Como Barcelona supera temporada de equilíbrio defensivo em LaLiga com melhor ataque da Europa
Campeonato espanhol apresenta equilíbrio incomum na defesa -- Barça, porém, abriu vantagem por produzir em uma escala além do normal
A classificação de LaLiga ajuda a explicar por que a campanha do Barcelona parece tão impressionante neste início de temporada. Depois de sete rodadas, o líder tem a mesma quantidade de gols sofridos que Atlético de Madrid, Betis e Getafe — seu adversário deste sábado (10): sete. E há três equipes que fizeram ainda melhor: Alavés, Athletic Bilbao e Celta sofreram apenas seis.
Ou seja, a diferença entre o Barcelona e boa parte dos adversários não está na quantidade de vezes que cada defesa é vazada. Mas o Barça venceu as sete partidas que disputou e marcou 31 gols. O Atlético, segundo colocado, fez 16, o Real Madrid, 18. LaLiga começou a temporada com um nível de equilíbrio defensivo bastante curioso, e o Barcelona encontrou uma forma de transformar cada pequeno espaço em uma oportunidade para marcar.
É esse contraste que torna o jogo contra o Getafe interessante. José Bordalás comanda uma das equipes que representam melhor a primeira metade dessa história: o Getafe sofreu apenas sete gols, mas marcou quatro em sete partidas. O Barcelona marcou quase oito vezes mais. O encontro no Camp Nou coloca frente a frente uma das estruturas defensivas mais resistentes do campeonato e o ataque que está produzindo em uma escala completamente diferente do restante da competição.
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LaLiga descobriu que é possível defender sem estar entre os gigantes
Os números defensivos não pertencem apenas aos candidatos tradicionais ao título. Atlético de Madrid e Betis estão entre os quatro primeiros, mas Alavés, Bilbao e Celta mostram que a capacidade de reduzir gols sofridos não depende necessariamente de dominar a bola ou possuir um elenco de elite.
O Alavés, por exemplo, tem uma das estruturas mais conservadoras da competição. Quique Sánchez Flores utiliza uma base de 4-4-2 e prioriza organização defensiva, bloco baixo, baixo risco na construção e aproveitamento de bolas paradas. O time sofreu seis gols em sete jogos, mesmo tendo apenas 42,1% de posse de bola, uma demonstração de que sua estratégia não passa por controlar o adversário através da bola, mas por reduzir o espaço que o adversário tem para atacar.
O Athletic é talvez o caso mais interessante porque não precisa seguir o mesmo caminho. Edin Terzic assumiu o clube prometendo preservar sua identidade e colocou a disciplina como uma das bases do trabalho. O Athletic utiliza uma linha defensiva relativamente alta, mas mostrou contra o Barcelona, por exemplo, que consegue baixá-la quando necessário para reduzir a profundidade. É uma defesa que tenta controlar o espaço sem transformar cada partida em um exercício de resistência dentro da própria área.
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E há o Getafe. Bordalás é talvez o exemplo mais conhecido dessa escola de futebol na Espanha: uma equipe compacta, agressiva, física e confortável em reduzir o espaço disponível para o adversário. O Getafe combina bloco defensivo, duelos individuais e pressão em determinados momentos para transformar partidas em jogos de poucos gols.
O Alavés pode sofrer poucos gols e ainda estar fora da briga pelo título. O Celta pode ter a terceira melhor defesa e ocupar apenas o 14º lugar. O Athletic pode ter sofrido seis gols e estar no meio da tabela. A defesa permite que esses times permaneçam competitivos, mas não necessariamente cria a vantagem necessária para vencer jogos em sequência.
O Barcelona faz outra coisa. Ele também sofre pouco, mas possui um ataque capaz de transformar a mesma partida equilibrada em uma goleada.
O Barcelona tem um ataque que cria volume em escala absurda
Os números do Barcelona ajudam a dimensionar o tamanho da diferença. São 31 gols em sete partidas, média de 4,43 por jogo. O time também lidera LaLiga em expectativa de gols, com 28,57 xG, média de 4,08 por partida. Ou seja, não é uma equipe que simplesmente marcou muito acima daquilo que produz: a quantidade de gols acompanha uma produção ofensiva gigantesca.
Existe uma diferença entre ser eficiente e criar chances suficientes para tornar a eficiência quase inevitável. O Barcelona está fazendo a segunda coisa. A equipe de Hansi Flick finaliza muito, chega repetidamente à área e mantém o adversário sob pressão durante longos períodos.
