Copa do Mundo

Será que Arrascaeta não cabia mesmo pelo menos no segundo tempo do Uruguai?

Uruguai sentiu falta do toque diferente do meia, que foi decisivo em vários momentos das Eliminatórias

Antes mesmo que a bola parasse de rolar no Uruguai 0x0 Coreia do Sul pela Copa do Mundo, a imprensa charrua perguntava: “É essa mesmo a Celeste de Diego Alonso ou Maestro Tabárez está disfarçado no lugar?”. A equipe que cresceu de produção nas Eliminatórias não se viu. Os uruguaios tiveram uma atuação maçante, em que investiram nas bolas longas e cruzadas, mas com enormes de dificuldades em transformar o domínio do segundo tempo em criatividade. Diego Godín mandou uma cabeçada na trave, Federico Valverde disparou um míssil na forquilha, Darwin Núñez teria suas tentativas tortas. Porém, faltou imaginação ao Uruguai. E, diante daquilo que não deu certo, uma questão ficou no ar: não dava mesmo para Arrascaeta entrar?

Antes de mais nada, é bom salientar: o questionamento sobre Arrascaeta não se concentra apenas naquilo que ele faz no Brasil – e que, de fato, deveria render pelo menos alguns minutos em campo com o Uruguai. Acima disso, o meia já tinha sido um nome importante do ciclo da Celeste, inclusive nos tempos de Tabárez. Quando os charruas estavam nesse marasmo das bolas longas, havia até mesmo uma necessidade do toque diferente providenciado pelo armador. Alguns pontos do Maestro nas Eliminatórias vieram na conta de Arrasca. E, lesionado, ele fez falta na sequência de derrotas que culminou na demissão do histórico treinador.

Quando Diego Alonso chegou como um bombeiro na reta decisiva das Eliminatórias, Arrascaeta brilhou ainda mais. O meia teria grande atuação na goleada por 4 a 1 sobre a Venezuela, com gol e assistência. Mais importante, o gol da classificação para a Copa do Mundo seria anotado por Arrasca, na vitória por 1 a 0 sobre o Peru. Despontava como um justo protagonista, a depender da maneira como a equipe fosse escalada.

Nessas atuações decisivas, Arrascaeta entrou mais aberto na meia esquerda do 4-4-2 uruguaio. Não é sua posição favorita, mas o armador seguiu com capacidade para se movimentar e decidir. Diego Alonso algumas vezes preferiu dar mais robustez à faixa central, com três homens centralizados. Além disso, a depender do veterano escolhido para o comando do ataque, Darwin Núñez acabaria encaixado na ponta esquerda. Foi o que aconteceu na estreia diante da Coreia do Sul. O treinador privilegiou o 4-3-3 e Arrascaeta virou só opção no banco.

É preciso levar em conta que Arrascaeta vem de problemas físicos, claro. As lesões limitaram sua temporada com o Flamengo, embora o ídolo rubro-negro tenha sido importante na sequência de títulos do clube. Nos últimos amistosos preparatórios do Uruguai, em setembro, o armador esteve em campo. Todavia, não entrou diante da Coreia do Sul. Demorou para Diego Alonso mexer no time. Trocou Luis Suárez por Edinson Cavani, depois garantiu mais ofensividade com Nicolás de la Cruz no lugar de Matías Vecino e Matías Viña na vaga Mathías Olivera – mas isso já aos 35 da etapa final. Quando Guillermo Varela, lateral reserva do Flamengo, entrou no posto do ponta Facundo Pellistri, ficava claro que Arrasca não ganharia um minutinho sequer na estreia uruguaia.

As condições físicas de Arrascaeta são um ponto. Mas, se o armador está em condições mínimas para jogar por 20 ou 30 minutos, deveria ter entrado. O Uruguai não tinha exatamente a inventividade que o meia costuma oferecer – uma capacidade de infiltração, um passe diferente, uma finalização de média distância. No fim, Valverde e Darwin ainda tentaram algo, mas seria melhor se tivessem mais alguém com quem se associar. Melhor, alguém que costuma associar os jogadores ao seu redor através dos passes. O empate contra os sul-coreanos não é catastrófico, mas deixa a impressão de que uma vitória poderia ter vindo e facilitaria a sequência da campanha. A ausência de Arrasca nesse jogo é daquelas que vão martelar na cabeça dos charruas.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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