La Liga 2026/27

Mais máquina, menos humano: impedimento semiautomático será usado em La Liga

Espanha será a segunda a usar o impedimento semiautomático depois da Itália e deveria ser uma prática de toda grande liga do mundo. Enquanto isso, no Brasil...

La Liga e a Real Federação Espanhola de Futebol (RFEF) entraram em acordo para passar a utilizar a tecnologia de impedimento semiautomático a partir da temporada 2024/25. A ideia era já ter iniciado o uso da tecnologia na temporada 2023/24, mas um problema na licitação de que empresa irá operar o VAR acabou atrasando o processo em um ano. A Espanha será a segunda grande liga a adotar a tecnologia, que também foi aplicada nos jogos da Copa do Mundo, depois da Serie A, na Itália, passar a usar o sistema desde janeiro de 2023 e já desde o início desta temporada 2023/24. 

Em abril deste ano, a RFEF abriu uma licitação para que empresa seria a operadora do VAR e do impedimento semiautomático no país. O processo precisou ser interrompido por uma liminar da Mediapro, um dos maiores grupos de comunicação do país, que barrou o processo que a empresa tinha sido muito prejudicada. Isso porque o então presidente da RFEF, Luis Rubiales, criou uma licitação que não permitia que a Mediapro entrasse em igualdade de condições com as demais empresas, notadamente a HawkEye, que detém o contrato atual.

Tudo isso fez com que o contrato com a HawkEye fosse renovado por um ano para que fosse feita uma nova licitação, desta vez sem as limitações que impediam a Mediapro de concorrer em igualdade com as demais empresas. Na época do anúncio da renovação, a Hawkeye afirmou que não havia tempo o suficiente para implantar a tecnologia na temporada 2023/24. A licitação inclui a operação do VAR e do impedimento semiautomático, a tempo da próxima temporada. Isso, claro, se não houver um novo fator externo, como outra liminar.

Como funciona o impedimento semiautomático

A ideia era aumentar a precisão para a determinação de impedimentos, porque a tecnologia do VAR também abriu pontos questionáveis, como a operação de traçar linhas. Por vezes isso tornou o jogo mais lento e ainda muito suscetível a erros, ainda que menos do que no sistema anterior. Por isso, o sistema semiautomático ajuda a reduzir alguns desses problemas.

A tecnologia de impedimento semiautomático usa 10 a 12 câmeras penduradas no topo dos estádios. Elas seguem os movimentos dos 22 jogadores em campo e, por meio da tecnologia de rastreamento de membros, coletam 29 pontos de dados por jogadores 50 vezes por segundo.

Há também um equipamento de rastreamento na bola do jogo que irá informar a localização para o VAR 500 vezes por segundo. Isso significa que quando é preciso tomar uma decisão sobre impedimento, o algoritmo de processamento de imagem pode enviar uma imagem clara de forma rápida, quase imediata.

Essa imagem é verificada pelo VAR, que é quem tem a função de tomar a decisão final do impedimento para a arbitragem de campo. É por isso que o sistema é chamado de semiautomático, porque ele ainda é validado por um humano.

Este vídeo do site The Athletic mostra um pouco sobre esse sistema.

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Serie A italiana foi a primeira a adotar impedimento semiautomático

O sistema de impedimento semiautomático passou a ser usado pela Champions League na temporada 2022/23 e também esteve na Copa do Mundo 2022. A Uefa decidiu usar para reduzir as polêmicas de impedimentos muito ajustados, que nem sempre ficavam claros com as imagens de TV. A Fifa já vinha testado o sistema há meses antes de anunciar que usaria na Copa.

A Serie A italiana tinha previsão de começar a usar o sistema na temporada 2023/24, mas diante do sucesso na aplicação na Copa do Mundo e na Champions League e com a tecnologia e o fornecedor já contratados, antecipou para janeiro deste ano de 2023. Assim, foi a primeira grande liga a adotar o sistema.

O vídeo abaixo mostra como o sistema italiano funciona.

Por que outras ligas não adotam o impedimento semiautomático?

