Espanha

Cazorla seguiu o coração para retornar ao Oviedo ganhando o salário mínimo

Após recuperar a sua carreira e ganhar uma grana no Catar, Cazorla defenderá o clube do seu coração na segunda divisão espanhola

Santi Cazorla passou 636 dias sem jogar futebol profissional, recuperando-se de várias lesões no pé que ameaçaram sua carreira. E ainda não está disposto a fechar a lojinha. Após três anos defendendo o Al Sadd, do Catar, o veterano decidiu retornar para onde tudo começou e tentará ajudar o Oviedo a conseguir o acesso à primeira divisão na próxima temporada.

A trajetória de Cazorla

O asturiano nasceu em Llanera, nos arredores de Oviedo, e fez categorias de base no clube. Foi embora em 2003 para o Villarreal, que serviu de plataforma para que apresentasse ao mundo as mágicas que consegue fazer com a bola. Passou sete temporadas defendendo o Submarino Amarelo, intercaladas por uma breve passagem pelo Recreativo Huelva. Participou do vice-campeonato espanhol de 2007/08 que o impulsionou à seleção espanhola, com a qual venceria a Eurocopa.

Em 2011, chegou ao projeto milionário do Málaga, mas ficou apenas um ano antes de ser vendido ao Arsenal, pouco depois de ser bicampeão europeu pela Espanha. Foi um jogador importante da reta final do trabalho de Arsène Wenger, brilhante nas assistências, mas também artilheiro, como em 2012/13, quando marcou 12 gols na Premier League. O divisor de águas foi em outubro de 2016, quando fez sua última partida oficial antes de um calvário de quase dois anos.

Cazorla precisou operar o tendão da zona plantar do pé direito. A ferida, porém, não queria fechar e ele teve que retornar ao médico repetidas vezes para tratá-la. A gravidade da infecção foi percebida quando retornou à Espanha para seguir a reabilitação. Ela danificou o osso do calcanhar e, segundo ele, a infecção levou oito centímetros do seu tendão de Aquiles. Tomou antibióticos para combater a doença e reconstruiu o tendão, fazendo um transplante da pele do antebraço.

Nesse cenário, quando retornou ao Villarreal, em 2018, o clima era de cautela. Avaliar quais eram suas condições antes de falar em voltar ao futebol profissional. Em julho daquele ano, Cazorla disputou 15 minutos de um amistoso de pré-temporada contra o Hércules que já pareciam uma vitória. Mas faria muito mais: o jogador que correu o risco de ter a perna amputada disputou 35 rodadas de La Liga em cada um dos próximos dois anos e esteve entre os líderes de assistência – 10 na primeira temporada, nove na segunda.

O Submarino Amarelo foi quinto colocado em 2019/20, completando a redenção de Cazorla, que também incluiu um breve retorno à seleção espanhola. Após provar que conseguiu retornar ao alto nível, o veterano aceitou uma proposta para ganhar uma graninha no Catar, onde estava desde 2023. Em três anos, disputou 96 partidas pelo Al Sadd, aproximadamente 30 por temporada, então ainda deve ter gasolina no tanque para ajudar o Oviedo.

Cazorla ganhará salário mínimo

O Oviedo foi figurinha carimbada de La Liga nos anos noventa, quando chegou a ser treinado por Óscar Tabárez e Luis Aragonés. A queda em 2000/01 nunca foi revertida. O clube asturiano passou mais de uma década entre a terceira e a quarta divisão antes de retornar à Segundona em 2015/16 e colecionar tentativas mal sucedidas de promoção. O seu trunfo para a próxima é ter um jogador com o talento de Cazorla pelo menor salário possível.

Cazorla, 38 anos, receberá um salário mínimo para participar da campanha de 2023/24 do Oviedo. Segundo o AS, isso significa € 93 mil – no total. Além disso, cedeu todos os seus direitos de imagem ao clube com a condição de que 10% da venda de camisetas com seu nome seja direcionado integralmente para investimentos nas categorias de base.

– Quando você tem um sonho, tem que cumpri-lo, acima de todas as coisas. Quando eu era um garoto de nove anos, tinha o sonho de jogar na minha cidade, com meu povo e minha família. Eu tinha o objetivo de cumpri-lo e é um desafio que tenho que aceitar. Quero viver a experiência e estar com meu povo. Foi uma decisão muito fácil nesse sentido. Muita gente pode pensar que tenho muito a perder e nada a ganhar, mas para mim é o contrário – disse.

O Oviedo nem chegou a bater na trave nesse período de segunda divisão. As melhores campanhas foram em sétimo lugar (duas vezes), imediatamente abaixo da zona dos playoffs. O resto variou entre o oitavo e o nono lugar, com algumas apresentações até piores. Mas quem sabe consiga ser impulsionado pelo retorno de um ídolo. Cazorla já conseguiu coisa mais difícil em sua vida.

Foto de Bruno Bonsanti

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.
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