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O futebol é óbvio ou um jogo de azar?

O quanto a sorte realmente influencia o jogo? Qual é o impacto em uma partida e no longo prazo?

Meu filho tem 3 anos e já sabe que o futebol é uma caixinha de surpresas. Mas ano sim ano também o Corneta Europa acerta os campeões europeus com seus palpites ousados. Há algum tempo eu li num tweet qualquer que “futebol é 95% previsível”. Ainda assim, quando falo de analytics no futebol, o argumento da imprevisibilidade surge como contraponto. Qual é, afinal? Futebol é previsível ou não? Sorte é um elemento do jogo? Quanto de importância ela tem?

Antes de tudo, quero lembrar a definição de “sorte”, porque hoje em dia interpretação de termos simples é uma coisa que anda no campo do freestyle. Sorte é a “força desconhecida e poderosa a que supostamente se atribuem os acontecimentos e o seu desenrolar e que independe da vontade do ser humano”, segundo o Michaelis.

Quero enfatizar dois pontos da definição: o desconhecimento (porque a sorte é imprevisível, não é algo relacionado àquilo bem modelado pela ciência) e a independência da vontade (uma característica importante da sorte é a falta de controle sobre o resultado).

No futebol, quando você vê um Real Madrid 2×0 Osasuna¹, dificilmente vai falar que foi obra da sorte. O Real tem um bom retrospecto contra o time de Pamplona, geralmente termina em posição melhor no campeonato, faz sentido o resultado. O contrário é inesperado e, quando acontece, normalmente algo curioso acompanha. Um chute desviado na defesa, um gol despretensioso, uma série de chutes na trave, e por aí vão os infinitos exemplos.

O grande fator dessa discussão é como um jogo de futebol é decidido. Um jogo tem aproximadamente 1600 eventos, se consideramos só o que acontece com a bola. Chutes a gol representam pouco mais de 1% destes eventos. Gols, quando acontecem, são menos de 3 em média somados os dois times. Ou seja, ser superior em 1500 eventos com a bola em 90 minutos não garante uma vitória. Mesmo um erro, como um cruzamento torto, é capaz de definir um jogo por um placar mínimo. Por isso, o resultado de uma partida é, do ponto de vista matemático, um arredondamento. Se pra mais ou pra menos, isso cabe à sorte.

Outro ponto a considerar é o “paradoxo da habilidade”, termo definido por Michael Mauboussin em “A Equação do Sucesso”. Funciona assim: a chance de uma vitória do Flamengo contra o Clube Atlético Bairro Alto (time aqui da minha vizinhança) só é de 100% se o CABA não jogar. Se jogar, dada a diferença gritante de habilidade, a chance é ali na casa dos 98%. À medida que o CABA melhora (ou, em termos práticos do futebol, fica mais rico), essa chance diminui. Quando Flamengo e Bairro Alto tiverem o mesmo nível de habilidade, um jogo entre os dois vai ser decidido por circunstâncias imprevisíveis, por fatos independentes à vontade, coisas que talvez você lembre ali do segundo parágrafo. Ou seja, quanto melhores os times envolvidos, maior a influência da sorte.

Técnica x sorte

Ok, então, quanto exatamente de aleatoriedade tem no futebol? Existe uma série de métodos pra medir isso em um grupo de dados e, por mais que eu queira colocar aqui uma lista de nomes engraçadinhos, vou deixar aqui um link pra eles. Pra ser mais direto, tem uma abordagem do professor David Sumpter que diz que, em um jogo cujo resultado esperado é 2×1, o esperado é que o jogo seja decidido 43% por técnica e 57% por sorte.

E se considerarmos todos os outros placares esperados?

Uma boa fonte é o livro “Os números do jogo”, de Chris Anderson e David Sally. De acordo com os autores, os times favoritos nas casas de apostas saem vitoriosos apenas 50% das vezes. É razoavelmente abaixo do beisebol, com 60% das vitórias dos favoritos, e do basquete e do futebol americano, com 66%. Não deixe de considerar que, nestes esportes, as ligas adotam critérios financeiros e técnicos que visam o equilíbrio. Ainda assim, o futebol é mais suscetível ao acaso, na casa dos 50%.

Curiosamente, e aqui eu serei um tanto permissivo, uma disputa de pênaltis é menos loteria que o próprio jogo. Segundo Anderson e Sally², o vencedor de uma série de 5 pênaltis é, em 61% das vezes, o time que chuta primeiro. Ok, quem decide o primeiro time é uma moeda, eu não considerei o peso do fator técnico, mas olhando só para o fator sorte, não deixa de ser curioso.

Vai ver, é por isso a estatística não é assim tão bem-vinda no futebol: ela evidencia a falta de justiça no jogo. Ela deixa claro que, por vezes, o melhor time não ganha. É desesperador para nós, torcedores, quando o nosso time é evidentemente melhor e sai derrotado. Nessa hora, adoramos culpar terceiros, em especial a arbitragem. E se a estatística disser que, na verdade, a culpa é do azar, ela que vá para a [inaudível]. Pior ainda se ela disser que nosso time ganhou por sorte.

Mas eu trago dois pontos de vista pra contornar isso. O primeiro é que, por conta da Teoria dos Grandes Números, a gente sabe que o fator aleatório tende a desaparecer com o passar do tempo – é também por isso que os campeões se repetem tanto, porque a aleatoriedade exerce influência pontualmente, e não no longo prazo.

O segundo é que a aleatoriedade, na verdade, nem é tão ruim. O futebol é um espectro da vida, e nossa vida está cheia de sortes e azares. Cada coisa que você perdeu mesmo tendo feito tudo certo, cada coisa que você ganhou sem merecer, isso aí é o imponderável da existência e o tempero da vida. E que bom que é assim. Pensa que saco que tudo fosse previsível. Que chato seria se o melhor time ganhasse sempre. O legal talvez não seja a aleatoriedade em si, mas os desafios que ela traz para que nós nos obriguemos a lidar com ela. Na carreira, na família, no amor e no futebol.

¹Nota: eu escrevi esse placar sem qualquer critério, e depois fui ver que foi exatamente o jogo e placar da rodada de ontem do Campeonato Espanhol. Tão previsível que o chute foi na mosca.

²Eu encontrei também um crédito deste estudo a Ignacios Palacios-Huerta, autor de “A Teoria do Jogo Bonito”. Na dúvida de quem foi de fato o autor, deixo ambos mencionados, mas o resultado é o mesmo.

Outras fontes para o texto: These Football Times, The New York Times, SB Nation

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Rodrigo Salvador

Rodrigo Salvador é matemático industrial e mestre em Engenharia de Produção. Nas horas vagas e algumas outras, entusiasta da análise de dados no futebol

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