Pode parecer piada, mas o Paris Saint-Germain está ameaçando entrar com um recurso no Tribunal Arbitral do Esporte (TAS) contra as medidas do Fair Play Financeiro tomadas contra o clube. A Uefa decidiu reabrir o caso do clube francês, analisando suas contas por irregularidades. Na sexta-feira, documentos do Football Leaks mostraram que o PSG descumpriu os regulamentos do FFP e a Uefa entrou em acordo para que o clube não fosse punido de forma rigorosa, como a expulsão da Champions League. Basicamente, os documentos acusam os franceses de fraude.

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A Uefa tinha exigido que o PSG levantasse € 50 milhões em recursos até junho, o que foi feito com a venda de jogadores. Inicialmente, o clube foi absolvido de qualquer infração, mas depois de denúncias, o caso foi reaberto, o que enfureceu dirigentes do clube francês. O período analisado pela Uefa foi de 2015, 2016 e 2017.

Segundo declarações do secretário-geral Victoriano Malero, o cube continua insatisfeito com a forma como a Uefa está gerenciando sua situação no Fair Play Financeiro e ameaça envolver o TAS. “Nós consideramos esta decisão infundada em termos tanto de forma quanto de conteúdo”, afirmou. “Nós queremos colocar um fim nesta história”.

O Milan foi um clube que recorreu ao TAS contra a punição de exclusão de participação em competições europeias. O caso do time italiano, porém, é um pouco diferente do PSG, já que os rossoneri mudaram de dono. O PSG leva o caso ao TAS em um processo que pode levar meses – uma estratégia que, no mínimo, impede uma punição imediata da Uefa, ainda mais com a pressão e a temperatura aumentando depois dos documentos vazados pelo Football Leaks.

O acordo do PSG com a Uefa inclui uma recomendação que a entidade fez para que o clube não renove o seu contrato com a Qatar Tourism Authority quando ele expirar, em 2019. A razão é simples: o valor do contrato foi considerado inflado artificialmente, acima do valor de mercado. Com isso, é muito mais provável que um grande jogador do PSG seja vendido como forma de recompor essa receita.

“Como todos os outros clubes, negociação é uma parte integral do nosso modelo”, afirmou ainda Malero. “Não é a nossa abordagem [tomar mais ações jurídicas], mas se o nosso clube e funcionários forem prejudicados, não temos realmente outra alternativa”, continuou. “Há muita subjetividade nesse sistema. Com regras reais e muito mais simples, nós não teríamos chegado a esse ponto”.

O ex-técnico do PSG, Laurent Blanc, acusou o Fair Play Financeiro da Uefa de ser “gradativamente alterado” para preservar “um cartel de clubes bem organizado”. “Não, nós não temos medo de sermos excluídos da Champions League depois das revelações da Mediapart”, afirmou o ex-jogador ao Canal+. “Nós estamos serenos. Nós sempre fomos transparentes”.

A Oryz Qatar Sports Investment, dona do PSG, teria injetado € 1,8 bilhão no clube desde que assumiu a gestão, em 2011, com ajuda do ex-presidente da Uefa, Michel Platini, assim como colaboração do ex-secretário-geral da Uefa e atual presidente da Fifa, Gianni Infantino. Há também suspeitas de envolvimento do ex-presidente da França, Nicolas Sarkozy, torcedor do clube e na época exercendo cargo público.

A reunião de Sarkozy com Platini e o emir do Catar, Tamim bom Hamad Al Thani, em 2010, teria sido uma forma de acertar que se o PSG fosse comprado e o canal catariano beIN Sports fosse lançado na França, Platini seria instruído a dar a sede da Copa 2022 ao Catar. Algo, aliás, que aconteceu, poucos meses depois, em dezembro de 2010. Platini foi um dos que votou pelo Catar e, segundo Joseph Blatter, então presidente da Fifa, foi quem fez lobby para que o país do Oriente Médio ficasse com a Copa, trabalhando nos bastidores com outros dirigentes.

No fim, o processo que o PSG leva ao TAS não parece mais do que uma cortina de fumaça, um ataque para encobrir o próprio escândalo que é a clara violação do Fair Play Financeiro revelada pelo Football Leaks, com a anuência da Uefa – que temia ser processada por PSG e Manchester City caso os excluíssem da Champions League. A questão é: o que será feito agora?