A final da Copa do Rei é um tributo ao fim da carreira de Joaquín, lenda do Betis e campeão pelo Valencia
Joaquín conquistou seus únicos títulos da carreira na Copa do Rei, campeão com o Betis pela última vez em 2005 e também com um forte Valencia em 2008
Joaquín ocupa um lugar de relevo na história do futebol espanhol. São duas décadas atuando no mais alto nível desde que foi eleito a revelação de La Liga em 2001/02 e encaminhou seu lugar na Copa do Mundo. Boa parte da história do atacante foi vivida em verde e branco, com as cores do Betis, em duas passagens que o colocam como lenda. O recordista em jogos inclusive é acionista minoritário dos beticos, com 2% das ações. Nesse meio tempo, também fez sucesso no Valencia e participou de uma grande equipe. Nada mais emblemático, então, que as pontas dessa trajetória se amarrem numa final de Copa do Rei. Aos 40 anos, naquela que talvez seja a última temporada de sua carreira, Joaquín terá a chance de disputar a decisão que envolve dois clubes tão marcantes. Foi exatamente a única taça que ergueu com ambas as camisas, em 2005 e 2008. Em Sevilha, terá a oportunidade de experimentar um grand finale neste sábado, quem sabe para coroar o ótimo momento que atravessa o Betis.
A explosão de Joaquín aconteceu num Betis que acabava de voltar da segunda divisão, mas que vinha de altos investimentos na virada da década e possuía talentos o suficiente para registrar grandes ambições. O maior feito seria a conquista da Copa do Rei em 2004/05, que encerrou um jejum de 28 anos na competição e garantiu o segundo troféu aos verdiblancos. Os beticos terminaram La Liga na quarta colocação, sua melhor classificação neste século, enquanto a taça nacional marcou o ápice da forte equipe treinada por Lorenzo Serra Ferrer.
O Betis contava com um elenco que reunia especialmente talentos brasileiros e espanhóis. A legião verde e amarela era estrelada por Marcos Assunção, Edu, Ricardo Oliveira e Denílson. Enquanto isso, nomes como Juanito, Melli e Arzu compunham os locais. Joaquín, na época uma figurinha carimbada nas convocações da seleção espanhola, servia como estrela da companhia pela relevância nacional e por seu talento desequilibrante na ponta. O atacante disputou as nove partidas do Betis naquela campanha. Os verdiblancos passaram por Alcalá, Mirandés e Gramanet nas fases iniciais, até um confronto de mais peso diante do Athletic Bilbao na semifinal. Uma vitória nos pênaltis garantiu a vaga na final, contra um Osasuna dirigido por Javier Aguirre e que tinha suas estrelas internacionais, a exemplo de Pierre Webó e Richard Morales.
Joaquín não teve influência direta na vitória do Betis por 2 a 1 na decisão, selada apenas na prorrogação. Os verdiblancos eram melhores e abriram o placar aos 30 do segundo tempo, quando Ricardo Oliveira foi oportunista para aproveitar um erro da defesa adversária. O empate do Osasuna saiu oito minutos depois, numa cabeçada de John Aloisi. A definição do placar ocorreu aos oito minutos do segundo tempo extra, num contra-ataque puxado por Ricardo Oliveira, que serviu Dani e permitiu que o substituto se tornasse o herói. Antes do fim, Joaquín provocaria a expulsão de Pablo García. E o ponta ficaria marcado pela comemoração, ao levar uma capa de toureiro para festejar no Estádio Vicente Calderón.
Joaquín permaneceu no Betis até a temporada seguinte, quando acabou vendido ao Valencia depois de participar de sua segunda Copa do Mundo. O ponta custou €25 milhões, na época o negócio mais caro já feito pelos Ches. E seria uma face importante num momento de reformulação do elenco. Os valencianos não viveram as mesmas glórias da primeira metade da década, em que conquistaram duas vezes La Liga e disputaram duas finais de Champions. Mesmo assim, aquela geração renovou a galeria de troféus ao faturar a Copa do Rei em 2007/08, depois de nove anos sem levar o torneio – em taça que, depois, seria repetida apenas em 2018/19.
