Tim Vickery: ‘Tenho um medo para essa fase da Copa do Mundo e ele está ligado a Carlos Queiroz’
'Com o cansaço do calendário e do torneio, o efeito acumulado do calor, o Queirozismo pode virar uma epidemia'
A fase mata-mata da Copa do Mundo não iniciou bem, com um jogo bem fraco entre Canadá e África do Sul. Tenho um medo para essa fase, que resume em duas palavras. A primeira é “Carlos” e a segunda é “Queiroz”.
Na fase de grupos, a Copa viveu cheio de gols, com as estrelas brilhando e a maioria dos favoritos voando livres, leves e soltos. Em parte isso é uma consequência do formato do torneio, que perdoa mais que um padre na semana depois do Carnaval. Falta risco, falta tensão, se debate muito quem vai ser o artilheiro da Copa, e não quem vai para casa logo.
Acabou a moleza. Neste momento ainda tem 31 seleções. Daqui a pouco vão ter somente oito. A brincadeira fica bem mais séria, bem rapidinho. E tem alguém bem confortável com esse cenário, alguém para quem a coisa ficou bem séria desde o primeiro dia — Carlos Queiroz.
O veterano Carlos Queiroz (e seu estilo) está em mais uma Copa do Mundo
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O técnico português tem uma carreira longa, com grandes clubes, usando abordagens diferentes. Na Copa, porém, fica famoso por uma só maneira de jogar — com uma retranca feroz. Na Copa de 2014 organizou a seleção do Irã, que frustrou a Nigéria durante 90 minutos de um 0 a 0, e quase conseguiu a mesma coisa contra a Argentina, até que Messi fez uma das suas genialidades de fora da área já nos acréscimos.
Quatro anos depois, o Irã pegou Espanha e Portugal, duas das melhores seleções do mundo em termos de posse da bola. Só perdeu por 1 a 0 contra os espanhóis, e empatou 1 a 1 com os portugueses. Lembro bem a lição desses jogos. Cresci num pensamento do futebol que valoriza a posse da bola. Contra uma retranca assim a teoria era o seguinte — é uma questão de paciência, de ficar passando para um companheiro vestindo uma camisa da mesma cor, e mais breve ou mais tarde, o espaço na frente do gol vai aparecer.
Os times de Queiroz me ensinaram que nem sempre isso ainda se aplica. Com melhorias na condição física, com o time inteiro defendendo em bloco, dá para segurar a retranca — e quando o rival, frustrado de tanto tentar furar o bloqueio, se lança todo pela frente, dá para puni-lo com um contra-ataque.
O mestre disso assumiu a seleção da Gana em abril. Deixou uma pergunta óbvia. Com os africanos, Carlos Queiroz ia ser tão defensivo, tão ‘Carlos Queiroz’ quanto tinha sido com a seleção do Irã?
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Bem, podemos concluir que, pelo menos nos dois primeiros jogos, Carlos Queiroz até se superou no quesito ‘Carlos Queiroz.’ Quem esperava um futebol mais solto dos ganeses se equivocou totalmente. Gana se classificou dando aulas de Querozismo.
Tem muitos alunos, e a sua filosofia pode estar em alta agora. Tem muito mais times que antes na fase mata-mata. Conclusão óbvia — vamos ter partidas, com muito em jogo, com diferenças técnicas marcantes. Nesta situação, o time mais fraco já entra em campo ganhando. Zero a zero é lucro, e a margem de lucro só cresce a cada minuto com o placar em branco.
Cada lance leva a partida mais próxima a um disputa dos pênaltis, cada segundo aumenta as possibilidades do favorito abrir demais em busca de um gol, se deixando exposto demais. A frustração e a impaciência dos fortes viram a grande arma dos fracos.
Com o cansaço do calendário e do torneio, o efeito acumulado do calor, o Queirozismo pode virar uma epidemia. E um torneio que iniciou como uma festa pode virar uma sequência de guerras de atrito. Torço contra, me esforço para acreditar que, do início até o fim, o talento vai desequilibrar. O Queirozismo tem os seus méritos — cada um luta com as armas que tem, e suor e sacrifício são virtudes também. Mas, para o meu gosto pessoal, chegou a hora de os retranqueiros saírem de cena.