Copa do Mundo

É uma pena que o currículo de Marco Reus deva se limitar a apenas uma Copa do Mundo

Uma só Copa do Mundo, e com vexame, é pouco para representar o tamanho do talento de Reus para a Alemanha - mas as lesões não deixaram mais

Marco Reus é daqueles jogadores que precisarão ser analisados com cuidado no futuro, por aqueles que não o viram em campo. O camisa 11 possui apenas dois títulos da Copa da Alemanha na carreira e, sendo bonzinho, três Supercopas da Alemanha. Já pela seleção, uma Copa do Mundo solitária deve constar no histórico do atacante. Reus é craque, tido por muitos como o mais habilidoso de sua geração entre os alemães. Porém, se é uma pena não vê-lo na lista de tetracampeões mundiais em 2014, a ausência em 2022 por lesão também deixa o currículo do veterano aquém daquilo que realmente representa.

O maior adversário de Reus ao longo de sua carreira sempre foi o seu físico. O atacante teve sua fase mais esplendorosa interrompida pelas contusões consecutivas e mesmo ganhar sequência se tornou um martírio em períodos nos quais ele ainda deveria estar no auge. Parece até sina de quem possui o nome escolhido em homenagem a Marco van Basten, outro cracaço infelizmente limitado pelas lesões. No caso de Reus, elas o alijaram dos principais palcos internacionais.

A participação de Reus na Euro 2012 seria como um mero coadjuvante. O atacante acabara de estourar com o Borussia Mönchengladbach e permaneceu na reserva durante quase toda a competição, apesar da boa atuação contra a Grécia nas quartas de final. Já em 2014, a maldição imperou num desimportante amistoso contra a Armênia, quando o jovem contundiu o tornozelo. Com ele, seria uma Alemanha ainda mais forte no Mundial do Brasil, diante das maravilhas que Reus fazia no Dortmund – mesmo que os títulos tenham insistido em escapar naqueles 2012/13 e 2013/14 grandiosos. Era a melhor fase de sua carreira e ele se colocava como um diferencial técnico ao Nationalelf. Os alemães se viraram sem o camisa 11, mas para ele ficou o lamento de quem viu o tetra só pela televisão, quando poderia ter sido protagonista.

As quatro temporadas seguintes de Reus foram bem complicadas. Jogava pouco pelo Dortmund, ainda que a qualidade ficasse expressa sempre que possível. Não conseguiu disputar também a Euro 2016 por lesão. E só pintou na Copa de 2018 porque quatro meses antes tinha se recuperado de uma ruptura de ligamentos no joelho. Não estava em suas melhores condições para salvar a Alemanha do vexame, apesar de sua participação decisiva na única vitória da campanha, contra a Suécia.

A versão de Reus durante o último ciclo de quatro anos até foi mais confiável. Sim, o atacante teve os seus problemas físicos, e isso atrapalhou o próprio Dortmund na busca pela Salva de Prata – sobretudo em 2018/19, quando ele estava gastando a bola. Entretanto, foi um jogador que se dedicou mais ao seu preparo e vinha numa sequência mais saudável. Basta lembrar que o camisa 11 pediu para não jogar a Euro 2020 porque queria evitar o desgaste. Em consequência, a temporada 2021/22 teve a segunda maior minutagem de Reus em campo pela Bundesliga com a camisa aurinegra, a maior em nove anos. Ele também deu sua contribuição ao Nationalelf nas Eliminatórias. Entretanto, os últimos meses retomaram o calvário e os problemas incessantes o barraram da convocação para o Catar.

O próprio futebol de Reus mudou nesses anos todos, também moldado pelas limitações. O camisa 11 não é mais o ponta imparável de seus melhores tempos, mas sim um armador que flutua pelo centro do campo e abusa de sua qualidade, seja para criar chances ou marcar seus gols. O veterano até estabeleceu seu recorde pessoal de assistências em 2021/22. Por seu talento, não poderia ser prescindido por Hansi Flick na lista final, mesmo que concorra numa área do campo onde Jamal Musiala vem voando. O destino, todavia, acaba por ser cruel outra vez.

A falta de troféus na estante de Reus, em partes, é fruto de sua escolha. Como torcedor do Dortmund desde a infância, não quis deixar o time do coração mesmo quando recebeu propostas – e teria bola para ser craque em equipes dominantes das grandes ligas. Preferiu ser lendário em sua própria casa, mesmo que a supremacia do Bayern e os tropeços de seu clube atrapalhassem as glórias. Já pela seleção, onde dava para ser mais feliz e erguer a maior das taças, as barreiras físicas impediram Reus de ser realmente um gigante. Uma só Copa disputada, e com vexame, passa longe de representar seu talento dentro da geração. Diante daquilo que os dados enciclopédicos não mostram, a lembrança de quem viu o camisa 11 arrebentar tantas vezes vai precisar contrapor os números frios.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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