14 motivos que tornam a história de Casemiro no Real Madrid tão especial
Recapitulamos a passagem de Casemiro pelo Real Madrid, superando desconfianças até se tornar uma incontestável lenda merengue
“O antigo soldado virou general”. Assim Jorge Valdano definiria Casemiro, em meados de 2020, quando o Real Madrid atravessava um momento decisivo em sua reconstrução. O espírito do soldado continuava no meio-campista. Não deixava de ser aquele que se sacrifica no campo e se entrega, sem vaidades, ao trabalho mais pesado. Porém, o camisa 14 cresceu na hierarquia dos vestiários merengues e se punha como uma evidente liderança. Um posto alcançado por suas conquistas, por sua influência e principalmente por seu trabalho. Já estava num lugar especial da história madridista, mesmo dentro de um clube tão glorioso.
Casemiro chegou ao Real Madrid sob muitas desconfianças de quem via de fora e também de algumas pessoas de dentro. Ganhou respaldo de figuras importantes nos corredores do Bernabéu, especialmente de Florentino Pérez, que bancou o garoto em diferentes momentos. Numa instituição que tanto se orgulha dos negócios bombásticos, Casemiro conquistou o direito de se tornar um galáctico. Não chegou assim, mas é assim que sai rumo ao Manchester United. Porque, afinal, sua importância a tantos títulos dos merengues vale o respeito digno de uma lenda e gera uma fortuna no mercado até surpreendente para seus 30 anos de idade.
A venda de Casemiro, de certa maneira, resgata a saída de um jogador que declaradamente serviu de espelho ao brasileiro em sua juventude: Claude Makélélé. O Real Madrid demorou a reencontrar os rumos depois que o francês assinou com o Chelsea em 2003 e perdeu o equilíbrio com um elenco bastante estrelado. A lição que fica, e já assimilada, é que não será possível achar um substituto tão parecido. A transferência do camisa 14 obrigará os merengues a reformularem parte de seu jogo, algo que Carlo Ancelotti chegou a anteriormente: “Se vamos buscar uma cópia, nos equivocamos, porque não há outro Casemiro no mercado. Dito isso, pode jogar outro com características distintas”.
Aurélien Tchouaméni possui talento suficiente para preencher a lacuna, assim como Eduardo Camavinga pode servir de opção no setor. Ambos têm excelentes perspectivas de triunfarem no Real Madrid. Contudo, não serão como Casemiro pela maneira de se portar e também pela liderança exercida. A singularidade do brasileiro será lembrada por muito tempo entre os torcedores merengues, principalmente pela forma como entendeu e abraçou o madridismo. O reconhecimento é amplo, por uma dedicação que rende aplausos inclusive de tantas pessoas alheias ao clube. Não dá para falar de um Real Madrid cinco vezes vencedor da Champions na última década sem citar Casemiro.
Assim, aproveitamos a despedida do meio-campista rumo ao Manchester United para citar 14 motivos que o tornam especial ao Real Madrid – e, assim, rememorar os principais momentos de seus 351 jogos pelo clube, 336 pelo time principal e outros 15 pelo Castilla.

– O garoto-problema virou exemplo de dedicação
O apelido de “Casemarra” marcou o fim da passagem de Casemiro pelo São Paulo. O garoto tinha talento, isso não era questão – algo perceptível desde que o então atacante se disse meio-campista para enfrentar uma concorrência menor nos seus primeiros testes no Tricolor. Quando despontou entre os profissionais são-paulinos, o prata da casa enchia os olhos exatamente pela capacidade técnica e pela forma como atuava de cabeça erguida. Chegou a ser testado inclusive em posições mais adiantadas no meio, enquanto acumulava convocações pelas seleções de base. Com a fama, todavia, veio também uma acusação de descompromisso por aquilo que acontecia além das quatro linhas e impactava nos gramados.
