O outro clássico da Copa do Rei: Athletic e Osasuna possuem uma rivalidade regional, alimentada pela disputa por talentos
Athletic Bilbao e Osasuna fazem um clássico basco nas semifinais da Copa do Rei, em que vários jogadores de Pamplona se destacam no time bilbaíno - algo que não deixa os torcedores navarros muito satisfeitos
As semifinais da Copa do Rei contarão com dois clássicos. Se de um lado a badalação gira ao redor do Barcelona x Real Madrid em uma chave, do outro Athletic Bilbao x Osasuna sustentam uma rivalidade regional considerável – embora um tanto quanto ignorada fora da Espanha. O Dérbi Basco envolve Athletic contra Real Sociedad, num embate também entre as regiões de Bizkaia e Gipuzkoa. Já o Osasuna não se localiza exatamente no País Basco como divisão territorial, mas a cidade de Pamplona e a comunidade autônoma de Navarra estão dentro do que se entende como “Grande País Basco” por relações culturais. Existe inclusive uma dose de animosidade entre Osasuna e Athletic – embora nada que descambe à violência ou ao exagero. Os Rojillos se inserem numa área de influência de contratações dos Leones e os “jogadores roubados” pelos bilbaínos motivaram os maiores atritos com os navarros, sobretudo neste século. Basta ver que boa parte dos protagonistas do Athletic nesta semifinal é de Pamplona.
O duelo entre Athletic e Osasuna está prestes a completar 100 anos. A primeira partida entre os clubes aconteceu em 4 de novembro de 1923, quando os bilbaínos eram um clube estabelecido como potência na Espanha e os navarros davam seus primeiros passos após a fundação em 1920. Num amistoso em San Mamés, os Leones confirmaram o favoritismo e venceram por 5 a 3. A influência do País Basco sobre os Rojillos estava expressa naquele momento, já que o time do Osasuna havia sido campeão da segunda divisão de Gipuzkoa e ainda reforçou seu elenco com atletas de outros times bilbaínos. Os visitantes inclusive contavam com Juanito Urkizu, que depois virou centroavante do Athletic nos primeiros títulos do clube em La Liga, nos anos 1930, e se consagrou como um dos maiores treinadores da história da agremiação, com vários títulos faturados na década de 1940.
O amistoso, todavia, era um ponto fora da curva. O Osasuna não era visto na época como um oponente ao poderio do Athletic Bilbao. Os Rojillos fizeram uma breve aparição na elite de La Liga em 1935/36 e chegaram a golear os bilbaínos por 4 a 1 no primeiro encontro oficial, apesar da derrota por 2 a 0 em San Mamés. De qualquer maneira, os navarros passaram as primeiras décadas do Campeonato Espanhol entre a segunda e a terceira divisão. As participações na primeira divisão se tornaram mais frequentes mesmo após 1953/54, com sete aparições até 1962/63, incluindo um honroso quinto lugar em 1957/58. Curiosamente, Athletic e Osasuna foram campeões da primeira e da segunda divisão numa mesma temporada durante o período, em 1955/56. Foi também a primeira vez que os dois se encararam pela Copa do Rei, nas quartas de final. Os Leones golearam por 4 a 1 em Bilbao e passaram com o empate por 2 a 2 em Pamplona.
Neste período, a supremacia do Athletic sobre o Osasuna nos confrontos era notável. Até 1962/63, os navarros tinham cinco vitórias no duelo, contra nove dos bilbaínos. O ápice aconteceu numa goleada por 8 a 1 em Pamplona, com cinco gols de Armando Merodio. Os Leones eram na época treinados por um brasileiro, Martim Francisco. O Osasuna de novo caiu para a segunda divisão em 1963 e passou um longo hiato longe da elite, até que se restabelecesse realmente como um time de primeira divisão a partir dos anos 1980. Foi quando o clube atingiu sua maior estabilidade na prateleira principal de La Liga, inclusive com boas campanhas na parte de cima da tabela e bons desempenhos na Copa do Rei. Mas não no mesmo nível do Athletic, que colecionava taças naquela década.
