nike: a fornecedora da seleção, de olho na repercussão do centenário que o Barça festejaria em 1999, passaria a produzir as peças blaugranas.

Enquanto isso, Van Gaal reforçava a colônia holandesa que teria ainda o velho ídolo Koeman como um assistente, além de técnico do time B. O jornal já noticiava uma saída litigiosa dos gêmeos Frank e Ronald de Boer desde o Ajax, embora a edição do dia 14 (a pontuar, sobre a famosa convulsão pré-jogo de Ronaldo, que Giovanni fora um dos primeiros a correrem a ele) destacasse que o próprio Van Gaal descartava a vinda de Ronald – mas tal possibilidade não poderia “dar-se por encerrada definitivamente” e, caso concretizada, representaria uma concorrência a Giovanni à meia-direita, posição que o treinador imaginava para ele; pois “a meia esquerda parece que já tem nome fixo: Cocu”, além de Giovanni eventualmente poder “ser centroavante”. 

Ao dia 15 (na qual Giovanni, por questão de idade, declarava-se cético por um lugar na Copa 2002, gerando lamentações do jornal por 1998: “pecou de inocente”), uma primeira polêmica: Van Gaal os queria na Catalunha já no dia 28 de julho, não em 3 de agosto, já farejando uma greve de empresas áreas que realmente ocorreria; o jornal do dia 29 revelou que o clube ficou ao lado dos jogadores. Até a perda da avó materna de Giovanni rendeu uma nota naqueles dias, mas o luto não o impediu de chegar pontualmente ao interior inglês no dia 2 de agosto para juntar-se à sequência da pré-temporada (iniciada ainda na Holanda com os jogadores que não foram à Copa do Mundo e com direito a amistoso em 1º de agosto com o Wolverhampton, derrotado por 3-2) em Prestbury, noticiou-se no dia seguinte. E, ao dia 4, ele concedeu uma primeira entrevista sobre a nova temporada. A respeito da Copa, analisou que “não diria que foi um pesadelo, sim que foi algo muito importante para mim. (…) Sempre poderei dizer que estive em um Mundial”. E manifestou preferência por Vanderlei (ainda Wanderley) Luxemburgo para ser novo técnico canarinho, em dias de indefinição sobre a sucessão de Zagallo, na qual o principal cogitado era Zico. 

Em 7 de agosto, houve um amistoso contra o Derby County, no qual programou-se de antemão que Giovanni, com um corte na zona tibial da perna esquerda após dividida em um rachão na véspera, fosse limitado a 30 minutos. Isso foi cumprido à risca, com ele substituindo Luis Enrique aos 15 minutos do segundo tempo de uma vitória por 2-1 que viraria 3-1. “A última meia hora do Barça contra o Derby County mereceu os melhores elogios da pré-temporada”, elogiou-se já ao dia 9, quando divulgou-se a curiosa informação de que o sul-coreano Yoo Sang-chul (recém-falecido) seria convidado para testes. A pré-temporada se estendeu a Berlim, com um amistoso contra o Hertha no dia 11. A plateia de 27 mil “representou um recorde em um amistoso” no Olympiastadion, destacou a edição pós-jogo, a definir que a entrada de Rivaldo no segundo tempo, “junto a Giovanni e Cocu, levantou a equipe”. Os brasileiros entraram no intervalo e o pernambucano arrancou um 1-1 no último minuto. No dia 14, um duelo catalão contra o Lleida, que endureceu contra blaugranas relaxados demais: 1-1, onde Giovanni, agora titular, “nunca entrou na partida, perambulando pelo campo”.

No dia 17, o jornal repercutiu declarações de Zagallo ao Lance!, nas quais o Lobo dizia não estar arrependido de ter levado Giovanni à Copa diante do ceticismo quanto à plena forma de Juninho Paulista. A surpresa foi a afirmação de que teria pedido ao paraense “que jogasse mais livre, como faz no Barcelona, mas não se soltou e por isso não rendeu”. No dia seguinte, foi a vez do meia ainda justificar sua discrição contra o Lleida: “estou 60%”, em referência ao ritmo de jogo. Van Gaal também o defendeu, espetando Zagallo: “é impossível que um homem como Giovanni esteja 100% porque só jogou 45 minutos do Mundial”. Na mesma data, o Barcelona visitou o Real Mallorca pelo jogo de ida da Supercopa da Espanha – tal como em 1996, na qual a dobradinha do Atlético de Madrid o fez enfrentar no tira-teima o seu vice na Copa do Rei de 1995-96, o troféu de abertura da temporada iria opor o campeão dobrado contra o vice copeiro. Na derrota de 2-1 nas Baleares, o paraense jogou os 90 minutos, mas “só Xavi foi aprovado no primeiro exame”. O jovem volante abriu o placar que os insulares viraram no Lluís Sitjar, enquanto ao camisa 10 “lhe chegaram poucas bolas e além disso se dedicou mais em defender”. 

A equipe de Héctor Cúper, após o trauma na Copa do Rei, conseguiu um consolo que antecipou sua caminhada à final da Recopa Europeia de 1998-99.  Venceu de novo, agora no Camp Nou, por 1-0, em 90 minutos de um Giovanni que “começou participando muito para ir se diluindo pouco a pouco”. O presidente Josep Lluís Núñez via uma má fase geral e a atribuía à Copa do Mundo: “estamos pagando a conta (…). Um dos poucos preparados fisicamente é Figo”, cujo país não estivera na França. O jogo seguinte foi pelo Joan Gamper, no dia 25. E foi contra o Santos. Giovanni não se saiu bem contra o ex-clube e foi definido como “um motor a diesel. Jogou muito lento e está abaixo da forma física”, sendo substituído aos 13 do segundo tempo por Òscar García. Ainda longe do desequilíbrio técnico dos tempos dos 4-0 e dos 8-0, os praianos abriram mesmo o placar, com Anderson Lima aos 32. Rivaldo empatou aos 39 e Figo virou dois minutos depois. A ofensiva dupla alvinegra era Viola e Aristizábal, mas foi a promessa Adiel (que Giovanni apontava como um “novo Denilson”) quem reigualou, no segundo minuto do segundo tempo. Os catalães precisaram dos pênaltis para Hesp ser mais iluminado que Zetti. 

Enfrentando o Santos no Troféu Joan Gamper de 1998, esquentou demais o clássico com o Real Madrid ao prometer referências à “botifarra” (prato catalão que os espanhóis usam para referir-se ao gesto de banana) e questionar a índole de Roberto Carlos

O Messias minimizava os dias ruins do fim da pré-temporada: “o mais importante será a partida contra o Racing”, declarou a respeito da estreia em La Liga, em Santander. Ela se deu em 30 de agosto e o meia, novamente, “nunca entrou na partida. Segue em forma muito baixa” e foi substituído por Abelardo aos 10 minutos do segundo tempo do 0-0. Incrivelmente, o Barça não sabia o que era vencer uma partida não-amistosa desde aquele gol que o paraense anotara sobre o Zaragoza no jogo do título do torneio espanhol anterior, ainda em 19 de abril. Com a janela ainda não encerrada, na virada para setembro a colônia holandesa foi reforçada com Kluivert. Que já entrou em campo no dia 2, em amistoso festivo ao centenário do nanico Palamós: 2-0 com Sonny Anderson e Giovanni conferindo para 6 mil pessoas. Ele já enxergava mais adiante: “creio que até janeiro ou fevereiro não se verá o verdadeiro Barça”, na mesma nota em que anunciava sua intenção de ao fim da temporada fazer valer o direito à cidadania espanhola que lhe seria dado – e, assim, desocupar uma das vagas de estrangeiros não-europeus. 