O São Paulo já não acreditava mais em Casemiro, algo indicado pelo presidente Juvenal Juvêncio, quando decidiu se desfazer do meio-campista. E num momento em que sua carreira parecia degringolar, a oportunidade de se juntar ao Real Madrid caiu do céu. Defenderia a filial, é verdade, mas ainda assim era uma porta aberta. Não existia qualquer vaidade que impedisse o jovem, já com cinco aparições pela seleção principal, de atuar na segunda divisão do Campeonato Espanhol. Provavelmente veio à cabeça uma lembrança de quando chegou ao São Paulo, em que viu a oferta de um dormitório fixo como um privilégio, para quem muitas vezes tinha que dormir de favor em outras casas pela falta de condições da família. Se Cotia já era uma chance para melhorar a vida de Magda, a mãe diarista que criou os filhos após ser abandonada pelo marido, o Bernabéu ampliava bastante os horizontes. E ele não deixaria escapar.
Passar pelo Real Madrid Castilla fez bem a Casemiro. Segundo suas próprias palavras, o período na filial foi importante “para entender os valores do clube e os torcedores, como se fosse da base”. Os entraves dos tempos de São Paulo começavam a desaparecer. O garoto-problema se mostrou extremamente profissional. O meio-campista que foi avaliado por Paulo César Carpegiani como “alguém que não sabe marcar” virou um leão na contenção. E mostrou serviço na segunda divisão, com boas atuações que levaram os merengues do risco de rebaixamento ao meio da tabela. Isso até que Mourinho o chamasse para treinar com o elenco principal e para estrear em La Liga, num duelo contra o Betis na reta final de 2012/13.
Antes da partida, Mourinho falou com Casemiro em particular e encheu a bola do garoto, ao prometer que seria titular. Num momento em que a relação interna do treinador era péssima, ele foi acusado de prestar um favor a seu empresário, Jorge Mendes. A resposta de Casemiro veio em campo, com uma ótima atuação na vitória por 3 a 1 sobre o Betis. Participou da construção de gol e ficou os 90 minutos em campo. Não teria outra oportunidade naquela temporada, mas agradou o suficiente para ser comprado em definitivo ao final de seu empréstimo junto ao São Paulo. A partir de então, se fixaria na primeira equipe em 2013/14, após a contratação de Carlo Ancelotti.
A pré-temporada de Casemiro nos Estados Unidos também foi importante para que ele fincasse o pé no Real Madrid. Impressionava por sua vontade nos treinos e teve uma grande atuação em amistoso contra a Internazionale. Existia quem desconfiasse, especialmente quem pensava só nas frustrações encaradas no São Paulo. O mais importante era que o jovem acreditava em si e se revolucionava. Disse à comissão técnica uma frase que se tornou marcante: “Se vocês me derem cinco partidas, vou demonstrar que posso ser titular”. Esse processo, no entanto, levou mais tempo.

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– Mesmo tão novo, ele mostrou estrela na Champions
A empolgação ao redor de Casemiro se esvaiu durante o início do Campeonato Espanhol, depois de sair do banco nas três primeiras rodadas. O jovem passou a ficar só na reserva depois disso e, segundo as notícias da época, Ancelotti não o via maduro o suficiente para se firmar na equipe. A concorrência também era pesada no meio-campo, com as presenças de Sami Khedira e Xabi Alonso, além do recém-chegado Asier Illarramendi. Isso sem contar jogadores com características mais ofensivas que transitavam no setor – a exemplo de Ángel Di María, Luka Modric e Isco.
Casemiro poderia ter saído no mercado de inverno em 2014, com propostas de empréstimo, mas preferiu lutar por uma chance. Uma brecha se abria com a séria lesão sofrida por Khedira. O brasileiro passava longe de ser titular, mas ganhava mais minutos a partir do banco de reservas. E o jogo que “mudou a sua carreira”, segundo suas próprias palavras, aconteceu em plena Champions League. Vice-campeão na temporada anterior, o Borussia Dortmund perdeu a ida nas quartas de final por 3 a 0 no Bernabéu, mas botava uma pressão danada no Signal Iduna Park e se aproximava da prorrogação com o placar parcial de 2 a 0. A pressão sobre os espanhóis era imensa. Aos 28 do segundo tempo, Ancelotti saca Di María e fecha a casinha com Casemiro.