Apesar da recuperação do Osasuna como um clube relevante nos anos 1980, o Athletic ainda conseguia se impor sem muitos problemas nos encontros. Os bilbaínos atravessaram um período de quase sete anos sem derrotas para os navarros em La Liga, de 1980/81 a 1986/87, com direito a goleadas frequentes. Só mesmo na virada rumo à década de 1990 é que os Rojillos tiveram resultados melhores no enfrentamento. Chegaram também a se classificar para a Copa da Uefa no período, com o ápice alcançado graças à quarta colocação em La Liga 1990/91. Entretanto, se a rivalidade com o Athletic aumentou neste momento, foi bem mais motivada pela mudança na política de contratações dos Leones.

A restrição do Athletic Bilbao para contar somente com jogadores de origem basca se iniciou com a ditadura franquista. O clube era aberto a atletas de qualquer origem em seus primórdios, sobretudo por contar com fundadores ingleses, mas o empecilho de que estrangeiros figurassem no futebol espanhol por ordem do franquismo levou os Leones a se fecharem apenas aos talentos de sua região. E, de início, a área de seleção de atletas basicamente se concentrava em Bizkaia. Dessa forma, Real Sociedad e Osasuna também aproveitavam os jogadores de suas respectivas regiões. Com o tempo, a área de influência do Athletic se ampliou rumo a Gipuzkoa e também a Navarra, como parte do “Grande País Basco”. Com maior poderio econômico e maior torcida, os bilbaínos conseguiam atrair bons nomes em atividade nos vizinhos. E a saída frequente de talentos de Pamplona rumo a Bilbao passou a incomodar a torcida do Osasuna.
A virada dos anos 1980 para os anos 1990 marcaria essa constante troca entre os clubes. Nas décadas anteriores, as poucas transações entre os dois times aconteciam de jogadores sem tanto espaço no Athletic que rumavam ao Osasuna. A partir de então, as transferências passaram a envolver figuras mais importantes. O primeiro caso notável foi o do meia Miguel Sola. Nome importante nos Leones que foram bicampeões espanhóis em 1983 e 1984, ele seguiu rumo ao Osasuna em 1985, para servir de referência ao time de boas campanhas em La Liga. Nascera em Pamplona, mas despontou na base bilbaína. Já o Athletic, em 1986, levou o goleiro Vicente Biurrun, nascido em São Paulo, mas filho de bascos que voltou ainda na infância à Espanha. O arqueiro estourou nos Rojillos e seria levado a Bilbao como substituto de Andoni Zubizarreta.
A partir de então, as trocas se tornaram muito mais frequentes. E com o Athletic se dando melhor. Um dos grandes símbolos dessa imponência econômica aconteceu com José Ángel Ziganda, então um centroavante promissor que explodia no Osasuna. O jovem assinou com os Leones em 1991 e se tornou um dos principais artilheiros do clube nos anos 1990. O lateral Iñigo Larrainzar, que chegou à seleção da Espanha, foi outro que fez o mesmo caminho de Pamplona a Bilbao. Também vale uma menção a Ion Andoni Goikoetxea, que deixou El Sadar para fazer parte do Dream Team do Barcelona, mas depois se mudou a San Mamés por três temporadas. O meia encerraria sua carreira em Pamplona.
Perdendo seus talentos, o Osasuna encerrou uma estadia de 14 temporadas na primeira divisão, a maior até então, e acabou rebaixado de volta à segundona em 1994. Levaria um tempo para se recuperar, com seis temporadas consecutivas no segundo nível. E o Athletic até mesmo estendeu a mão nesse período de dificuldades econômicas. O clube ofereceu 50 milhões de pesetas por temporada como ajuda. Em contrapartida, ganhava preferência na contratação de alguns jogadores dos Rojillos. Os Leones também cederam com mais frequência atletas emprestados aos vizinhos. O próprio Ziganda voltou para Pamplona no fim da carreira e auxiliou no acesso em 1999/00. A aproximação das instituições, porém, seria rompida após uma troca na presidência do Osasuna e as acusações da torcida de que o Athletic “sugava” suas categorias de base.
