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O triunfo vital do Valencia se tornou minúsculo por mais racismo contra Vinícius e a inadmissível falta de ação de todos

Vinícius Júnior sofreu ataques racistas claros durante a partida no Mestalla e, como sempre, ninguém tomou uma atitude contundente

Mais uma vez, o futebol fica em segundo plano em La Liga por causa de um episódio inadmissível de racismo. O que era para ser uma vitória salvadora para o Valencia, ao derrotar por 1 a 0 o Real Madrid no Mestalla, se torna um dos maiores shows de horrores já vistos num estádio de futebol. As ofensas contra Vinícius Júnior foram bem claras, com intervenção do árbitro e também da polícia, assim como o comunicado nos alto-falantes no estádio. Absolutamente nada de contundente foi feito, inclusive pelo Real Madrid, que continua com uma postura passiva demais diante das ocorrências. Vinícius permaneceu em campo até ser expulso em outro lance, claramente desestabilizado, e numa confusão na qual outros poderiam receber o vermelho. A inação impera na Espanha, como bem mostrou o árbitro De Burgos Bengoetxea, e nem dá para acreditar que isso mudará em breve.

Com o Valencia jogando sua permanência na primeira divisão, era de se esperar um jogo tenso. Mas nada serve de justificativa a mais uma onda racista nas arquibancadas da Espanha. Tudo o que aconteceu no Mestalla mancha e tira o valor do que poderia ser uma vitória épica dos valencianos. O time da casa abriu o placar e forçou boas defesas de Courtois, antes que o goleiro Mamardashvili fechasse o gol para evitar o empate no segundo tempo. A vitória garante uma distância confortável aos Ches em relação ao Z-3, com mais três rodadas para o fim do campeonato. Nada que pareça ter real valor, diante da postura do Valencia, nas arquibancadas e em campo.

O Valencia iniciou a partida com mais intensidade, como se esperava pela necessidade do resultado. Os Ches adiantavam a pressão e apertavam a posse de bola do Real Madrid, antes que os merengues tomassem um pouco mais o controle. Já era um duelo pegado, e com Vinícius no centro das atenções. Deu duas canetas antes dos 15 minutos, assim como sofreu chegadas mais duras. O ponta reclamava de faltas não marcadas. Thibaut Courtois precisou fazer a primeira defesa aos 17, numa batida de André Almeida. Com o passar dos minutos, os valencianos recuaram mais, mas sem que os merengues fizessem muito para anotar. A primeira finalização saiu apenas aos 31, quando Karim Benzema parou no goleiro Georgi Mamardashvili.

O Valencia, no entanto, conseguiu o gol na sequência do primeiro tempo. Aproveitou o cochilo do Real Madrid na defesa, aos 34. O passe mascado de Justin Kluivert atravessou a área e Diego López se esticou todo para conferir às redes. Foi o primeiro gol do garoto de 21 anos como profissional, e justo numa ocasião tão importante. O fim do primeiro tempo ficou mais animado. Vinícius Júnior tentou uma cabeçada para fora e Marco Asensio também arrematou sem direção. Courtois trabalhou bem mais e evitou o segundo dos valencianos. Primeiro, buscou um chute de fora de Javi Guerra. Depois, foram duas defesas em sequência contra o próprio Javi Guerra aos 45, incluindo uma impressionante no rebote.

O Real Madrid voltou com Rodrygo no lugar de Eduardo Camavinga para o segundo tempo. Os merengues seguiam no comando das ações, mas não acertavam o passe final. E o Valencia ainda encontrou espaços para tentar ampliar nesta retomada da partida. Aos nove minutos, Diego López mais uma vez apareceu na área e arrematou, mas Courtois evitou o pior. Já na resposta imediata, Rodrygo mirou o canto e Mamardashvili realizou uma defesa sensacional. A partida cada vez mais se jogava no campo de ataque dos merengues e Rodrygo teve outra escapada aos 22. Deu um toque por cima e Mamardashvili realizou um leve desvio salvador, mas a arbitragem sequer percebeu e deu o tiro de meta.

