Critério de Desempate

Um texto sem números sobre números no futebol: Parte 5 – As transformações no jogo

No quinto texto da série sobre estatísticas no futebol, Rodrigo Salvador fala nas transformações no jogo - com o uso de estatísticas e modelos matemáticos e também por causa dele

Leovegildo Lins da Gama Junior, o Junior, o Vovô Garoto, foi perguntado sobre qual a principal contribuição da tecnologia ao futebol. Não fui eu quem perguntou, quem me dera um dia a honra de conhecer essa fera. Eu ouvi essa história ano passado, em um workshop da CBF sobre Ciência de Dados. E né, uma coisa sou eu, analista de dados, dar a minha visão sobre isso. Outra é um jogador de alto nível, que viveu uma época de futebol sem nada de tecnologia. Para o Junior, o principal benefício é algo que eu nem sequer tinha considerado até então: menos lesões.

Aquele era exatamente o momento em que eu pensava sobre as possíveis transformações que a ciência de dados tem a oferecer ao futebol. Entre possíveis mudanças que eu imagino ver no jogo a partir destes modelos matemáticos, alguns campos se destacam.

O primeiro é no campo da fisioterapia, como bem destacou o Junior. A aptidão física dos atletas e os cuidados médicos são campos que já fazem extensivo uso de análises de dados. Podemos até dizer que é algo consolidado, mas não há muito tempo: os dispositivos vestíveis, ou os populares sutiãs, só foram certificados para o futebol na metade da década passada. Antes disso, o “eu aguento” do(a) atleta ainda tinha um peso muito grande na decisão entre poupá-lo(a) ou não.

No jogo em si, aspectos técnicos vão aparecer bastante. A partir de bases de eventos, nas quais tudo o que acontece com a bola é registrado, a avaliação dos jogadores pode mudar. Por exemplo, pensa no que é uma assistência. Basicamente, um passe para gol. Se a Formiga passa de lado para Marta no meio do campo, ela dribla meio time e marca o gol, é assistência. Agora, se a Marta arranca do meio, dribla meio time e lá na área deixa a Debinha de cara pro gol aberto, é assistência também.

Mas essas assistências precisam, de alguma forma, pesar diferente na avaliação do desempenho. Isso fica ainda mais importante se, no exemplo anterior, a Debinha perde o gol. A Marta acaba punida no relatório do jogo, apesar de ter superado a expectativa. Aqui eu uso exemplos extremos, mas a ideia principal é ter esse tipo de informação na mão para ajudar a extrair o máximo do(a) jogador(a) e, consequentemente, otimizar a performance do time.

A propósito, a performance de uma equipe passa necessariamente por aspectos táticos, que também são alvo do analytics. Afinal, não é a só a bola que dita o jogo, mas também toda a movimentação sem ela. Movimentos de pressão, ganhos de posse em uma ação secundária, oportunidade gerada por uma acelerada, aonde essas coisas acontecem no campo, é fácil perder esse tipo de informação se não for correta e detalhadamente registrada. Dados de rastreamento de cada jogador(a) e da bola vão trazer esse tipo de informação inclusive de jogos que um olheiro não consegue ver.

Estes três tópicos (físico, técnico e tático) dizem respeito principalmente a análises internas dos clubes. Quando tais dados são compartilhados, mesmo que em menor volume, permitem análises de adversários, para identificar e explorar pontos fracos. E aqui entra o principal ponto de contribuição da estatística, ao meu ver: a competição pode extrapolar o campo. Explorar pontos fracos de adversários estimula a versatilidade, enquanto cobra que toda vulnerabilidade seja tratada.

Uma solução comum para vulnerabilidades hoje são contratações. O mercado de transferências pode até não mudar tanto se visto de fora, mas os critérios podem ser muito diferentes. Sim, empresários vão seguir fazendo parte do jogo, mas até isso tem uma abordagem matemática: são restrições que vão definir regiões factíveis de soluções para o problema de “quem contratar para essa posição”. Isso vai evitar mudar bruscamente de perfil durante uma busca por reforços.

Agora, algumas coisas definitivamente não vão mudar. A furada, o golaço e a cera vão continuar iguais. A estatística pode dizer a chance de um chute travado entrar, mas não vai pôr a bola para dentro. Ainda que o goleiro pule para o lado que um modelo sugerir, ele é quem vai defender a bola. Ou seja, as coisas do jogo vão mudar, não necessariamente na execução, mas na percepção, porque nós vamos entendê-las melhor.

Eu realmente vejo coisas incríveis que a matemática pode oferecer. Vamos ter oportunidade de voltar aos estádios, e lá poderemos estar interessados em diferentes experiências. O que eu trago aqui é um bônus para quem quer consumir o jogo em si. Hoje, você pode ver um jogo do Sport por curiosidade, mas certamente vai ver com outros olhos se ler antes sobre a formação do time. Com a estatística, talvez você perceba com mais naturalidade quando ver uma goleada mais vinculada à sorte do que a competência.

Encerro agradecendo a quem acompanhou a série. Se o assunto interessou, há muito mais por aí: para ficar no material em português, o DataFooture do Gustavo Fogaça é essencial. Recentemente o Caio Batatinha estreou uma coluna no Football Hub que promete muito. O Matheus Evaldt toca o Soma Zero FC que, entre tanta coisa boa, tem este material sobre a relação entre tempo de posse e gols marcados. Tem muito mais gente para mencionar, com muito conteúdo bom. E o objetivo de todo mundo é trabalhar a única estatística que interessa, aquela que fica no canto esquerdo superior da tela. Quer dizer, exceto por todas as outras.

Este texto é parte de uma série. Você pode ler as outras partes em links abaixo:

Um texto sem números sobre os números no futebol: Parte 1 – Contextualização

Um texto sem números sobre os números no futebol: Parte 2 – A primeira nova estatística

Um texto sem números sobre números no futebol: Parte 3 – A importância para a imprensa

Um texto sem número sobre números no futebol: Parte 4 – A relação com a torcida

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Rodrigo Salvador

Rodrigo Salvador é matemático industrial e mestre em Engenharia de Produção. Nas horas vagas e algumas outras, entusiasta da análise de dados no futebol

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