O abafa sofrido pelo Real Madrid perdeu intensidade. Casemiro acertou a equipe e trancou o meio-campo. Mostrou o seu valor no mais alto nível. O Dortmund, que parecia cada vez mais próximo do necessário terceiro gol, não conseguiu dar uma finalização sequer depois da alteração. O sinal de que o meio-campista poderia contribuir bastante estava evidente, embora Ancelotti não tenha se convencido por inteiro. Na final, quando Xabi Alonso estava suspenso, preferiu arriscar a entrada de Khedira voltando de lesão. Mesmo sem ser relacionado para a dramática vitória sobre o Atlético de Madrid, Casemiro havia dado uma contribuição ao título que encerrava uma espera de 12 anos pela Orelhuda.
Para a temporada seguinte, Ancelotti não fez questão de manter Casemiro no elenco, com a chegada de Toni Kroos, apesar da saída de Xabi Alonso. O empréstimo ao Porto, apesar disso, se tornaria valioso ao brasileiro. Ele sempre ressalta como Julen Lopetegui foi importante ao seu amadurecimento como futebolista e para o desenvolvimento de suas virtudes dentro de campo. Não conquistou títulos, mas, titular absoluto, fez uma senhora Champions League pelos portistas – a ponto de constar entre os melhores de sua posição. Justificou o retorno ao Real Madrid, que precisou desembolsar uma grana na cláusula de recompra, depois que os portugueses exerceram a opção de compra. Valeu a pena, sem dúvidas.

– O ponto de virada de um esquadrão histórico
Ancelotti acabou demitido entre uma temporada e outra, ofuscado pela tríplice coroa do Barcelona. O meio-campo era um setor problemático, em que a melhor formação para combinar Modric e Kroos não estava clara. Illarramendi nunca compensou o investimento e Lucas Silva foi outro tiro na água. Até Sergio Ramos chegou a ser improvisado como volante. E, embora Rafa Benítez preferisse contratar William Carvalho, seria ele o responsável por introduzir Casemiro entre os titulares a partir de outubro de 2015.
O erro de Rafa Benítez esteve justamente em prescindir de Casemiro no momento de maior peso do primeiro turno de La Liga. Os merengues encaravam o embalado Barcelona do Trio MSN no Bernabéu e o técnico optou por uma formação mais ofensiva, com James Rodríguez na vaga de Casemiro. Desmontado, o Real Madrid tomou fumo diante de sua torcida, com a derrota por 4 a 0 para os blaugranas. O brasileiro sequer saiu do banco de reservas. Uma besteira tremenda do técnico, que voltou a dar sequência ao jovem na Champions, mas acabou demitido semanas depois.
O novo treinador do Real Madrid a partir de janeiro de 2016 era Zinédine Zidane. Casemiro tinha uma ótima relação com o velho craque, nutrida desde os tempos em que o francês era assistente de Ancelotti. Segundo o volante, a amizade com Zizou havia sido “uma das coisas mais importantes em seu primeiro ano”, pelas conversas e pelo carinho oferecido pelo então auxiliar. O início de Zidane como técnico, entretanto, teve Casemiro ainda mais restrito ao banco. O comandante preferia escalar um jogador mais ofensivo, Isco ou James. Isso até que, numa conversa, o professor pedisse ao atleta para seguir trabalhando que a oportunidade chegaria. Ela viria depois de outro clássico perdido em casa, agora por 1 a 0 para o Atlético de Madrid, no qual o cabeça de área permaneceu no banco.
Casemiro disputou apenas 21 minutos nas nove primeiras partidas sob as ordens de Zidane, entrando em míseras duas ocasiões. Quando ganhou sua vez, não saiu mais e claramente impulsionou a equipe. Sua sexta partida no 11 inicial foi exatamente o reencontro com o Barcelona por La Liga. A diferença que ele fez no Camp Nou foi expressa, pela forma como o volante combateu o Trio MSN e acelerou os contra-ataques para a vitória por 2 a 1. Depois disso, os merengues embalaram. Venceram 16 dos últimos 18 compromissos da temporada. Não deu para tirar o prejuízo em La Liga, com o vice-campeonato. Em compensação, foi suficiente para se agigantar na Champions e levar mais uma taça em nova decisão contra o Atlético de Madrid. Não dava mais para conceber o Real sem Casemiro.