A esta altura, a partida estava muito nervosa. O Valencia precisava suportar a pressão e o Real Madrid ia com tudo para cima. Vinícius Júnior era constantemente provocado e, das arquibancadas, surgiram os primeiros gritos contra o atacante. Era chamado de “mono” (macaco) mais uma vez. O lance que desatou o racismo de vez aconteceu aos 25 minutos. Vinícius partia na linha de fundo quando Eray Cömert aproveitou que havia uma segunda bola em campo e chutou para cima do ponta. O jogo ficou paralisado para uma longa revisão e, durante esse momento, o atacante sofreu novos ataques.

Vinícius chegou a apontar para uma pessoa nas arquibancadas e a acusar de racismo. Os jogadores do Real Madrid tentaram auxiliá-lo, enquanto os membros do Valencia queriam afastá-lo. O árbitro Ricardo De Burgos Bengoetxea também conversou com o brasileiro, assim como Carlo Ancelotti. O treinador chegou a dar um beijo no rosto do atacante, mas, por leitura labial, o jornal Marca identificou que o ponta pediu para deixar o campo. Enquanto o jogo não voltava, os gritos de “mono” se tornaram mais audíveis e os alto-falantes do estádio iniciaram o ineficaz protocolo contra racismo, com a ameaça de suspender a partida. Foram cerca dez minutos de paralisação. A polícia chegou a intervir contra o torcedor acusado por Vini atrás do gol.

Obviamente, a partida ficou impraticável depois disso. O Real Madrid continuava na pressão, mas não havia muito sentido para tudo o que acontecia em campo. Rodrygo comandava as jogadas merengues e não passava por Mamardashvili. Enquanto isso, o Valencia teve chances para ampliar. Kluivert tentou um lance por cobertura de longe e errou o alvo, enquanto também viu um gol ser anulado por impedimento aos 38. De qualquer maneira, o gol de empate dos madridistas parecia mais próximo. Mamardashvili continuou salvando sua equipe. Pegou uma bola quase impossível de Federico Valverde aos 45 e depois buscou uma falta cobrada por Toni Kroos.

A arbitragem tinha dado dez minutos de acréscimos. Aos quatro minutos, uma nova confusão aconteceu na lateral da área. Yunus Musah foi derrubado, antes que Vinícius Júnior se aproximasse. Mamardashvili partiu para cima do atacante e iniciou-se um grande empurra-empurra entre os times. Hugo Duro chegou a agarrar Vinícius por trás, fechando o braço em seu pescoço, e depois o brasileiro respondeu acertando o braço no rosto do adversário. Só Vini foi expulso, levando o vermelho após a revisão do VAR. Mamardashvili ganhou só o amarelo e Hugo Duro sequer foi punido. Na saída de campo, Vinícius aplaudiu ironicamente as arquibancadas e apontou a “segunda divisão” para provocar. Mais uma confusão se desencadeou na beira do campo, com o goleiro Jaume Domènech e o auxiliar técnico Carlos Marchena indo tirar satisfação.

Sem clima nenhum, a partida se estendeu até os 57 minutos do segundo tempo. O Real Madrid, mesmo com dez homens, insistiu em buscar o empate e parecia com mais vontade de responder em campo, diante de tudo o que acontecia. Thibaut Courtois chegou até mesmo a se mandar para o ataque em um dos lances, como se a vitória fosse imprescindível. Benzema teve a última chance, mas Mamardashvili realizou mais uma grande defesa. O goleiro recebeu o prêmio de melhor em campo.

O Real Madrid cai para a terceira colocação de La Liga, ultrapassado pelo Atlético de Madrid. Fica com 71 pontos, sem mais interesse na competição. Já o Valencia encaminha a permanência com a vitória. Os Ches alcançam os 40 pontos, no 13° lugar, cinco pontos acima da zona de rebaixamento. Resta saber se La Liga agirá contra o clube. As ocorrências deste domingo são claríssimas. E se uma atitude sequer foi tomada pelo árbitro quando necessário, fica ainda mais difícil de acreditar que Javier Tebas e seus lacaios farão algo.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
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