Ao dia 10, além de atacar Roberto Carlos por supostas críticas do lateral a Ronaldo após a Copa e pintá-lo assim como alguém não digno de confiança, prometeu provocações com butifarras em caso de novo gol em El Clásico; mas não o gesto que os brasileiros chamam de banana, e sim o uso do prato botifarra da culinária catalã. O merengue contra-atacou um dia depois, lhe desejando sorte “porque tem que limpar sua imagem depois de um Mundial em que não jogou” e estendendo mais a ironia: “tomara que Giovanni faça uma boa partida em nosso campo. Eu o aplaudirei. Porque será muito difícil conservar sua vaga no Barça, onde há jogadores de muitíssima qualidade”. Não haveria um embate direto porque, a três minutos do fim de um jogo contra o Real Valladolid no dia 12, Roberto Carlos foi expulso e automaticamente suspenso para o duelo de gigantes. Mas a polêmica persistia mesmo com os dois preferindo não tocar mais no assunto, por diferentes razões: “não me arrependo do que disse, mas cometi um erro e quero esquecê-lo” versus “há um ditado que fiz que a melhor resposta é o silêncio. Não discuto com uma pessoa que diz idiotices” foi a batalha verbal publicada no dia 12 (enquanto Ronaldo e Rivaldo preferiam não se meter). Naquela data, o paraense “jogou mais recuado que o habitual, estando melhor nas tarefas defensivas” do 1-0 contra o Extremadura.

Antes do dérbi espanhol, Liga dos Campeões, em 16 de setembro: em pleno Old Trafford, o Barcelona enfim fez uma primeira apresentação convincente. Giggs e Scholes abriram 2-0 para o Manchester United com 24 minutos e o discurso de intervalo de Van Gaal surtiu efeito – Sonny Anderson descontou aos 2 do segundo tempo e, aos 13, Giovanni converteu friamente um pênalti cometido em Rivaldo. Beckham esfriou a reação aos 18 e o paraense, cujo gol ofuscou noite discreta, foi substituído em seguida por um Xavi estreante a nível continental. Aos 25, Luis Enrique, também de pênalti, finalizou o elogiado 3-3 fora de casa contra o futuro campeão. A notícia ruim para Van Gaal foi pelos gêmeos De Boer terem jogado na mesma data pelo Ajax no torneio, o que ensejaria desfalque automático dos irmãos em noites europeias caso realmente reforçassem o Barcelona ainda naquela temporada. El Clásico se deu três dias depois, finalmente, com Raúl, Kluivert e novamente Raúl mexendo no placar antes dos 25 minutos no Bernabéu. Giovanni esteve “perdido até o minuto 80”, quando a partir de então “criou o gol do empate e liderou a equipe no trâmite final do choque”. 

A igualdade, concluída com Sonny Anderson mesmo sob puxadas de Hierro, saiu no minuto 83 e renovou a estrela decisiva do paraense em dérbis. Mas atuar praticamente como volante lhe causava estranheza, como admitiu à edição do dia 23: “é um lugar novo para mim, mas é o que o Mister quer. Embora não seja minha demarcação, me encontro bem, cômodo na mesma. Sou feliz porque ajudo a equipe. O importante é o conjunto, não eu. (…) Embora o Mister não me diga nada, creio que também pensa como eu. Esta posição é momentânea; sabe que não é meu posto”. O jornal pareceu comprar essa ideia após o jogo do dia 26, contra o Celta: “confirmou que não joga em seu lugar. Lentidão e falta de coordenação” foi a impressão dele (que jogou a partida inteira) ao fim de “um empate que já não foi épico” para o lado culé. Kluivert pôs duas vezes o Barça na frente no Camp Nou, mas Míchel Salgado e Mostovoy arrancaram um 2-2 para os galegos – o russo, já aos 47 do segundo tempo.

Com 6 pontos, o Barcelona era apenas o quinto, ainda que em um início naturalmente embolado; o líder Real Madrid tinha 10. E o Messias não era o único desconfortável: Rivaldo (ponta ao invés de centralizado), Luis Enrique (meia pelos lados ao invés de centralizado) e até o holandês Reiziger (zagueiro central ao invés de lateral-direito) não escondiam à edição de 29 de setembro estranhar as posições que Van Gaal lhes impunha. Em 30 de setembro, o Barcelona foi à Dinamarca e arrancou um 2-0 (dois de Sonny Anderson, nos minutos 43 e 84) sobre o Brondby, onde Giovanni, rotulado de “catastrófico” pelo adversário John Jensen, deixou o time no intervalo para dar lugar ao garoto Xavi. Mas, para o jornal pós-jogo, o paraense apenas seguia “vítima do sistema”. O Messias jurava: “as pessoas não veem que estou fazendo o que posso. Esse não é meu lugar. Jogar aí várias partidas é difícil para mim, porque eu não sou um defensor. Não marco bem”.

Mas se a qualidade não convencia, os resultados inicialmente amparavam o treinador: a manchete pós-jogo contra o Valencia, ocorrido fora de casa em 3 de outubro, foi um “esse Barça remonta tudo”: a virada no Mestalla veio nos vinte minutos finais, com Rivaldo aos 72 e Sonny Anderson aos 91 concluindo o placar construído por Claudio López aos 14 e Kluivert aos 55. Giovanni? Não entrou em campo. Xavi, sempre elogiado ao substitui-lo nos jogos anteriores, foi pela primeira vez titular no time adulto. Na edição do dia 6 de outubro, o Mundo Deportivo já dizia que “só Rivaldo e Giovanni estão fora do tom em relação ao ano passado”. A capa do dia 7 vale a curiosidade: “revolução na Champions League”, anunciando-se a futura expansão de vagas no torneio como um “golpe na Superliga”, ideia já aventada naqueles tempos.

O jovem Xavi, o único a olhar para a foto esquerda (onde Giovanni, quase de costas, é o mais alto), prestes a estrear na Liga dos Campeões. O paraense perderia a posição para ele, mas ali saiu como herói nos 3-3 em Old Trafford contra o futuro campeão Manchester United

Também chamativa, mas sobre o paraense, foi uma manchete da edição do dia 9 de outubro: “prefiro não jogar antes de fazê-lo fora do meu lugar” foi o título dado a uma entrevista com o meia (agora volante), embora a leitura do texto desse à chamada ares de click bait pré-histórico. Pois, ao longo do texto, Giovanni se declarava tranquilo e também menos irritadiço quando deixava de jogar – além de elogiar Xavi e mostrar contentamento pela equipe vir ganhando. Não adiantou: duas edições depois, Van Gaal demonstrava surpresa com aquela fala de alguém preferir ser reserva a jogar improvisado, mas ainda apontava um canhão à própria mídia: “ele não vai à imprensa para dizer o que disse. É a imprensa que pergunta todo dia sobre a mesma questão. Eu creio que é evitável que a imprensa esteja questionando constantemente e insista nas mudanças táticas que executo. (…) A imprensa pode escrever uma ou duas semanas sobre este assunto, mas não eternizá-lo. Os meios de comunicação estão apoiando constantemente a polêmica. Este é o interesse principal”. Gente do Real Madrid não deixou a oportunidade passar: “o do Giovanni? Absurdo”, opinou à edição do dia 13 um Guti que esquentava banco ao lado de Eto’o no arquirrival, mas que preferia não questionar.

O paraense recuou, ao jornal do dia 15: “não falei com o treinador, mas sou um empregado do clube e o Mister manda. Se manda me colocar no gol, farei”. Foi em meio a um tiro pela culatra do treinador, a programar na véspera um amistoso a portas fechadas entre os times A e B do clube. A filial, com os jovens Puyol e Gabri, ganhou de 3-0, rendendo uma feroz crítica a todos os do time principal, com exceção apenas aos ausentes – inclusive porque o Barça B era antepenúltimo em sua divisão na liga espanhola. Não utilizado também na rodada seguinte, embora seus pais estivessem em Barcelona na expectativa de vê-lo atuar, Giovanni preferiu evitar polêmica: “Van Gaal não me castigou, é uma decisão tática. Se trabalho bem nos treinos, poderei voltar à equipe”, contou à edição pós-jogo (a de 18 de outubro) do 1-1 com o Salamanca no Camp Nou. Na do dia seguinte, foi ambíguo: “agora não planejo ir embora do clube (…). Posso ser útil já. Na quarta-feira ou na próxima partida de liga, ou a seguinte. Quando o Mister precise de mim, estarei para ajudar. Eu não sei se agora, se dentro de dez dias ou um mês”. 

