O adeus a Waldo, maior artilheiro do Flu e primeiro brasileiro a ser Pichichi no Espanhol
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No futebol em preto e branco, grandes jogadores acabam por vezes esquecidos se não têm o amarelo da seleção brasileira colorindo o seu passado. Dependem de seus feitos por clubes, do brilho que conferiram aos olhos dos torcedores. E, graças a isso, a história de Waldo sempre poderá ser recontada em três cores: o verde, o branco e o grená do Fluminense. O centroavante foi um dos maiores goleadores do futebol brasileiro durante a década de 1950. Não à toa, ainda hoje ocupa o honroso posto de maior artilheiro da história tricolor. No início da década de 1960, quando finalmente ganhava o reconhecimento da Seleção, recebeu uma proposta do exterior. Em tempos nos quais as convocações se limitavam a jogadores em atividade no país, o atacante não pôde mais ser chamado, mas nem por isso deixou de se eternizar. Também um gigante pelo Valencia, Waldo se tornou o primeiro brasileiro a faturar o Prêmio Pichichi, entregue ao artilheiro do Campeonato Espanhol. Lenda de duas camisas, que deixou saudades nesta segunda-feira, falecendo aos 84 anos.
Nascido em São Gonçalo, Waldo começou sua carreira em Niterói. Dono de um porte físico respeitável e muita potência diante do gol, o centroavante logo ganhou o apelido de “quebra balizas”. Desde cedo começou a integrar a seleção carioca, bem como a seleção brasileira juvenil. Pois o Fluminense tirou a sorte grande ao acertar sua contratação, em 1954, após um imbróglio com o Canto do Rio. Ganhavam ali o homem que seria a referência de seu ataque durante toda a década de 1950: o goleador que rompia as defesas e sempre parecia um passo à frente para encontrar o caminho mais curto rumo às redes. Algo que fez com enorme frequência enquanto vestiu a camisa tricolor.
Naquele momento, o Fluminense atravessava um período de reformulação. Conquistou o Campeonato Carioca em 1951, antes de conviver com a hegemonia do Flamengo no estadual. Waldo seria essencial para reafirmar a grandeza dos tricolores, liderando a equipe com os seus gols. Se em 1954 os números do novato ainda foram tímidos, ele começou a brilhar realmente a partir de sua segunda temporada nas Laranjeiras, aos 20 anos. Teve gosto de decidir Fla-Flu, duas vezes, e também impressionou em amistosos internacionais. Anotou 18 gols pelo Campeonato Carioca de 1955, que o colocaram na briga pela artilharia da competição. Até que explodisse de vez em 1956. Foram 50 tentos ao longo do ano. Se faltaram alguns pontos para o Flu alcançar o Vasco no topo da tabela, ao menos o matador terminou reconhecido como o grande goleador do estadual, 22 gols ao todo.
A ansiedade pelas taças se rompeu em 1957, ano em que o Fluminense faturou o Torneio Rio-São Paulo. E como tinha de ser, Waldo estrelou a campanha. Os tricolores terminaram com uma campanha arrasadora, invicta, na qual venceram sete de seus nove compromissos. Pois seis desses triunfos contaram com os gols do centroavante. O camisa 9 maltratou America, Flamengo, Corinthians, Portuguesa e São Paulo. Chegou a comandar uma goleada por 5 a 1 sobre o Palmeiras. Terminou a campanha com 13 gols, artilheiro absoluto – com quase o dobro de Mazzola, o segundo da lista. A fase esplendorosa tinha o seu merecido reconhecimento.