– Títulos, títulos e mais títulos
Ao longo de sua passagem pelo Real Madrid, Casemiro conquistou 18 títulos. Foi fundamental em basicamente todos desde 2015/16, embora um capítulo especial tenha ocorrido em 2016/17. Se durante os primeiros meses como titular de Zidane o meio-campista se restringia a limpar os trilhos atrás de Kroos e Modric, a temporada seguinte viu sua confiança crescer. Atuava mais solto, tentando mais as jogadas, embora sua missão principal não fosse essa. O volante marcou um golaço contra o Napoli nas oitavas da Champions, além de oferecer assistências importantes contra Bayern e Atlético de Madrid nas duas fases seguintes. O melhor ficaria guardado para a final diante da Juventus, em Cardiff.
O moral de Casemiro estava no talo. E os brios também deviam estar mexidos, depois que Massimiliano Allegri, mesmo destacando sua importância no equilíbrio do Real Madrid, afirmou que não possuía tanta qualidade. Antes da partida, o volante falou para algumas pessoas próximas, inclusive para companheiros, que faria um gol. Sua tarefa primordial era proteger a defesa, sobretudo o lado esquerdo, onde Daniel Alves e Paulo Dybala partiriam para cima de Marcelo. Teve participação no contragolpe que resultou no primeiro gol do Real Madrid, antes que Mario Mandzukic igualasse com sua pintura. O duelo seguiu empatado para o intervalo. Então, a promessa de Case se cumpriu no início do segundo tempo.
Segundo os relatos daquele dia, quando um dos colegas viu Casemiro avançando para a bola feito um touro na intermediária, até questionou em voz alta o que ele fazia. Faria o gol, num chutaço que acabou desviado e venceu Gianluigi Buffon. A história daquele jogo mudou num só instante, com a goleada madridista por 4 a 1. Também era a prova cabal da preponderância de Case para os sucessos do clube, contribuindo da melhor maneira sempre. Meses depois, como se quisesse provar que aquele tento não foi ao acaso, ainda abriu a vitória por 2 a 1 sobre o Manchester United na conquista da Supercopa Europeia.

– Pilar do trio inesquecível
O sucesso do Real Madrid atende a um trinômio no meio-campo. As muitas taças erguidas estão diretamente ligadas ao encaixe de Casemiro com Toni Kroos e Luka Modric. Formam um trio complementar e histórico por tudo o que representa. A ligação, aliás, não se limita ao campo de jogo e se desdobra em uma grande amizade. Facilita o entendimento de três caras que sabem tanto de bola.
Em entrevista à revista Panenka, Casemiro definiria assim a parceria: “Em 11 jogadores, é preciso ter um pouquinho de cada. É preciso ter uma mescla de cada jogador. Quando você fala de Luka Modric, Toni Kroos e Casemiro, de nós três, um ajuda o outro. Um completa o outro. A mim, me encanta falar sobre a qualidade dos dois, da magia que Luka tem, do jogador que Toni é.
“A gente se conhece no olhar, numa olhada sabemos como o outro gosta da bola, o que vai fazer, como vai ser o passe. Toni e Luka me ajudam muito defensivamente. Quase não nos falamos dentro de campo, pelo olhar sabemos o que é e o que está se passando entre nós três. Isso são anos juntos. Parece que levamos mais de mil partidas juntos, um completa o outro. Um tem algo que o outro não tem tanto, e a equipe acaba se fortalecendo”, finalizaria.
Diante da despedida de Casemiro, tanto Kroos quanto Modric dedicaram cartas ao companheiro, publicadas pelo jornal Marca. Ambos mostram como o reconhecimento é mútuo e pleno. “Vou sentir saudades de você. Como um profissional exemplar. Como um jogador top. Como um lutador que me salvou de várias… Mas, acima de tudo, como uma boa pessoa”, assinou o alemão. Já o croata salientou: “Essas risadas com você me davam tranquilidade. Assim como olhar para trás e te ver. Foi o melhor guarda-costas do mundo”.