A edição do dia 21, véspera de encontro com o Bayern Munique pela Liga dos Campeões, já destacava que Rivaldo e Giovanni passaram a evitar dar declarações à imprensa. Ambos foram titulares na Alemanha, mas os bávaros venceram pelo placar mínimo a partir de um gol de Effenberg no fim do primeiro tempo. Luis Enrique, Xavi e o paraense começaram juntos a partida (e este, ao contrário dos outros dois, jogou-a inteira), mas a qualidade desse meio-campo ficou no papel, exceto um grande passe de Xavi que o Messias usou no minuto 73 para ver Oliver Kahn mandar para escanteio. Como em outras vezes, Giovanni foi “apático, em uma posição que não o agrada”, mas o desempenho caiu mais nas costas do treinador, novamente: a chamada de capa pós-jogo foi o trocadilho “Van [que na língua espanhola pode ser traduzido como Vão] Maal”. Pela frente, um dérbi nervoso com o Espanyol, agora por ambos os rivais compartilharem crises: Marcelo Bielsa acabara de deixar o Sarrià ao fim de uma passagem-relâmpago (vinha do Vélez recém-campeão, até hoje a última conquista bielsista se for desconsiderada as Olimpíadas 2004 e a segunda divisão inglesa com o Leeds). Seduzido pelo convite da seleção argentina, El Loco não hesitou em deixar o antepenúltimo colocado de La Liga

E foi a crise comum que, ironicamente, fez Montjuïc bater recorde de público em 25 de outubro: 32 mil pessoas viram Giovanni desempatar a sete minutos do fim convertendo um pênalti sofrido por Rivaldo, definindo o 2-1. “Frio, sem entrar na partida, embora essa frieza fosse crucial no pênalti” e pênalti, “com Giovanni em campo, é gol” foram os elogios pós-jogo – em referência a uma penalidade máxima que, na ausência do paraense como cobrador principal, fora desperdiçada por Luis Enrique no 1-1 com o Salamanca; outrora um rei em clássicos, o paraense só anotaria naquele naquela temporada… em parte, porque não jogaria mais nenhum. O Barcelona ainda estava em quarto, com 10 pontos, em uma liga então liderada pelo áureo Real Mallorca e seus 15, com o Real Madrid a 14 e o Eurocelta com 13. A polêmica com Roberto Carlos foi reacesa pelo lateral: a edição do dia 29 (cuja matéria de capa, veja-se só, era a sondagem para Zidane vir à Catalunha como contratação estelar do centenário) divulgou queixa de que “disse coisas gratuitas sobre mim, mas ele tem meu telefone e não me ligou. Prefiro não falar com ele”. No jogo seguinte, a Real Sociedad abriu o placar no Camp Nou. A cabeça de Rivaldo empatou aos 32 e a virada veio quatro minutos depois, com o pernambucano lançado uma cobrança de falta em que Giovanni ajeitou de cabeça para o gol de Sonny Anderson. 

Um golaço de Rivaldo, se livrando de três bascos e do goleiro, ampliou aos 16 do segundo tempo; e, aos 42, quase Giovanni fez o dele. Ao menos o rebote serviu para Sonny, de letra, exibir outro golaço. O Messias “deu mostras de sua qualidade, mas também desapareceu” foi a crítica da vez, mas o paraense se mostrava mais relaxado do que há algumas semanas: “agora tudo é diferente”. Tabela: Real Madrid 17, Barça 16, Mallorca 15, mas com um jogo a menos. No dia 4, o camisa 10 até saiu-se bem contra o Bayern Munique: teve um gol legal anulado logo aos 8 minutos por falta inexistente que Pierluigi Collina viu do meia em Tarnat; e, sofrendo infração do próprio Tarnat em cobrança de escanteio, cavou um pênalti que ele mesmo converteu “de forma magistral” aos 28 para abrir o placar. O problema é que no segundo tempo os bávaros viraram na Catalunha, com Zickler aos 2 e Salihamidžić já aos 41: o sonho europeu do Barça centenário estava praticamente liquidado na dura fase de grupos de uma Liga dos Campeões ainda enxuta; mantinha-se a fórmula de que só os seis líderes e os dois melhores segundos avançavam. Momento ruim que se estendeu na jornada seguinte, por La Liga.

Em 8 de novembro, Rivaldo abriu o marcador e o 1-0 sobre o Real Oviedo se estendia até os 41 minutos do segundo tempo. Foi quando Giovanni – que, é verdade, teve uma expulsão aliviada pela arbitragem – foi substituído, em troca que “partiu o Barça em dois”, na crítica pós-jogo do jornal ao treinador. Os asturianos empataram no minuto seguinte, com o brasileiro Fábio Pinto, e viraram aos 48 em gol contra de Mauricio Pellegrino. Na tabela, caiu para o quarto lugar, com o Mallorca novamente líder, com 19. “Basta” foi a chamada de capa pós-jogo, direcionada ao treinador, e na edição subsequente ela foi “clamor contra Van Gaal – a torcida segue indignada com o holandês”. As competições deram uma pausa e em 10 de novembro (data em que Pelé analisava ao jornal que o técnico “está se equivocando com Giovanni, como Zagallo”) o Barcelona foi a Almería enfrentar os suecos do Helsingborgs em um troféu amistoso (2-0). Mas em 15 de novembro, as críticas já foram direcionadas ao camisa 10: “azaradíssimo, nunca encontrou seu lugar. Se cansou de perder balões”, concluindo-se que sua substituição por Zenden para a meia hora final melhorou sensivelmente o desempenho culé. Fato é que o Tenerife arrancava um 1-1 no Camp Nou e terminou goleado por 4-1 e o Barça virou vice-líder com 19 pontos, um abaixo do Celta.

Mas o paraense teria moral na época com Vanderlei Luxemburgo: o correspondente do Mundo Deportivo no Brasil repassou ao jornal do dia 18 o recado de que o Messias seria chamado em breve, “mas antes montarei uma boa equipe para que mostre seu futebol sem medo de ser queimado”. De fato, nos primeiros jogos da passagem de Luxa (Iugoslávia e Equador), o ex-santista não fora convocado e nem para um contra a Rússia para aquele mesmo dia. E parte de seu desempenho ruim contra o Tenerife foi explicado nos dias seguintes, ao constatar-se lesão no metatarso do pé direito. Por cautela ou não apenas por ela, em 21 de novembro ele só entrou em campo nos vinte minutos finais, quando substituiu Zenden na derrota de 1-0 para o Mallorca nas Baleares. Seria a primeira de quatro derrotas seguidas do Barça em La Liga. Em meio a elas, a eliminação precoce na Liga dos Campeões consumou-se em outro 3-3 maluco contra o Manchester United.

