Luis Suárez, a tripleta no clássico e a vontade insaciável por grandes jogos

Luis Suárez é um tipo talhado a ser centroavante. Não se cansa, luta por cada centímetro em campo, deseja o gol como um prato de comida. E une isso tudo a um talento inegável para mandar a bola às redes. Não é exagero colocá-lo entre os melhores da posição neste século, por tudo o que construiu na sua carreira. Ainda assim, aos 31 anos, a idade parece levar o Pistoleiro a uma curva descendente. Alternou momentos na última temporada e tampouco anda certeiro nesta. Menos implacável e mais solidário era o que se via durante os últimos meses. Mas não neste domingo. Porque se Luisito marca seu nome é justamente por ser o típico craque de jogo grande. Aquele que saliva ao pressentir uma oportunidade histórica. Que, no Camp Nou, viveu uma noite para a torcida do Barcelona nunca mais esquecer. Para os torcedores do Real Madrid não quererem lembrar pelo resto da vida. Letal, seus três gols nos 5 a 1 sobre os merengues o transformam no carrasco de uma das maiores goleadas do clássico.
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Suárez possui apreço pelos confrontos com o Real Madrid. É assim desde que chegou ao Barcelona. Não à toa, os merengues estão no seu Top 5 de vítimas preferidas, com nove gols em 12 partidas. Um dos jogos especiais do uruguaio com a camisa blaugrana aconteceu na temporada 2015/16, quando ele se tornou um dos algozes em pleno Santiago Bernabéu. Insaciável, abriu e fechou a goleada por 4 a 0 sobre o time de Rafa Benítez, em resultado cabal para a demissão do treinador. O matador fareja o cheiro da crise do lado blanco. Novamente não perdoaria o fatídico destino de Julen Lopetegui, traçado desde muito antes do duelo.
Como naquele clássico de três temporadas atrás, Luisito se transformava no principal responsável pelo ataque do Barcelona. Se daquela vez Lionel Messi entrou apenas no segundo tempo, agora precisou se contentar em ver o clássico nas arquibancadas – inclusive, acompanhando a família do amigo uruguaio. O Pistoleiro sempre trabalha dobrado para ajudar o craque argentino a sobrar tanto em campo. Seu caráter é assim, buscar sempre o melhor ao companheiro na linha de frente, como já se viu tantas vezes com Edinson Cavani na seleção. Todavia, o protagonismo não pesa sobre as costas do centroavante. Muito pelo contrário, ele parece gostar dos holofotes. E faz por merecer.
Durante o primeiro tempo, Luis Suárez foi a ignição à engrenagem do Barcelona, por sua movimentação no ataque. Não apareceu muito para finalizar, mas correu para todo o lado e incomodou a defesa do acuado Real Madrid. Os blaugranas eram soberanos em seu controle de bola, amassando os oponentes. O Pistoleiro surgiu quando necessário, ao sofrer o pênalti de Raphaël Varane e cobrar, ampliando a diferença. Já valia bastante para indicar uma vitória tranquila dos anfitriões.
Entretanto, o Barcelona precisou mesmo de Suárez nos momentos de dificuldade. Quando o Real Madrid pressionava pelo empate e alguém tinha que resolver lá na frente. E não houve uma vez em que o centroavante não provocou o temor nos merengues. Primeiro, se contorceu todo para uma finalização acrobática, que bateu na trave de Thibaut Courtois. Depois, ampliou a diferença, em cabeçada de quem sabe, mesmo longe do gol. Ainda marcaria mais um, completando sua tripleta ao não perdoar o erro de Sergio Ramos, com uma cavadinha por cima do goleiro. Por fim, o quarto só não saiu porque Courtois operou um milagre, quando a torcida catalã já gritava olé. Nesta noite, o Pistoleiro foi um predador no campo de ataque, livre para dar seu bote nos contragolpes, quase sempre letal.
O momento ainda tinha uma motivação especial a Suárez. Na comemoração, ele homenageou o filho recém-nascido, Lautaro. Ainda pôde marcar mais dois, a Delfina e Benjamín, seus outros rebentos. E se há um valor pessoal ao uruguaio, a importância esportiva se torna imensa. Fica a prova de como o camisa 9 ainda pode arrebentar em jogos massivos. Como pode destroçar adversários de peso, mesmo que fosse um fragilizado Real Madrid. Jordi Alba, Sergi Roberto, Ivan Rakitic, Arthur e ainda outros jogaram muita bola neste domingo. Mas este vai ser um clássico no qual o nome do Pistoleiro serve de sinônimo.
Luis Suárez é daqueles jogadores que, a quem viu de perto, fica a honra. As controvérsias de sua carreira se tornam menores diante da voracidade inegável. De quem se consagrou como um artilheiro implacável. E talvez nem seja isso que torne o uruguaio diferente. Aquilo que fixa os olhos é a sua vontade, de nunca se entregar, de sempre querer mais. De querer mais em um clássico do calibre de um Barcelona x Real Madrid, que acaba por jogar os rivais no abismo. O Suárez sedento pelos maiores palcos também é o que fascina tanta gente. Luisito gosta realmente de futebol, uma paixão que exala e se transforma em energia para cumprir a história. Hoje ela se fez.



