Copa do Mundo

Do sonho roubado na infância à Copa: Como Adingra ressurgiu após fraude e abandono

A história cheia de reviravoltas de destaque da seleção da Costa do Marfim

Se as histórias de jovens que saem de situações precárias e se transformam em grandes jogadores já ficaram batidas, a de Simon Adingra vai além. Nascido na Costa do Marfim, migrou aos 12 anos para o Benim e deu seus primeiros passos no futebol em um projeto em Gana.

O ponta marfinense trocou o Brighton pelo Sunderland na Premier League no início da temporada por 24,4 milhões de euros. Seis meses depois, foi emprestado ao Mônaco. Suas trocas em campo — da Noruega para a Bélgica, depois Inglaterra e França — não deixam de representar as várias mudanças que teve de fazer na vida. Muitas vezes, inclusive, sem querer.

Da promessa que fez com seu pai sobre se manter na escola até perdê-lo aos 14 anos e ser enganado por golpistas que queriam roubar seu sonho em Gana. A história de Adingra teve muitos “corações partidos” até chegar à Copa do Mundo em 2026.

Adingra e o sonho quase roubado na infância

Simon nasceu no primeiro dia de 2002, ano de Copa do Mundo, na capital da Costa do Marfim, Abidjan. De origem humilde e vivendo em situações difíceis, trocou o país pelo Benim, aos 12 anos — 2014, ano de Copa do Mundo.

O motivo pela mudança tem um quê das histórias clássicas dos garotos que buscam um sonho maior para mudar de vida: uma promessa que envolve futebol. Adingra e outras crianças foram convencidas por um suposto treinador, que os levaria a uma suposta academia de futebol no Benim. Era a chance de estar perto do seu sonho. O preço? “Apenas” 300 euros.

Simon Adingra pela seleção da Costa do Marfim
Simon Adingra pela seleção da Costa do Marfim (Foto: IMAGO / Sportimage)

Ao receber 300 euros de cada garoto, o homem levou Adingra e seus colegas ao Benim e… sumiu. Largados e unidos pelo drama de uma falsa promessa que alimentou as esperanças infantis com futebol, o grupo precisou trabalhar para sobreviver no país. Depois de campeão da Copa Africana de Nações, em 2023, ele revelou detalhes da história.

— Esse cara era um vigarista. Ele inventou tudo e foi embora com nosso dinheiro. Não havia academia nem acomodação. Éramos dez em Benim, aos 12 anos, deixados por conta própria sem ajuda de ninguém. Não tínhamos nem dinheiro para nos alimentar. Decidimos ficar todos juntos e fazer bicos. Por exemplo, lavamos pratos em restaurantes em troca de um pouco de dinheiro e refeições — revelou em entrevista ao site belga “DHnet”.

Em meio às intempéries logo no início da adolescência, o sonho do futebol profissional parecia se distanciar. Mas bastou um compatriota marfinense estar no lugar certo na hora exata: reconheceu o sotaque do grupo de garotos, que não se desgrudou desde o golpe sofrido, e procurou ajudá-los.

Surpreso por ver um grupo de jovens estrangeiros vivendo em situação precária, o rapaz moveu montanhas para encontrar um lar aos garotos. Reunindo a paixão pelo esporte, decidiu criar uma espécie de academia de futebol com os dez, a ABIS Academy. Com o tempo, essa academia cresceu e Adingra se viu no meio de uma grande oportunidade — recuperando o que lhe havia sido roubado.

“Um dia, ele viu na internet que um torneio estava acontecendo em Accra, Gana, e fomos jogar lá”, disse o jogador do Monaco, na mesma entrevista. Foi em Gana que sua vida mudou.

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A reviravolta em Gana que levou Adingra à Premier League… e a Copa do Mundo

Adingra e a ABIS Academy jogaram o campeonato em Gana, que tinha olheiros da Right to Dream, uma academia renomada no país e que tinha parceria com o Nordsjaelland, um dos principais clubes da Dinamarca.

