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“Imagine se fosse bom!”: Dani Alves rebate críticas sobre futebol, julgamentos e fama

Aos 32 anos, Daniel Alves parece ter passado boa parte dos últimos oito respondendo a críticas e à sua capacidade de estar em um time do nível do Barcelona. Uma onda de opiniões que se retroalimenta de seus argumentos e parece ignorar tudo o que o jogador já fez em sua carreira. O jeito contundente do lateral-direito em suas entrevistas e a extravagância com que se veste para eventos sociais ou mesmo para posts em seu Instagram parecem reforçar as teorias de seus críticos, mas enquanto está na boca do povo como alvo de ataques, segue como titular do Barcelona, encaminhando-se para sua oitava temporada completa pelo clube mais vencedor do mundo nos últimos anos.

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De olho no confronto contra o Arsenal, pela partida de volta das oitavas de final da Champions League, Dani Alves foi o personagem escolhido para a já tradicional entrevista profunda que o jornal Guardian faz com personagens que estão sob os holofotes ou que serão peças importantes de algum aguardado evento. No caso, a tentativa dos Gunners de desafiarem as probabilidades e despacharem o Barça após uma derrota por 2 a 0 em casa, no Emirates, há duas semanas.

Assuntos do futebol, no entanto, não são a única coisa que interessa quando se está diante de uma figura tão relevante e excêntrica como Dani Alves. O modo como combate suas críticas com atuações regulares e recordes pelo Barça chama a atenção. São, afinal, 21 títulos apenas pelo clubé culé, sem falar nas cinco inclusões para o time da temporada da cerimônia de gala da Fifa.

A entrevista de Sid Lowe, do Guardian, com Dani Alves começa com o tema das críticas ao lateral. O brasileiro pega um dos clichês com que seus críticos contra-atacam aqueles que defendem seu histórico vencedor no Barça e usa isso a seu favor, revertendo a lógica e apresentando uma nova perspectiva. “Talvez seja fácil vencer um título no Barcelona, talvez seja. O quer não é fácil é vencer tanto, ter uma história tão longa aqui.”

Das 21 medalhas que conquistou pelo Barcelona de 2008 para cá, Daniel elege as da temporada passada como as mais importantes, que mais significaram, “porque houve muitas dúvidas: se eu estava acabado, se o Barcelona deveria se livrar de mim, se eu não deveria estar aqui…” Todas elas respondidas com as atuações frequentes de Dani Alves na temporada passada e mesmo na atual. Críticas que não desestabilizaram-no, mas o irritaram diante da maneira como encara seu ofício. “Eu não diria que isso me afetou, mas me irritou, porque eu amo minha profissão, eu vivo pelo futebol, pelo meu time, por meus companheiros. Se eu pensasse apenas em mim mesmo, eu não teria utilidade. Não quero falar sobre mim, mim, mim… E descobrir que não venci nada. Isso seria um desastre.”

Sobre as críticas a seu trabalho defensivo

“O que é defender? Não deixar que nunca driblem ou ataquem? Caramba, o futebol seria muito chato, não seria? Você apenas pode se preparar para defender, mas aí o cara te dribla do mesmo jeito… O quê? Você acha que só você é rápido? Se você ‘defende’, você não ataca; se você ‘ataca’, você não defende? De que se trata o futebol? De vencer. E para vencer você tem que marcar mais gols. O vencedor não é apenas o time que defende incrivelmente; se você defende bem, mas não marca, é inútil.”

“Muitas, muitas, muitas críticas fazem você refletir. Penso: caramba, sem defender bem, sem atacar bem, sem conseguir fazer um cruzamento decente, estou aqui há nove (quase oito, na verdade) anos. Imagine se eu fosse bom? Eu seria a hóstia!”

Longevidade no Barça como prova de sua qualidade

“Escreva uma lista de jogadores que estiveram aqui e quanto tempo eles duraram, é fácil assim. Jogadores vêm e vão. Isso não significa que eles são ruins; eles são feras, mas no Barcelona não é suficiente você ser fera. Com todos esses defeitos, ruim como sou, sou o estrangeiro com o maior número de jogos pelo Barcelona na história, apenas o Leo (Messi) está acima de mim. Penso: ‘Se eu joguei tudo isso, não posso ter apenas defeitos, devo ter algumas qualidades também’. Sei que as pessoas não falam disso, sei que a maioria não gosta de mim, mas… Bom, talvez não a maioria, mas um número enorme, definitivamente. Mas estou preparado. Elogios? Todo mundo está pronto para ouvir coisas boas. Mas ouvir coisas ruins? Veja como você reaja. Estou sempre sob o microscópio. Eles esquecem que, sob o microscópio, as coisas boas de uma pessoas também são ampliadas.”