São 150 finalizações em sete rodadas, 58 delas no alvo, enquanto a posse média chega a 68,7%. Mais do que manter a bola, porém, o Barcelona está usando a posse para colocar jogadores em zonas de finalização. O time já soma 303 toques na área adversária, número que ajuda a explicar por que sua produção de gols é tão diferente da dos concorrentes.
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Lamine Yamal continua sendo uma ameaça individual pelo lado direito. O espanhol tem sete gols e quatro assistências em sete partidas, com 38 finalizações e 71 toques dentro da área. Mas o Barcelona não depende mais exclusivamente dele para criar desequilíbrio. Raphinha começou a temporada funcionando como atacante, referência móvel e capaz de aparecer entre os zagueiros. O brasileiro já marcou 12 gols e deu três assistências em sete partidas.
A consequência tática é que o Barcelona consegue atacar o adversário por mais de uma lógica ao mesmo tempo. Quando Raphinha ocupa a região central, os zagueiros precisam decidir se acompanham sua movimentação ou preservam a posição. Se saem, aparecem espaços para infiltrações, se permanecem, Raphinha recebe em zonas perigosas.
Yamal, aberto pela direita, pode então receber em situações de um contra um. Do outro lado, a velocidade e a capacidade de atacar profundidade de jogadores como Anthony Gordon e Karim Adeyemi aumentam a largura e impedem que a defesa adversária simplesmente estreite o bloco para cercar os dois principais craques.
É uma diferença importante em relação ao Barcelona de temporadas anteriores. O time ainda possui um jogador capaz de destruir uma defesa individualmente, mas agora tem diferentes maneiras de chegar ao gol. A bola pode circular por dentro, encontrar Yamal no corredor, procurar Raphinha entre os zagueiros ou atacar imediatamente o espaço após uma recuperação alta.
A própria estrutura defensiva contribui para isso. O Barcelona não precisa escolher entre atacar com muitos jogadores e se proteger com muitos jogadores porque sua pressão pós-perda permite que boa parte da equipe permaneça adiantada.
Isso explica também por que os números defensivos são tão bons. A defesa não está simplesmente sobrevivendo enquanto o ataque compensa seus erros. O time está concedendo pouco e criando muito. Essa combinação é o motivo para o Barcelona estar sete pontos à frente do quarto colocado depois de sete rodadas.
O Getafe é o teste que explica por que o Barça está na frente
O jogo de sábado pode ser um experimento sobre essa diferença. O Getafe chega ao Camp Nou com a mesma quantidade de gols sofridos que o Barcelona e com uma proposta oposta à do líder. O time de Bordalás marcou quatro gols em sete partidas e tem apenas 42,7% de posse média.
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O desafio será descobrir se uma defesa que consegue limitar o volume da maioria dos adversários consegue sobreviver quando o adversário não precisa de muitas situações para transformar uma partida.
Contra um time que produz pouco, defender bem significa muitas vezes impedir a primeira grande oportunidade. Contra o Barcelona, isso não basta. É preciso impedir a segunda, a terceira, a quarta e, principalmente, controlar as diferentes maneiras pelas quais o adversário consegue produzir essas oportunidades.
Se o Getafe recuar demais, corre o risco de entregar ao Barcelona exatamente aquilo que Flick mais gosta: posse longa, circulação próxima à área, laterais avançados, Yamal recebendo no um contra um e Raphinha ocupando os zagueiros por dentro. Se subir a pressão, abre o espaço atrás da última linha para um ataque que tem velocidade suficiente para atacar imediatamente. Se tentar perseguir individualmente, pode criar buracos entre setores.
A equipe não precisa enfrentar uma defesa adversária ruim, apenas encontrar uma pequena desorganização em uma defesa boa. E, com tantos jogadores capazes de atacar espaços diferentes, essa pequena desorganização pode ser suficiente. As defesas parecem ter se aproximado, mas o Barcelona conseguiu tornar o ataque uma vantagem ainda maior.
Talvez seja cedo demais para transformar sete rodadas em sentença sobre o campeonato. O próprio Barcelona terá pela frente adversários mais fortes, períodos de lesões e um calendário europeu cada vez mais pesado. O Getafe, por sua vez, pode provar no sábado que uma estrutura defensiva bem organizada é capaz de reduzir até mesmo a máquina ofensiva de Flick.
Mas, até aqui, o Barcelona encontrou a combinação que todo candidato ao título procura: não precisa ter a melhor defesa do campeonato para ser difícil de vencer, porque consegue produzir no ataque em uma escala que torna quase impossível acompanhar seu ritmo.