Após Ancelotti e Alonso, Arbeloa aposta em outro caminho em relação à base do Real Madrid
Técnico espanhol, vindo de categorias inferiores dos Merengues, aproveita conhecimento dos jovens do clube para ganhar alternativas
Álvaro Arbeloa tem tido alguns méritos notáveis desde que assumiu o Real Madrid, substituindo Xabi Alonso em janeiro passado. O maior deles ter potencializado Vinicius Júnior, que, após má fase, soma 11 gols e duas assistências com o novo técnico. Federico Valverde, com novas facetas, também mais goleador, é outra notícia positiva.
O desempenho dos dois, porém, não é uma novidade. São ótimos jogadores que já tiveram boas fases antes.
Algo realmente inédito do treinador espanhol está em como utiliza as categorias de base do clube base, algo que nem seu antecessor nem Carlo Ancelotti, comandante dos Merengues entre 2021 e 2025, fizeram.
E não poderia ser diferente. Arbeloa tem toda sua trajetória à beira do campo ligada a “La Fábrica“, como é conhecida a formação madrilenha. Desde 2020, passou pelo time infantil, juvenil e comandava o Real Madrid Castilla, a equipe B que disputa a terceira divisão local, antes do chamado para o time principal.
Quando ele chegou, não teve receio de falar: “A base do Real Madrid é a melhor do mundo“. “Isso vem sendo demonstrado há muitos anos. Há jogadores formados em La Fábrica espalhados por todo o mundo. Tive a sorte de treinar muitos jogadores ao longo desses anos, e eles me trouxeram até aqui”, completou.
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Arbeloa usou 8 jovens da base do Real Madrid e um já virou pilar do time
Ancelotti sempre foi muito conservador na utilização de jovens da base. Foram poucos os jogadores que, durante seus quatro anos, se consolidaram no time profissional. Talvez o único tenha sido Raúl Asencio, zagueiro que ganhou minutos a partir de um caminhão de lesões na defesa.
Alonso, em seis meses, até conseguiu deixar o legado do atacante Gonzalo García, que marcou muitos gols na Copa do Mundo de Clubes e até impactou no empréstimo de Endrick ao Lyon. Mas parou por aí.
Em menos de 90 dias, Arbeloa utilizou oito garotos diferentes de La Fábrica, sendo cinco estreantes e outros que quase não tinham minutos pelo time principal.
O auge da utilização desses jovens veio na vitória por 4 a 1 sobre o Elche, quando, cheio de lesões no elenco, colocou no segundo tempo quatro jovens: Daniel Yañez (19 anos), que deu uma assistência, Diego Aguado (19), Manuel Ángel (22) — este, tratado como a maior joia — e César Palacios (21). A média de idade do time que acabou a partida estava abaixo dos 24 anos.
— Posso morrer tranquilo após uma noite como hoje. Yáñez e Aguado são os primeiros que treinei com 13/14 anos. Poder dar a eles uma chance no Bernabéu significa algo indescritível. É uma notícia fantástica. Estou muito feliz. É um dia para recordar. Levaram uma grande ovação no vestiário — disse o técnico.
Nenhum deles, porém, se destacou tanto como Thiago Pitarch. O jovem meia de 18 anos estreou com Arbeloa logo na ida e volta dos playoffs da Champions League, saindo do banco de reservas em ambas. A partir da partida com o Getafe, no começo de março, ganhou a titularidade e emplacou mais cinco jogos iniciando entre os 11, aproveitando as ausências de Eduardo Camavinga, Jude Bellingham e Dani Ceballos.
O meia começou como um meia à esquerda e não empolgava. Quando passou a ser dupla de Aurélien Tchouaméni, à direita, conseguiu influenciar mais na saída de jogo do Madrid e passou a se destacar, sendo peça importante nas duas vitórias sobre o Manchester City nas oitavas da maior competição europeia. Seu nível tem sido tão bom que Camavinga ficou na reserva mesmo 100%.
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Fica a dúvida se Pitarch continuará titular, afinal, Bellingham retornou de lesão. “Tê-lo de volta é uma excelente notícia e a atuação de Thiago também. É um ótimo problema ter que escolher entre grandes jogadores, e o melhor de tudo é que eles podem jogar juntos“, disse o técnico espanhol sobre a dúvida.
