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Caso de racismo contra Vinícius Júnior fez mais do que tirar o Real Madrid da inércia: virou um incidente diplomático

Os insistentes casos de racismo contra Vinícius Júnior alcançaram um novo patamar pelo que aconteceu diante do Valencia

O caso de racismo contra Vinícius Júnior no jogo do Real Madrid contra o Valencia escancarou algo que está acontecendo na Espanha há muito tempo. No jogo contra o Valencia, no Estádio Mestalla, foram diversas ofensas racistas. Não foram cinco ou seis pessoas. Se ouviu claramente no estádio gritos de “mono”, que os racistas fazem questão de defender que na verdade estão chamando de “tonto”. E o caso causou repercussões maiores. O Real Madrid parece finalmente ter saído do sono profundo e denunciou o caso à Justiça. Mas vai além disso: o caso virou um incidente diplomático, com o governo brasileiro agindo.

O problema tem se tornado muito maior a cada vez. Há, neste momento, uma perseguição sistemática a Vinícius Júnior. Uma perseguição que tem cara de racismo, tem cheiro e tem forma de racismo. Porque é racismo, com todas as letras. Só que na Espanha, esse problema é ignorado. Mais do que isso: é negado. O Valencia fez questão de vir a público defender a sua torcida. Uma torcida que, vale dizer, foi racista. Não quer dizer que todo torcedor do Valencia é racista, ou que todos que estiveram no estádio foram racistas, mas é evidente que o racismo aconteceu. E que não foi um caso isolado, como o Valencia colocou no seu comunicado, dizendo que identificou um torcedor que proferiu gestos racistas. Um, apenas um.

Depois do jogo, o diretor corporativo do Valencia, Javier Solís, foi a público falar sobre o caso. Disse que o clube condena manifestações racistas, mas… Sim, ele meteu essa: colocou um “más”. Disse que “o clube não pode tolerar” a generalização, ao dizer que o estádio foi racista. O clube se ofendeu por ser chamado de racista. Não com a postura racista de parte importante da sua torcida.

 E em vez de condenar essas atitudes de racismo, condenou as declarações de Carlo Ancelotti e de Vinícius Júnior. Mais do que isso: disse que Ancelotti, quando se der conta do que falou, teria que pedir desculpas. E claro que atacou também Vinícius Júnior. Disse que um jogador “não pode mandar um estádio para a segunda divisão e que não ser condenado”. É inacreditável.

Ao menos o Real Madrid saiu da inércia, ao menos segundo comunicado divulgado pelo clube nesta segunda-feira. O clube parece, enfim, ter saído do seu sono profundo em relação ao assunto, sempre tratado de forma menor pelo próprio clube, não protegendo o seu jogador de insultos racistas constantes. Muito provavelmente porque percebeu que as consequências podem afetar a ele mesmo, o clube.

O técnico Carlo Ancelotti já tinha se manifestado a respeito logo depois do jogo. “É inaceitável. La Liga tem um problema, e o problema não é Vinícius. Ele é a vítima. O que ele vai fazer? Não se pode jogar futebol assim”, afirmou Ancelotti. Essas foram apenas algumas palavras do técnico, que foi bastante duro, chamando o caso pelo que ele foi: um caso de racismo inaceitável.

Nas suas redes sociais, no Twitter e no Instagram, Vinícius foi bastante contundente sobre o caso. “Não foi a primeira vez, nem a segunda e nem a terceira. O racismo é o normal na La Liga. A competição acha normal, a Federação também e os adversários incentivam. Lamento muito. O campeonato que já foi de Ronaldinho, Ronaldo, Cristiano e Messi, hoje é dos racistas”, disse o atacante.

“Uma nação linda, que me acolheu e que amo, mas que aceitou exportar a imagem para o mundo de um país racista. Lamento pelos espanhóis que não concordam, mas hoje, no Brasil, a Espanha é conhecida como um país de racistas. E, infelizmente, por tudo o que acontece a cada semana, não tenho como defender. Eu concordo. Mas eu sou forte e vou até o fim contra os racistas. Mesmo que longe daqui”, continuou o brasileiro. E estas últimas palavras é que ressoaram muito internamente no Real Madrid.