O Messias calhou de jogar em um Barcelona menos copeiro na Liga dos Campeões: Matthäus e o Bayern venceram até no Camp Nou, em noite de gol mal anulado do paraense (foto retirada do Instagram de Giovanni). À direita, uma primeira reclamação pública contra Van Gaal

Em 25 de novembro, Sonny Anderson abriu o placar no primeiro minuto, os ingleses viraram, tomaram o empate, anotaram o 3-2 e Rivaldo empatou novamente aos 27 do segundo tempo. Dez minutos depois, Giovanni, que apenas “ofereceu detalhes de sua técnica, teve o triunfo em suas chuteiras nos últimos instantes”. No lance, Schmeichel impediu ares ainda mais épicos. Avançariam de fase, em ironia histórica, o Bayern em primeiro e o United como um dos melhores segundos. O Mundo Deportivo aliviou, atribuindo a eliminação mais à falta de sorte do que de qualidade do time da casa. Mas não foi assim após a derrota na Catalunha para o Atlético de Madrid, no dia 28 (1-0 para a equipe de Arrigo Sacchi), uma partida “inoperante” e “horrorosa” de Giovanni, salvo uma tentativa por cobertura que saiu pouco acima do travessão aos 17 minutos, embora o título da matéria fosse “Fora, Van Gaal!”. O paraense, por sua vez, teve apenas “presença testemunhal” na rodada seguinte, quando substituiu Celades nos oito minutos finais do 2-1 sofrido na visita ao La Coruña em 5 de dezembro. 

O Mallorca estava com 25 pontos e Barcelona em quinto com 19, pontuação que era o pior começo em La Liga desde a temporada 1971-72, observou o jornal já no dia 7. Uma volta de Cruyff era bastante cogitada, bem como a contratação de Fabio Capello, contra um Van Gaal na corda bamba. No dia 9, deu-se a despedida europeia (não existia consolo de Liga Europa aos terceiros colocados): o 2-0 sobre o Brondby em Copenhague serviu apenas como estreia da terceira camisa, a oficial do centenário, em desenho em metade azul e metade grená que resgatava as origens atreladas ao clube suíço Basel. Pois o triunfo mascarou na classificação (onde o United terminou dois pontos acima) que os dois times apenas cumpriam tabela. E nele “quase não se viu” Giovanni, usado somente nos vinte minutos finais para o lugar de Sonny Anderson.

Mas a edição do dia 12 ressalvava que o camisa 10 “não está à venda”. De fato, no dia seguinte ele, substituindo Celades aos 11 minutos do segundo tempo, marcou um gol “após brilhante jogada individual”. Mas apenas para descontar aos 37 um 3-0 aberto em pleno Camp Nou por um calouro em La Liga, o estreante Villarreal. O Barça caiu para décimo, a nove pontos dos 28 do Real Mallorca. E foi igualado em pontuação pelo próprio Villarreal, 11º, rendendo na capa do dia 14 uma ordem do Mundo Deportivo “nem um dia a mais” para que Van Gaal fosse despedido – e, no dia 16, uma súplica para que Cruyff voltasse. A vitória voltou no mesmo dia 16, mas em amistoso no Municipal Linense contra o Estrela Vermelha, para o qual Van Gaal delegou seu cargo a José Mourinho; com 2-1 no placar, o português usou Giovanni na meia hora final dos 4-1 sobre os iugoslavos, gerando a chamada de capa “Barça OK, Van Gaal KO”, trocadilho com a sigla inglesa para nocaute em desfavor de um treinador holandês ainda questionado. Mas teimoso: o Messias nem entre os reservas esteve no 1-0 sobre o Real Valladolid no dia 20, fora de casa. A manchete foi “Xavi salva o natal”, pois o jovem concorrente marcou o único gol e logo estrearia pela seleção catalã em um 5-0 na Nigéria em Montjuïc dali a dois dias. 

Naquele período, os sorrisos despertados pelo paraense ficaram para crianças de hospital visitadas no dia 21, antes de ele embarcar para folga natalina que durou até o dia 28. Em 3 de janeiro, a crise parecia ter parado em Les Corts: Barcelona 7-1 no Alavés. Mas não para Giovanni, novamente sem entrar em campo, mas sondado pelos gigantes paulistas. No jornal do dia 6 de janeiro de 1999 ele rebobinou o VHS (ainda muito em voga, com DVD ainda como item de luxo lançado em 1996) do filme já visto em 1997: “se esta situação se prolongar muito tempo, buscarei uma saída, ir a outra equipe, porque Deus me dá paciência até um certo ponto. Agora quero ficar no Barça e não penso em sair (…). Devo ter paciência e esperar minha oportunidade, mas tudo tem um limite (…). Na última vez que entrei em campo, marquei um gol, e na seguinte não estava nem no banco. São coisas que não entendo. (…) Com o 5-1, pensei que podia estar em campo, mas o Mister manda. Me senti decepcionado porque quando ganhas de 5-1, é normal que faças substituições para dar descanso a Figo, a Rivaldo…”. Na soma das competições, eram vinte partidas e dezesseis delas como titular, mas com seus 1253 minutos até ali equivalendo a treze jogos inteiros; e cinco gols marcados por um meia forçado a ser volante.

A edição do dia 8 já reportava nova investida do São Paulo por um troca-troca, agora envolvendo Serginho. Afinal, Van Gaal reagira rápido: não incluiu o Messias, apoiado publicamente por Taffarel (na Catalunha junto com o Galatasaray, com quem haveria amistoso no dia 12) na edição do dia 9, entre os convocados para receber naquela data o Athletic de Bilbao (4-2). A sonora boa sequência já amparava o holandês para Joan Gaspart, que para a edição do dia 11 usava a serenidade de Roger García com a reserva como exemplo aos insatisfeitos. Contra o Galatasaray, em Málaga, Giovanni foi titular e guardou novo gol de pênalti no 2-2. Mesmo Zico já voltava a defendê-lo, no jornal do dia 13: “Giovanni é um grandíssimo jogador. (…) Não sei o que acontece”. Mas uma reconciliação parecia sinalizada para encontrar o Real Betis no dia 17: comunicando satisfação em ser reintegrado aos convocados, ao jornal daquela data o paraense explicou sobre Van Gaal que “falei com ele, mas o tratado é coisa nossa. Lhe disse tudo o que pensava e ele também me explicou o que espera de mim”. 

Giovanni no último clássico em que deixou seu gol – é o mais à direita na barreira contra o Espanyol, no primeiro turno de La Liga de 1998-99

Mas o meia não saiu do banco nos 3-0 dentro de Sevilha, ainda que sua ausência contra o Benidorm no dia 20 (1-0, fora de casa) pela estreia na Copa do Rei tenha sido atribuída a um resfriado. Aquele jogo ignoto marcou a estreia também dos irmãos De Boer, reforços da janela de inverno para a panelinha holandesa anunciados ainda em 14 de janeiro; o gol, inclusive, foi de Ronald, a dois minutos do fim. Justamente o gêmeo outrora apontado como outro concorrente ao paraense caso viesse. O Messias retomou diplomacia: “é melhor que ganhem ainda que seja sem mim” foram as aspas dele na edição do dia 23. E, sem ele, o time alcançou a co-liderança ao anotar no Real Zaragoza um 3-1, quinta vitória seguida; estava com os mesmos 34 pontos do Celta, com o Valencia (33), Atlético de Madrid (32, mas com Arrigo Sacchi retirando-se para tratar uma depressão), Real Mallorca (32) e Real Madrid (31) fortes no páreo e La Coruña e Athletic (30) logo abaixo. 

Ainda com espaço para transferências, a edição do dia 27 colocou na capa o goleiro Van der Sar como novo alvo ao Barça laranja (cor, aliás, da camisa reserva preparada pela Nike). E, ainda com espaço para amistosos no calendário, aquela data viu Giovanni entrar no lugar de Luis Enrique no decorrer de um 4-0 sobre um combinado de estrelas de La Liga¸ partida beneficente a campanhas antidrogas. E, pela primeira vez, desperdiçou um pênalti pelo clube, em defesa do goleiro argentino Roa; contra o Racing Santander, em 31 de janeiro, já não entrou em campo na sexta vitória culé seguida, por 3-2. A edição de 2 de fevereiro registrou sondagem corintiana por um troca-troca com Sylvinho (que até viria a defender mesmo os culés posteriormente) e também tratativas para que o trio brasileiro do Barça defendesse o clube e não a seleção no amistoso do centenário blaugrana, em 28 de abril.