O destaque no campeonato chamou a atenção da Right to Dream, que convidou Adingra a um teste de duas semanas. O marfinense seguiu impressionando e oficialmente deixou a amarga passagem por Benim para trás. Ingressou na nova academia em 2018 — também ano de Copa –, onde jogou com nomes como Kamaldeen Sulemana e Mohamed Kudus.

Adingra no início de sua passagem pelo Nordsjaelland
Adingra no início de sua passagem pelo Nordsjaelland (Foto: IMAGO / Gonzales Photo)

Como o próprio atacante já reforçou, uma vez que se entra na Right to Dream, o objetivo máximo é chegar ao Nordsjaelland. E ele conseguiu: em janeiro de 2020, foi chamado para integrar a equipe sub-19. Mais uma mudança, agora para um lugar completamente diferente: na Europa, no frio e, além disso, sem saber falar inglês.

Seis meses depois, no início da temporada 2020/21, Adingra realizou seu sonho: subiu para o time profissional do Nordsjaelland. Está completa a tortuosa jornada do herói — de abandonado em um novo país aos 12, para uma nova oportunidade quatro anos depois e, aos 18, sua profissionalização.

Claro que a vida do jovem não seria só repleta de flores. No seu primeiro treino no time profissional, quebrou o braço, ficou mais cinco meses fora e entrou em depressão. A volta por cima veio, com sete jogos na temporada de estreia e dois gols. Na seguinte, 31 jogos, 12 participações em gols e um plano claro para saltar na carreira:

Quando o mercado começou (em 2022), meu agente me disse que havia interesse em Genk e Frankfurt. Mas o Nordsjaelland estava pedindo muito dinheiro e os dois clubes não quiseram entrar em acordo. Então o Brighton chegou… Eu não acreditei, fiquei chocado ao ver que um clube da Premier League estava interessado em mim — revelou o marfinense à “DHnet”.

Então em 2022, ano de Copa do Mundo, Adingra realizou mais um sonho — jogar por um clube da Premier League. A primeira temporada, emprestado ao Union Saint-Gilloise, também era algo que ele vislumbrava: até preferia um salto da Dinamarca para um país como Bélgica ou Alemanha inicialmente, também por não acreditar que a Inglaterra viria tão cedo.

Um ano depois, já como destaque no Campeonato Belga, foi campeão da Copa Africana de Nações com a Costa do Marfim e foi eleito o melhor da partida na final. Em menos de dez anos, a vida de Adingra deu voltas inimagináveis.

Adingra comemora gol pela seleção marfinense, na última Data Fifa antes da Copa
Adingra comemora gol pela seleção marfinense, na última Data Fifa antes da Copa (Foto: IMAGO / Sports Press Photo)

Agora, em 2026 e aos 24 anos, tem a chance de jogar sua primeira Copa do Mundo, dez anos depois da morte do seu pai. Parece que toda grande decisão ou acontecimento na vida de Simon Adingra vem com uma dose de simbolismo. Seja em um ano específico, uma distância curiosa em relação a outro acontecimento.

Em campo, Adingra foi o camisa 10 da Costa do Marfim na última Data Fifa e voltou após um hiato desde outubro do ano passado. Não disputou a Copa Africana de Nações, inclusive. Mesmo não sendo titular confirmado, é um jogador importante.

Capaz de atuar nas duas pontas, o jovem tem entrado pela direita nas últimas partidas da seleção, mas jogou a Copa Africana de 2024, por exemplo, na esquerda. Ao todo, já são 28 jogos com a equipe nacional, cinco gols marcados e sete assistências. É um atacante rápido, versátil e driblador que brigará por um espaço no time titular.

O que começou como um golpe que poderia transformá-lo em estatística em um país que não era o seu acabou como uma história feliz. Repleta de momentos de clímax, reviravoltas e drama, mas feliz. E Adingra pode fazer mais uma mudança temporária e impactante em 2026 para os Estados Unidos, Canadá e México.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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