Durante a virada do século, o Athletic voltou a contratar com mais frequência jogadores do Osasuna. Eram jovens em início de carreira que viveram o auge em Bilbao – como o lateral Mari Lacruz e os volantes Tiko e Pablo Orbaiz, os dois últimos com passagens pela seleção espanhola. Orbaiz teve um simbolismo grande em San Mamés e chegou a se queixar que, em suas visitas ao El Sadar, a torcida do Osasuna era “muito dura com ele”. De qualquer forma, o maior entrave ocorreria com outro jogador, em 2006, num período em que os navarros voltavam a emendar participações na elite e inclusive repetiram o quarto lugar de La Liga. Os Leones tiraram de Pamplona um promissor volante das categorias de base dos Rojillos, que ainda militava no Osasuna B. Seu nome? Ninguém menos que Javi Martínez.

A promessa sequer chegou a estrear pela equipe principal do Osasuna. Nascido em Navarra, Javi Martínez havia sido levado pela base do Osasuna em 2001, depois de rodar por clubes como Logroñés e Arenas. Seria promovido para o Osasuna B inclusive por Cuco Ziganda e se colocava como um nome de muito futuro, especialmente no contexto basco. Dadas as suas limitações no mercado, o Athletic não mediu esforços para levá-lo. As tratativas seriam cercadas de tensão, até que os Leones pagassem os €6 milhões da multa rescisória. Era uma fortuna por um jogador prestes a completar 18 anos, que sequer havia pintado como profissional. Na época, o valor equivalia ao que o Bayern de Munique pagou por Mark van Bommel e era apenas €500 mil mais barato que a compra de Marcelo pelo Real Madrid.
A bronca maior da torcida do Osasuna ficou pela sensação de que Javi Martínez estava sendo “aliciado” pelo Athletic. Até porque, na temporada seguinte, David López seria outro bom jogador dos navarros, embora mais consolidado em La Liga, a trocar Pamplona por Bilbao graças a uma pequena fortuna – €5,8 milhões. De certa maneira, os Leones eram vistos como “predadores do mercado de transferências” no País Basco, e isso levou as visitas do time a se tornarem mais ríspidas no Estádio El Sadar, o tradicional caldeirão dos Rojillos. Com o sucesso em La Liga naquelas temporadas, o Osasuna conseguia vencer com mais frequência o Athletic, mas caiu diante dos bilbaínos nas oitavas de final da Copa do Rei de 2008/09 – com Javi Martínez em campo já como figura notável dos Leones.
Depois de todos os entraves causados naquele momento, as transferências entre Athletic Bilbao e Osasuna praticamente cessaram. Nos últimos 15 anos, apenas um jogador saiu de um time diretamente para o outro: o centroavante Kike Sola, que fez boas temporadas em Pamplona e nunca conseguiu reproduzir o nível em Bilbao, sem deixar saudades. Ocorreram inclusive períodos em que as agremiações romperam relações institucionais, com o incômodo do Osasuna pelo assédio do Athletic às suas promessas – como no caso do lateral Jesús Areso, que sequer emplacou em sua carreira profissional.
Além disso, mesmo sem práticas mais agressivas do Athletic, há uma insatisfação contínua dos torcedores do Osasuna com os jogadores navarros que poderiam se desenvolver com os Rojillos, mas preferiam seguir às estruturas dos Leones. Como o Athletic possui uma categoria de base entre as melhores da Europa, que realmente aproveita seus talentos por conta das limitações de mercado, seguir para San Mamés é uma escolha compreensível para os naturais de Navarra. Mas não que a torcida em El Sadar lide bem com isso.
A lista de ídolos recentes do Athletic que nasceram em Navarra, assim, é consideravelmente extensa. O adorado goleiro Gorka Iraizoz ainda passou por outros clubes menores do País Basco, mas chegou a atuar na filial do Athletic, antes de estourar no time principal a partir de 2007. O volante Carlos Gurpegui é outro natural de Pamplona que seguiu muito jovem a Bilbao e fez sua carreira praticamente inteira com os Leones. Fernando Llorente pode não ter virado uma figura querida, mas o centroavante navarro saltou para a base do Athletic, antes de virar um dos goleadores mais influentes do clube neste século. Já na zaga, Mikel San José foi mais um a se mudar para San Mamés em busca de maior progressão na carreira.