Em 4 de fevereiro de 1999, dia do seu 27º aniversário, Giovanni pôde se presentear ao fechar os 3-0 no jogo de volta pela Copa do Rei contra o Benidorm. Mas nem a data festiva o teria livrado de algumas vaias após nova partida vista como lenta; para o compromisso contra o Extremadura no dia 7, o paraense voltou a não ser convocado e viu pela televisão os 2-1 fora de casa, sétima vitória seguida para a equipe de Van Gaal. Arrancada que isolou àquela altura o clube na liderança, com 40 pontos, contra 37 de Celta e Real Madrid. Giovanni limitou-se ao rachão dos reservas contra o time B, conferindo um pênalti em um 5-1 que ninguém viu no dia 9. Nem mesmo o histórico de jogos acesos do paraense contra o Real Madrid prevaleceu: Giovanni também viu longe do gramado e longe também do banco os colegas anotarem 3-0 em El Clásico realizado no dia 14 de fevereiro. Mas se permitiu a atacar novamente Roberto Carlos, expulso por exagerar para cima de Figo (“já entrava assim no Brasil”). 

A ausência se repetiu no dia 17, derrota de 3-2 em casa para o Valencia no jogo de ida das quartas-de-final da Copa do Rei. Novo resfriado inoportuno seguido de nova lesão limou suas chances de figurar no 0-0 com o Celta por La Liga no dia 21 e na eliminação na Copa três dias depois, em novo triunfo valenciano (4-3 no Mestalla). Houve reencontro com o Valencia já no dia 27, agora por La Liga, e os morcegos renovaram a freguesia, com um 4-2 no Camp Nou que não ameaçou a liderança (Barcelona 44, contra 41 do Real Mallorca e 40 do próprio Valencia): nada ainda de Giovanni em campo, com o jornal pós-jogo incluindo notinha do interesse do Fluminense para contar com ele no campeonato carioca; e a volta do Messias aos treinos regulares após a lesão foi noticiada já em 2 de março. Apesar da ótima fase do clube, o camisa 10 era aguardado: nessa mesma edição, o assistente de Van Gaal, Gerard van der Lem, foi entrevistado. E teve que ouvir a pergunta “explique por que Baía, Giovanni ou Anderson se castiga por fazer declarações e outros, como Rivaldo ou Luis Enrique, seguem na equipe. Partimos da base de que todo mundo tem direito de falar”.

A chamada fatal de matéria a sugerir que Giovanni preferia não jogar a ter de atuar fora de posição – e a resposta de um surpreso Van Gaal à direita

No dia 3, Van Gaal promoveu novo rachão entre os reservas e o time B, e a condição de “reserva do reserva” dada a Giovanni, embora ele chegasse a entrar em campo no 5-2, foi destacada na edição de 4 de março – assim como a constatação de que “o meia, muito prudente, optou por não fazer declarações”. Apesar do concorrente Cocu estar suspenso para o duelo com o Salamanca no dia 7 gerar na edição do dia 5 cogitação de um retorno de Giovanni às convocações, ele foi outra vez descartado até de sentar no banco no 4-1 fora de casa. Quando teve enfim oportunidade, em 10 de março, saiu do banco para marcar um golaço de cobertura sobre Zubizarreta, fechando um 2-0 aos 22 do segundo tempo. Mas tratava-se de amistoso festivo entre o Barcelona e os veteranos do Dream Team campeão europeu em 1992 (como Koeman, Laudrup e Stoichkov, todos em campo) reforçados com outras estrelas (como Jardel e Cantona). Não bastou para que Van Gaal aproveitasse a pilha do paraense em clássicos: ele não foi relacionado para enfrentar o Espanyol no dia 14 de março. Foi nos 3-0 no dérbi catalão que Rivaldo demonstrou apoio público em comemoração famosa, mostrando após abrir o placar a camisa do amigo por baixo da sua, dando as costas aos fotógrafos na comemoração para que focassem no nome “Giovanni” que os dedos pernambucanos apontavam. 

Com moral, o logo melhor do mundo de 1999 também verbalizou na edição pós-clássico sua insatisfação tática com o treinador: “prefiro poder trocar posições com Cocu, estar mais perto do gol. Estive muito condenado à faixa lateral”. Já o treinador deixou sua mensagem – a de que “espera” que o gesto da camisa se devesse apenas “à amizade que têm”. Procurado para o jornal do dia 16, o Messias não escondeu: “foi uma surpresa. Estava em casa vendo a partida pela televisão e me emocionei”. Sem jogar em La Liga simplesmente desde 13 de dezembro, estava desesperado: “gostaria de jogar nem que fosse em um lugar que não é o meu”. Mas a mesma matéria exibia uma charge que, simulando a comemoração chamativa de Rivaldo, sugeria irrestrito apoio mútuo entre Van Gaal e o presidente Núñez. O pernambucano, à mesma edição, explicou não ter intenção de polemizar e sim de que “só queria que as pessoas não esquecessem Giovanni”, além de lhe transmitir força a “um jogador de qualidade impressionante” que “nos deu La Liga na temporada passada”. Arrematou: “podes dedicar um gol a um filho, à tua mulher, a teus pais, por que não a um amigo?”. Com a presença do presidente santista Samir Abdul-Hak na Espanha para resolver a situação do zagueiro Andrei com o Real Betis, um retorno do ídolo à Vila Belmiro e ainda um negócio com o Stuttgart foi ventilado na edição do dia 17, mas esbarrava na indisposição catalã em negociar por menos de 5 milhões de dólares.

Van Gaal não perderia nenhuma partida até a rodada final (restavam doze), quando o bicampeonato já estava mais do que assegurado. Na edição do dia 19, constou que o presidente Núñez ainda declarava Giovanni “intransferível” em ligação telefônica com o presidente santista. Mas nem os desfalques de Figo (acúmulo de cartões) e Luis Enrique (lesão) fizeram Van Gaal relacionar Giovanni para os 2-0 sobre a Real Sociedad no País Basco no dia 21 de março; na do dia 25, viu-se o paraense (ausente até mesmo da Copa da Catalunha, onde o Lleida eliminara com um 4-3 os culés na véspera) como possível reforço do La Coruña. Sua escalação para 27 de março foi para visitar 950 convidados, junto com Sonny Anderson e José Mourinho, da penya barcelonista na cidade de Vilanova i la Geltrú; o jornal revelou mostras de apoio ao Messias naquele jantar.

O ostracismo teve uma rápida pausa nos 3-1 sobre o Real Oviedo no dia 4 de abril, substituindo Sonny na meia hora final do primeiro hat trick de Rivaldo pelo Barça. Mesmo há tanto tempo encostado, “dotou de maior ritmo e técnica” a equipe. 48 horas depois, também saiu do banco em 2-2 amistoso em Amsterdã contra o Ajax, em jogo-tributo a Cruyff. Mas, nos 3-2 nas Canárias sobre o Tenerife em 10 de abril, novamente não jogou. Apesar de tamanha falta de sequência de jogos, no dia 13 de abril ele foi reconvocado à seleção, com Luxemburgo incluindo o camisa 10 e Rivaldo para enfrentarem dali a duas semanas o próprio clube no amistoso do centenário blaugrana – Guardiola manifestou-se ao jornal do dia seguinte reconhecendo a plena qualidade do Messias para ainda defender os canarinhos. Mas a atividade do paraense no dia 14 resumiu-se ao 2-1 no rachão dos reservas e um combinado dos times B e C.