– A humildade
A primeira grande conquista de Casemiro aconteceu nas seleções de base, quando era um nome importante na estrelada equipe sub-20 que faturou o Campeonato Sul-Americano e o Mundial em 2011. Nomes como Neymar, Lucas Moura, Philippe Coutinho e Oscar tinham mais peso naquela geração. O título na decisão contra Portugal, contudo, dependeu bastante do senso de sacrifício de Casemiro. O meio-campista não se fez de rogado ao acabar deslocado para a defesa na intenção de conter a sangria vista pelo lado esquerdo. Segurou as pontas e permitiu a taça àquele grupo. Essa postura de abnegação o acompanhou durante todo o tempo em Madri.
A fama de jogador técnico que Casemiro carregava desde a base do São Paulo não o levou a se colocar num pedestal quando desembarcou no Real Madrid. Pelo contrário, ele se encaixou no contexto e adaptou as suas características. Fazer o simples nem sempre é o mais fácil, principalmente quando se tem recursos para se deslumbrar. O volante ainda oferece lampejos de classe quando se sente à vontade, com qualidade por vezes ignorada no passe longo. Entretanto, preferiu abraçar os exercícios mais árduos em prol da eficiência. Entende como pode ser ainda mais importante ao deixar os virtuosos se destacarem, num time repleto de talentos.
Algo que apontou em entrevista ao jornal El País: “Sacrificar-se para os demais e não ter o protagonismo. As pessoas querem marcar gols, dar assistências e jogar bonito. E o cabeça de área, sobretudo no Real Madrid, é sacrifício, ajudar os companheiros, roubar bolas, tapar buracos. Às vezes as pessoas não veem isso. O volante se sacrifica muito mais para o resto. O volante precisa ser generoso apagando incêndios. E muitas vezes as pessoas não veem. Você não rouba uma bola, mas tapa um buraco. Sim, é preciso ser mais generoso”.
– O entendimento
Carlo Ancelotti já disse que, na sua visão, o jogador do Real Madrid com mais aptidão para se tornar treinador é Casemiro. Quando o técnico voltou ao clube para esta segunda passagem, aliás, o volante questionou a falta de oportunidades mais frequentes em 2013/14. O italiano admitiu o erro. A relação bem mais estreita dessa vez rendeu bons ensinamentos ao brasileiro. Mas não se nega que essa propensão à casamata parte bastante do próprio jogador, graças a uma postura que pavimentou seu sucesso no Bernabéu.
A inteligência tática de Casemiro se sobressai. É um jogador que sabe ler o jogo na defesa e no ataque. Ocupa bem os espaços, corrige os problemas e mantém o equilíbrio da equipe. E isso se adquire não apenas pela dedicação nos treinamentos, mas também pelo estudo constante. O volante é descrito como alguém obcecado por futebol, que analisa bastante os seus movimentos em campo e revê suas atuações para eventuais correções. Seu crescimento depende dessa fome por conhecimento, assim como do entendimento de sua influência dentro do campo. Como ele mesmo salienta, o jogo é disputado bem mais sem a bola do que com ela.
“O jogador aprende coisas até o dia em que deixa o futebol. Assim quero melhorar, quero estar sempre no meu melhor nível e para isso tenho que saber quais são minhas falhas. O jogador precisa melhorar todos os dias, porque no Real Madrid, se você baixa um pouco o nível, há outro que te toma a posição. Por isso quero melhorar todos os dias mais e mais”, analisou, ao jornal El País.

– O trabalho incessante
Em 2019, após conquistar a Copa América com a Seleção, Casemiro ganhou uns dias a mais de folga e não participou do início da pré-temporada com o Real Madrid. De longe, viu os companheiros serem derrotados pelo Atlético de Madrid por 7 a 3. Foi quando decidiu encurtar as férias e desistiu de uma viagem para a Disney. Seus familiares foram para Orlando, mas o meio-campista pegou o avião direto para Madri e intensificou seu trabalho de preparação. Seria essencial para que, naquela mesma temporada, os merengues dessem a volta por cima com a conquista de La Liga.