Aceitação das críticas

“Eu tento melhorar. As pessoas não acreditam em mim, mas eu tento. Eu uso as críticas para isso: o que eu seria sem elas? Se as pessoas apenas me elogiassem, isso me debilitaria. Eu dou risada de algumas, mas faço anotações também. Você pode achar as críticas sem significado, mas chega uma hora em que deve haver algo ali, e isso faz você pensar.”

Atritos com a imprensa

“O que é verdade é que não vou mudar minha filosofia, porque eu me tornaria amargo. Se você vive sua vida de acordo com o que os outros dizem, deixa de ser sua vida. Eu curto a vida, e a coisa que mais valorizo é: eu não machuco ninguém. Sei que as pessoas podem se sentir ofendidas às vezes, mas não estou tentando machucar ninguém. Isso nunca é minha intenção. Não há malícia, quero que as pessoas reflitam”, explicou.

“Então, quando eu disse que a imprensa era ‘porcaria’, por exemplo, fiz isso porque eles estão prejudicando o futebol. Então eu apareci e expliquei melhor, porque eu sei que há pessoas boas na profissão, e não é justo generalizar. Não posso impedir as pessoas de me acharam um idiota ou de acharem que só fiz aquilo para irritar. Mas, não, faço coisas assim porque quero que as pessoas vejam o dano, para que pensem e entendem o por quê.”

Fama, dinheiro e como nada disso molda sua figura

“Quando falo sobre energia, felicidade, alegria, isso é aplicável à vida. Tento fazer as pessoas pegarem isso, quero ser contagioso. Não seja amargo: o mundo já é amargo o bastante, já é auto-destrutivo. Quero que minha energia positiva alcance as pessoas. Eu não sei cantar, mas eu canto. Há uma frase: ‘Quem canta, os males espanta’. Então, eu canto. Porque eu gosto, porque não gosto de estar cercado de merda. Gosto de felicidade, e, quando as pessoas tentam destrui-la, isso acaba comigo. As pessoas acham que a vida que levo, sendo bem pago, é a razão pela qual eu sou assim. Não. Eu era mais feliz quando vivia no interior com meu pai do que frequentemente sou agora. Por quê? Porque eu não sabia o quão prostituído o mundo era.”

“Quanto mais você conhece o mundo de hoje, mais ele te desaponta. Não entendo por que todo mundo luta por poder, dinheiro, fama. Ninguém parou para pensar que a fama é uma merda? Que, quanto mais dinheiro você tem, mais problemas? As pessoas falam sobre pessoas famosas e pessoas normais. ‘Normal’? Não podemos todos ser normais? Eu jogo futebol, você é um jornalista, você, um fotógrafo, mas todos somos pessoas. Ainda assim, há rótulos: famoso, normal, rico, pobre… Para mim, ‘rico’ não é ter muito dinheiro, é ter muitas coisas na cabeça.”

A maneira forte como aborda alguns assuntos às vezes acaba descreditando Daniel Alves, fazendo-o parecer mais um personagem do que alguém com críticas válidas ao modelo atual do futebol e aos elementos que cercam o esporte. Mas, tomando emprestadas suas próprias palavras, se “olhados por um microscópio”, suas declarações e seus questionamentos colocam na mesa discussões que muitos jogadores não estão dispostos a potencializar, por ser uma crítica direta a seu próprio estilo de vida. Vale a pena conferir o papo completo do jogador com o Guardian, clicando aqui. O fato de usufruir da fortuna que gera, da vida luxuosa que conquistou com seu futebol, não torna o lateral um hipócrita e muito menos diminui a relevância de seu julgamento acerca de um universo que tão bem conhece.

 

Foto de Leo Escudeiro

Leo Escudeiro

Apaixonado pela estética em torno do futebol tanto quanto pelo esporte em si. Formado em jornalismo pela Cásper Líbero, com pós-graduação em futebol pela Universidade Trivela (alerta de piada, não temos curso). Respeita o passado do esporte, mas quer é saber do futuro (“interesse eterno pelo futebol moderno!”).

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