Ausente também no 2-1 sobre o Real Mallorca no dia 17 de abril, ainda gerava interesse relatado, mas sob entrave financeiro, de Santos, São Paulo, Corinthians e Grêmio no jornal do dia 19; o do dia 22 noticiou dois gols dele para os reservas derrotados por 5-3 em rachão na véspera. Ao do dia 23, ele reafirmava o desejo em permanecer, a não ser que a diretoria confirmasse preferência em negociá-lo. O 1-1 arrancado em Madrid contra o Atlético em 25 de abril novamente não teve ele nem no campo e nem no banco. Luxemburgo o afagava, à edição do dia 27 (a relatar ainda a ida de emissários corintianos para conversar com os cartolas culés), sobre o retorno do craque à seleção: “não é uma surpresa que esteja, já que é um grande jogador e, se não joga, é por um problema do clube”. E, nos treinos canarinhos, ele foi mesmo visto como “mais feliz do que no resto da temporada”. Eurico Miranda e outros representantes do Vasco, munidos de “garantias bancárias”, também viriam à Catalunha atrás dele, segundo o jornal do dia 28 de abril (onde outra vez publicou-se negociações do Barça por Zidane), data da partida.

Giovanni visto no início de janeiro de 1999 como “outro condenado” por Van Gaal. E a famosa comemoração de Rivaldo com a camisa do amigo para apoia-lo publicamente, postada há seis dias pelo Instagram do time sênior do Barcelona – com aplausos do paraense

Luxemburgo só não chegou a ponto de usar Giovanni como titular, mas promoveu sua entrada aos 23 minutos do segundo tempo (já com o 2-2 final no placar), no lugar de Amoroso, e “o público do Camp Nou lhe recebeu com uma grande ovação” para uma reta final de sonhos àquelas arquibancadas – a verem juntos ele, Romário, Rivaldo e Ronaldo como nunca fora possível simultaneamente pela camisa blaugrana. Esse “pôquer de ases” também foi destacado na edição pós-jogo. Já a do dia 30 frisou que realmente Vasco e Corinthians estavam dispostos a pagar a multa rescisória de 1 bilhão de pesetas. Chegou mesmo a difundir-se um negócio fechado com os cariocas, algo que precisou ser desmentido no jornal de 1º de maio. A do dia seguinte já informava que, diante do desacerto, os cruzmaltinos então se voltaram a repatriar Edmundo para a Taça Rio: Giovanni parecia que seguiria na Catalunha, mesmo que visse pela televisão o 4-0 sobre o La Coruña naquele 2 de maio e que o jornal pós-jogo já cogitasse um troca-troca com o Sporting Lisboa pela promessa Simão Sabrosa. E que o do dia 5 de maio afirmasse uma reinvestida vascaína mesmo com o negócio por Edmundo fechado na véspera, enquanto o paraense fechava um 4-1 em novo rachão dos reservas contra o time B. 

Sem ser relacionado ao 3-2 fora de casa sobre o Villarreal em 9 de maio e no 1-1 com o Real Valladolid em 15 de maio, o Messias só atuava mesmo naqueles rachões – houve outro no dia 19, um 2-2. Mas Luxemburgo renovava fé nele, anunciando no dia 20 a convocação de Giovanni para, ironicamente, dois amistosos contra a Holanda no início de junho, agendados em um período de folga no calendário de La Liga para que o Barça não fosse desfalcado de nove jogadores. Van Gaal, na verdade, ganhava mais um à sua panelinha naqueles dias, com o anúncio antecipado da vinda do goleador finlandês Jari Litmanen, outro antigo pupilo seu no Ajax. E os desfalques, mesmo se ocorressem, não pesariam em nada: em 22 de maio, com ainda outras três rodadas a serem disputadas, o bicampeonato foi assegurado fora de casa com um 4-1 sobre o Alavés. O lateral Sergi Barjuan lembrou de Giovanni e outros ausentes, exaltando-os como “mais campeões do que nós: sofrem mais”, sublinhou-se no jornal pós-título. O paraense esteve nos festejos oficiais na Plaça Sant Jaume, mas preferiu “não falar”, apontou-se no jornal do dia 25. 

No corredor de aplausos oferecido pelo Athletic de Bilbao em 29 de maio (antes do 3-1 dentro de San Mamés), pela antepenúltima rodada, Giovanni novamente foi figura ausente antes de acompanhar Rivaldo, autor de dois gols, na viagem até Salvador. Rotulado como transferível no jornal de 1º de junho, expôs ao seguinte seu desejo ao presidente Núñez: “Van Gaal decide que jogadores vão melhor no seu esquema. Mas eu quero estar preparado se precisar de mim. O futebol dá muitas voltas. Levo três temporadas no Barça e ganhei seis títulos, alguns deles participando de forma muito ativa. Não creio que seja um mal currículo”. Luxemburgo, por sua vez, lhe comunicou titularidade contra os holandeses, mas que ela também seria sua chance única para merecer ir à Copa América – foi o que se viu no diário do dia 3. Na Fonte Nova, o paraense comprou o desafio: sob assistência do parceiro Rivaldo, marcou de canhota o 2-0 no último minuto do primeiro tempo em 5 de junho para então se ajoelhar grato. Luxemburgo o substituiu por Denilson aos 6 do segundo e não se deu bem: Kluivert e Van Vossen logo anotaram um empate-relâmpago aos 10 e 12. 

O Mundo Deportivo acompanhou o jogo e rotulou como “impecável” a atuação de um Messias que superava as vaias baianas, demonstrando “que, se joga motivado, é um jogador muito aproveitável”, apontando-se ainda que sua substituição por Denilson “quebrou esquemas” – e registrando ainda elogios de Kluivert (“esse gol era muito importante para ele”). Mas a mesma edição pós-jogo o mantinha entre os transferíveis. Giovanni foi novamente titular na revanche de 8 de junho, vitória brasileira por 3-1 em Goiânia, quando perdeu um lance cara a cara com Westerveld. Luxemburgo voltou a tira-lo logo aos 6 minutos do segundo tempo, colocando Rôni. O Brasil já vencia por 3-0 em um primeiro tempo onde só um chute de Van Nistelrooy no travessão, com o placar ainda em branco, assustou. Em 10 de junho, o Galatasaray entrou no leilão, oferecendo 5,6 milhões de dólares, ou 800 milhões de pesetas. No dia 11, o paraense ouviu do presidente Núñez que realmente não permaneceria, em reunião na qual Van Gaal saiu “pela porta dos fundos para evitar os jornalistas”; assim reportou-se no dia 12, a incluir ainda que “Luís Figo se mostrou doído pela futura saída de Giovanni” e desejos do português de que “seu futuro seja tão brilhante como o que viveu aqui”.

Van Gaal, então, liberou-se para dar uma extrema unção: voltou a relacionar Giovanni ao banco para a penúltima rodada, em 13 de junho (data em que a edição reportou acordo verbal com o Benfica por 8 milhões de dólares), quando o Barça jogaria pela última vez no Camp Nou na temporada, rendendo um clima festivo que incluiu corredor de aplausos para o paraense e outros jogadores de saída. O Messias realmente se despediu ali da camisa blaugrana. Entrou em campo na meia hora final contra o Real Betis, substituindo Luis Enrique, com o placar registrando 3-0 desde os 31 minutos do primeiro tempo. Terminou em 4-1. Teve atuação discreta, mas à edição pós-jogo o técnico adversário Javier Clemente referiu-se a Giovanni como titular “em qualquer outra equipe espanhola”. Também no dia 14, Luxemburgo, no fim das contas, não incluiu o camisa 10 para a Copa América, tendo utilizado como parâmetro uma atuação vista como “apática” na segunda partida contra a Holanda.

Epílogo: após saída também complicada, o reconhecimento em Barcelona

O Mundo Deportivo do dia 17 ainda registava que o meia preferia só sair do Barça para ir a outro clube espanhol, mas a do dia 18 mostrava motivação dele em trabalhar com Jupp Heynckes, então técnico benfiquista. La Liga, enfim, encerrou-se em 20 de junho, com o Real Zaragoza carimbando com um 2-0 a faixa dos colegas de um Giovanni ausente. Temporada encerrada, especulação a todo vapor: o jornal do dia 22 noticiou tentativa do Porto em atravessar o negócio do rival, estampando-se notinha “Portugal suspira por Giovanni”. A vizinha Galiza também, com o Eurocelta também apresentando oferta concreta (que seria a que mais parecia agradar o meia), assim como o Ajax, tudo segundo o diário do dia 24. 