Casemiro demonstra que não ambiciona ser um jogador conhecido propriamente por seu talento. Ele quer se sobressair pelo trabalho. Sabe como o empenho diário se reflete nos 90 minutos, especialmente a quem se aproveita tanto do físico para dominar o meio-campo. O brasileiro chega uma hora mais cedo aos treinos, tem uma moderna academia dentro de sua casa. Perdeu raríssimos jogos por lesão e sempre se manteve entre os atletas mais utilizados a cada temporada. Um episódio anedótico aconteceu num duelo contra o Atlético de Madrid, quando Diego Simeone chegou a “pedir” (na brincadeira) para que o meio-campista adversário parasse de correr para não ferrar seu time. Nada feito.
“Cada um vê de sua maneira e eu respeito. Claro que Casemiro não tem a magia de Isco, nem os gols de Cristiano, mas tem o trabalho. Casemiro é o trabalho. Não me preocupo, se sou titular desta equipe é porque o treinador sabe a importância que tenho. Eu sei qual é meu aporte e me sinto igual em importância que todos”, comentaria em 2017, ao El País. “É verdade que não me sinto como um jogador brasileiro. Alguns têm a qualidade, outros a magia, outros o trabalho. Eu, sem dúvidas, tenho este último, a humildade, a vontade de querer ganhar sempre. Aprendi muitas coisas na Europa, me adaptei muito bem ao futebol daqui, talvez por isso pareça mais um jogador europeu que brasileiro”.

– Os desarmes que valiam comemoração
Nessa percepção distinta sobre o que é importante, Casemiro chega a conceber que suas ações defensivas são mais essenciais que os seus gols. O meio-campista afirma que, quando deixa o campo, o que mais quer saber é quantas bolas roubou. O estilo de jogo tantas vezes é duro e lida com os limites da violência, ainda que o volante tenha sido expulso apenas duas vezes pelos merengues, ambas após dois cartões amarelos. Entretanto, sua arte está diretamente atrelada ao vigor para desarmar e iniciar os contragolpes do time. Saber conter os avanços adversários e, por que não, utilizar as faltas como recurso.
“Eu amo marcar gols, dar assistências, fazer uma boa jogada. Mas o que mais gosto é roubar uma bola e entregar a um companheiro. Eu me sinto cômodo e feliz fazendo esse trabalho. Isso me dá prazer. Meu gol é roubar uma bola”, assinalou ao El País. Como também falaria à Panenka: “Esses são meus gols, essas são minhas assistências, isso é o que mais desfruto no futebol: quando roubo bolas”.

– O DNA madridista
Antes de estrear pelo Real Madrid, Casemiro ouviu algo interessante de José Mourinho, conforme contou à revista Líbero: “Eu te conheço, sei que você tem mais de 100 partidas pelo São Paulo. Você vai ser titular. Você joga muito, eu sei. Sei como você joga, fique tranquilo. Durante os primeiros 15 minutos, dê sua vida. Na primeira bola, arrebenta. O Bernabéu gosta disso, de quem transmite dentro de campo, de quem joga com o coração. Depois, um lançamento de 70 metros, Case, que o Bernabéu gosta também. Eu te conheço, vai com tudo”. Lição assimilada desde aquele jogo contra o Betis, o meio-campista parece carregar essas palavras no peito há quase dez anos.
O Real Madrid, embora seja um clube reconhecido por seus craques e pelo glamour, não deixa de se caracterizar também por certo espírito de luta. Alfredo Di Stéfano, além de tratar bem a bola, era um jogador disposto a aparecer em qualquer canto do campo. Tal ideia de entrega se espelhou em diferentes equipes, de distintas maneiras. Casemiro deu sua própria interpretação, ao perceber que o apoio do Bernabéu é maior quando se batalha pelo triunfo. E o volante se casou bem com o DNA madridista, desde o princípio.
