Copa do Mundo 2026

Como Tuchel jogou final da Copa do Mundo no lixo após ter justificado decisões polêmicas

Conhecido pelo jogo impositivo e de domínio, alemão abdicou da bola e viu a Inglaterra cair para a Argentina de forma melancólica em um time que não parecia ser treinado por si mesmo

Aos 10 minutos do segundo tempo na semifinal, a Inglaterra estava classificada para a grande decisão da Copa do Mundo de 2026. Quase imediatamente depois, a equipe de Thomas Tuchel abdicou da bola e o resultado final foi acachapante: a Argentina virou e venceu por 2 a 1.

Mais do que o melhor jogo do time de Lionel Messi e companhia na Copa do Mundo, há o lado da clara frustração inglesa. Tuchel ia levando os Três Leões à final justificando as decisões polêmicas que teve na convocação. Agora, voltará para casa sendo amplamente criticado pela postura que o time teve na eliminação.

De forma semelhante ao Brasil de Carlo Ancelotti, que propositalmente não quis ter a bola na eliminação para a Noruega, nas oitavas de final, o técnico alemão fez mudanças controversas. Encheu o time de zagueiros, esqueceu que manter a posse era o que ele mais valorizava em todos os seus trabalhos e jogou por água abaixo as convicções que haviam o levado à quase classificação para a final.

Tuchel esteve perto de calar os críticos na Inglaterra

Campeão da Champions League com o Chelsea sobre o Manchester City de Pep Guardiola, apesar de demitido na temporada seguinte de forma quase universalmente entendida como injusta, Tuchel chega à seleção inglesa no fim de 2024. A ideia de contratá-lo era evidente: fazer da Inglaterra um time dominante com a bola.

Os ingleses tiveram resultados positivos com Gareth Southgate, durante oito anos de uma passagem que mostrou como o time tinha potencial. O que faltava, no entanto, era culminar no sucesso técnico e esportivo — a Inglaterra de Southgate era criticada por reunir muito talento, mas por vezes mostrar desempenho ruim ou aquém do esperado.

Anthony Gordon comemora gol da Inglaterra sobre a Argentina na Copa do Mundo
Anthony Gordon comemora gol da Inglaterra sobre a Argentina na Copa do Mundo. Foto: IMAGO / Sports Press Photo

Tuchel chegaria para mudar isso. O alemão montou equipes dominantes a partir do Jogo de Posição: times que ocupavam racionalmente os espaços em campo, mantinham a bola com paciência e urgência para retomá-la caso perdesse. Pep Guardiola, em seu livro “Pep Guardiola: A evolução“, elogiou o treinador, dizendo que “Se a Alemanha adotar o jogo de posição, será sobretudo graças a Tuchel”. Foi, inclusive, o que aconteceria no futuro.

Ao longo do seu ciclo de pouco mais de um ano, a Inglaterra teve performances mistas, mas encontrou um bom norte em seu modelo de jogo. A polêmica inicial era a de ter um estrangeiro no comando, mas depois rapidamente se tornou as escolhas que ele teve.

O alemão passou a barrar estrelas das convocações em prol de montar um time coeso. Teve Datas Fifa sem Jude Bellingham, por exemplo, mesmo que o camisa 10 estivesse saudável. Decidiu ir à Copa do Mundo sem nomes quase óbvios como Trent Alexander-Arnold, Cole Palmer e Phil Foden. E a decisão se pagou na maior parte do tempo.

Durante a entrevista coletiva da convocação para o Mundial, em maio, Tuchel explicou as ausências e o chamado de nomes como Djed Spence, Dan Burn e Jordan Henderson: “Temos especialistas conosco, para todos os tipos de cenários diferentes: liderando o placar, estando atrás, jogadas de bola parada, pênaltis“.

E, em certa instância, as escolhas fizeram sentido. A Inglaterra goleou a Croácia com grande atuação em campo aberto, acelerando com meias de passada larga e pontas velozes — algo fora dos padrões, por exemplo, dos estilos de Palmer e Foden. Durante diversos momentos, a Inglaterra tinha Jarell Quansah ou Ezri Konsa, zagueiros de origem, como laterais-direitos para contribuir no momento defensivo, algo que Arnold sempre teve dificuldade.

Tuchel ia calando os críticos até mesmo na semifinal contra a Argentina. Mesmo em um jogo muito tenso, físico e faltoso, foi usando Morgan Rodgers como ponta-direita (e não Bukayo Saka, Noni Madueke ou os não convocados Foden e Palmer) que criou o lance do gol: um meia intenso fisicamente, com passada larga e ataque ao espaço. Assim como Anthony Gordon, outro jogador de bom ataque às costas da defesa, se tornou o autor do gol.

O problema, no entanto, foi o que veio depois.

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Tuchel deu ‘ceifada conceitual’ na Inglaterra na Copa do Mundo

A frustração da eliminação inglesa se dá pela forma como ela aconteceu. Desde o gol de Gordon, passaram-se quase 60 minutos até o fim do jogo, incluindo acréscimos. Nesse período, segundo dados da Opta, a Inglaterra trocou apenas 38 passes.

A Argentina teve 88% de posse de bola e 266 passes desde o gol inglês. O jogo era equilibrado antes e, mesmo que os argentinos tivessem vantagem leve na posse do primeiro tempo (55%), era igualmente difícil entrar na área para os dois lados. A mudança depois do gol foi estonteante.

Tuchel sempre foi conhecido por ser um treinador de bons trabalhos defensivos, mas que existiam a partir de uma estrutura que combinava a coordenação das linhas sem a bola, pressão forte e amplo domínio da bola. Para um treinador tão adepto ao Jogo de Posição, abdicar da bola por praticamente metade do jogo é como ceifar tudo o que acredita.

Thomas Tuchel, técnico da Inglaterra, na beira do campo antes da partida entre Inglaterra e República Democrática do Congo pelos 32-avos de final da Copa do Mundo FIFA 2026, no Atlanta Stadium, em Atlanta, nos Estados Unidos, em 1º de julho de 2026.
Thomas Tuchel antes de Inglaterra x RD Congo – Copa do Mundo 2026. (Foto: APL/IMAGO)

Ver a Inglaterra dar chutões e se defender em bloco baixo por quase uma hora, sentando sobre o resultado mínimo, é ainda mais curioso por ter Thomas Tuchel como treinador. Mais do que os jogadores que convocou ou deixou de levar à Copa, é sobre ter propositalmente esquecido dos conceitos de adoração à bola que o levaram até aquele momento.

Um treinador que venceu uma Champions League em final contra Guardiola, reduzindo o time adversário a apenas um chute no alvo no jogo enquanto criava três grandes chances, não deveria ter sido eliminado colocando três zagueiros altos no lugar de jogadores técnicos para manter o resultado.

A derrota da Inglaterra tem o quê de magia no futebol, claro. A redenção argentina, que fez provavelmente seu melhor jogo na Copa do Mundo, precisa ser exaltada — assim como a resiliência de Lionel Messi com duas assistências. Mas é uma derrota que, no fim, diz que até mesmo os mais conceituados táticos e apaixonados pela bola podem ceder à tentação de tentar vencer a qualquer custo. Dessa vez, foi um tiro no pé.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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