Inimigos íntimos: Giovanni enfrentando o Barcelona pela seleção brasileira; e reencontrando pelo Olympiacos o Real Madrid (entre Roberto Carlos e Sávio) na Liga dos Campeões de 1999-2000: fez dois gols sobre o velho rival – foto retirada do Instagram de Giovanni

O clube de Vigo parecia pronto para levar; o jornal do dia 25 falou em acordo por quatro temporadas entre os galegos e o paraense, restando pactuar as cifras com o Barcelona. Outro dia depois, o impasse não se resumiria às 900 mil pesetas oferecidas pelos celestes enquanto os blaugranas queriam 1 bilhão: seria preciso decidir no Celta entre Giovanni e Marcos Assunção (também sonho de consumo) diante do excesso de extracomunitários nos Balaídos. Ao dia 28, o Celta se mostrou disposto a subir para 1 bilhão de pesetas e para tanto negociava Vladimir Gudelj com Sevilla e Compostela. E ao dia 29 já se cravava que “Giovanni celebrará seus gols em Vigo a partir de agora”, agora que estava prestes a poder naturalizar-se espanhol. Era uma condição que ele, de férias no Brasil, aceitara por telefone; da parte do Barcelona, exigia-se apenas comprovação de avalistas ao negócio, a despeito da venda de Míchel Salgado ao Real Madrid indicar bom fluxo de caixa entre os galegos. Benfica e Porto já haviam desistido e a concorrência se resumia a um Vasco disposto a usar no Messias o dinheiro da uma negociação com a Roma por Felipe.

Foi a edição de 1º de junho a primeira a registrar intervenção do Olympiacos enquanto “Giovanni e Celta pechincham”: o meia, por seu procurador, queria 1 milhão de dólares pela conveniência que traria ao clube para naturalizar-se, detalhou-se no dia seguinte para explicar por que o Messias acabou descartado na Galiza. Mas ao dia 4 falou-se sobre Giovanni que “ainda pode reabrir-se a negociação com o Celta, já que não está muito disposto a ir ao Olympiacos”. Ao dia 8, informou-se que os gregos, após oito horas de negociações de idas e vindas, ofereciam não só três anos de contrato e 1,05 bilhões de pesetas (a mais cara já vista no futebol helênico) como pagamento de multa rescisória e 300 milhões de pesetas ao ano para o próprio Giovanni, como também facilitar um regresso à Espanha após duas temporadas, concedendo-se ao Barça direito de preferência. Foi demais mesmo para o péssimo sinal telefônico que acometia o Messias: “Giovanni vai ao Olympiacos” foi uma das matérias da edição de 9 de julho, a reportar a autorização dada pelo craque diretamente de Fernando de Noronha ao quarto 1626 do Hotel Princesa Sofía para encerrar positivamente conversas que o executivo grego mantinha em inglês mediante uma tradutora ao português para o agente do jogador; anos mais tarde, o craque evangélico revelaria ao GloboEsporte.com que tomou como um sinal divino os seguidos elogios casuais sobre a vida no mar Egeu que ouvia enquanto velejava em Noronha

O negócio repercutiu no Paraguai, de onde Rivaldo, ocupado com a Copa América, manifestou à edição de 10 de junho tristeza pela saída do amigo – que, ao Mundo Deportivo, declarou: “nunca lhes esquecerei. Me custou tomar a decisão, porque deixar o Barça é algo que custa a todo mundo. Vou com as melhores lembranças do clube, da torcida e com muitos amigos. Incluindo Van Gaal? A ele desejo o melhor, como a meus companheiros e ao clube. Vou, mas voltarei muitas vezes a Barcelona”. Curiosamente, em seguida seu novo clube acertou com o Porto a vinda também de Zlatko Zahovič, aquele esloveno escolhido em detrimento de Giovanni pelo Vitória de Guimarães em 1992; ambos foram apresentados oficialmente juntos, após o paraense ser recebido por 5 mil torcedores no aeroporto de Atenas, repercutiu-se no dia 17 de julho.

Detalhes do negócio ainda repercutiam no dia 18: “os diretores gregos ficaram encantados pelo famoso entorno do jogador brasileiro. Junto a seu agente, Roberto Martins, estava uma amiga-tradutora catalã e brasileira, Adriana Vilà dos Santos, seu marido Marco Antonio – 300 convocações com a Espanha no polo aquático (esperemos que o CN Montjuïc lhe dedique uma grande despedida) e o ‘craque’ da família, Bruno. Com só seis meses de vida, cativou o filho do presidente grego, Petros Kokkalis, e não era para menos. (…) Giovanni foi à Grécia, mas deixou em Barcelona amigos de verdade”. Das férias no Brasil, o Messias passou rapidamente 48 horas em Barcelona entre os dias 19 e 21 de julho (segundo noticiado ao dia 20) para resolver pendências pessoais e dali rumou a Viena para juntar-se à pré-temporada grega. No Camp Nou, sua camisa 10 passava a ser de Jari Litmanen até Rivaldo toma-la em 2001.

Mas o Mundo Deportivo ainda daria bastante espaço ao paraense pelo resto de 1999. Descreveu-o já em 16 de agosto como feliz em Atenas após quatro gols nos quatro primeiros jogos com os gregos. O gancho da nota era, claro, Van Gaal, que afirmava que Rivaldo teria que ganhar do zero um lugar entre os titulares culés: “ele está de brincadeira? Sim, claro que é brincadeira. Rivaldo demonstrou ser o melhor jogador do mundo e não só pelo que vimos na Copa América (…) Os holandeses são pessoas muito boas e a Van Gaal lhe desejo todos os êxitos do mundo, embora o veja um pouco necessitado de Deus”. De fato, a panelinha laranja não era exatamente fechada: a edição do dia 8 de setembro revelou que duas das casas que Giovanni tinha em Barcelona agora hospedavam Reiziger e Bogarde; e a de 13 de novembro, que Zenden era a pessoa com quem mais trocava ligações depois de Rivaldo. Até essa edição, o Messias foi mencionado outras vezes no jornal. E não foram poucas.

Afinal, o sorteio da Liga dos Campeões de 1999-2000 colocou Real Madrid e Olympiacos no mesmo grupo, levando o periódico a relembrar Giovanni na edição de 27 de agosto como “um pesadelo para o madridismo: marcou 4 gols e obsequiou à torcida blanca com três bananas”. E na seção de cartas do dia 31, um leitor lamentou que La Liga “tenha deixado escapar o jogador de maior técnica da mesma, Giovanni”. Um terremoto que deixou vítimas na Grécia em 7 de setembro não impediu que o Peloponeso recebesse os espanhóis oito dias depois. E “outra vez, Giovanni” foi matéria destacada no dia seguinte pelo Mundo Deportivo. No jogo que marcou duas estreias em especial na competição – a do uniforme negro dos merengues e a do jovem goleiro Iker Casillas –, o paraense abriu o placar logo aos 11 minutos, de cabeça, aproveitando uma saída em falso de Casillas. Houve virada brasileira, com Sávio aos 24 e Roberto Carlos aos 32, mas aos 19 do segundo tempo Giovanni “fez enlouquecer o Olímpico de Atenas ao aproveitar um rechaço de Roberto Carlos e fuzilar outra vez”. Três minutos depois, Zahovič virou. 

