Critério de Desempate

Um texto sem números sobre números no futebol: Parte 3 – A importância para a imprensa

O nível do Brasileiro é baixo. Apesar de ano sim e ano também ter garoto sendo vendido pra fora, essa é uma verdade inconveniente e coletivamente aceita. Mas de quem é a culpa? Para o torcedor, é da CBF; para a CBF, é dos clubes; para os clubes, é da imprensa; para a imprensa, é de todo mundo. Eu acho que é de todo mundo, inclusive da imprensa. E talvez seja ela o principal vetor de uma guinada de pensamento, já que é quem interage com todos estes campos.

Eu achei por muito tempo que a posição da imprensa esportiva brasileira, em geral, era um dilema Tostines. Ela mostra aquilo que o torcedor quer ver, e o torcedor se pauta pelo que a imprensa dá. Se nenhum dos dois se motivar a querer mais, a gente fica preso nesse ciclo triste de tratar futebol como puro e simples entretenimento.

Eu creio que esse paradigma se quebra quando a imprensa não dá à sua audiência o que ela quer, mas o que ela precisa para enriquecer o seu conhecimento. Isso não afasta o público, pelo contrário, o fideliza ao se estabelecer como fonte de qualidade. A gente sabe que o sensacionalismo se vende sozinho, então este argumento se dirige ao comunicador responsável: a gente sempre pode fazer melhor, e a estatística certamente é aliada neste processo.

Uma coisa que se espera do jornalista esportivo é uma leitura correta tanto anterior quanto posterior dos eventos. Mas não há precisão. E por não haver precisão, o jornalista sofre o revés do torcedor que o cobra. Agora, troque “jornalista” na frase anterior por “estatística”. Parece que nada muda nestes dois mundos distintos.

Minha ousadia agora é tentar diagnosticar o que acontece em ambos. No jornalismo, não ajuda ninguém uma análise em que, no fim do turno, se diz que a metade de baixo da tabela vai brigar pra não cair. Tampouco ajuda o comentarista dizer que um rebote chutado pra fora “deveria ser gol”, “não podia ter perdido”. Tudo bem, a gente aceita hipérboles, pode falar que “minha vovó faria esse gol”, mas há que se considerar a possível irresponsabilidade disso: é uma visão distorcida do futebol.

De todos os problemas possíveis, o que mais me incomoda é o que a literatura chama de outcome bias, e a gente pode chamar de “engenheiro de obra pronta”. Não, um time não jogou melhor, muito menos era favorito antes do jogo, depois de ter ganho. Não dá pra dizer que um time se perdeu depois de ter tomado um gol só para o comentário combinar com o placar. Não é vergonha estabelecer uma previsão e o resultado ser o contrário: assumir um erro ou contextualizar uma anomalia apenas fortalecem o estabelecimento de uma opinião bem embasada.

Meu diagnóstico de falha da estatística também passa por visões distorcidas do jogo. Sabe quando você tira sarro de um time que teve muito mais posse de bola e perdeu o jogo? Você está correto. Errado está quem olhou pra isso e achou certo correlacionar posse com vitória. Isso é olhar pra estatística errada. É achar que o bom passador é quem aparece no topo da lista de maior percentual de passes certos. Lembra quando a TV mostrava a distância percorrida por um jogador que estava sendo substituído? Não precisa ser Guardiola pra saber que esses dados são desprovidos de sentido e descontextualizados.

Esse não é um problema sem solução, mas parte de um processo de melhoria. Até sites especializados em estatística pecam no repasse de informação. Eu já usei muito sites como WhoScored, Squawka e SofaScore em busca de números que embasassem algumas opiniões que eu vinha formando, mas todos têm sistemas obscuros de ranqueamento. Quer um exemplo? Veja esse. Essa caixa preta de fórmulas não ajuda a esclarecer como os sites comparam jogadores.

Enfim, do meio de tudo isso, é preciso haver espaço para contribuição. Em duas vias: a estatística, posso assegurar pra vocês, vêm cercando cada vez mais os elementos do futebol para gerar o que a Faria Lima chama de actionable insights e eu chamo de sacada genial. Com essa consolidação, é o momento de o comunicador dar atenção a essa área. Muitas leituras táticas podem ser ainda melhor ilustradas com o uso dos dados. É, mais uma vez, a proposta de interdisciplinaridade: o analista de dados encontra informação que o jornalista não tem, e o jornalista comunica essa informação com a capacidade que o analista de dados não tem.

O produto final é evidente: levar ao torcedor à informação que ele precisa e não tem. Talvez, as famosas, antigas, consolidadas e praticamente eternas mesas redondas sejam lugares muito apropriados para essa nova abordagem. Quem sabe até incluir um estatístico no debate, ao invés de só usar perifericamente o conteúdo. Mesmo que não seja nesse formato, o ponto central é incrementar a informação com qualidade e responsabilidade.

Entendo a resistência da imprensa em usar estatística avançada, mas não tem um ponto que defina quando ela é avançada e quando não. Existe uma distinção entre coisas básicas (chutes, passes, faltas), coisas indefinidas (como se define um drible?), cálculos simples (saldo de gols, percentual de passes) e cálculos complexos (xG). Talvez o que melhor defina o que é avançado aí é a nossa familiaridade, ou a falta dela.

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Rodrigo Salvador

Rodrigo Salvador é matemático industrial e mestre em Engenharia de Produção. Nas horas vagas e algumas outras, entusiasta da análise de dados no futebol

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