Era um Valencia muito forte no papel, especialmente por misturar gerações. Rubén Baraja e Carlos Marchena eram símbolos de outrora, que se combinavam a jovens como Raúl Albiol, David Silva, Juan Mata e David Villa. Outros como Timo Hildebrand, Edu Gaspar, Éver Banega, Fernando Morientes e Nikola Zigic davam ainda mais força aos Ches, dirigidos por Ronald Koeman. Joaquín foi titular em quase todos os jogos de uma duríssima campanha.
Depois de eliminar o Real Unión, o Valencia tirou o próprio Betis, com duas vitórias nas oitavas. Joaquín seria o carrasco de seu clube do coração, com grande atuação na partida de ida, com os 2 a 1 no Estádio Benito Villamarín. Improvisado como centroavante por causa dos desfalques, o andaluz marcou ambos os gols de cabeça e teve comemorações contidas diante de sua torcida. Depois, os valencianos seriam algozes do Atlético de Madrid nas quartas, graças aos gols fora. Já o grande feito ocorreu na semifinal, diante do Barcelona, com um imponente triunfo por 3 a 2 no Mestalla. Assim, o ascendente Getafe dirigido por Michael Laudrup nem era a maior preocupação em nova final no Calderón.
A única partida que Joaquín não disputou na Copa do Rei de 2007/08 foi exatamente a final. Koeman optou por Javier Arizmendi na ponta direita e o camisa 17 sequer deixou o banco de reservas. Viu seus companheiros resolverem a parada logo cedo. Mata e Alexis anotaram os dois primeiros gols do Valencia com 11 minutos. O Getafe descontou no fim do primeiro tempo, num pênalti convertido por Esteban Granero, mas Morientes fechou a contagem de peixinho já no final. Aquele troféu antecedeu um desmanche dos valencianos, em meio a problemas financeiros que fizeram os talentos buscarem novos rumos.
Joaquín seria uma das estrelas no endinheirado projeto do Málaga e depois teve uma breve passagem pela Fiorentina. Seu retorno ao Betis aconteceu em 2015, num período no qual reafirma seu status como lenda dos verdiblancos. Foram boas campanhas em La Liga neste ínterim e também algumas aparições na Liga Europa. Chance de título, mesmo, vem com o retorno do clube a uma final da Copa do Rei depois de 17 anos. A chance de emendar os laços e dar um passo a mais para a eternidade. Mesmo sem ser titular na equipe de Manuel Pellegrini, o camisa 17 é uma enorme liderança. Teve inclusive seus lampejos nas fases iniciais do torneio, com gols diante de Independiente Alicante e Talavera, embora acabasse restrito a poucos minutos na sequência de uma campanha que deixou pelo caminho Valladolid, Sevilla, Real Sociedad e Rayo Vallecano.
“É um privilégio estar aqui, tenho orgulho de ter conquistado a final pelo Valencia e o dobro de orgulho por estar em outra decisão com o time que me viu nascer. É o trabalho de muitos anos. Não é fácil disputar finais no momento da minha carreira. Vai ser importante para marcar muitas coisas e tratarei de desfrutar o momento”, declarou Joaquín, na coletiva de imprensa antes da final. “Meus companheiros sabem, de alguma maneira, o que pode significar ganhar um título em Sevilha. Durante esses dias mostramos vídeos. Podem imaginar, mas viver é outra coisa. Eu pude ganhar em 2005 e o que você tenta transmitir é que os torcedores em La Cartuja vão nos apoiar até o final, isso é o mais importante”.
Joaquín ainda não definiu sua situação para a próxima temporada e, com o fim de seu contrato, a tendência atual é que se despeça da carreira profissional aos 40 anos. A Copa do Rei, assim, chega em boa hora. O capitão deverá começar no banco de reservas, mas Pellegrini tende a conceder uma chance de que entre no decorrer da partida. Sua coroação como a maior figura da história do Betis poderá ocorrer, mais uma vez, com a taça nas mãos.