Fotos que o autor da nota tirou: à esquerda, Giovanni e Rivaldo na galeria dos famosos que já frequentaram o restaurante Marina Bay. À direita, o paraense está de regata branca na seção do museu do Barcelona dedicada ao bicampeonato espanhol de 1997-98 e 1998-99

Mas Raúl salvou os futuros campeões daquela edição ao finalizar os 3-3 aos 35 minutos. Ainda assim, “a inspiração de Giovanni esteve a ponto de tombar o Madrid em Atenas” foi a primeira frase da matéria do jogo. Na mesma edição, destacou-se que ele era “um autêntico líder na Grécia” e que “recuperou toda a sua magia”. À do dia 17, que registrou um cumprimento com Roberto Carlos parecendo resolver a celeuma entre os dois, dedicou seus gols à antiga torcida e pronta recuperação de Josep Lluís Núñez a um problema de saúde. Ao fim do primeiro turno da fase de grupos, somados os dois gols no velho rival aos dois nos 3-1 sobre os noruegueses do Molde, Giovanni aparecia até como artilheiro da Liga dos Campeões, ressaltou a edição de 29 de setembro.

Ficou logo claro que o Real Madrid lideraria a chave, restando ao Olympiacos lutar pela segunda vaga com o Porto, que os derrotara na segunda rodada no antigo estádio das Antas. A revanche entre os ex-colegas Giovanni e Vítor Baía repercutiu na Catalunha; na edição de 2 de outubro, o goleiro pediu para dizer “a meu irmão que já jogaram aqui e perderam. Também perderão o segundo combate”, retrucado com pedidos de que “me deixe marcar um gol para seguir sendo artilheiro”. Mas, quando a revanche enfim ocorreu, na última rodada, Baía era ausência por lesão e o sonho grego já havia terminado. O Olympiacos, que esteve a ponto de liderar a chave se vencesse na Noruega o Molde, saiu da Escandinávia derrotado por 3-2 e com Giovanni só podendo regressar ao Bernabéu como espectador de luxo, suspenso por acúmulo de amarelos. 

O Real Madrid, livre do carrasco, teve vida mais tranquila e venceu por 3-0 (com vistas grossas a uma mão de Roberto Carlos que poderia ter rendido um pênalti e expulsão do lateral) na penúltima rodada – na edição do dia desse jogo (26 de outubro), constou mesmo declaração do técnico madridista John Toshack que “estou encantado que Giovanni não jogue”. E a pós-jogo noticiou que aquelas bananas em 1997 seguiam frescas, reportando necessidade de escolta policial para leva-lo às tribunas e todo tipo de xingamento (inclusive gestos de banana) que passou a ouvir dos ultras, sobretudo após o segundo gol. Ao jornal do dia subsequente, ele rechaçou o boato de que, por covardia, teria forçado a suspensão: “não queria perder essa partida. Ao contrário. Não sou um covarde, se fosse não viria sozinho ver o jogo”. A fase chamativa não passou despercebida pela CBF, que em 28 de outubro anunciou a convocação de Giovanni para amistoso contra a Espanha em Vigo, agendado para 13 de novembro. 

Usado na meia hora final no lugar de Zé Roberto no 0-0 sob vaias de uma plateia viguense ainda revoltada por sua recusa ao Celta, Giovanni teve ali sua involuntária despedida da canarinho, como primeiro jogador que ela utilizou do futebol grego; depois dele, só Gilberto Silva recebeu a mesma chance (vindo do Panathinaikos entre 2008 e 2010). Foi também um de seus últimos jogos em 1999; na temporada em que pela primeira vez os terceiros colocados na fase de grupos da Liga dos Campeões foram repescados à Liga Europa (então Copa da UEFA), o Olympiacos calhou de topar com a Juventus no primeiro mata-mata. O paraense não evitou virada italiana em Atenas por 3-1, mas o pior veio em 3 de dezembro: o 4-3 sobre o Iraklis pela liga grega viu o drama de lesão tripla em um dos joelhos do craque (ligamento cruzado superior, menisco interno e ligamento interno) quando ele sofreu uma entrada enquanto girava a perna. Os colegas até mostrariam brio em Turim, vencendo insuficientemente a Juve por 2-1 em 7 de dezembro. 

A lesão gerou comoção em Barcelona. A edição do próprio dia 7 reportou uma pronta ligação telefônica de Rivaldo e a seção de cartas do dia 11 teve lamento de uma leitora: “este grandíssimo jogador está tendo muita má sorte (…). Quero dar meu mais sincero apoio e todo meu carinho a um jogador que para mim sempre foi, é e será um dos melhores esportistas que passaram pelo FC Barcelona. Ânimo, Gio!”. Ele conseguiu recuperar-se a ponto de ser eleito o melhor jogador da liga grega de 1999-2000 e até ser artilheiro da edição 2003-04 (ironicamente, a única temporada em que ele não foi campeão nacional em sua passagem pelo Olympiacos). Essas glórias ainda rendem uma enxurrada de comentários com letras delta, gama, pi ou sigma no Instagram do craque, mas não o reaproximaram da seleção e ele estava resignado com isso em entrevistada ácida dada à Placar em 2004.

Com o passar do tempo, o Mundo Deportivo começou a referir-se ao Messias mais como “Giovanni Silva”, até para diferencia-lo do quase-xará Geovanni (brasileiro que durou de 2001 a 2003 no Camp Nou após brilhar na Cruzeiro vencedor da Copa do Brasil em 2000), do xará holandês Giovanni van Bronckhorst (2003-07) e do mexicano Giovani dos Santos (2007-08). Os passos finais de sua carreira na Vila Belmiro foram acompanhados em 2010, incluindo-se seu gol no último minuto para virar partida contra o Rio Claro na campanha do Paulistão, enfim seu primeiro título como santista. Ao jornal, “Giovanni Silva” manifestou ainda em 2011 que já esperava para ver Neymar no Barcelona. Com chuteiras penduradas, voltou a suar em blaugrana pelo time sênior, o Barça Legends – e nessa condição, em 2017, foi convidado para opinar sobre a contratação de Philippe Coutinho, sem deixar de reconhecer que ainda recebia mensagens recordando as famosas bananas/butifarras, agora convertidas em formatos de memes diversos. Em 2019, noticiou-se que a penya da cidade de Lleida já promovia justamente a terceira edição do torneio “Botifarra Giovanni Silva”. No site oficial do Barcelona, há um pequeno perfil em que Giovanni é descrito como um meia que “podia jogar em qualquer lugar do meio do campo graças à sua técnica refinada”. O autor dessa nota pôde identifica-lo junto a Rivaldo na galeria de celebridades que já frequentaram o restaurante Marina Bay, no porto olímpico, e também no museu do Camp Nou, em retratos dos festejos da segunda metade dos anos 90.

A cada vez mais acentuada importância da Liga dos Campeões e os feitos da Era Messi redimensionaram o prestígio dos títulos erguidos entre 1996-99, mas o paraense não deixou de se revoltar ao ter sua passagem pela Catalunha supostamente rotulada como decepção na ESPN em 2016: “sei que não cheguei nem perto do nível que foi Ronaldo, Romário, Ronaldinho Gaúcho e Rivaldo no Barcelona, mas dizer que fui um fracasso? Você deveria se informar mais, amigo, olha os títulos que ganhei nesse clube e gols que fiz” foi sua contestação, embora se desculpasse ao notar que parecia ter sido um mal-entendido. De todo modo, o Mundo Deportivo corrobora as palavras do craque: ao listar em 2018 os brasileiros que haviam antecedido no Barça o recém-chegado ex-gremista Arthur, teceu sobre Giovanni o perfil de que “chegou como o novo Pelé. Não chegou a tanto, mas era bom sim”.

Assíduo no time sênior do Barcelona: fotos de de 2017, 2018 e 2019 (penúltimo em pé, em foto com Vítor Baía, Rivaldo, Edmilson, Stoichkov, Belletti, Saviola, Puyol e outros) dos perfis de Giovanni e do Barça Legends no Instagram

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