“O primeiro que aprendi nesse clube é a história de Juanito. Todo minuto sete, em que a torcida canta, e disso de lutar, de que precisamos ir até o final. O Real Madrid é o melhor clube do mundo, então é claro que aqui estão os melhores em qualidade, mas, se há uma coisa que aprendi nesse clube, é que a torcida valoriza muitíssimo o sacrifício de lutar até o final independentemente do resultado. Claro que todo mundo gosta de ganhar, e nós vivemos de ganhar, mas aprendi a lutar até o final”, disse à Panenka, meses antes de todos os milagres vividos ao longo da última Champions.
O próprio Real Madrid escreveu, no comunicado de despedida: “Casemiro sempre representará para a memória do madridismo os valores de nosso clube. Um jogador exemplar que deu tudo pelo Real Madrid. O Real Madrid é e será sempre sua casa, e deseja muita sorte a ele e a toda a sua família nesta nova etapa de sua vida”. Uma avaliação que, por toda a caminhada, não soa como protocolar.

– O perseguidor implacável de craques adversários
Casemiro nunca foi jogador de menosprezar adversários. Pelo contrário, o meio-campista se tornava imprescindível mesmo em jogos das fases iniciais da Copa do Rei, porque era um dos raros que não reduzia seu ritmo. Isso rendia o reconhecimento inclusive dos adversários, como em duelo contra o Unionistas em 2020, quando os jogadores da equipe da terceirona elogiaram a intensidade máxima do volante. Foi o próprio brasileiro que pediu para trocar camisas com os azarões, quando o mais natural numa ocasião dessas fosse o contrário. E se o camisa 14 não foge do pau nem em partidas de menor calibre, é nas maiores que ele realmente fez a sua fama.
Com tantas conquistas na Champions, Casemiro prevaleceu nos mata-matas contra diversos adversários de peso. Consequentemente, colocou no bolso muitos craques do outro lado. A lista de oponentes batidos nessa trajetória inclui Bayern de Munique, Atlético de Madrid, Juventus, Manchester City, Liverpool, Borussia Dortmund e Paris Saint-Germain, sem deixar de mencionar os costumeiros encontros com o Barcelona por La Liga. Não foi sempre que Casemiro venceu, mas muitos triunfos do Real Madrid só foram possíveis pela forma como o volante combateu os atacantes opositores.
A análise dos adversários também é um trabalho que Casemiro realiza com gosto. Conforme relatou à revista Líbero: “Veja, o importante é antecipar a intenção do rival. Por exemplo, se vejo que está Canales, que é um jogador de grande qualidade que vai passar no primeiro toque, a chave é adivinhar o passe, porque senão vai perder. Ou por exemplo ontem com Mbappé, houve uma jogada em que sabia que ele ia tentar ir por dentro. Pois ele fez isso e eu roubei. Tudo é cabeça”. E tantas vezes o volante entrou na mente de quem precisava superá-lo.

– O guarda-costas virava herói
O trabalho duro como volante de contenção não impediu Casemiro de marcar gols frequentes pelo Real Madrid. Foram 31 bolas nas redes, além de 29 assistências. A força no jogo aéreo era uma arma bastante útil para os madridistas, mas o ímpeto ofensivo tantas vezes aparecia para que o brasileiro se aproximasse da área e permitisse vitórias com chutes potentes. Anotou seis gols em partidas de Champions, enquanto também experimentou a sensação de deixar sua marca pelo menos uma vez em clássicos contra o Barcelona e contra o Atlético de Madrid.
Essa vocação ofensiva de Casemiro ficou evidente nas temporadas mais recentes, quando o ataque passou por ampla reformulação e o avanço dos meio-campistas precisou ser mais constante. Foram quatro gols em La Liga 2019/20 e mais seis em 2020/21. Neste período, os jornais espanhóis até cunharam o termo “Casemirodependência”, para uma necessidade que se explicava não só pelo equilíbrio defensivo, mas também pelas contribuições pontuais mais à frente. Não seria tão efetivo assim em 2021/22, quando reconhecia que suas escapadas eram menos necessárias diante do estado de graça de Karim Benzema e Vinícius Júnior.

