Champions League

O passado de Real Madrid x Gladbach guarda uma das maiores viradas das copas europeias e um dos maiores assaltos

Real Madrid e Borussia Mönchengladbach disputam uma das partidas mais interessantes da rodada final da Champions League. Os merengues precisam vencer para garantir que não serão eliminados na fase de grupos, algo inédito na competição continental. E se precisarem se agarrar ao histórico, pelo menos, os madridistas podem ampliar sua confiança. Nos dois confrontos anteriores, ambos por mata-matas, o Real Madrid prevaleceu. O duelo pela Copa dos Campeões 1975/76 seria marcado pela arbitragem que beneficiou os espanhóis. Uma década depois, pela Copa da Uefa 1985/86, os madrilenos viveram uma das maiores viradas da história das copas europeias.

O primeiro encontro entre Real Madrid e Gladbach ocorreu em 1975/76, tempos nos quais os alemães-ocidentais pareciam favoritos. A equipe treinada por Udo Lattek estava na metade de seu tricampeonato na Bundesliga e também era bastante competitiva nos torneios continentais, ainda que o Bayern de Munique chamasse mais atenção. Jupp Heynckes, Uli Stielike, Allan Simonsen, Rainer Bonhof e Berti Vogts eram destaques no badalado esquadrão, que avançou com autoridade nas duas fases anteriores. Os Potros chegaram a golear o Wacker Innsbruck por 6 a 1 na primeira fase, antes de despacharem a Juventus.

O Real Madrid atravessava um momento de recuperação, sob as ordens do iugoslavo Miljan Miljanic. Os merengues voltariam a dominar La Liga na metade final dos anos 1970, com um futebol mais físico e de muitos choques. Santillana, Pirri, Vicente del Bosque e Goyo Benito eram alguns dos ídolos naqueles tempos. Além disso, os madridistas contavam com o talento alemão de Paul Breitner e Günter Netzer – este uma lenda trazida do próprio Gladbach. Depois da classificação sobre o Dinamo Bucareste na primeira fase, o Madrid fez milagre nas oitavas: perdeu a ida por 4 a 1 diante do Derby County, mas reverteu no Bernabéu com uma histórica goleada por 5 a 1 arrancada na prorrogação.

A partida de ida pelas quartas de final da Champions indicava o poder de reação do Real Madrid. O Gladbach abriu dois gols de vantagem ainda no primeiro tempo. Henning Jensen anotou o primeiro logo aos dois minutos, depois de uma jogadaça de Bonhof, e Hans-Jürgen Wittkamp ampliou aos 27, em confusão após cobrança de escanteio. Os merengues descontaram pouco antes do intervalo, também pelo alto, com Roberto Juan Martínez. Já o empate por 2 a 2 seria decretado aos 16 do segundo tempo, num canhotaço de Pirri que morreu direto no ângulo. O placar era mais confortável aos espanhóis, ainda que Udo Lattek prometesse seu time melhor fora de casa.

O Santiago Bernabéu estava abarrotado com quase 86 mil torcedores, em tempos nos quais era um dos estádios mais intimidadores da Europa. Nas tribunas, o recém-empossado Rei Juan Carlos era convidado de honra. Dentro de campo, contudo, não seria a mais nobre das noites de futebol. O Gladbach saiu na frente de novo. Aos 25 minutos, o matador Jupp Heynckes desviou de cabeça às redes. O empate do Real Madrid saiu aos seis minutos do segundo tempo, em falta cobrada na linha de fundo que Santillana desviou no primeiro pau. O grande personagem do jogo, de qualquer forma, seria o árbitro Leonardus van der Kroft.

Antes do empate, o juiz havia aliviado o Real Madrid com uma falta claríssima no meio-campo, que deveria ter rendido o cartão vermelho. Mesmo assim, o Gladbach teve forças para responder depois. E foram dois os gols anulados dos Potros antes do apito final. No primeiro, foi anotado um impedimento inacreditável antes de Jensen mandar às redes. Depois, outro lance acabaria paralisado por uma confusão na área. Até parecia possível a marcação de uma falta, mas Van der Kroft justificou um toque de mão que nunca existiu.

Com o empate por 1 a 1, o Real Madrid avançou graças aos gols fora de casa. “Não perdemos para o Real Madrid, mas para o árbitro”, foram as duras palavras do vice-presidente do Gladbach, já que Udo Lattek se recusou a falar. Na fase seguinte, o Bayern de Munique pôde se vingar pelos compatriotas. O empate por 1 a 1 no Bernabéu seria marcado por uma grande confusão: um torcedor invadiu o campo e agrediu, além do árbitro e de um assistente, também Gerd Müller. Sepp Maier foi quem segurou o agressor. Na volta, Müller respondeu com os dois gols na vitória por 2 a 0, que botou o Bayern na decisão e culminou no tricampeonato continental dos bávaros.

Passaram-se dez anos até que Real Madrid e Borussia Mönchengladbach se enfrentassem outra vez nas copas europeias. Eram tempos bastante distintos a ambos os clubes. Os merengues começavam a construir o time pentacampeão espanhol, liderado pela célebre Quinta del Buitre, e que também levaria dois títulos na Copa da Uefa. Já os Potros passavam longe do protagonismo vivido nos anos 1970, ainda que contassem com bons talentos e fizessem campanhas dignas na Bundesliga. Estavam distantes, contudo, de sonhar com as mesmas taças.