O comunicado divulgado pelo Real Madrid, que tem uma versão em português, mostra que o clube resolveu agir diferente desta vez, também porque o próprio jogador parece já considerar a ideia de deixar o clube. Isso, antes, acontecia nos bastidores. A equipe de Vinícius Júnior já tinha alertado o Real Madrid sobre isso. Que era preciso agir, porque o jogador poderia se cansar e sair. Agora, ele resolveu falar publicamente. Ao dizer “Mesmo que longe daqui”, a letra está dada. E o clube, enfim, reagiu.

“O Real Madrid C.F. manifesta o seu mais veemente repúdio e condena os acontecimentos verificados ontem contra o nosso jogador Vinícius Junior. Esses factos constituem um ataque direto ao modelo de convivência do nosso Estado social e democrático de direito”, diz o comunicado do clube.

 “O Real Madrid considera que tais ataques também constituem um crime de ódio, razão pela qual apresentou a correspondente denúncia à Procuradoria-Geral do Estado, mais especificamente à Procuradoria contra crimes de ódio e discriminação, para que os fatos sejam investigados e as responsabilidades apuradas”, continua o texto.

 “O artigo 124 da Constituição espanhola estabelece como funções do Ministério Público para promover a ação da justiça em defesa da legalidade e dos direitos dos cidadãos e do interesse público. Por este motivo, e face à gravidade dos factos ocorridos, o Real Madrid recorreu à Procuradoria Geral do Estado, sem prejuízo do seu carácter privado nos procedimentos que se seguirem”.

A atitude do Real Madrid vem em um momento que estamos vendo uma reação também do governo brasileiro. Lula, presidente do Brasil, declarou em sua coletiva de imprensa na reunião do G-20, no Japão, se solidarizando com Vinícius Júnior.

“Um gesto de solidariedade ao jogador brasileiro jovem, negro, que joga no Real Madrid, que no jogo no estádio do Valencia foi chamado de macaco. Não é possível que quase no meio do século 21 a gente tenha o preconceito racial ganhando força em vários estádios de futebol na Europa”, disse Lula, como reportado pelo G1.

“É importante que a Fifa e a liga espanhola tomem sérias providências, porque nós não podemos permitir que o fascismo e o racismo tomem conta dos estádios de futebol”, continuou o presidente. E o comandante do executivo não é o único a agir. O governo vai agir através do Ministério da Igualdade Racial e mais ainda: vai acionar o Itamaraty para cobrar ações, segundo informado por Andreia Sadi, no G1.

O racismo contra Vinícius Júnior é sistemático. É fruto de um ódio que parece crescer ainda mais e é alimentado inclusive pela própria imprensa espanhola, que continua a equiparar a reação de Vinícius aos atos racistas que ele sofre, como se fossem de fato equivalentes. Há muito mais condenações ao fato de Vinícius Júnior ter saído de campo, após ter sido expulso, fazendo o sinal de dois, provocando que o clube será rebaixado à segunda divisão. O racismo sistemático que há contra ele, nos estádios e em campo, com uma perseguição com faltas e com posturas que os árbitros permitem que aconteça, não é citado.

A maior parte dos veículos trata o racismo como uma provocação, como irrelevante, como se Vinícius é que estivesse provocando e causando o racismo contra si mesmo. E o racismo, diga-se, que é visto pelos espanhóis como uma mera provocação. Javier Tebas continua preocupado em atacar Vinícius e não em agir contra o racismo.

O caso se tornou um incidente diplomático entre Brasil e Espanha. E está na hora de agir de forma mais contundente. Porque não é isso que tem acontecido na Espanha. La Liga, ao contrário do que diz Tebas, não faz nada contra o racismo. Absolutamente nada. LA Liga diz que teve nove casos de racismo, o que ele considera pouco (mas teve muito mais do que isso, evidentemente). E nada foi feito. Ninguém foi condenado. Ninguém foi punido.

Assim como no Brasil e na América do Sul, a tolerância é grande demais e nada acontece. É preciso agir de forma incisiva: condenando os racistas no individual, mas também punindo os clubes. Porque os clubes parecem não quererem agir. Talvez com a punição, os clubes resolvam tomar atitudes para coibir isso. É o0 que falta por aqui também. É preciso fazer algo. E com punições que impliquem todas as esferas: civil, criminal e esportiva.

Foto de Felipe Lobo

Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!). Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009, onde ficou até 2023.

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