Ainda assim, vida de centroavante cobra uma sede enorme pelo gol. Neste sentido, Waldo enfrentava as suas dificuldades. O artilheiro não era exatamente um jogador habilidoso, mas se valia da enorme raça e do espírito de luta para prevalecer dentro da área. O problema era quando os gols rareavam ou as chances desperdiçadas incomodavam, algo que se somava a reclamações quanto ao seu peso – em tempos nos quais os músculos nem sempre pareciam algo benéfico ao futebol. Por vezes, a torcida do Fluminense exagerou nas críticas ao ídolo, em pressão também causada pelo jejum de títulos no Campeonato Carioca. Em 1957, o Botafogo garantiu a taça na rodada final, graças à histórica goleada por 6 a 2 comandada por Paulinho Valentim. Já no ano seguinte, mais uma frustração. Apesar dos 18 gols de Waldo, o Flu ficou a dois pontos de participar do “Supercampeonato” – após o empate triplo de Vasco, Botafogo e Flamengo no topo da tabela. A aguardada espera só teria fim em 1959.
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Waldo entrou no melhor momento de sua carreira. Os amistosos eram a chance de espalhar sua fama por outros cantos do país e do mundo. Enquanto isso, reinaria pela primeira vez no Carioca. Se não conseguiu acompanhar Quarentinha na briga pela artilharia, seus 14 gols foram fundamentais para consagrar a equipe de Zezé Moreira. O centroavante encabeçava um timaço, que ainda possuía ídolos históricos como Castilho, Pinheiro, Telê e Escurinho. Os tricolores não deram qualquer chance à concorrência. Terminaram a campanha com 17 vitórias em 22 jogos, derrotados apenas uma vez. Abriram seis pontos de vantagem ao vice, o Botafogo. Além disso, assinalaram 45 gols e sofreram míseros nove. Naquela campanha, o matador teve atuações de gala principalmente nos clássicos. Garantiu ao menos uma vitória contra cada um dos três maiores rivais.
A badalação de Waldo era enorme. O centroavante começou a ser cobiçado inclusive por clubes estrangeiros, recebendo uma proposta do River Plate. Contudo, reafirmou o seu compromisso nas Laranjeiras, ao renovar o seu contrato com o clube e declarar seu amor à camisa tricolor. Confiança correspondida em campo. Como se não bastasse, 1960 seria um ano ainda mais prolífico ao atacante. O mais goleador de sua carreira, afinal. O matador somou 61 tentos naquela temporada, dois a mais que na anterior. Conquistou mais uma vez o Rio São Paulo, artilheiro com 11 gols. Anotou tripletas contra Vasco e São Paulo, em histórica goleada por 7 a 2 sobre os paulistas. Já na decisão contra a Academia do Palmeiras, foi justamente Waldo quem garantiu a vitória por 1 a 0.
Neste momento, não havia mais como a seleção brasileira ignorar Waldo. O centroavante estreou pela equipe nacional semanas depois do feito com o Flu, encarando o Malmö e a Dinamarca em amistosos. Seus primeiros gols saíram no velho conhecido Maracanã, em junho de 1960. Substituiu Vavá no segundo tempo do amistoso contra o Chile e balançou as redes duas vezes na goleada por 4 a 0. Ainda encarou no mês seguinte Paraguai e Argentina – em histórico massacre por 5 a 1 sobre a Albiceleste, que rendeu o título na Taça do Atlântico. O entrave ao tricolor era mesmo a concorrência. Sobravam centroavantes à disposição da Seleção naquele momento. Além de Vavá, o número 9 também passou pelas costas de Coutinho, Amarildo, Quarentinha, Almir Pernambuquinho, Paulinho Valentim, Henrique Frade e ainda outros naquele ciclo preparatório rumo ao Mundial de 1962.
O sucesso de Waldo, de qualquer maneira, não se conteria às Laranjeiras. Em 1961, o Fluminense realizou uma excursão pela Europa. O artilheiro empilhou gols contra times importantes do velho continente, como Internazionale e Nice. E em um desses jogos, encarou o Valencia. O amistoso prestava tributo a Válter Marciano, antigo ídolo do Vasco que defendeu os Ches a partir de 1958, mas falecera dias antes em um acidente de automóvel. Os cariocas ganharam aquela partida por 3 a 2 e o centroavante balançou as redes duas vezes. Assim, para preencher a lacuna deixada pelo compatriota, acabou contratado pelo clube espanhol. A lenda se despediu do Flu com impressionantes 314 gols em 403 partidas. Mais do que os gols, todo o seu empenho e sua raça dentro da área ainda hoje permanecem como um dos maiores símbolos de amor à camisa tricolor.