O primeiro fator, e mais importante, é o financeiro: o custo para usar o sistema, em adição ao VAR, ainda é significativo, especialmente porque é preciso implantar em todos os estádios onde os jogos são disputados. Mas os custos não são estratosféricos, especialmente para ligas grandes.

Tanto é que a Serie A decidiu adotar e tem tido sucesso. La Liga será a próxima e os custos também não são uma questão para os espanhóis. Bundesliga, Premier League e Ligue 1 e mesmo o Brasileirão ou Libertadores poderiam adotar sem afetar o custo. O que falta é força de vontade dos dirigentes para vencer este aspecto em específico.

Um dos problemas do custo é que poucas empresas no mundo conseguem fornecer esta tecnologia. Aliás, neste momento, apenas a Hawkeye, que domina a tecnologia do VAR em todas as grandes ligas, oferece o serviço. Outras empresas querem entrar, mas ainda não há uma concorrência de peso para a HawkEye. A Mediapro, que tem expertise de ser uma TV, parece querer entrar nesse meio. Outras empresas de mídia podem seguri esse caminho, se a Mediapro se mostrar bem-sucedida.

Aqui entra uma segunda questão em relação ao impedimento semiautomático: a resistência de algumas ligas em relação ao uso da tecnologia. Há muitas discussões em diversos lugares sobre a regra em si, porque os impedimentos ganharam uma nova dimensão com o VAR.

A ideia de mesma linha foi praticamente abolida com a possibilidade de imagens em boa definição para determinar impedimentos mesmo por centímetros. Os impedimentos milimétricos ainda criam insatisfação em muitos lugares e a Inglaterra é um dos países mais vocais nesse sentido.

O impedimento semiautomático, porém, pode ajudar a diminuir ao menos um pouco a controvérsia. Com o uso do sistema de geolocalização, que os clubes já usam, é possível projetar uma imagem virtualizada que deixa mais claro o impedimento ou a posição legal. Em países onde a arbitragem é muito discutida (especialmente onde ela tem competência bastante questionada, como no Brasil), isso certamente pode ajudar.

O Brasil poderia adotar o impedimento semiautomático?

No caso do Brasil, ainda há um outro fator: a falta de uma liga. Não que isso seja uma desculpa, porque a CBF poderia tranquilamente adotar o sistema e bancar os custos. A questão por aqui passa por uma ponto ainda mais primário: o Brasileirão não gera as suas próprias imagens para as transmissoras de TV. Isso mesmo.

As imagens são geradas pela detentora dos direitos, que têm um gasto significativo para isso. Quando os direitos internacionais são vendidos, é a geração de imagens da Globo (em seus diversos veículos, TV aberta, Sportv ou Premiere) que passa no exterior.

Tudo isso complica, porque esse tipo de tecnologia precisa ser integrado com a transmissão. Em toda grande liga do mundo, e em praticamente todos os esportes, a geração das imagens é feita pela dona do torneio, seja uma liga, seja uma confederação, que negocia com as emissoras de TV e streaming apenas o sinal, ou seja, a imagem pronta.

Sem isso no Brasil, se cria uma complicação extra, que pode ser resolvida, mas exigirá mais força de vontade dos dirigentes e também uma boa vontade da empresa de TV que gerar as imagens. A Globo nunca se mostrou contrária ao uso da tecnologia, ao contrário. Mas a CBF nunca se mostrou disposta a investir nesse tipo de tecnologia. Ao menos não até agora.

É possível que com uma liga isso fosse mais fácil, mas o Brasil é um caso tão sui generis que aqui não conseguimos sequer montar uma liga. Quando há uma tentativa nesse sentido, o que vemos como resultado é um racha que criou dois grupos que serão meros vendedores de direitos de TV para o ciclo 2025-2029, que ainda está para ser negociado no Brasileirão.

Libra e Forte Futebol caminham para serem um Clube dos 13 que ainda querem vender parte dos direitos para investidores estrangeiros para ter um dinheiro na mão. Talvez em uma interpretação um pouco distorcida do verso “A solução é alugar o Brasil”, da música “Aluga-se”, de Raul Seixas. Mas isso é uma outra história…

Foto de Felipe Lobo

Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!). Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009, onde ficou até 2023.

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