– O irmão mais velho de uma legião promissora
Casemiro foi acolhido no Real Madrid por alguns brasileiros. Marcelo o acompanhou em todos os passos, mas sua chegada ainda tinha Kaká como uma referência. O craque auxiliou na acolhida do novato, exatamente naquele que seria o seu ano de despedida. Segundo já disse o volante, Kaká foi importante nas primeiras chances com o time principal, para orientá-lo sobre como agir. E se o meia não ficou por tanto tempo, os companheiros de outros países também influenciaram a mentalidade e a postura do camisa 14 no clube. Cristiano Ronaldo virou um de seus melhores amigos e um exemplo pela forma como perseguia sempre seu máximo.
Com o passar dos anos, Casemiro ganhou mais peso como uma liderança nos vestiários. E poderia ser o guia a outros tantos atletas mais jovens. Vinícius Júnior e Rodrygo relataram algumas vezes como o meio-campista teve um papel importante na adaptação de ambos, assim como na maneira de encarar o desafio. Rodrygo afirmou em entrevista antiga ao Esporte Interativo que o veterano serviu de inspiração por sua dedicação e até mesmo “mudou a imagem do jogador brasileiro, antes visto como preguiçoso”. Vinícius, por sua vez, escreveu na despedida: “Pouco a se falar pra você. Obrigado e Obrigado. Todos os times precisam de um Casemiro”.
E a acolhida também se deu com jovens de outras nacionalidades, sobretudo os meio-campistas. Federico Valverde e Eduardo Camavinga foram dois que ficaram sob as asas de Casemiro. O brasileiro repetidas vezes os elogiou e publicamente falou sobre a melhor maneira de ambos evoluírem. Desde o tri da Champions os companheiros já passaram a chamá-lo de “Casemito”. Essa orientação positiva aos novatos vale ainda mais a reverência pelo exemplo que exerce.

– Naquela que nem era a despedida e virou, o suprassumo
A última renovação de contrato de Casemiro aconteceu em agosto de 2021, há pouco menos de um ano. Num momento em que Sergio Ramos e Raphaël Varane deixavam o Estádio Santiago Bernabéu, o Real Madrid reiterava como o brasileiro seguia com um papel central nos planos do time. Algo que se reafirmou em campo, nas conquistas de La Liga e da Champions. O brasileiro falava sobre como a ambição do time o movia, pela dificuldade que é a permanência em alto nível depois de tantos troféus levantados. Ninguém tinha se acomodado e ele estava na linha de frente para puxar o carro.
A gana parecia renovada mesmo com a chegada de Aurélien Tchouaméni, um possível concorrente para o presente e um provável sucessor para o futuro. Casemiro se mostrava disposto a provar dentro de campo que permanecia como peça vital. E isso se notou claramente na Supercopa Europeia, em que foi com sobras o melhor em campo na vitória sobre o Eintracht Frankfurt. Case deu assistência e mandou bola na trave, sem freios para atacar. Porém, valeram bem mais os seus “gols particulares”, com uma porção de desarmes para desmantelar qualquer tentativa de ataque dos alemães.
Naquele momento, a atuação de gala ressaltava a excelência de Casemiro que deveria durar por mais alguns anos no Real Madrid, e provavelmente ajudaria em novos títulos. Isso até que um Manchester United entrasse no meio do caminho e rompesse certezas. A Supercopa não foi o último jogo do camisa 14, já que entrou nos minutos finais da vitória sobre o Almería na primeira rodada de La Liga. De qualquer maneira, a exibição contra o Frankfurt em Helsinque serviu como um grand finale para eternizar um pouco mais a imagem de Case como um verdadeiro campeão.
Há ainda a promessa de um último ato. Na próxima segunda-feira, o Real Madrid realizará uma homenagem para Casemiro no Bernabéu. Perder um ídolo não é fácil, especialmente de maneira tão repentina, mas o respeito mútuo oferecido por clube e jogador nas últimas horas é exemplar. O carinho prevalece de imediato, com uma contribuição tão expressa. Tornar um pouco maior um clube gigante como o Real Madrid é dificílimo, mas Casemiro conseguiu. E engrandeceu sua própria história como poucos imaginavam, mas como ele nunca deixou de acreditar e trabalhar para isso.




