Espanha

Julián Alvarez e Gordon: Como é a engenharia por trás dos milhões do Barcelona no mercado?

Nova estrutura financeira permite ambição no mercado, embora fantasmas da crise ainda rondem Camp Nou

Mesmo mergulhado em uma crise financeira que parecia sem solução há poucos anos, o Barcelona voltou a agir no mercado como protagonista. A contratação de Anthony Gordon junto ao Newcastle, fechada por cerca de 70 milhões de euros fixos mais 10 milhões em bônus, e o interesse pesado em Julián Alvarez — alvo de uma possível investida de 100 milhões de euros, segundo o “The Athletic” — levantam uma pergunta inevitável: afinal, o que mudou nas finanças do clube catalão?

A resposta passa por uma combinação de fatores: aumento de receitas, renegociação de contratos, venda de ativos, melhora gradual no controle salarial e uma relação menos sufocante com as regras de fair play financeiro de LaLiga. Ainda assim, o cenário está longe de ser confortável.

O Barcelona recuperou capacidade de investimento, mas continua operando em um limite delicado.

O clube passou os últimos anos tentando reconstruir sua estrutura financeira após o colapso herdado da reta final da gestão de Josep Maria Bartomeu. A equipe blaugrana acumulou salários inflacionados, contratos longos e uma dívida que ultrapassou a casa do bilhão de euros. O ápice da crise veio em 2021, quando Lionel Messi deixou o clube porque a diretoria simplesmente não conseguia registrá-lo dentro das regras impostas por LaLiga.

Desde então, a gestão de Joan Laporta iniciou uma operação de sobrevivência. O clube vendeu percentuais de direitos televisivos futuros, negociou ativos ligados à Barça Studios, buscou novos patrocinadores e reduziu custos salariais. Foram as chamadas “alavancas financeiras”, mecanismos usados para gerar caixa imediato e recuperar margem dentro do limite imposto pela liga espanhola.

O que é a regra 1:1 e por que ela mudou o cenário do Barcelona?

Joan Laporta, presidente do Barcelona
Joan Laporta, presidente do Barcelona (Foto: Javier Borrego / ZUMA Press Wire / Imago)

A grande virada recente do Barcelona está diretamente ligada ao chamado modelo 1:1 de LaLiga. O fair play financeiro espanhol funciona de maneira diferente da Premier League, por exemplo. Não basta ter dinheiro para contratar: o clube precisa provar que consegue sustentar aquele custo dentro do limite salarial autorizado pela liga.

Nos últimos anos, o Barcelona esteve submetido à chamada regra do 1:4. Na prática, isso significava que, para cada quatro euros economizados em salários ou arrecadados em vendas, apenas um euro poderia ser usado para registrar novos atletas. Era um mecanismo punitivo aplicado a clubes que extrapolavam seus limites financeiros.

Isso travava completamente o mercado do Barça. O clube até conseguia fechar negociações, mas não tinha espaço suficiente para inscrever jogadores.

Agora, a situação mudou parcialmente. Com aumento de receitas comerciais, redução gradual da folha salarial — Robert Lewandowski, por exemplo, está deixando o time — e melhora nos balanços financeiros, o Barcelona voltou a operar mais próximo da regra 1:1. Nesse modelo, cada euro economizado ou arrecadado pode ser reinvestido integralmente no elenco.

É justamente isso que devolveu margem de manobra à instituição no mercado.

A diretoria também passou a trabalhar melhor a engenharia financeira das contratações. A chegada de Anthony Gordon ajuda a explicar esse mecanismo. Embora a operação possa ultrapassar os 80 milhões de euros com bônus, o impacto no fair play financeiro não entra integralmente de uma só vez nas contas de LaLiga.

Isso acontece porque o valor da transferência é contabilizado por meio de amortização ao longo do contrato do jogador. Em um vínculo de cinco temporadas, por exemplo, uma compra de 70 milhões de euros representa um custo contábil anual de aproximadamente 14 milhões, além dos salários e bônus previstos no acordo.

Na prática, isso ajuda clubes como o Barcelona a encaixarem contratações de alto valor dentro das regras financeiras da liga espanhola, mesmo sem desembolsar imediatamente todo o peso da operação no cálculo anual do limite salarial.

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Caso Dani Olmo expôs os limites da recuperação financeira blaugrana

Dani Olmo em ação pelo Barcelona
Dani Olmo em ação pelo Barcelona (Foto: Ivan Terron / ZUMA Press Wire / Imago)

Apesar da melhora recente, o Barcelona ainda convive com sinais claros de fragilidade financeira. E o exemplo mais emblemático aconteceu justamente entre o fim de 2024 e o início de 2025, com Dani Olmo.

Contratado como reforço importante para o meio-campo, o espanhol viveu um cenário constrangedor. O Barcelona teve dificuldades para registrar o jogador por causa das limitações impostas pelo fair play financeiro de LaLiga. O clube precisou correr contra o tempo, reorganizar receitas e buscar soluções emergenciais para conseguir encaixar Olmo dentro do limite salarial permitido.

Durante semanas, o temor interno era real: existia a possibilidade de o atleta não poder atuar oficialmente até que o clube encontrasse espaço financeiro suficiente.

O caso virou símbolo do momento delicado vivido pela instituição. Afinal, o Barça continuava capaz de convencer jogadores de elite a assinar contratos, mas ainda enfrentava obstáculos para registrá-los formalmente na competição.

Por isso, embora o discurso atual seja mais otimista, existe cautela dentro e fora da Espanha. A instituição melhorou sua capacidade operacional, mas continua dependendo de um equilíbrio sensível entre receitas futuras, desempenho esportivo e controle salarial.

Recuperação real ou risco empurrado para frente?

Jogadores do Barcelona celebram título de LaLiga 2025/26
Jogadores do Barcelona celebram título de LaLiga 2025/26 (Foto: Irina R. Hipolito / ZUMA Press Wire / Imago)

A dúvida que acompanha o Barcelona hoje é justamente essa. O clube está financeiramente recuperado ou apenas adiando problemas maiores?

As alavancas financeiras ajudaram a reconstruir competitividade, mas também anteciparam receitas que seriam utilizadas nos próximos anos. Em outras palavras, o Barça trocou parte do seu futuro por fôlego imediato.

Isso permitiu voltar ao mercado de maneira agressiva, contratar jogadores importantes e recolocar o time em um patamar competitivo europeu. Por outro lado, aumentou a dependência de sucesso esportivo e crescimento constante de receitas.

Uma eliminação precoce na Champions League, por exemplo, pode gerar impacto significativo nas contas. O mesmo vale para quedas de arrecadação comercial ou novos problemas relacionados ao teto salarial de LaLiga.

A contratação de Anthony Gordon e a possível ofensiva por Julián Alvarez mostram um Barcelona novamente ambicioso e ativo no mercado. Mas também evidenciam que o clube segue apostando em um modelo de risco calculado para acelerar sua reconstrução esportiva sem perder de vista as limitações impostas pelo fair play financeiro.

Foto de Guilherme Calvano

Guilherme CalvanoRedator

Jornalista pela UNESA, nascido e criado no Rio de Janeiro. Cobriu o Flamengo no Coluna do Fla e o Chelsea no Blues of Stamford. Na Trivela, é redator e escreve sobre futebol brasileiro e internacional.

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