A uma geração que se acostumou a ligar a televisão no domingo de manhã para assistir às transmissões esportivas, Madjer se transformou em sinônimo do futebol de areia. O atacante alto e habilidoso da seleção portuguesa era um antagonista de peso ao domínio brasileiro na modalidade. Acumulou títulos e premiações, à medida em que se eternizava como uma verdadeira lenda das areias. E, aos 42 anos, Madjer teve uma despedida à altura da carreira que construiu: sem conter a emoção, liderou os lusitanos em mais um título mundial.

Madjer figura entre os primeiros colocados de qualquer lista com os melhores jogadores da história do futebol de areia. E, para não cair no risco de patriotadas, possivelmente é o melhor da modalidade a não ter nascido no Brasil. Foram 21 anos de seleção, quase sempre como o grande craque. Superou os mil gols pela equipe nacional e, apenas em Mundiais, foram 140 tentos.

Nascido em Luanda, João Victor Saraiva seguiu a Portugal ainda bebê. Chegou a integrar a base do Estoril-Praia e por lá ganhou o apelido famoso. Por seu estilo de jogo classudo e muito técnico, passou a ser comparado com Rabah Madjer, herói do Porto campeão europeu em 1987. Pegou. E a transição para as areias aconteceria meio por acaso, depois de um grave acidente de moto quando tinha 17 anos, que deixou 80 pontos em sua perna.

Após dois anos parado, Madjer recebeu um convite para tentar a sorte no futebol de praia e, mesmo resistindo um pouco à ideia, não demorou a deslanchar. Sua chegada à seleção da modalidade aconteceu pelas mãos do técnico João Barnabé, que também lançou Luís Figo como profissional no Sporting. Caso vingasse nos gramados, onde até chegou a fazer testes posteriores, certamente teria mais dinheiro, mesmo se não se tornasse um craque. Nas areias, porém, o atacante se consagrou de uma forma que dificilmente aconteceria com chuteiras: como um gigante, de gols inacreditáveis e puro talento.

Esta foi a 15ª participação de Madjer em uma Copa do Mundo de Futebol de Areia, ausente em apenas uma edição desde 1998. Em 2001, o atacante ajudou a quebrar a hegemonia do Brasil na modalidade. Ao lado de Hernâni e Alan, levou Portugal ao título na Costa do Sauípe. Já depois que a Fifa passou a chancelar o torneio, também foi essencial à conquista de 2015, em cima do Taiti. O ídolo acumula 11 premiações individuais na história do Mundial, incluindo três artilharias e dois prêmios de melhor jogador.

Já nesta Copa do Mundo, Madjer contribuiu mais por sua experiência. Durante a fase de grupos, marcou o seu único gol, contra a Nigéria, em chave na qual o Brasil superou Portugal para ficar com a primeira colocação. O chaveamento dos mata-matas não foi muito bom aos brasileiros, eliminados pela então campeã Rússia nas quartas de final. Já os portugueses cumpriram sua missão, derrotando Senegal. Nas semifinais, o Japão não conseguiu surpreender a Seleção das Quinas. Após empate por 3 a 3, Portugal venceu nos pênaltis, com Madjer abrindo a contagem na disputa. Até que, neste domingo, a taça voltasse aos lusitanos após quatro anos. Estrelados por Jordan Santos, atual melhor do mundo, os ibéricos venceram a Itália por 6 a 4 e confirmaram o tricampeonato.

Dono da braçadeira de capitão, Madjer ergueu a taça. E caiu em lágrimas desde o apito final, desabando ao agradecer o apoio dos portugueses ao longo de sua carreira. Ao mencionar que era o seu último jogo, não controlou o choro e foi muito aplaudido pelos presentes. Demonstrou um pouco mais a grandeza de quem fez a história do futebol de areia e ajudou a levar a modalidade a um novo patamar.

“As minhas lágrimas significam um orgulho imenso em ser português em todos os momentos, e não só naqueles em que estamos ‘por cima’. Só nós sabemos o que sofremos para conquistar estes títulos. São lágrimas de despedida, uma despedida orgulhosa deste grupo e desta família. Fiz parte de um capítulo maravilhoso desta modalidade. Pertenci a grupos fantásticos, fui treinado por pessoas incríveis, que me ajudaram a crescer – não só em termos esportivos, mas humanos também. Saio do futebol de praia como um homem realizado e com vários exemplos para a minha vida”, declarou, ao site da federação portuguesa. A gratidão do futebol de areia a tudo o que Madjer construiu é ainda maior.