Os garotos de La Fábrica usados por Álvaro Arbeloa no Real Madrid
- Thiago Pitarch (430 minutos com o técnico)*
- David Jiménez (243)
- Jorge Cestero (114)*
- César Palácios (70)*
- Manuel Ángel (62)*
- Daniel Yáñez (32)
- Diego Aguado (29)
- Daniel Mesonero (7)*
*Estrearam com Arbeloa
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Por que Arbeloa tem usado tanto a base?
O elenco curto graças às lesões, que já chegaram a atingir quase dez jogadores ao mesmo tempo, forçou Arbeloa a recorrer à base para emplacar a boa sequência atual de cinco vitórias seguidas. Isso, porém, já aconteceu em momentos anteriores e nem Ancelotti nem Alonso optaram por esse caminho.
O treinador de 43 anos argumenta que o conhecimento de sua filosofia pelos jovens contribui para essa utilização. “Os jogadores da base têm ainda mais facilidade para entender o que quero deles e o que quero que façam em campo, porque nos conhecemos muito bem, trabalhamos juntos há muito tempo”, disse em 1º de março.
— Não é fácil para um treinador do Real Madrid confiar na base, mas se faço isso é porque estou convencido de que eles podem fazer muito bem. Confio muito neles e têm muito talento.
Arbeloa quebra um ciclo de pouca utilização de jovens formados no clube que marca o Real Madrid nos últimos anos, enquanto o rival Barcelona ostenta que La Masia, sua base, é a melhor do mundo e evita que os catalães invistam em um reforço de peso, podendo usar um garoto para preencher essa função — o time “ideal” do Barça agora tem seis jogadores com passagens por La Masia.
O que se vê muito na Espanha são garotos formados por La Fábrica que, sem espaço no time estrelado dos Merengues, brilham em outros clubes. Achraf Hakimi, melhor lateral-direito do mundo, do PSG, é cria do Real, assim como Nico Paz, que brilha no Como neste momento, e Victor Munoz, convocado pela seleção espanhola pelo bom nível no Osasuna. No caso dos dois últimos, o clube mantém uma cláusula de recompra.
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Há exemplos até no elenco atual, como Fran García, que se destacou no Rayo Vallecano e voltou aos gigantes de Madri, e Álvaro Carreras, vindo do Benfica por 50 milhões de euros.
Pitarch e companhia ganham comparação com grupo histórico do Real
A imprensa de Madri, como sempre, se empolga ao ver tantos jovens atuando pelo Madrid. Há matéria no jornal “Marca” que chama o quinteto formado por Pitarch, Yañez, Aguado, Manuel Ángel e César Palacios de “Quinta del Thiago Pitarch“.
A homenagem é uma referência à “Quinta del Buitre“, formada nos anos 80 por Emilio Butragueño, Míchel, Rafael Martín Vázquez, Manolo Sanchís e Miguel Pardeza, revelados pelo Real Madrid e a base do time que seria pentacampeão de LaLiga consecutivo (1985-1990), além de vencedor de duas Copas da Uefa (atual Liga Europa).
A nomenclatura, porém, só veio graças ao próprio Arbeloa, que relembrou a época de Buitre após o jogo com o Elche. Butragueño, inclusive, segue nos Merengues, agora como presidente do conselho do clube.
— [A partida] Me lembrou quase o Real Madrid da Quinta del Buitre. Tenho certeza de que Emilio, que estava no camarote, estará muito orgulhoso do que viu hoje. Muito feliz por vê-los jogar e pela forma como fizeram isso. Não é fácil demonstrar tanta personalidade, o esforço que colocam, o talento que têm dentro, a alma — disse.
— Tenho certeza de que o Bernabéu aproveitou muito vendo um Real Madrid cheio de jogadores da base com talento, e é um dia para ser lembrado por todo o madridismo.
O impacto da geração de Butragueño não pode ser comparado, afinal, pelo dinheiro que o clube investe, há pouco espaço para que os jovens atuais sejam pilares como aqueles dos anos 80. Mas é interessante ver como Arbeloa mexeu em algo que parecia tão consolidado no Santiago Bernabéu e ganhou alternativas para o restante da temporada.