Waldo não demorou a cair nas graças da torcida também na Espanha. Logo na primeira temporada, ele seria campeão e artilheiro da Taça das Cidades com Feiras, precursora da atual Liga Europa. E se o Barcelona foi a vítima na final continental, os blaugranas também sofreram na primeira grande partida do artilheiro pelo novo clube. Em 19 de novembro de 1961, ele anotou impiedosos quatro gols nos 6 a 2 sobre os catalães pelo Campeonato Espanhol. Fecharia a campanha com 14 tentos por La Liga.
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Em sua segunda temporada pelo Valencia, Waldo seria outra vez campeão da Taça das Cidades com Feiras. Anotou até mesmo um gol na decisão contra o Dinamo Zagreb, abrindo caminho à façanha dos Ches. Mas era no Campeonato Espanhol que sua fama se alastrava, sempre chegando aos dois dígitos em gols anotados. Dos 12 tentos assinalados em 1963/64, saltou aos 18 na temporada seguinte e se colocou na briga pela artilharia em 1964/65, com 21 no total. Depois, os problemas físicos o fariam despencar para seis gols em 1965/66. A resposta, todavia, não poderia ser mais contundente. Em 1966/67, o matador marcou seu nome definitivamente na história do Valencia.
Aos 32 anos, Waldo arrebatou a artilharia do Campeonato Espanhol. Terminou a campanha com 24 gols em 30 aparições, nove tentos a mais que o segundo colocado na lista. Pela primeira vez, um brasileiro levava o Troféu Pichichi. E se o Valencia passou longe de disputar o título da Liga, terminando a campanha na sexta colocação, a boa fase do centroavante renderia a comemoração na Copa do Rei. Waldo anotou gols em praticamente todas as fases. Nas quartas de final, contra o favorito Real Madrid, balançou as redes dos merengues tanto na ida quanto na volta. Que tenha passado em branco na decisão contra o Athletic Bilbao, não se negava o protagonismo do brasileiro. Fechou a campanha com oito gols, assegurando uma taça que os Ches não erguiam desde 1954.
A idade, porém, logo faria o rendimento de Valdo cair nas temporadas seguintes. Marcou 11 gols em La Liga 1967/68 e passaria a frequentar o banco nos dois anos seguintes. Deixou o Mestalla em 1970. Autor de 160 gols, se mantém até hoje como segundo maior goleador da história do Valencia – atrás apenas de Mundo, ídolo do clube nos anos 1940 e seu treinador durante boa parte da estadia na Comunidade Valenciana. Em 1970/71, o matador ainda teve uma rápida passagem pelo Hércules, mas nem mesmo na segunda divisão conseguiu recuperar sua fome de gols. Pendurou as chuteiras logo depois. Até 2006, foi o brasileiro com o maior número de gols no futebol espanhol, superado apenas por Ronaldo. Além disso, outros craques seguiram os seus passos e também conseguiram levar o Pichichi a partir dos anos 1980. Baltazar, Romário e Bebeto são outros dignos herdeiros.
Sua ligação com o futebol espanhol permaneceu e o veterano chegou até mesmo a trabalhar como técnico nas divisões de acesso, antes de assumir escolinhas de futebol. Prevaleceu a lembrança do artilheiro implacável. Se as reverências no Mestalla são enormes, ainda maiores se veem no Flu. Em 2012, o veterano esteve no Rio de Janeiro e recebeu as homenagens durante a conquista do título brasileiro. Nos últimos anos, Waldo lutava contra o Mal de Alzheimer. Vivia em uma clínica na própria Comunidade Valenciana até que, nesta segunda-feira, o velho ídolo pedisse sua trégua e falecesse aos 84 anos. A adoração resiste. Os cerca de 500 gols são memórias reluzentes aos torcedores que recontam a grandeza do camisa 9.