O Gladbach eliminou Lech Poznan e Sparta Roterdã para se reencontrar com o Real Madrid nas oitavas de final da Copa da Uefa. O remanescente de dez anos antes se chamava Jupp Heynckes, agora ocupando o banco de reservas como treinador. Ainda assim, era uma equipe de qualidade, na qual apareciam nomes como Frank Mill, Ewald Lienen e Uwe Rahn. O Real Madrid tinha eliminado AEK Atenas e Chornomorets Odessa nas fases anteriores. Luis Molowny era o treinador da equipe que contava com Antonio Maceda, Rafael Gordillo, Rafael Martín Vázquez, Míchel, Hugo Sánchez, Jorge Valdano, Juanito e Emilio Butragueño. Santillana era o representante da velha guarda.

O primeiro encontro no Rheinstadion, em Düsseldorf, viu um baile do Borussia Mönchengladbach: 5 a 1. Aos 29 minutos, uma blitz na área permitiu o gol de Frank Mill. Antes do intervalo, José Antonio Salgueiro ampliaria aos alemães-ocidentais, em gol contra. Até os 15 do segundo tempo, o artilheiro Uwe Rahn guardaria mais dois. Anotou o terceiro de cabeça, a partir de um escanteio, e o quarto veio na conclusão de um contra-ataque. O Real Madrid até descontou aos 23, numa falta cobrada para Rafael Gordillo encher o pé na área. Contudo, caberia o quinto. Numa linda combinação com Mill, Ewald Lienen fechou a contagem aos 36.

O Real Madrid dependia de uma virada que parecia inimaginável no Bernabéu. Os merengues contavam com a força de sua torcida, mas também vieram com modificações para o segundo jogo. Gordillo e Hugo Sánchez eram desfalques sensíveis. Em compensação, as entradas de Santillana e Butragueño modificavam a configuração ofensiva e deram certo. Além do mais, aquele tento solitário de Gordillo se provou também decisivo, já que os 4 a 0 na Espanha se tornaram suficientes graças ao gol fora de casa.

Valdano teria um papel central para permitir que o Real Madrid acreditasse. O argentino abriu a contagem aos cinco minutos, completando de peixinho o cruzamento de Juanito. Fez também o segundo, num outro ótimo cruzamento de Juanito em cobrança de falta. Os 95 mil no Bernabéu vibravam e empurravam os merengues. O Gladbach, mesmo com todo o seu potencial ofensivo, não conseguia responder a altura e ainda desperdiçou uma chance claríssima com Frank Mill. Os madridistas eram mais contundentes, com o goleiro Ulrich Sude evitando a tripleta de Valdano antes do intervalo.

O segundo tempo veria um abafa tremendo do Real Madrid, com as duas equipes praticamente se concentrando ao redor da área alemã-ocidental. Os merengues reclamariam de dois pênaltis que a arbitragem não deu e veriam o goleiro Sude acumular ótimas defesas. A insistência, de qualquer maneira, daria seus frutos no final. Santillana marcou o terceiro aos 31 do segundo tempo. Aproveitou o cruzamento de Ricardo Gallego para emendar o chute no cantinho. E a remontada esteve completa aos 43. Depois da cobrança de lateral, Valdano desviou e Míchel chutou de primeira. O goleiro Sude defendeu, mas o rebote ficou com Santillana e, mesmo tropeçando, o ídolo mandou para as redes. O impossível se concretizava no Bernabéu.

Juanito acabou sendo o grande personagem da noite. Não marcou gols, mas participou ativamente da vitória e deixaria uma imagem para sempre, dando pulos de alegria ao ser substituído no final, com o placar consumado. “Joguei pela seleção, estive em duas Copas do Mundo. Também conquistei títulos pelo Real Madrid. Ainda assim, pensar no que fizemos esta noite é enorme, provavelmente o melhor dia da minha vida”, declararia Juanito, exultante depois da vitória.

Luis Molowny reconhecia o empenho de seus atletas: “No Real Madrid, não há reservas ou titulares. Tenho 21 jogadores e sempre lutam por algo. Estou orgulhoso do comportamento de todos os meus homens. Não foi um milagre, ganhamos e salvamos a classificação com méritos próprios. Talvez tivemos um pouco de sorte, mas ela nos virou as costas na partida de ida”. Jupp Heynckes, por sua vez, se rendia à tradição madridista: “Pecamos por inexperiência, algo imperdoável quando enfrentamos uma equipe como o Real Madrid. A verdade é que já sabíamos que o Real Madrid é algo especial nos torneios europeus e isso se confirmou hoje”.

Ninguém mais conseguiria barrar o Real Madrid naquela Copa da Uefa. O time eliminou o Neuchâtel Xamax nas quartas de final, antes de mais uma virada sensacional na semifinal: a Internazionale venceu a ida por 3 a 1, mas os merengues devolveram os 3 a 1 na volta e complementaram a goleada no Bernabéu por 5 a 1, com outros dois tentos durante a prorrogação. Por fim, a decisão contra o Colônia seria bem mais tranquila. O chocolate por 5 a 1 em Madri criou a gordura necessária, que até permitiu a derrota por 2 a 0 na volta. Pelo segundo ano consecutivo, a taça continental ficava com os madrilenos.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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