O elenco atual do Athletic Bilbao possui seis jogadores ligados a Pamplona, sendo quatro deles enormes símbolos dos bilbaínos nos anos recentes. Iker Muniain, o atual capitão dos Leones, é nascido na cidade de Pamplona. Mudou-se para a base do Athletic em 2005, aos 13 anos, e possui uma estatura histórica inegável em San Mamés. Apesar das origens, já rechaçou publicamente suas ligações com os Rojillos. No início da carreira, em 2010, o ponta chegou a declarar: “Não sei por que tenho que ter carinho com o Osasuna. Eles nunca me deram nada e seguem sem me dar. Desde que era pequeno eu os enfrentei e agora que jogo no Athletic também. Sou Athletic desde sempre. Não é uma partida especial para mim, apenas pela rivalidade que temos com eles. Mas especial em relação a carinho, não”.
Além disso, Pamplona também marca as raízes dos irmãos Iñaki e Nico Williams. Iñaki ainda nasceu em Bilbao, mas sua família se mudou para Navarra quando ele ainda era criança e o atacante iniciou sua carreira em pequenos clubes de Pamplona, até seguir para a base do Athletic aos 18 anos, em 2012. Nico Williams nasceu quando a família já vivia em Pamplona e não só atuou em clubes de base locais, como também passou alguns meses nas equipes infantis do Osasuna. Entretanto, com a influência do irmão, em 2013 o menino de 11 anos integraria as estruturas dos Leones. A história de ambos poderia ser bastante distinta se ficassem em El Sadar – especialmente pela propensão maior dos Rojillos em venderem suas melhores revelações, sem as questões identitárias do Athletic e também sem o potencial financeiro.
Raúl García é outro nesta lista. O meia-atacante não apenas nasceu em Pamplona, como também se formou na base do Osasuna e defendeu o clube nos primeiros anos de sua carreira. De lá, se transferiu para o Atlético de Madrid, mas ainda voltou a Navarra para uma temporada emprestado em 2011/12. Já sua chegada em Bilbao aconteceu em 2015, como uma das principais lideranças nos vestiários do Athletic desde então. Atualmente, é um jogador muito mais identificado com as cores dos bilbaínos e não dá indicativos de que poderia voltar ao El Sadar no fim de sua carreira. Ainda há o caso de Oihan Sancet, que atuou na base dos Rojillos até os 15 anos e, sem contrato, foi levado pelos Leones até se profissionalizar em 2019. Já Álex Berenguer despontou no Osasuna e passou pelo Torino, antes de ser comprado pelo Athletic em 2020. Na transferência para a Itália, precavidos, os navarros colocaram uma cláusula adicional no contrato se o jogador fosse vendido posteriormente para os Leones. Com isso, embolsaram €1,5 milhão após a volta do atleta ao País Basco.
Por outro lado, são mais raros os jogadores de Bizkaia que atuam no Osasuna. A maioria absoluta dos bascos no elenco atual dos Rojillos é nascida em Navarra. A exceção fica para o goleiro Aitor Fernández, de Arrasate, em Gipuzkoa. O arqueiro despontou na base do Athletic e atuou na filial do clube, mas sem ganhar chances no time de cima. Só depois de rodar o país é que ele assumiu a meta do Osasuna nesta temporada, trazido do Levante.
Em termos de resultados, o Athletic Bilbao se dá muito melhor contra o Osasuna desde a última década. A partir de 2009/10, os Leones venceram 12 partidas contra os vizinhos e perderam apenas três, com novas passagens dos Rojillos pela segundona neste intervalo. A retomada do Osasuna como um time de primeira divisão mais estável ocorre desde 2019/20 e as partidas são mais parelhas a partir de então, com duas vitórias para cada lado. Na atual edição de La Liga, inclusive, os dois bascos são concorrentes diretos por vagas nas copas europeias. Mas nada reacende mais a rivalidade do que um duelo de Copa do Rei. Não é exagero dizer que este será o clássico mais importante da história entre os dois. E que não haja uma conotação violenta, não se nega a tensão.



