Copa do Mundo

Titulares na estreia, reservas no fim: Os brasileiros que perderam espaço durante a Copa do Mundo

De Mazzola a Raí, a história de jogadores que começaram um Mundial entre os 11 da Seleção e terminaram a competição longe do protagonismo

É na Copa do Mundo que surgiram alguns dos grandes heróis do futebol brasileiro. Mas existe um outro lado dessa narrativa: o dos atletas que chegam ao Mundial como titulares e, em questão de dias, perdem espaço, desaparecem da equipe e veem companheiros assumirem o protagonismo.

Ao longo da história das Copas, o Brasil acumulou casos emblemáticos desse tipo. Alguns desses jogadores acabaram campeões do mundo mesmo depois de serem sacados do time. Outros assistiram do banco à ascensão de colegas que se tornaram personagens centrais de campanhas históricas. Em comum, todos viveram uma das experiências mais cruéis do futebol: iniciar o maior torneio do planeta como titular e terminar como coadjuvante.

De Mazzola perdendo a vaga para Pelé em 1958 a Raí sendo substituído durante a campanha do tetra em 1994, a seleção brasileira oferece uma série de exemplos de como uma Copa pode mudar destinos em poucos jogos.

Quando Pelé e Garrincha mudaram tudo na Copa do Mundo de 1958

Possivelmente um dos casos mais simbólicos da história para o Brasil seja o da Copa do Mundo de 1958. E envolve dois dos grandes nomes de todos os tempos no futebol nacional.

Na campanha do primeiro título mundial do Brasil, o técnico Vicente Feola iniciou a competição com uma equipe diferente daquela que entraria para a história. Nas duas primeiras partidas, contra Áustria e Inglaterra, Pelé e Garrincha ficaram no banco. Em seus lugares estavam Mazzola e Joel.

Pelé durante a Copa de 1958
Pelé durante a Copa de 1958 (Foto: IMAGO / Horstmüller)

Mazzola, inclusive, teve um começo promissor. Marcou dois gols na goleada por 3 a 0 sobre os austríacos e parecia consolidado na equipe. Joel também ocupava a ponta direita sem grandes questionamentos.

Mas a comissão técnica entendia que o time precisava de mais agressividade ofensiva. A mudança veio para o terceiro jogo da fase de grupos, contra a União Soviética. Pelé entrou no ataque e Garrincha assumiu a ponta direita. O resultado foi imediato: o Brasil venceu, convenceu e encontrou a formação que conduziria a equipe ao título.

Nem Mazzola nem Joel recuperaram suas vagas, mas ambos terminaram campeões do mundo.

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Brasil também teve mudanças em campanhas menos vitoriosas

Nem sempre a perda de espaço aconteceu em seleções campeãs. Na Copa do Chile, em 1962, Mengálvio iniciou a competição como uma das peças importantes da equipe de Aymoré Moreira. Embora a lesão de Pelé tenha dominado as manchetes daquele Mundial, ajustes táticos ao longo da campanha reduziram a participação de alguns titulares iniciais, entre eles o meia do Santos.

Em 1974, na Alemanha Ocidental, Paulo Cézar Lima chegou como um dos nomes mais respeitados do futebol brasileiro. Dono de elogiada qualidade técnica, ele fazia parte da tentativa de renovação liderada por Zagallo após o ciclo de Pelé. Entretanto, mudanças de esquema e oscilações coletivas fizeram com que seu protagonismo diminuísse durante a competição, encerrada com o quarto lugar.

Tele Santana comandou a seleção brasileira nas Copas de 1982 e 1986
Tele Santana comandou a seleção brasileira nas Copas de 1982 e 1986 (Foto: IMAGO / Kicker/Liedel)

Situação semelhante viveu Dirceu Lopes em 1978. Um dos grandes talentos do futebol brasileiro nos anos 1970, ele chegou à Copa da Argentina cercado de expectativa, mas perdeu espaço ao longo do torneio em meio às alterações promovidas pela comissão técnica.

Já em 1986, no México, Müller iniciou a campanha como titular e uma das apostas ofensivas da seleção de Telê Santana. Conforme o Mundial avançou, porém, a equipe buscou diferentes soluções para o ataque, e o atacante acabou sem o protagonismo que muitos imaginavam antes da competição.

Os casos emblemáticos do tetra e do penta da Copa do Mundo

Se existe um exemplo moderno que simboliza esse fenômeno, é o caso de Raí. Capitão da seleção brasileira durante boa parte do ciclo para a Copa de 1994, o camisa 10 chegou aos Estados Unidos como uma das principais lideranças do grupo de Carlos Alberto Parreira. Sua importância era tão grande que entrou em campo com a braçadeira de capitão na estreia contra a Rússia.

Mas o desempenho ficou abaixo das expectativas. Atuando atrás da dupla Romário e Bebeto, Raí encontrou dificuldades para reproduzir o futebol que o transformara em ídolo do São Paulo. Após a primeira fase, Parreira promoveu uma mudança decisiva: sacou o meia e colocou Mazinho na equipe.

A alteração funcionou. O meio-campo ganhou mais equilíbrio, o Brasil cresceu no mata-mata e conquistou o tetracampeonato. Raí terminou campeão do mundo, mas assistiu do banco aos momentos decisivos da campanha.

Quatro anos depois, outra situação parecida ocorreu na França. Giovanni chegou à Copa de 1998 como um dos jogadores mais talentosos do elenco de Zagallo. Titular na estreia contra a Escócia, o meia-atacante parecia destinado a desempenhar papel importante no torneio. No entanto, mudanças de formação e a busca por maior consistência coletiva fizeram com que ele perdesse espaço ao longo da competição.

Enquanto Leonardo, César Sampaio, Rivaldo e Denílson ganhavam protagonismo, Giovanni passou a ser utilizado de forma cada vez mais esporádica. O Brasil chegou à final, mas o jogador já estava longe do centro das atenções.

Algo semelhante aconteceu no penta. Em 2002, Juninho Paulista iniciou o Mundial da Coreia do Sul e do Japão com prestígio após participar ativamente do ciclo classificatório. Porém, a ascensão de Kléberson transformou a dinâmica da equipe de Luiz Felipe Scolari. O volante ganhou espaço, virou titular e se tornou uma das revelações daquela conquista histórica.

Para 2026, Carlo Ancelotti terá um elenco com diversas opções e chega à Copa do Mundo ainda sem ter repetido um time titular. A chance de algum jogador ganhar espaço ao longo do torneio, como já aconteceu incontáveis vezes, é grande.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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